{"id":38018,"date":"2009-04-03T09:42:04","date_gmt":"2009-04-03T09:42:04","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/04\/03\/catequese-quaresmal-do-bispo-do-porto\/"},"modified":"2009-04-03T09:42:04","modified_gmt":"2009-04-03T09:42:04","slug":"catequese-quaresmal-do-bispo-do-porto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/catequese-quaresmal-do-bispo-do-porto\/","title":{"rendered":"Catequese Quaresmal do Bispo do Porto"},"content":{"rendered":"<p>O s\u00e9culo XIX trouxe \u00e0 diocese do Porto problemas e possibilidades, como sempre acontece. Pouco a pouco, as grandes propostas pastorais tridentinas tinham-se concretizado: campanhas mission\u00e1rias internas, protagonizadas por antigas e novas congrega\u00e7\u00f5es; um semin\u00e1rio diocesano finalmente aberto; grande vitalidade confraternal no campo da piedade e da caridade\u2026 Sobrevieram depois graves acontecimentos, que transtornaram a normalidade social e eclesial do Porto, como do pa\u00eds inteiro. H\u00e1 duzentos anos o desastre da Ponte das Barcas assinalou tragicamente o que foram as Invas\u00f5es Francesas. Em 1832 o desembarque de D. Pedro e a subsequente tomada da cidade reabriu o per\u00edodo liberal, que aqui come\u00e7ara em 1820. Mas, como sabemos, a d\u00e9cada de trinta do s\u00e9culo XIX significou a extin\u00e7\u00e3o das congrega\u00e7\u00f5es religiosas (imediata das masculinas e a prazo das femininas) e um grave \u201ccisma\u201d, entre os que aceitavam as autoridades eclesi\u00e1sticas do novo regime e os relutantes a elas. Tudo deixou sequelas. Afastado o bispo D. Jo\u00e3o de Magalh\u00e3es, logo em 1832, a sucess\u00e3o episcopal leg\u00edtima s\u00f3 foi retomada em 1840 com D. Jer\u00f3nimo Jos\u00e9 da Costa Rebelo, refazendo-se, pouco a pouco, a normalidade pastoral. Releve-se a figura do bispo D. Jo\u00e3o de Fran\u00e7a Castro e Moura, nos anos sessenta, que reabriu o semin\u00e1rio diocesano e reivindicou quanto p\u00f4de a liberdade episcopal na nomea\u00e7\u00e3o dos p\u00e1rocos, em que o Governo queria preponderar. Creio, por\u00e9m, que estes e outros condicionalismos, em si negativos, acabaram por ocasionar a emerg\u00eancia duma realidade bastante nova na vida da Igreja e uma etapa inovadora na evangeliza\u00e7\u00e3o da diocese e al\u00e9m dela. Refiro-me ao aparecimento dum laicado reflexivo e activo, que n\u00e3o hesitou em tomar a primeira linha da resposta cat\u00f3lica aos grandes reptos da sociedade e da cultura nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XIX portuense e nacional. A sua hist\u00f3ria \u2013 qual n\u00facleo do \u201cmovimento cat\u00f3lico\u201d &#8211; tem sido narrada em sucessivos textos dedicados aos Congressos Cat\u00f3licos em Portugal (o 1\u00ba foi exactamente o do Porto, na viragem de 1871 para 1872), \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica do Porto, primeira de v\u00e1rias cong\u00e9neres, ao seu jornal A Palavra e, tempos depois, aos C\u00edrculos Cat\u00f3licos de Oper\u00e1rios. O congresso foi autorizado pelo bispo do Porto, D. Am\u00e9rico Ferreira dos Santos Silva (cardeal em 1879), que soube acompanhar tais iniciativas, ao mesmo tempo que dedicava particular aten\u00e7\u00e3o \u00e0 forma\u00e7\u00e3o dos futuros sacerdotes. Para ilustrar esta nova etapa da evangeliza\u00e7\u00e3o da nossa diocese, apresentarei alguns textos de dois autores, leigos portuenses, que ainda hoje nos impressionam pela oportunidade e pela subst\u00e2ncia.  