{"id":37932,"date":"2009-03-31T10:18:47","date_gmt":"2009-03-31T10:18:47","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/03\/31\/sofrer-para-encontrar-deus\/"},"modified":"2009-03-31T10:18:47","modified_gmt":"2009-03-31T10:18:47","slug":"sofrer-para-encontrar-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/sofrer-para-encontrar-deus\/","title":{"rendered":"Sofrer para encontrar Deus"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 uma acusa\u00e7\u00e3o recorrente, tanto dentro como fora da Igreja: o Cristianismo vive-se ou \u00e9 percebido como uma religi\u00e3o do sofrimento, que procura a dor. A proximidade da celebra\u00e7\u00e3o da Paix\u00e3o de Cristo, momento culminante do ano lit\u00fargico, multiplica as manifesta\u00e7\u00f5es ligadas ao sofrimento do pr\u00f3prio Jesus e, porventura, intensifica essa dimens\u00e3o ao ponto de n\u00e3o se perceber em todo o esplendor o significado redentor e libertador da P\u00e1scoa. A verdade \u00e9 que o pr\u00f3prio Cristianismo permitiu que se passasse de uma concep\u00e7\u00e3o de paix\u00e3o exclusivamente ligada ao sofrimento e ao suportar a dor para um conceito ligado \u00e0 intensidade do sentimento. A Paix\u00e3o de Cristo n\u00e3o corresponde a um conceito fechado ou negativo, mas tem uma leitura iminentemente positiva, como n\u00facleo fundamental da f\u00e9 que se centra no amor de Deus pela humanidade. A vida crist\u00e3 ensina que o ideal de amar a Deus sobre todas as coisas e aos outros como a n\u00f3s mesmos, n\u00e3o se consegue sem sofrimento, necessita do empenho pessoal, da luta e do esfor\u00e7o. Nesse contexto, aparecem algumas pr\u00e1ticas asc\u00e9ticas que pode parecer estranhas aos olhos da sociedade actual, mas que procuram envolver completamente corpo e alma nesta inten\u00e7\u00e3o. O Dossier que a Ag\u00eancia ECCLESIA apresenta esta semana inclui a vis\u00e3o de um fil\u00f3sofo sobre o Cristianismo e a sua rela\u00e7\u00e3o com o sofrimento. Jo\u00e3o Rosa defende que \u201co sentido \u00faltimo do sofrimento s\u00f3 pode ser testemunhado na primeira pessoa\u201d. Em reportagem, acompanhamos a visita do Cardeal-Patriarca de Lisboa ao Instituto Portugu\u00eas de Oncologia, lugar de dramas v\u00e1rios, muitas vezes incompreens\u00edveis para quem \u00e9 atingido pela doen\u00e7a. D. Jos\u00e9 Policarpo deixou uma palavra de esperan\u00e7a e assumiu a necessidade de ouvir e estar ao lado de quem sofre. D. Ant\u00f3nio Vitalino, Bispo de Beja, fala por seu lado de uma sociedade que prefere esconder o sofrimento. Jo\u00e3o Paulo II, o Papa que sofreu aos olhos de todo o mundo, escrevia na sua carta apost\u00f3lica Salvifici Doloris que \u201cpara descobrir o sentido profundo do sofrimento, seguindo a Palavra de Deus revelada, \u00e9 preciso abrir-se amplamente ao sujeito humano com as suas m\u00faltiplas potencialidades\u201d.  \u201cO Amor \u00e9 ainda a fonte mais plena para a resposta \u00e0 pergunta acerca do sentido do sofrimento. Esta resposta foi dada por Deus ao homem na Cruz de Jesus Cristo\u201d, referia o falecido Papa. Em entrevista \u00e0 ECCLESIA, o Pe. Jos\u00e9 Nuno, Coordenador Nacional das Capelanias Hospitalares, afirma que a sociedade tem uma imagem falsa a respeito do que a Igreja ensina e vive sobre o sofrimento. Esta \u00e9 uma dimens\u00e3o igualmente presente na arte, chegando mesmo a chocar pela viol\u00eancia das imagens que representam a dor suportada por Cristo na sua Paix\u00e3o. Na B\u00edblia, o Livro de Job &#8211; um cl\u00e1ssico da literatura universal \u2013 \u00e9 o expoente da reflex\u00e3o sobre algumas das grandes quest\u00f5es que o homem se coloca nesta mat\u00e9ria: Qual o papel de Deus na vida e nos dramas do homem? Qual o sentido do sofrimento? Ainda hoje, o sofrimento, sobretudo o dos inocentes, \u00e9 sentido como o drama mais inexplic\u00e1vel que atinge a humanidade. Para Jo\u00e3o Paulo II, nem o livro do Job apresenta uma resposta a este problema, que deve ser compreendido \u00e0 luz do sofrimento de Jesus. \u201cCada um dos homens \u00e9 tamb\u00e9m chamado a participar naquele sofrimento, por meio do qual se realizou a