{"id":380160,"date":"2025-06-14T15:26:20","date_gmt":"2025-06-14T14:26:20","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=380160"},"modified":"2025-06-16T12:07:07","modified_gmt":"2025-06-16T11:07:07","slug":"primeiros-passos-de-um-pontificado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/primeiros-passos-de-um-pontificado\/","title":{"rendered":"Primeiros passos de um Pontificado"},"content":{"rendered":"<p><em>Padre Ricardo Figueiredo, Diocese de Lisboa<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_380161\" aria-describedby=\"caption-attachment-380161\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/ricardo-figueiredo-lisboa.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-380161 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/ricardo-figueiredo-lisboa-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/ricardo-figueiredo-lisboa-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/ricardo-figueiredo-lisboa-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/ricardo-figueiredo-lisboa-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/ricardo-figueiredo-lisboa-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/ricardo-figueiredo-lisboa.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-380161\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Patriarcado de Lisboa<\/figcaption><\/figure>\n<p>Os primeiros discursos de quem inicia uma nova miss\u00e3o s\u00e3o sempre reveladores da consci\u00eancia da voca\u00e7\u00e3o que se recebeu e do minist\u00e9rio que se \u00e9 chamado a desempenhar. Isto \u00e9 particularmente verdade quando se fala do Papa, porque at\u00e9 o que simboliza a mudan\u00e7a do nome mostra que h\u00e1 um des\u00edgnio a cumprir. Obviamente, isto s\u00f3 se entende \u00e0 luz da f\u00e9, em que o sentido chamado <em>vocacional<\/em> mostra que o Papa n\u00e3o \u00e9 \u00ab<em>one man show<\/em>\u00bb, mas sinal e s\u00edmbolo de uma presen\u00e7a que ultrapassa a sua individualidade.<\/p>\n<p><strong>Diplomacia<\/strong><\/p>\n<p>O discurso ao Corpo Diplom\u00e1tico acreditado junta \u00e0 Santa S\u00e9, de 16 de maio, apresentou o programa de Le\u00e3o XIV para o papel da Igreja Cat\u00f3lica nas rela\u00e7\u00f5es com os Estados e, sobretudo, na rela\u00e7\u00e3o com a humanidade no seu todo, enquanto a Igreja compreende que \u00e9 uma for\u00e7a moral que se sente chamada a desempenhar uma miss\u00e3o no palco mundial. Neste sentido, tamb\u00e9m aqui se pode recordar Le\u00e3o XIII, que foi capaz de ultrapassar o trauma da queda dos Estados pontif\u00edcios e apresentar a Igreja de forma nova na sua rela\u00e7\u00e3o com o mundo.<\/p>\n<p>Le\u00e3o XIV prop\u00f5e como chave hermen\u00eautica das rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas o \u00absentido de fam\u00edlia\u00bb. \u00c9 uma imagem decisiva para o que se pretende para as rela\u00e7\u00f5es entre Estados: ao contr\u00e1rio de um campo de guerra, em que cada um se defende, o \u00absentido de fam\u00edlia\u00bb compagina individualidade e sentido de perten\u00e7a; aspira\u00e7\u00f5es pessoais e sentido de caminho comum. Deste modo, pode-se ultrapassar os complexos que entrincheiram pessoas, comunidades e na\u00e7\u00f5es, e abrem-se novas possibilidades de constru\u00e7\u00e3o de fraternidade e unidade.