Primeiramente do Conde de Samod\u00e3es (1828-1918) verdadeiro \u201cchefe\u201d do movimento cat\u00f3lico. Com esta designa\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica se refere um conjunto de iniciativas que, sobretudo a partir de 1870, visou defender e promover a vida interna e apost\u00f3lica da Igreja, quer face \u00e0s grandes inger\u00eancias do Estado quer quanto \u00e0 cr\u00edtica ideol\u00f3gica de muitos descrentes. Esta etapa nova da evangeliza\u00e7\u00e3o ofereceu-nos no Conde Samod\u00e3es e v\u00e1rios outras figuras do laicado a inaugura\u00e7\u00e3o dum \u201clugar\u201d novo e fecundo de vida eclesial consequente. Numa sociedade j\u00e1 em processo de seculariza\u00e7\u00e3o e afastamento da pr\u00e1tica e mesmo da convic\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, tomaram parte inteira na apolog\u00e9tica de f\u00e9 e obras, assumindo-se como aut\u00eanticos crentes em situa\u00e7\u00f5es e postos que, ali\u00e1s, quase s\u00f3 eles poderiam ocupar. Pass\u00e1vamos ent\u00e3o dum mundo sacralizado, em que a religi\u00e3o tanto definia o poder pol\u00edtico como a ac\u00e7\u00e3o pastoral, para a sociedade contempor\u00e2nea, em que perten\u00e7as e compet\u00eancias est\u00e3o muito mais distribu\u00eddas. Samod\u00e3es, al\u00e9m da forma\u00e7\u00e3o escolar e militar, da vida familiar e da administra\u00e7\u00e3o dos seus bens, desempenhou v\u00e1rios cargos pol\u00edticos (deputado, par do Reino, governador civil, ministro), e dedicou-se a uma intensa vida cultural, liter\u00e1ria (especialmente jornal\u00edstica) e assistencial (com relevo para a Miseric\u00f3rdia do Porto).  Em tudo se revelou propriamente \u201cmilitante\u201d, em combate pac\u00edfico e franco na defesa daquilo a que chamou \u201ca liberdade da Igreja\u201d, ou seja, a sua autonomia de organiza\u00e7\u00e3o e apostolado, face ao regalismo persistente dos governantes. Isto releva tanto mais quanto Samod\u00e3es era francamente adepto do regime constitucional, ao contr\u00e1rio de outros cat\u00f3licos que o consideravam ileg\u00edtimo e intrinsecamente inimigo da Igreja. \u00c9 interessante verificar como ele integra a sua luta pol\u00edtico-religiosa numa sequ\u00eancia que remonta a outro grande liberal portuense, que tamb\u00e9m prestara a sua contribui\u00e7\u00e3o ao reatamento das rela\u00e7\u00f5es entre Portugal e a Santa S\u00e9, no demorado rescaldo das guerras civis dos anos trinta. Escreveria Samod\u00e3es n\u2019 A liberdade da Igreja em Portugal, 1880, p. 35:   \u201cA minha dedica\u00e7\u00e3o para com o episcopado \u00e9 mais lata, amplia-se a todo o clero, cuja causa me comprazo em ter defendido toda a minha vida como defendido tenho a religi\u00e3o cat\u00f3lica, apost\u00f3lica, romana, pelo modo que tenho sabido e podido, imitando nisto e mal (por mais n\u00e3o poder) o Visconde de Almeida Garrett, que um dia me deu esse conselho em 1854\u201d.  A import\u00e2ncia desta milit\u00e2ncia laical, pela novidade e consist\u00eancia pessoal que manifestou, foi de enorme valia para a evangeliza\u00e7\u00e3o portuguesa at\u00e9 \u00e0 Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica (1933) e aos nossos dias.  