{"id":379680,"date":"2025-06-11T10:37:53","date_gmt":"2025-06-11T09:37:53","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=379680"},"modified":"2025-06-11T10:37:53","modified_gmt":"2025-06-11T09:37:53","slug":"li-e-nem-queria-crer-vi-e-tive-que-acreditar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/li-e-nem-queria-crer-vi-e-tive-que-acreditar\/","title":{"rendered":"Li, e nem queria crer &#8211; Vi, e tive que acreditar"},"content":{"rendered":"<p><em>Ant\u00f3nio Salvado Morgado, Diocese da Guarda<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-271042 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/>\u00ab<em>Ningu\u00e9m se pode banhar duas vezes na mesma \u00e1gua do mesmo rio<\/em>.\u00bb Ora aqui est\u00e1 uma frase que, parecendo expressar simplesmente um facto \u00f3bvio da experi\u00eancia, ficou na Filosofia como cartaz emblem\u00e1tico de uma corrente de pensamento que foi perpassando toda a hist\u00f3ria do humano pensar, centrado na dial\u00e9ctica, na harmonia dos opostos, no fluxo universal dos seres e na raz\u00e3o que a tudo subjaz.<\/p>\n<p>A frase, tornada bem popular para al\u00e9m de citada frequentemente nos meios acad\u00e9micos e eruditos, \u00e9 do \u00abobscuro\u00bb Her\u00e1clito [c. 504-500 a. C.], um dos fil\u00f3sofos dos prim\u00f3rdios do pensamento ocidental, de quem possu\u00edmos s\u00f3 alguns fragmentos referidos por autores posteriores, mas que estariam condensados num livro identificado com o t\u00edtulo \u201cDa Natureza\u201d.<\/p>\n<p>Nascido na antiga \u00c9feso, na actual Turquia, onde o Ocidente e Oriente se beijam, conhecida hoje pelas suas ru\u00ednas que contam hist\u00f3rias de s\u00e9culos, desde a Gr\u00e9cia antiga at\u00e9 ao Imp\u00e9rio Romano, Her\u00e1clito, de temperamento \u00abmelanc\u00f3lico\u00bb e esp\u00edrito solit\u00e1rio, mas crente de que \u00ab<em>Existe somente uma sabedoria \u2013 conhecer a Intelig\u00eancia que tudo governa, penetrando tudo<\/em>\u00bb, renuncia \u00e0 nobreza de fam\u00edlia a que pertenceria e entrega-se \u00e0 Filosofia passando o tempo no Templo de Artemisa ou Artemis [Diana, na mitologia romana], a deusa grega da vida selvagem e da ca\u00e7a, filha de Zeus e irm\u00e3 g\u00e9mea de Apolo. \u00c9 a\u00ed, no Templo de Artemisa, que o \u00abobscuro\u00bb fil\u00f3sofo ter\u00e1 deixado manuscrito o seu livro \u201cDa Natureza\u201d.<\/p>\n<p>O Templo de Artemisa, com as suas 127 colunas de m\u00e1rmore, muitas delas decoradas em relevo, era o maior edif\u00edcio de m\u00e1rmore do mundo grego e a sua constru\u00e7\u00e3o teria durado cerca de um s\u00e9culo. No cora\u00e7\u00e3o do templo erguia-se uma colossal escultura de madeira escura a celebrar a deusa grega. Passando por ser uma das sete maravilhas da antiguidade, atra\u00eda turistas e comerciantes, al\u00e9m de ser um centro de ref\u00fagio para foragidos porque ningu\u00e9m se atreveria a profan\u00e1-lo perseguindo fugitivos da cidade. Mais ainda, constitu\u00eda uma esp\u00e9cie de marca identit\u00e1ria da cidade e mesmo da cultura da antiga Gr\u00e9cia.<\/p>\n<p>Naturalmente o Templo de Artemisa constitu\u00eda o orgulho dos habitantes da cidade de \u00c9feso. Mas um dia, na noite de 21 de Julho de 356 a.C., o templo foi consumido por um inc\u00eandio devastador. S\u00f3 ficaram as colunas de m\u00e1rmore enegrecidas pelas chamas e pelo fumo. Tudo o que era de madeira, tecto, portas, escadas e m\u00f3veis, tudo o fogo consumiu, incluindo a escultura da deusa Artemisa que se acreditava ter ca\u00eddo do c\u00e9u. E, naturalmente, assim se teria perdido para sempre o livro \u201cDa Natureza\u201d do velho Her\u00e1clito de que conhecemos hoje somente pequenos extractos que entretanto se haviam espalhado entre os letrados de ent\u00e3o.<\/p>\n<p>E a cidade chorou enquanto um tal Her\u00f3strato sorria e confessava o crime. Tinha sido ele que, pela calada da noite e enquanto os Ef\u00e9sios dormiam, incendiara o monumento que orgulhava \u00c9feso. Confessava o feito com orgulho e dizia que fizera tal para honrar o seu nome e a sua mais elevada vontade de uma fama tal que fosse proporcional \u00e0 grandiosa fama do templo. O famoso monumento de Artemisa ficara para sempre destru\u00eddo, mas para sempre, assim desejava Her\u00f3strato, ficaria ele lembrado na hist\u00f3ria dos homens.<\/p>\n<p>Claro que Her\u00f3strato foi preso e condenado. As autoridades mandaram eliminar todos os registos da sua exist\u00eancia e proibiram record\u00e1-lo fosse de que modo fosse. Seria mesmo condenado com a pena de morte aquele que se atrevesse a mencionar o seu nome. Era a \u201c<em>damnatio memoriae<\/em>\u201d [condena\u00e7\u00e3o pela mem\u00f3ria] a ser aplicada ali sem qualquer limita\u00e7\u00e3o e condescend\u00eancia.