<\/p>\n<p>O Papa desenvolve este percurso com as na\u00e7\u00f5es sintetizando-o em tr\u00eas palavras. A primeira \u00e9 a <em>paz<\/em>, e aqui n\u00e3o deixa de apontar o sentido crist\u00e3o desta palavra, que \u00e9 entendida pelos crentes em sentido maximalista: n\u00e3o apenas aus\u00eancia de guerra, mas a paz que \u00e9 dom de Deus, que se \u00abconstr\u00f3i no cora\u00e7\u00e3o\u00bb, como o pr\u00f3prio Le\u00e3o XIV afirmou.<\/p>\n<p>A segunda palavra \u00e9 <em>justi\u00e7a<\/em>, como um apelo social que o Papa colocou na linha de Le\u00e3o XIII e da Doutrina Social da Igreja. Neste \u00e2mbito \u00e9 de sublinhar que Le\u00e3o XIV colocou o tema \u00e0 luz de um dos princ\u00edpios fundamentais da Doutrina Social cat\u00f3lica, a subsidiariedade, sobretudo apelando ao papel da fam\u00edlia. A <em>Beleza de Ser Pequeno<\/em>, como chamou o economista E. F. Schumacher, que no seu percurso acad\u00e9mico foi conduzido aos princ\u00edpios da Doutrina Social da Igreja, e de forma particular ao princ\u00edpio da subsidiariedade, de forma natural e \u00f3bvia. Com efeito, este princ\u00edpio continua a ser uma das chaves fundamentais da proposta social da Igreja e t\u00e3o necess\u00e1ria, sobretudo quando se quer um Estado que domina e controla tudo, n\u00e3o s\u00f3 materialmente, mas tamb\u00e9m no campo das ideias e da cultura. \u00c9 preciso voltar a colocar a fam\u00edlia como c\u00e9lula b\u00e1sica da sociedade.<\/p>\n<p>A terceira palavra apontada por Le\u00e3o \u00e9 <em>verdade<\/em>. \u00c9 fundamental que a Igreja se veja sempre como arauto da verdade no mundo, n\u00e3o por teimosia ou pertin\u00e1cia, mas porque ela \u00e9 fundada por Cristo e \u00e9 o Corpo M\u00edstico de Cristo, que disse de Si mesmo: \u00abEu sou o caminho, a verdade e a vida\u00bb (<em>Jo<\/em> 14, 6). O Papa liga este tema \u00e0 paz, pois \u00abn\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel construir rela\u00e7\u00f5es realmente pac\u00edficas, mesmo no seio da comunidade internacional, sem a verdade\u00bb, afirma. Aqui a Igreja Cat\u00f3lica sente-se respons\u00e1vel para um an\u00fancio que lhe \u00e9 irrecus\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>Intelig\u00eancia Artificial<\/strong><\/p>\n<p>A escolha do nome Le\u00e3o coloca o Papa em linha com aquele processo de recomposi\u00e7\u00e3o do catolicismo de que foi protagonista o Papa Le\u00e3o XIII. Gioacchino Pecci fez aquela transi\u00e7\u00e3o da Igreja num mundo em r\u00e1pida acelera\u00e7\u00e3o e hoje essa velocidade \u00e9 ainda maior. Le\u00e3o XIV n\u00e3o se mostra indiferente a isso, muito pelo contr\u00e1rio. Nos seus primeiros discursos encontramos j\u00e1 linhas de uma reflex\u00e3o que vai prosseguir e, quem sabe, resultar em algum documento pontif\u00edcio sobre o tema (n\u00e3o ignorando, obviamente, a muito pertinente Nota <em>Antiqua et nova<\/em>, dos Dicast\u00e9rios para a Doutrina da F\u00e9 e da Cultura e Educa\u00e7\u00e3o, de 28 de janeiro de 2025). Uma resposta da Igreja a este tema \u00e9 sempre necess\u00e1ria, como em rela\u00e7\u00e3o a qualquer outro desenvolvimento da t\u00e9cnica humana, na linha daquilo que j\u00e1 em 1965 o Conc\u00edlio Vaticano II indicava: \u00ab\u00c9 preciso, que, no meio de todas estas antinomias, a cultura humana progrida hoje de tal modo, que desenvolva harm\u00f3nica e integralmente a pessoa humana e ajude os homens no desempenho das tarefas a que todos, e sobretudo os crist\u00e3os, est\u00e3o chamados, fraternalmente unidos numa \u00fanica fam\u00edlia humana\u00bb (Constitui\u00e7\u00e3o pastoral <em>Gaudium et Spes<\/em>, n.