{"id":37899,"date":"2009-03-29T23:22:14","date_gmt":"2009-03-29T23:22:14","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/03\/29\/memoria-dos-mortos-e-salvacao-dos-vivos\/"},"modified":"2009-03-29T23:22:14","modified_gmt":"2009-03-29T23:22:14","slug":"memoria-dos-mortos-e-salvacao-dos-vivos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/memoria-dos-mortos-e-salvacao-dos-vivos\/","title":{"rendered":"\u00abMem\u00f3ria dos mortos e salva\u00e7\u00e3o dos vivos\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>Homilia de D. Manuel Clemente sobre o desastre da Ponte das Barcas e todas as v\u00edtimas de guerras e trag\u00e9dias <!--more-->   J\u00e1 lembr\u00e1mos hoje, no pr\u00f3prio local da trag\u00e9dia de h\u00e1 dois s\u00e9culos, todos os que nela pereceram, em hora tremenda da cidade e do pa\u00eds. Trazemos a esta catedral a mesma mem\u00f3ria, agora celebrada em sufr\u00e1gio, mas salva naquela esperan\u00e7a que nos vem da f\u00e9 em Deus e da promessa de Cristo. Para os crist\u00e3os de qualquer \u00e9poca \u2013 e certamente para aqueles que o rio levava na altura \u2013 Cristo \u00e9 um eterno presente e a subst\u00e2ncia dum apelo, mais ou menos sonoro ou surdo, mas sempre lan\u00e7ado, para l\u00e1 das dores, das trevas e da pr\u00f3pria morte. Com as palavras lit\u00fargicas deste Domingo quaresmal, com a m\u00fasica solene do Requiem de Bomtempo, com os vers\u00edculos b\u00edblicos que h\u00e1 momentos escut\u00e1mos, \u00e9 esse apelo que ainda fazemos, \u00e9 nessa esperan\u00e7a que nos mantemos e nos propomos recome\u00e7ar. A religi\u00e3o de Cristo, essa mesma que professavam as vitimas daquele imenso desastre, traz-nos uma rela\u00e7\u00e3o com Deus que passa inteiramente pelo homem, nas vicissitudes da nossa exist\u00eancia comum. Acreditamos n\u00f3s, como acreditavam os que morreram na altura, que, em Cristo, Deus se diz ao homem, pois \u00e9 Deus comunicado, e o homem se diz a Deus, porque \u00e9 Deus humanado.  Daqui a esperan\u00e7a com que se vive, daqui a esperan\u00e7a com que se morre. Espontaneamente, olhamos para o c\u00e9u nas afli\u00e7\u00f5es que surjam. Mais crist\u00e3mente, reflu\u00edmos para o cora\u00e7\u00e3o pr\u00f3prio e dos outros, onde Deus mais se encontra, desde que se fez um de n\u00f3s; e em todos nos quer estender a m\u00e3o, ou espera que lha estendamos tamb\u00e9m. Para que esta religi\u00e3o finalmente acontecesse, de modo a parecer-nos t\u00e3o convincente e esperan\u00e7osa, necess\u00e1rio foi que o c\u00e9u e a terra realmente se unissem, numa vida total e pessoal. Total porque nada de humano deixou de fora; pessoal, porque inteiramente consciente e comunicada. Ou melhor, como ouvimos na Ep\u00edstola aos Hebreus, transmitindo-nos a consci\u00eancia clara das primeiras gera\u00e7\u00f5es crist\u00e3s: \u201cApesar de ser Filho [de Deus], Cristo aprendeu a obedi\u00eancia no sofrimento e, tendo atingido a sua plenitude, tornou-se para todos os que lhe obedecem causa de salva\u00e7\u00e3o eterna\u201d.  