<\/p>\n<p>Nem por isso, por\u00e9m, Her\u00f3strato foi apagado do mundo dos homens. Pelo contr\u00e1rio, ficou com fama garantida e ele a\u00ed est\u00e1 na Hist\u00f3ria e na Literatura, na obra de cl\u00e1ssicos como Cervantes, ou de contempor\u00e2neos como Jean-Paul Sartre e Fernando Pessoa ao pretender estudar a imortalidade enquanto celebridade p\u00f3stuma ou sobreviv\u00eancia na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Mais presente ainda se encontra no mundo da ci\u00eancia, designadamente do saber psicol\u00f3gico, da psiquiatria e psican\u00e1lise, onde \u00e9 comum falar-se do \u00abComplexo de Her\u00f3strato\u00bb para se referir a situa\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos que, vivendo sentimentos de inferioridade, desenvolvem uma compuls\u00e3o para se destacarem socialmente a todo o custo atrav\u00e9s de ac\u00e7\u00f5es agressivas de toda a esp\u00e9cie: difama\u00e7\u00e3o, terrorismo, vandalismo ou destrui\u00e7\u00e3o do patrim\u00f3nio p\u00fablico, tortura e assassinatos de animais e pessoas, automutila\u00e7\u00e3o e suic\u00eddio. Com este tipo de ac\u00e7\u00f5es buscam compulsivamente esses indiv\u00edduos a fama moment\u00e2nea da noite que cobre, no escuro, as fraquezas das luzes do dia. Passados dois mil e quatrocentos anos, Her\u00f3strato \u00e9 nome de complexo e o inc\u00eandio de \u00c9feso parece continuar bem vivo.<\/p>\n<p>Quando estes comportamentos agressivos, ou outros do mesmo g\u00e9nero, se juntam nas m\u00e3os de um jovem que, no segredo do seu quarto, age sobre crian\u00e7as e adolescentes a viverem do outro lado do mundo, algo vai mal no reino da educa\u00e7\u00e3o. Por parte dos pais, por parte da escola e por parte de outras institui\u00e7\u00f5es, particulares ou do Estado. E por parte das virtualidades das redes sociais tornadas are\u00f3pagos de satisfa\u00e7\u00e3o de sede de protagonismo f\u00e1cil. Li, e n\u00e3o queria crer.<\/p>\n<p>Quando a sede de fama e protagonismo f\u00e1cil aproveita as c\u00e2maras televisivas de um momento da Feira do Livro para agressiva e ostensivamente virar as costas a um Presidente da Rep\u00fablica que a todos representa, deveria sentir-se ofendido qualquer cidad\u00e3o de um pa\u00eds veterano de s\u00e9culos de exist\u00eancia e com meio s\u00e9culo de vida democr\u00e1tica. S\u00f3 que aquele tempo de antena de grosseria ostensiva parece desmentir a Hist\u00f3ria e a Democracia. Vi, e tive que acreditar que o civismo democr\u00e1tico anda por vezes na lama da rua regada por chuva miudinha das nuvens cinzentas que cobrem o azul do c\u00e9u. Vi, e tive que acreditar.<\/p>\n<p>Parece haver em muitos, ou em todos n\u00f3s, seres humanos, esta indescrit\u00edvel paix\u00e3o por uns momentos de celebridade, ainda que seja num fugaz instante de televis\u00e3o, no dom\u00ednio da rua prop\u00edcia a uma manifesta\u00e7\u00e3o, no sabor de gl\u00f3ria v\u00e3 numa rede social ou num golo de um jogo de futebol marcado na baliza do advers\u00e1rio num qualquer campo da vida.<\/p>\n<p>Chego a pensar, e j\u00e1 tenho pensado muitas vezes, que andam por a\u00ed muitos her\u00f3stratos, grupais e individuais, nas sociedades em que vivemos, onde, \u00e0 custa de sobrevalorizar o m\u00e9rito e esquecer outros factores do \u00eaxito como as circunst\u00e2ncias favor\u00e1veis da vida, se v\u00e3o desenvolvendo desencantos e frustra\u00e7\u00f5es, terreno f\u00e9rtil para germinarem complexos de inferioridade quando n\u00e3o se encontram meios positivos de supera\u00e7\u00e3o e sublima\u00e7\u00e3o das limita\u00e7\u00f5es que todos experimentamos.<\/p>\n<p>Lemos, e nem quer\u00edamos crer. Vemos, e temos de acreditar. Lemos e vemos, e havemos de concluir que temos de nos repensar enquanto humanos e seres sociais e pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Guarda, 6 de Junho de 2025<br \/>\nAnt\u00f3nio Salvado Morgado<br \/>\nmorgado.salvado@gmail.com<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f3nio Salvado Morgado, Diocese da Guarda<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":271042,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-379680","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/379680","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=379680"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/379680\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/271042"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=379680"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=379680"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=379680"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}