Porque, com Samod\u00e3es e outros seus coevos, o apostolado ganhava, face \u00e0 sociedade nova, um escol de protagonistas que a integravam totalmente e a conheciam muito bem, em termos de vida, profiss\u00e3o, sociedade e cultura. Transportando a consist\u00eancia e o protagonismo pessoais para o \u00e2mbito eclesial interno, tiravam todas as consequ\u00eancias da condi\u00e7\u00e3o baptismal, rumo a uma considera\u00e7\u00e3o renovada do \u201cquem \u00e9 quem\u201d na comunidade crente, anunciando j\u00e1 a corresponsabilidade que hoje activamos.           Em Samod\u00e3es, com quem os bispos portugueses tratavam e se aconselhavam em grande confian\u00e7a, releva a urg\u00eancia do estudo, do debate, da promo\u00e7\u00e3o competente da doutrina e da pr\u00e1tica cat\u00f3licas. Precisamente no campo doutrinal e teol\u00f3gico, que fora quase s\u00f3 eclesi\u00e1stico. Oi\u00e7amo-lo no Discurso em honra da Cruz, 1873, p. 33-35:   \u201cHouve tempo em que a teologia n\u00e3o precisava de ser popular. Estava esta ci\u00eancia reservada para os s\u00e1bios e doutores. Hoje \u00e9 mister que ela se torne acess\u00edvel e servindo-me dum ep\u00edteto hoje na moda, que corre de boca em boca, republicana, isto \u00e9, ao n\u00edvel de todos, perfeitamente igualit\u00e1ria, porque iguais nos fez a Cruz, a reden\u00e7\u00e3o, o catolicismo. [\u2026] Aqui hoje e sempre que nos reunirmos, congregados em academia, comunicamos nossos pensamentos, transmitimos nossas ideias, comungamos no saber de todos. [\u2026] A f\u00e9, que noutras eras podia ser cega, hoje precisa de ter os olhos abertos [\u2026]. Precisamos provar praticamente aos livres pensadores que n\u00e3o nos esquivamos \u00e0 discuss\u00e3o [\u2026]. \u00c9 indispens\u00e1vel que haja academia, confer\u00eancias, congressos, jornais, livros, tudo quanto seja conducente a apoiar a causa do catolicismo\u201d.     Este discurso de Samod\u00e3es foi proferido na Associa\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica do Porto, h\u00e1 136 anos. Deus queira que estejamos realmente \u201cperto\u201d das ideias do autor, t\u00e3o necess\u00e1rias agora para a corresponsabilidade na miss\u00e3o, que passar\u00e1 necessariamente pela partilha de ideias e prop\u00f3sitos, da f\u00e9 comum para um mundo exigente.  N\u00e3o menos importante para esta nova etapa da evangeliza\u00e7\u00e3o entre n\u00f3s \u00e9 a considera\u00e7\u00e3o eclesiol\u00f3gica que j\u00e1 a sustentava na altura, concretamente por parte do Visconde de Azevedo (1809-1876). A sua casa era ponto de encontro e partilha de ideias entre figuras pr\u00f3ximas e interessadas nas quest\u00f5es da altura, como escreveria Samod\u00e3es n\u2019 A Palavra de 2 de Janeiro de 1877: \u201cO nobre conde de Azevedo teve muitos e verdadeiros amigos e a sua casa era um centro, onde eles se congregavam, para em agrad\u00e1vel col\u00f3quio discutirem entre si assuntos, a que a murmura\u00e7\u00e3o era estranha\u201d. Azevedo discursou no congresso cat\u00f3lico do Pal\u00e1cio de Cristal, a 1 de Janeiro de 1872. Oi\u00e7amo-lo, para ainda nos admirarmos talvez:  \u201cBem sei que n\u00e3o falta quem tenha dito que esta nossa reuni\u00e3o era in\u00fatil e desnecess\u00e1ria por isso que os ministros sagrados do culto a\u00ed estavam todos os dias pregando dentro dos nossos templos as coisas da religi\u00e3o, tornando-se assim escusado o vir escut\u00e1-las aqui. \u00c9 exactamente por esse dito que estas reuni\u00f5es me