\u00ba 56).<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, a consci\u00eancia que o \u00abmundo virtual\u00bb produz uma \u00abperce\u00e7\u00e3o alterada da realidade\u00bb, como dizia no discurso ao Corpo diplom\u00e1tico, j\u00e1 antes referido. Os documentos da XVI Assembleia Geral Ordin\u00e1ria do S\u00ednodo dos Bispos, sobre a sinodalidade, tinham apontado dados relevantes sobre o tema, sobretudo na rela\u00e7\u00e3o entre \u00abvirtual\u00bb e \u00abreal\u00bb, apontando uma perce\u00e7\u00e3o que necessita ser estudada, refletida e aprofundada.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, \u00e9 no \u00e2mbito destas transforma\u00e7\u00f5es que Le\u00e3o XIV convoca a Doutrina Social da Igreja, como o pr\u00f3prio afirmou no discurso \u00e0 Funda\u00e7\u00e3o Centesimus Annus: \u00aba Doutrina Social da Igreja \u00e9 chamada a oferecer chaves interpretativas que coloquem em di\u00e1logo ci\u00eancia e consci\u00eancia, proporcionando assim uma contribui\u00e7\u00e3o fundamental para o conhecimento, a esperan\u00e7a e a paz\u00bb. Neste sentido, \u00e9 fundamental a ace\u00e7\u00e3o de doutrina que Le\u00e3o XIV prop\u00f5e no mesmo discurso, n\u00e3o ignorando as dificuldades que o conceito cria em muitas pessoas: \u00abtorna-se urgente a tarefa de mostrar, atrav\u00e9s da Doutrina Social da Igreja, que existe outro significado promissor da express\u00e3o \u201cdoutrina\u201d, sem o qual at\u00e9 o di\u00e1logo se esvazia. Os seus sin\u00f3nimos podem ser \u201cci\u00eancia\u201d, \u201cdisciplina\u201d ou \u201csaber\u201d. Assim entendida, cada doutrina \u00e9 reconhecida como fruto de busca e, portanto, de hip\u00f3teses, vozes, progressos e fracassos, mediante os quais procura transmitir um conhecimento fi\u00e1vel, ordenado e sistem\u00e1tico sobre um determinado assunto. Deste modo, uma doutrina n\u00e3o equivale a uma opini\u00e3o, mas a um caminho comum, coral e at\u00e9 multidisciplinar rumo \u00e0 verdade\u00bb.<\/p>\n<p>Em terceiro lugar, o apelo a \u00abeducar para o sentido cr\u00edtico\u00bb, como tamb\u00e9m afirmou no discurso \u00e0 mesma funda\u00e7\u00e3o. Este desenvolve-se no di\u00e1logo, de forma particular n\u00e3o ignorando os pobres. Neste \u00e2mbito, e lan\u00e7ando uma an\u00e1lise do nosso tempo, o Papa aponta alguns vetores em que este discernimento \u00e9 necess\u00e1rio: \u00abHoje h\u00e1 necessidade generalizada de justi\u00e7a, uma exig\u00eancia de paternidade e maternidade, um profundo desejo de espiritualidade, sobretudo por parte dos jovens, dos marginalizados, que nem sempre encontram canais efetivos para se exprimir. Existe uma busca crescente de Doutrina Social da Igreja, \u00e0 qual devemos dar uma resposta!\u00bb, afirmou no discurso referido anteriormente.<\/p>\n<p><strong>Um olhar para dentro da Igreja<\/strong><\/p>\n<p>As homilias da Missa de solene in\u00edcio de pontificado s\u00e3o sempre program\u00e1ticas para a vida e miss\u00e3o da Igreja sob cada um dos pontificados.