{"id":37935,"date":"2011-04-05T13:03:00","date_gmt":"2011-04-05T13:03:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/04\/05\/cristianismo-uma-religiao-do-sofrimento\/"},"modified":"2011-04-05T13:03:00","modified_gmt":"2011-04-05T13:03:00","slug":"cristianismo-uma-religiao-do-sofrimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/cristianismo-uma-religiao-do-sofrimento\/","title":{"rendered":"Cristianismo: uma religi\u00e3o do sofrimento?"},"content":{"rendered":"<p>A experi&ecirc;ncia crist&atilde; n&atilde;o &eacute; uma religi&atilde;o do sofrimento. Isto quer dizer, em nosso entender, que o cristianismo n&atilde;o tem, <em>de jure<\/em>, uma doutrina, uma &lsquo;li&ccedil;&atilde;o estudada&rsquo; para justificar antecipadamente, e com isso legitimar, a exist&ecirc;ncia do mal no mundo, da qual o sofrimento (infligido e\/ou sofrido) &eacute; uma das express&otilde;es mais gritantes. Diremos mais: as religi&otilde;es e doutrinas filos&oacute;ficas triunfantes, que pretendem ter um conhecimento pr&eacute;vio, certo e claro sobre o sofrimento, legitimando-o mesmo antes de ele acontecer, s&atilde;o uma afronta intoler&aacute;vel n&atilde;o s&oacute; para as mulheres e os homens sofredores, todos eles (e, um por todos, atente-se na figura de Job), mas especialmente para as v&iacute;timas inocentes. Creio que &eacute; mesmo uma afronta at&eacute; para Deus, se &eacute; certo que temos de levar a s&eacute;rio (e considero que temos) de que &laquo;Deus tamb&eacute;m sofre&raquo; (F. Varillon, <em>La souffrance de Dieu<\/em>, Paris, Centurion, 1975). <br \/>A experi&ecirc;ncia crist&atilde; n&atilde;o &eacute; uma religi&atilde;o do sofrimento no sentido de que o Deus de Jesus, o <em>Abba<\/em>, o pap&aacute; a quem Jesus orava, n&atilde;o &eacute; o Deus das religi&otilde;es pag&atilde;s sedento de sangue (e nestas com excep&ccedil;&otilde;es), que exige o sacrif&iacute;cio e o derrame do sangue dos seus fi&eacute;is, especialmente dos mais queridos (nem mesmo de certas imagens de Deus do Antigo Testamento; cf. Sl 116, 15) ? concep&ccedil;&atilde;o que importa reiterar neste tempo quaresmal, muito especialmente por ocasi&atilde;o dos templos cheios de dolorismo comprazido e masoquista, na Sexta-Feira Santa da Paix&atilde;o do Senhor, e paradoxalmente vazios na madrugada da vit&oacute;ria sobre a morte e o sofrimento, i.e., no Domingo da Ressurrei&ccedil;&atilde;o. <br \/>Neste sentido, podemos at&eacute; questionar-nos se, por causa do diferente entendimento e viv&ecirc;ncia do sofrimento, a experi&ecirc;ncia crist&atilde; ser&aacute; propriamente uma <em>religio<\/em> (religi&atilde;o) no sentido que este termo tinha para os autores que o cunharam (por exemplo, C&iacute;cero, em De <em>Natura Deorum<\/em>): <em>cura deorum<\/em>, cuidado para com os deuses, uma rela&ccedil;&atilde;o assente essencialmente no medo e no escr&uacute;pulo. De facto, desde a noite dos tempos que a <em>religio<\/em> &eacute; express&atilde;o privilegiada de uma economia de troca ? um <em>negotium<\/em> ? segundo o qual do <em>ut des<\/em>, ou seja, <em>eu dou para que tu me d&ecirc;s<\/em>. Por outras palavras, eu <em>sacrifico<\/em> e<em> reservo<\/em> para os deuses algo que me &eacute; querido (o filho primog&eacute;nito, as prim&iacute;cias do rebanho ou das colheitas, etc.) ou, no limite, quando