parecem necess\u00e1rias e util\u00edssimas: no s\u00e9culo passado Voltaire, chefe dos incr\u00e9dulos do seu tempo, para ridicularizar a religi\u00e3o cat\u00f3lica chamava-lhe a religi\u00e3o dos Padres, e os seus disc\u00edpulos desde ent\u00e3o at\u00e9 hoje n\u00e3o se t\u00eam esquecido de lhe dar a mesma denomina\u00e7\u00e3o; pois [\u2026] eu afirmo que \u00e9 tudo pelo contr\u00e1rio, que a religi\u00e3o cat\u00f3lica n\u00e3o \u00e9 a religi\u00e3o dos Padres, mas os Padres \u00e9 que s\u00e3o da religi\u00e3o cat\u00f3lica [\u2026]; \u00e9 portanto coisa evidente que, sendo a religi\u00e3o, a Igreja Cat\u00f3lica, e os Padres coisas coevas na sua funda\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o por Jesus Cristo, n\u00e3o s\u00e3o aquelas que derivam destes, mas sim estes que derivam daquelas\u2026 \u201d (VISCONDE DE AZEVEDO \u2013 Discurso pronunciado na Assembleia dos Oradores e Escritores Cat\u00f3licos. Porto, 1872, p. 6-7).  O que o orador quer dizer compreende-se bem na apolog\u00e9tica da altura: a sociedade liberal desejava participa\u00e7\u00e3o igualit\u00e1ria, mais do que obedi\u00eancia a autoridades, acusando os cat\u00f3licos de submiss\u00e3o e menoridade cultural\u2026 Mas a eclesiologia de Azevedo rebate radicalmente tal posi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o pondo minimamente em causa o papel dos ministros sagrados, integra-os na comunidade a que pertencem com todos os fi\u00e9is, sendo estes particularmente chamados a dar testemunho l\u00facido da sua f\u00e9 nas circunst\u00e2ncias especiais que se viviam. J\u00e1 est\u00e1vamos, como continuamos, em tempos de grande exig\u00eancia e conveni\u00eancia para o apostolado laical. A tantos anos de dist\u00e2ncia, a convic\u00e7\u00e3o de Azevedo n\u00e3o se revela hoje menos necess\u00e1ria para a evangeliza\u00e7\u00e3o a empreender, meio a meio e sector a sector, exactamente por quem os integra, ou seja, o actual laicado, respons\u00e1vel, comprometido e preparado. Ainda nos seus termos:  \u201cPara evitar estes sarcasmos dos advers\u00e1rios da Igreja cat\u00f3lica, e para mostrar-lhes que a religi\u00e3o cat\u00f3lica n\u00e3o \u00e9 a religi\u00e3o dos Padres, mas sim a religi\u00e3o de Jesus Cristo, \u00e9 que se t\u00eam reunido em v\u00e1rios lugares do mundo cat\u00f3lico estas assembleias de natureza puramente leiga e secular\u201d (Ibidem, p. 7).   Entendamos que para Azevedo, Samod\u00e3es e os seus colegas portuenses de 1872, o minist\u00e9rio e a necessidade dos sacerdotes eram indiscut\u00edveis e urgentes. N\u00e3o lhes faltam interven\u00e7\u00f5es nesse sentido, antes, durante e depois do 1\u00ba congresso cat\u00f3lico. Mas o que sobressai neles \u00e9 a consci\u00eancia clara e certeira de que, numa sociedade secular como j\u00e1 era a portuguesa, pelo menos em meio urbano, era necess\u00e1rio que o fiel cat\u00f3lico assumisse francamente a sua condi\u00e7\u00e3o e a declarasse onde estivesse, com saber e consequ\u00eancia te\u00f3rica e pr\u00e1tica. E foi esta consci\u00eancia que qualificou uma nova etapa da evangeliza\u00e7\u00e3o. Aquela que queremos levar por diante.   <i>D.Manuel Clemente    <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O s\u00e9culo XIX trouxe \u00e0 diocese do Porto problemas e possibilidades, como sempre acontece. 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