{"id":37928,"date":"2009-03-30T17:37:14","date_gmt":"2009-03-30T17:37:14","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/03\/30\/catequese-quaresmal-do-bispo-da-guarda\/"},"modified":"2009-03-30T17:37:14","modified_gmt":"2009-03-30T17:37:14","slug":"catequese-quaresmal-do-bispo-da-guarda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/catequese-quaresmal-do-bispo-da-guarda\/","title":{"rendered":"Catequese quaresmal do Bispo da Guarda"},"content":{"rendered":"<p>\u00abPelo sofrimento e pela morte \u00e0 Ressurrei\u00e7\u00e3o e \u00e0 Vida\u00bb <!--more--> 1.Celebramos o V Domingo da quaresma e tamb\u00e9m iniciamos a primeira das duas semanas que especialmente nos convidam a contemplar o mist\u00e9rio da Paix\u00e3o de Nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso, este domingo tradicionalmente \u00e9 chamado o l\u00ba domingo da paix\u00e3o. A Paix\u00e3o, a morte e a Ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo s\u00e3o o mist\u00e9rio que vai estar especialmente presente na celebra\u00e7\u00e3o do pr\u00f3ximo Tr\u00edduo Pascal; mas, a partir de hoje, n\u00f3s somos, com particular insist\u00eancia, interpelados pela Palavra de Deus a dispormo-nos pessoal e comunitariamente para mergulhar no cora\u00e7\u00e3o deste mesmo mist\u00e9rio e, nele e por ele, nos deixamos transformar para virmos a ser criaturas novas em Cristo Ressuscitado. 2. A primeira leitura, como aconteceu j\u00e1 em cada um dos 4 domingos anteriores, continua a falar-nos da Alian\u00e7a com Deus; s\u00f3 que, desta vez, fala-nos de uma Nova Alian\u00e7a. Essa nova alian\u00e7a n\u00e3o est\u00e1 ligada a actos de culto especiais, nem aos s\u00edmbolos normais das alian\u00e7as entre povos e grupos humanos. Essa Nova Alian\u00e7a \u00e9 uni\u00e3o com Deus cora\u00e7\u00e3o a cora\u00e7\u00e3o. Sabemos que essa Nova Alian\u00e7a foi inaugurada na Pessoa de Jesus Cristo. Como diz hoje a carta aos Hebreus, Jesus Cristo, apesar de ser Filho, e o Filho \u00fanico de Deus, Viveu a obedi\u00eancia ao Pai atrav\u00e9s do sofrimento e por este caminho tornou-se para todos os que lhe obedecem causa de Salva\u00e7\u00e3o eterna. Temos aqui um convite expl\u00edcito a meditar, ao longo dos dias que imediatamente nos preparam para a P\u00e1scoa, a morte Redentora de Nosso Senhor Jesus Cristo. E a primeira pergunta que a nossa sensibilidade nos faz \u00e9 a seguinte: ser\u00e1 que do sofrimento e da morte poder\u00e1 vir alguma coisa boa? Por outras palavras, o sofrimento e a morte, a que todos inexoravelmente estamos sujeitos, poder\u00e3o ter algum sentido positivo? O Evangelho de S. Jo\u00e3o hoje d\u00e1 a resposta com uma par\u00e1bola primeiro e depois com a experi\u00eancia \u00fanica de Jesus Cristo. O sofrimento e a morte s\u00e3o como o gr\u00e3o de trigo lan\u00e7ado \u00e0 terra. Este tem de deixar-se destruir e morrer para dele resultar muito fruto. A primeira conclus\u00e3o que o Evangelho tira \u00e9 sobre o sentido da nossa vida e sobre a verdadeira compreens\u00e3o do que \u00e9 viver. Dar a vida, como Jesus Cristo fez, pelo bem dos outros e da comunidade \u00e9 o \u00fanico caminho que dignifica qualquer ser humano. E o testemunho do pr\u00f3prio Deus sobre Jesus a caminho da morte na cruz \u00e9 eloquente. A cruz \u00e9 para Cristo lugar de glorifica\u00e7\u00e3o, porque nela Ele oferece a Sua Vida para salva\u00e7\u00e3o de toda a Humanidade. 3. O caminho de Reden\u00e7\u00e3o que Jesus a todos aponta \u00e9 aquele em que cada um de n\u00f3s vive o sofrimento e a morte, que s\u00e3o inevit\u00e1veis, envolvidos pela esperan\u00e7a da Ressurrei\u00e7\u00e3o e da Vida. Cada um de n\u00f3s, se souber parar por momentos diante do seu mist\u00e9rio pessoal, sente-se chamado para a vida e n\u00e3o para a morte; pelo menos sente que a vida \u00e9 o maior bem que lhe podia ser dado e a este bem todos os outros devem ser subordinados. Mas sente tamb\u00e9m que n\u00e3o \u00e9 qualquer vida que lhe interessa, mas somente a vida vivida na verdade e na Justi\u00e7a. 3.1.Viver na verdade, procurar a verdade e recusar a mentira \u00e9 o desejo natural de qualquer pessoa honesta. E ao