Reden\u00e7\u00e3o; \u00e9 chamado a participar naquele sofrimento, por meio do qual foi redimido tamb\u00e9m todo o sofrimento humano. Realizando a Reden\u00e7\u00e3o mediante o sofrimento, Cristo elevou ao mesmo tempo o sofrimento humano ao n\u00edvel de Reden\u00e7\u00e3o. Por isso, todos os homens, com o seu sofrimento, se podem tornar tamb\u00e9m participantes do sofrimento redentor de Cristo\u201d, escreveu. Maurice Blondel, fil\u00f3sofo franc\u00eas, dizia do sofrimento que este \u201cimpede-nos a aclimata\u00e7\u00e3o a este mundo e deixa em n\u00f3s um mal-estar que n\u00e3o mais se apaga. Porque n\u00e3o sendo a adapta\u00e7\u00e3o mais do que um conseguido equil\u00edbrio no restrito meio em que vivemos para fora de n\u00f3s, \u00e9 sempre uma novidade a afirma\u00e7\u00e3o que nos lembra que a dor nos acompanha aonde quer que vamos\u201d. \u201cTal como ningu\u00e9m pode amar Deus sem sofrer, ningu\u00e9m v\u00ea Deus sem morrer. Nada vai at\u00e9 ele que n\u00e3o tenha ressuscitado primeiro; porque nenhuma vontade \u00e9 boa se n\u00e3o soube sair de si pr\u00f3pria para deixar o campo aberto \u00e0 total invas\u00e3o da sua\u201d, atirava. Depois de tudo isto, percebe-se melhor que a Semana Santa, de modo especial, est\u00e1 ligada a um mundo de sentimentos e de tradi\u00e7\u00f5es muito particulares, que procuram apresentar o mist\u00e9rio da reden\u00e7\u00e3o. Os grandes autores da hist\u00f3ria da m\u00fasica, por exemplo, n\u00e3o ficaram \u00e0 margem dos momentos lit\u00fargicos destes dias, como se pode ver nas hist\u00f3rias sacras de Giacomo Carisimi ou nas hist\u00f3rias da paix\u00e3o de Heinrich Sch\u00fctz (segundo S\u00e3o Mateus ou segundo S\u00e3o Marcos).  Para estes dias, muitas s\u00e3o as interpreta\u00e7\u00f5es musicais da vida de Cristo, as Paix\u00f5es, com base nos Evangelhos. Inesgot\u00e1vel \u00e9 tamb\u00e9m o mundo do Gregoriano, com os seus cantos da Semana Santa e P\u00e1scoa. Para fechar este ciclo, quando as trevas ficam para tr\u00e1s, caber\u00e1 a Missa Solene de Beethoven, provavelmente a maior afirma\u00e7\u00e3o de f\u00e9 que algum compositor escreveu alguma vez na hist\u00f3ria. Bento XVI, ali\u00e1s, considera-a \u201cum tocante testemunho de f\u00e9\u201d, defendendo que a obra mostra que \u201cquando o homem est\u00e1 diante de Deus, s\u00f3 a palavra n\u00e3o basta\u201d.   <i>Um mist\u00e9rio<\/i> Na sua carta apost\u00f3lica Salvifici Doloris, Jo\u00e3o Paulo II escrevia que o sofrimento humano suscita compaix\u00e3o, inspira tamb\u00e9m respeito e, a seu modo, intimida\u201d. \u201cNele, efectivamente, est\u00e1 contida a grandeza de um mist\u00e9rio espec\u00edfico. Este respeito particular por todo e qualquer sofrimento humano deve ficar assente no princ\u00edpio de quanto vai ser explanado a seguir, que promana da necessidade mais profunda do cora\u00e7\u00e3o, bem como de um imperativo da f\u00e9. Estes dois motivos parecem aproximar-se particularmente um do outro e unir-se entre si, quanto ao tema do sofrimento: a necessidade do cora\u00e7\u00e3o imp\u00f5e-nos vencer a timidez; e o imperativo da f\u00e9 \u2014 formulado, por exemplo, nas palavras de S\u00e3o Paulo citadas no in\u00edcio \u2014 proporciona o conte\u00fado, em nome e em virtude da qual n\u00f3s ousamos tocar naquilo que parece ser t\u00e3o intang\u00edvel em cada um dos homens; efectivamente, o homem no seu sofrimento permanece um mist\u00e9rio intang\u00edvel\u201d.  <B>Not\u00edcias relacionadas<\/B> <a href=\"noticia.asp?noticiaid=71378\">\u2022 Cristianismo: uma religi\u00e3o do sofrimento?<\/a> <a href=\"noticia.asp?noticiaid=71381\">\u2022 A paix\u00e3o de Jesus nas artes<\/a> <a href=\"noticia.asp?noticiaid=71279\">\u2022 Dar um sentido novo ao sofrimento<\/a> <a href=\"noticia.asp?noticiaid=71331\">\u2022 Bispo de Beja critica indiferen\u00e7a face ao sofrimento<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 uma acusa\u00e7\u00e3o recorrente, tanto dentro como fora da Igreja: o Cristianismo vive-se ou \u00e9 percebido como uma religi\u00e3o do sofrimento, que procura a dor. 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