o mecanismo de substitui&ccedil;&atilde;o sacrificial parece falhar, ofere&ccedil;o-me e <em>sacrifico-me<\/em> a mim pr&oacute;prio para assegurar o favor divino. A experi&ecirc;ncia crist&atilde;, muito especialmente a Paix&atilde;o de Cristo, fazem explodir a l&oacute;gica <em>religiosa <\/em>do bode expiat&oacute;rio, do sofrimento antecipadamente vicariante, mesmo se o cristianismo hist&oacute;rico, em muitos momentos e autores, interpretou certas passagens da B&iacute;blia (v.g., Gn 3, 16-19; Mt 5, 5.10-12, entre outras) &agrave; luz de uma soteriologia legitimadora do &lsquo;vale de l&aacute;grimas&rsquo;, instrumentalizando o sofrimento para &lsquo;comprar&rsquo; a salva&ccedil;&atilde;o (mesmo que fosse preciso &lsquo;for&ccedil;ar o mart&iacute;rio&rsquo;, como aconteceu nos primeiros s&eacute;culos do cristianismo). <br \/>Por outro lado, afirmar que experi&ecirc;ncia crist&atilde;, <em>de direito<\/em>, n&atilde;o tem uma justifica&ccedil;&atilde;o <em>a priori <\/em>para o sofrimento, n&atilde;o significa, bem pelo contr&aacute;rio, que ela o ignore e que, <em>ex post facto<\/em>, n&atilde;o lhe d&ecirc; um sentido, integrando na vida a dor e o suor de todos os dias. E mesmo antes do sofrimento humano, talvez devamos meditar num dos lugares mais problem&aacute;ticos da tradi&ccedil;&atilde;o teol&oacute;gica: a possibilidade de um <em>pathos<\/em>, de uma <em>Paix&atilde;o <\/em>em Deus. Tal parece ir contra uma certa vis&atilde;o do divino &agrave; luz dos ditos &lsquo;predicados fortes&rsquo;: impass&iacute;vel, eterno, imut&aacute;vel, omnipotente, omnisciente, etc.. F. Varillon, a este prop&oacute;sito, n&atilde;o hesita em criticar um pensamento triunfante que se desenvolveu, &ldquo;no Ocidente, segundo a l&oacute;gica firme do princ&iacute;pio da identidade, ao abrigo das contradi&ccedil;&otilde;es, das metamorfoses e da fluidez: se Deus &eacute; eterno, &eacute; imut&aacute;vel; se &eacute; imut&aacute;vel, &eacute; impass&iacute;vel. (&#8230;) Dizer com S&atilde;o Tom&aacute;s, apoiando-se na sua distin&ccedil;&atilde;o da &lsquo;rela&ccedil;&atilde;o real&rsquo; e da &lsquo;rela&ccedil;&atilde;o de raz&atilde;o&rsquo;, que a mudan&ccedil;a est&aacute; toda do lado do homem e de modo nenhum do lado de Deus, &eacute; talvez salvar o Ser, mas &eacute; tamb&eacute;m ferir o Amor. (&#8230;) Na ordem do ser, o sofrimento &eacute; uma imperfei&ccedil;&atilde;o. Na ordem do amor, &eacute; o selo da perfei&ccedil;&atilde;o.&rdquo; <br \/>Recordemos tamb&eacute;m que j&aacute; Or&iacute;genes, no &acirc;mbito de uma medita&ccedil;&atilde;o sobre a Paix&atilde;o de Cristo (<em>Homiliae in Ezechielem<\/em>, VI, 6; SC 352, pp. 230-231) afirmara que o pr&oacute;prio Pai n&atilde;o &eacute; impass&iacute;vel. &laquo;Qual &eacute; pois esta paix&atilde;o (passio) que ele sofreu por n&oacute;s? A paix&atilde;o da caridade (<em>caritatis est passio<\/em>). E n&atilde;o &eacute; verdade que o pr&oacute;prio pai, Deus do universo, &ldquo;cheio de indulg&ecirc;ncia, de miseric&oacute;rdia&rdquo; e de piedade, sofre de algum modo (<em>quodammodo patitur<\/em>)? (&#8230;) Deus portanto toma sobre si (<em>supportat<\/em>) a nossa maneira de ser, como o Filho de Deus toma (<em>portat<\/em>) as nossas paix&otilde;es. O pr&oacute;prio Pai n&atilde;o &eacute; impass&iacute;vel (<em>ipse Pater non est impassibilis<\/em>). Se lhe pedimos, tem piedade, compadece-se e experimenta a paix&atilde;o da caridade (&#8230;).