sentirmo-nos vocacionados para viver na verdade, sentimos a obriga\u00e7\u00e3o de procurar a verdade do mundo e da hist\u00f3ria, mas sobretudo a verdade do ser humano em si mesmo e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a fonte de toda a verdade que \u00e9 Deus. A verdade do mundo implica o reconhecimento de que a natureza tem uma consist\u00eancia pr\u00f3pria, leis pr\u00f3prias que n\u00e3o dependem de mim. Eu s\u00f3 tenho de respeitar esta verdade do mundo porque o exige o meu bem pessoal, o bem dos meus semelhantes, incluindo os ainda n\u00e3o nascidos e o bem comum. A verdade do seu humano pede que eu reconhe\u00e7a a sua identidade pr\u00f3pria de homem e mulher, seres diferentes que se completam principalmente no servi\u00e7o \u00e0 vida que lhes est\u00e1 confiado. A verdade \u00e9, de facto, o resplendor de Deus no rosto do mundo e em particular do ser humano. Por isso as rela\u00e7\u00f5es deste com o mundo e com os outros, todas as rela\u00e7\u00f5es sociais, para serem humanas e humanizantes, precisam de ser vividas na verdade, com exclus\u00e3o de toda a forma de mentira, a come\u00e7ar por aquelas mentiras que ofendem o ser humano na sua dignidade, como s\u00e3o o falso testemunho, ou a cal\u00fania; mas tamb\u00e9m o ju\u00edzo temer\u00e1rio, porque sem suficiente fundamento. O 8\u00ba mandamento da Lei de Deus lembra-nos esta obriga\u00e7\u00e3o enraizada na pr\u00f3pria natureza humana, quando recomenda: \u201cN\u00e3o levantar falsos testemunhos, n\u00e3o fazer ju\u00edzos temer\u00e1rios ou de qualquer outra forma faltar \u00e0 verdade\u201d. 3.2. Por sua vez, s\u00f3 pode viver na verdade quem aceita percorrer os caminhos da justi\u00e7a. Viver na verdade e viver na justi\u00e7a s\u00e3o atitudes humanas fundamentais e insepar\u00e1veis. A justi\u00e7a social foi sempre decisiva para o bem-estar dos cidad\u00e3os e das popula\u00e7\u00f5es, mas na hora actual, com a crise econ\u00f3mica que o mundo atravessa, a justi\u00e7a social exige de todos n\u00f3s e das institui\u00e7\u00f5es uma redobrada aten\u00e7\u00e3o. Quando falamos de justi\u00e7a social, queremos dizer que o mundo \u00e9 uma mesa posta por Deus para servir todos os cidad\u00e3os. Sendo assim, os bens dispon\u00edveis, no mundo, t\u00eam um destino universal ou seja s\u00e3o para todos; os seus propriet\u00e1rios n\u00e3o s\u00e3o donos, mas somente administradores tempor\u00e1rios; todo aquele que possui bens tem obriga\u00e7\u00e3o de partilhar com os pobres; os bens sup\u00e9rfluos s\u00e3o dos pobres. A justi\u00e7a social exige de todos e cada um de n\u00f3s, antes de mais, respeito por todas e cada uma das pessoas. E este respeito pede que n\u00e3o s\u00f3 a cada pessoa seja dada a por\u00e7\u00e3o de bens materiais de que ela precisa para viver com dignidade, mas tamb\u00e9m e sobretudo que cada uma delas participe activamente no processo da produ\u00e7\u00e3o destes bens e nas decis\u00f5es sobre a sua distribui\u00e7\u00e3o. O processo de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 o cumprimento do mandato original do criador para que o ser humano dominasse a terra, ou seja, interviesse para colocar os seus recursos capazes de serem devidamente utilizados pelos seres humanos todos. Os meios t\u00e9cnicos hoje existentes, por um lado facilitam este dom\u00ednio, mas por outro tamb\u00e9m o dificultam sobretudo na medida em que substituem muitas pessoas e principalmente colocam num n\u00famero mais reduzido de pessoas o exerc\u00edcio do direito de tomar decis\u00f5es. A cada um deve ser respeitado o direito de decidir ou participar na decis\u00e3o sobre aquilo que produz. Sempre que uma pessoa est\u00e1 \u00e0 margem do processo da produ\u00e7\u00e3o ou lhe \u00e9 negado o direito de decidir sobre o resultado do seu trabalho tem de ser considerado um exclu\u00eddo ou marginal e neste \u00faltimo caso um espoliado ou roubado. Todos sabemos que a exclus\u00e3o e a marginalidade constituem uma das maiores pragas da nossa sociedade, na hora actual. O respeito pelas pessoas a quem se destinam todos os bens criados obriga a respeitar tamb\u00e9m a natureza. Hoje felizmente