<\/p>\n<p>Assim, Jo\u00e3o Paulo II, quando convocou toda a Igreja a n\u00e3o ter medo de abrir as portas a Cristo, num momento em que no per\u00edodo de rece\u00e7\u00e3o imediata do Vaticano II era necess\u00e1rio concentrar esfor\u00e7os. F\u00ea-lo indo at\u00e9 aos confins do mundo, mas tamb\u00e9m em obras como o <em>Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica<\/em> e o <em>C\u00f3digo de Direito Can\u00f3nico<\/em> e restante legisla\u00e7\u00e3o da Igreja.<\/p>\n<p>Bento XVI meditava sobre a miss\u00e3o do Papa como Pastor que busca a ovelha perdida e Pescador que leva todos para Cristo, uma proposta de aprofundamento que realizou no seu pontificado, sobretudo no di\u00e1logo com a cultura.<\/p>\n<p>Francisco prop\u00f4s uma vis\u00e3o da Igreja como Serva de Cristo, enviada a curar e a cuidar as feridas do mundo, o que realizou de muit\u00edssimas formas \u2013 visitas, discursos, documentos \u2013 ao longo dos doze anos de pontificado.<\/p>\n<p>Le\u00e3o XIV, por sua vez, apresentou o seu \u00abprograma\u00bb em torno de dois temas: o amor e a unidade. Como bom filho de Santo Agostinho, a acentua\u00e7\u00e3o do tema da unidade, ainda que nos custe reconhecer que a Igreja parece muitas vezes estar dividida, \u00e9 express\u00e3o de uma consci\u00eancia muito particular do Papa: sabe das divis\u00f5es e sabe-se enviado por Deus a curar as feridas. Por isso, convoca toda a Igreja, com particular sublinhado na edi\u00e7\u00e3o publicada: \u00abIrm\u00e3os e irm\u00e3s, gostaria que fosse este o nosso primeiro grande desejo: <em>uma Igreja unida, sinal de unidade e comunh\u00e3o, que se torne fermento para um mundo reconciliado<\/em>\u00bb, afirmou na Homilia de 18 de maio.<\/p>\n<p>Esta acentua\u00e7\u00e3o est\u00e1 ao servi\u00e7o da natureza, identidade e miss\u00e3o da Igreja, como j\u00e1 se afirma desde o Vaticano II: a Igreja \u00e9 sacramento, isto \u00e9, sinal e instrumento de Cristo, sinal da unidade dos povos, que na Igreja se realiza; profeta e anunciadora de uma vida nova que s\u00f3 de Deus depende e s\u00f3 em Deus \u00e9 originada.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>\u00c9 certo que estamos a percorrer ainda os primeiros passos do pontificado de Le\u00e3o XIV, mas j\u00e1 \u00e9 certo que \u00e9 em tudo um Papa profundamente atento aos temas da ordem do dia, sendo, por isso, o Papa que Deus quer e a Igreja precisa. Muitos outros discursos e homilias j\u00e1 foram feitos e completam ainda mais estes aspetos que aqui assinalamos.<\/p>\n<p>Estamos diante de tempos novos e, como sempre, o papado procura estar \u00e0 altura das necessidades da Igreja e do mundo. Quando os cardeais se reuniram em Conclave, escolheram o sucessor de Pedro, n\u00e3o o CEO da Igreja Cat\u00f3lica. Em todo o caso, n\u00e3o deixa de ser interessante que alguns especialistas do mundo empresarial reconhe\u00e7am nos gestos e atitudes de Le\u00e3o XIV um exemplo do que \u00e9 um CEO de sucesso. \u00c9 caso para recordar o que Jesus recomendava aos seus disc\u00edpulos: \u00absede, pois, prudentes como as serpentes e simples como as pombas\u00bb (<em>Mt<\/em> 10, 16).<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Ricardo Figueiredo, Diocese de 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