&raquo; Esta &laquo;&eacute;, sem d&uacute;vida, uma das p&aacute;ginas mais crist&atilde;s e mais humanas que temos&raquo;, afirma Henri de Lubac. &Agrave; luz de um Deus que sofre e de um sentido de Encarna&ccedil;&atilde;o que prolonga no tempo a hist&oacute;ria eterna do amor Deus, o sofrimento humano n&atilde;o fica justificado <em>a priori<\/em>, n&atilde;o fica dilu&iacute;do numa imensa teodram&aacute;tica, mas pelo contr&aacute;rio ganha outra densidade como pro-voca&ccedil;&atilde;o concreta i.e., um convite menos ao nosso pensamento que &agrave; nossa ac&ccedil;&atilde;o. <em>Estava nu, estava doente, estava preso&hellip;<\/em>: &ldquo;o que fizeste ao mais pequenino dos meus foi a mim que o fizeste.&rdquo; (Mt 25, 40). Perante o sofrimento, ante a &lsquo;carne viva&rsquo; na clareira do mundo, imp&otilde;e-se sempre uma reserva fundamental. O crente n&atilde;o tem que justificar Deus. Deve apenas poder dizer: &ldquo;Eu sei que Deus n&atilde;o quer isto, mas n&atilde;o sei porque &eacute; que isto aconteceu&rdquo;. <br \/><em>&laquo;Pathos mathei&raquo;<\/em> \/ &laquo;Aprende-se pelo sofrimento&raquo;: era esta a li&ccedil;&atilde;o maior da trag&eacute;dia grega, que depois foi racionalmente legitimada pelas m&uacute;ltiplas metamorfoses das pedagogias oficiais do Ocidente: a filosofia, a pol&iacute;tica, o direito, a teodiceia&#8230; Importa reiterar, &agrave; luz do Verbo suspenso da Cruz, que uma diversa leitura daquela li&ccedil;&atilde;o sapiencial n&atilde;o nos d&aacute; nenhum conhecimento pr&eacute;vio, muito menos justificativo, sobre o sofrimento, mas colhe-o apenas <em>ex post facto<\/em>, na sua nudez, para o integrar e o transfigurar em gestos de bondade. Mas isso, ao contr&aacute;rio do que certo cristianismo hist&oacute;rico fez, jamais pode ser preceituado na segunda pessoa. O sentido &uacute;ltimo do sofrimento s&oacute; pode ser testemunhado na primeira pessoa. &Eacute; esse, creio, o sentido da Paix&atilde;o do Verbo. <br \/><em>Jos&eacute; Rosa, Professor de Filosofia da UBI<\/em><\/p>\n<p><em>Nota &#8211; No ano passado pediram-me este texto sobre o sofrimento. Hoje&nbsp;escrev&ecirc;-lo-ia bem mais curto e com outras tintas&#8230; A dor e o sofrimento n&atilde;o&nbsp;cabem em palavras na terceira pessoa, mesmo as mais eruditas e&nbsp;bem-intencionadas. De n&oacute;s pedem antes gestos concretos de bondade, de&nbsp;generosidade, de brandura. S&oacute; o sofredor, o homem das dores, a *mater<br \/>dolorosa*, os vindos da grande prova&ccedil;&atilde;o, est&atilde;o capazes de falar do&nbsp;sofrimento. A maior parte n&atilde;o o faz. Escutemos o sil&ecirc;ncio. Todas as outras&nbsp;palavras s&atilde;o quase obscenas.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A experi&ecirc;ncia crist&atilde; n&atilde;o &eacute; uma religi&atilde;o do sofrimento. Isto quer dizer, em nosso entender, que o cristianismo n&atilde;o tem, de jure, uma doutrina, uma &lsquo;li&ccedil;&atilde;o estudada&rsquo; para justificar antecipadamente, e com isso legitimar, a exist&ecirc;ncia do mal no mundo, da qual o sofrimento (infligido e\/ou sofrido) &eacute; uma das express&otilde;es mais gritantes. 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