h\u00e1 uma grande sensibilidade e muito generalizada quanto ao respeito para com a natureza, sentindo que se n\u00e3o preservarmos o universo estamos a hipotecar o futuro da humanidade. O mandato do g\u00e9nesis \u2013 \u201c dominai a terra\u201d \u2013 quer dizer esse saber gerir, governar, sem destruir, o que Deus criou para todos os cidad\u00e3os, tanto as das gera\u00e7\u00f5es actuais como os das gera\u00e7\u00f5es futuras. A atitude da ecologia \u00e9 assim uma responsabilidade acrescida para as gera\u00e7\u00f5es actuais e sobretudo para as suas inst\u00e2ncias de decis\u00e3o. Tanto o 7\u00ba mandamento da Lei de Deus, que manda n\u00e3o roubar como o 10\u00ba, que manda n\u00e3o cobi\u00e7ar as coisas alheias s\u00e3o um convite a p\u00f4r em pr\u00e1tica a justi\u00e7a social. Por sua vez a justi\u00e7a social obriga-nos a todos a levar a s\u00e9rios a dignidade de cada pessoa e seus direitos. Lembra-nos o destino universal dos bens e a obriga\u00e7\u00e3o da solidariedade universal que lhe est\u00e1 ligada. Lembra-nos o primado do bem comum sobre os interesses particulares de pessoas e grupos e sobretudo obriga a fazer a op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres. Pobres s\u00e3o as pessoas exclu\u00eddas do acesso aos bens essenciais, mas s\u00e3o tamb\u00e9m os grupos de pessoas e as regi\u00f5es desfavorecidas. Aos cidad\u00e3os em geral, individualmente e em grupos, e principalmente aos poderes constitu\u00eddos pede-se-lhes esfor\u00e7o conjugado de luta contra a pobreza. Aos cidad\u00e3os e \u00e0s associa\u00e7\u00f5es de cidad\u00e3os pede-se-lhes que participem activamente, na medida em que isso lhes for poss\u00edvel, n\u00e3os s\u00f3 nos processos da produ\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m nas decis\u00f5es quanto ao destino a dar aos bens produzidos. Aos poderes constitu\u00eddos pede-se que exer\u00e7am a justi\u00e7a social n\u00e3o s\u00f3 intervindo na equitativa distribui\u00e7\u00e3o dos bens, mas principalmente criando condi\u00e7\u00f5es para que deixe de haver cidad\u00e3os de primeira e cidad\u00e3os de 2\u00aa, para que n\u00e3o haja grupos humanos exclu\u00eddos nem regi\u00f5es que, por falta de condi\u00e7\u00f5es objectivas, s\u00e3o sempre os parentes pobres, com n\u00edveis de pobreza acima de m\u00e9dia. \u00c9 sabido que o desemprego est\u00e1 a ser a grande chaga social resultante de crise econ\u00f3mica que vivemos. Em nossa regi\u00e3o os n\u00edveis do desemprego est\u00e3o pelo menos 2 a 3 pontos percentuais acima da m\u00e9dia nacional. Por isso, em nome da Justi\u00e7a Social, sentimo-nos na obriga\u00e7\u00e3o de fazer apelo aos poderes constitu\u00eddos para que olhem para a nossa regi\u00e3o, de facto desfavorecida e ajudem a criar as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para que o desemprego e a fome sejam eficazmente combatidos, mesmo que isso signifique adiar outros grandes projectos de investimento. Primeiro \u00e9 preciso dar de comer a quem tem fome e s\u00f3 depois pensar naquilo que se pode dispensar ou, pelo menos, adiar. Que o Senhor nos ajude a preparar a P\u00e1scoa da Ressurrei\u00e7\u00e3o e acrescer na consci\u00eancia de que a Vida de todos e de cada um \u00e9 o maior bem que \u00e9 preciso defender e valorizar em todas as circunst\u00e2ncias.  29 de Mar\u00e7o de 2009 <i>+Manuel R. Fel\u00edcio, Bispo da Guarda <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abPelo sofrimento e pela morte \u00e0 Ressurrei\u00e7\u00e3o e \u00e0 Vida\u00bb<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[127,168,275,91,314],"class_list":["post-37928","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-catequese","tag-diocese-da-guarda","tag-pascoa","tag-quaresma","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37928","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=37928"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37928\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=37928"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=37928"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=37928"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}