Vivia Cristo dum segredo que as v\u00edtimas de h\u00e1 duzentos anos conheciam: a sua rela\u00e7\u00e3o com Deus Pai, com quem era um e eterno, na comunh\u00e3o da mesma vida partilhada. Feito homem, permitiu-nos participar na sua condi\u00e7\u00e3o de Filho de Deus, pois que connosco partilhou a vida e o destino, abrindo em cada circunst\u00e2ncia humana um horizonte infindo, desde que vivida no mesmo Esp\u00edrito, ou seja, em entrega confiante ao Pai, em tudo e at\u00e9 apesar de tudo. A isto chama a Ep\u00edstola \u201caprender a obedi\u00eancia no sofrimento\u201d, porque \u00e9 na realidade da vida e n\u00e3o na aliena\u00e7\u00e3o dela que podemos encontrar a Deus, seu permanente sustento. Muito melhor o diriam os te\u00f3logos. Mas estou bem certo de que este segredo conheciam as v\u00edtimas de h\u00e1 dois s\u00e9culos, como o conhecem as de tantas guerras e desastres, quando tenham alguma lembran\u00e7a evang\u00e9lica ou conservem no \u00edntimo o apelo da vida. Da vida, precisamente, e ainda esta crist\u00e3mente tomada. As coisas que v\u00e3o ditas, valem como vividas e s\u00f3 vividas se percebem. Saber que as v\u00edtimas de h\u00e1 dois s\u00e9culos e tantas outras de antes e depois pressentiam que a trag\u00e9dia n\u00e3o podia ser o fim absoluto; saber que, sendo crist\u00e3os, nela continuavam a encontrar um Deus pr\u00f3ximo, que os receberia mais al\u00e9m; saber at\u00e9 algum que, na \u00faltima generosidade que tivesse para as outras v\u00edtimas daria e receberia o mesmo Cristo: tudo isto acede \u00e0quele perfeito humanismo que s\u00f3 a Cruz de Cristo revela plenamente. &#8211; E revela-se plenamente o qu\u00ea? Que a exist\u00eancia de cada um de n\u00f3s, sendo t\u00e3o dependente e perec\u00edvel, nunca ter\u00e1 garantia que lhe baste, para ficar sem medo ou sobressalto. Mas que h\u00e1 um modo, agora patente e oferecido, de lhe dar a seguran\u00e7a que n\u00e3o teria sozinha e de lhe vencer o medo por si s\u00f3 inilud\u00edvel. Esse modo chama-se entrega, a sua figura definitiva \u00e9 a Cruz.  H\u00e1 ent\u00e3o uma lei para garantir a vida: \u00e9 d\u00e1-la, vencendo o ego\u00edsmo homicida; \u00e9 dep\u00f4-la nas m\u00e3os de Deus Pai, para que Ele nos ofere\u00e7a com Cristo ao mundo e do mundo nos ressuscite com Cristo, cumprindo totalmente o arco da exist\u00eancia, realizando o anseio de eternidade que nos abriu no cora\u00e7\u00e3o. O pior que nos podemos fazer \u2013 a n\u00f3s e aos outros \u2013 \u00e9 recurvarmo-nos sobre n\u00f3s mesmos, tentando guardar egoisticamente uma vida que nos fugiria quanto mais apertada, como \u00e1gua por entre os dedos.  Muito pelo contr\u00e1rio, e com o significado que estas palavras ganham na caridade de Cristo, morrer \u00e9 viver e oferecer-se \u00e9 ganhar-se. Oi\u00e7amo-lo com o Evangelho de hoje: \u201cEm verdade, em verdade vos digo: se o gr\u00e3o de trigo, lan\u00e7ado \u00e0 terra, n\u00e3o morrer, fica s\u00f3; mas, se morrer, dar\u00e1 muito fruto. Quem ama a sua vida, perd\u00ea-la-\u00e1, e quem despreza a sua vida neste mundo conserv\u00e1-la-\u00e1 para a vida eterna\u201d. Mas, car\u00edssimos Senhores e irm\u00e3os, para estarmos autenticamente com as v\u00edtimas de h\u00e1 dois s\u00e9culos e de todos os s\u00e9culos, quer compartilhando com elas tal vislumbre de eternidade, quer repetindo agora a \u00faltima generosidade que tivessem, \u00e9-nos necess\u00e1ria uma atitude permanente que manifeste e garanta essas atitudes finais e salutares. Se \u00e9 verdade que morremos como vivemos, ent\u00e3o vivamos j\u00e1 como morremos, no aludido significado que Cristo d\u00e1 a estes verbos. Ou seja, traduzamos eternidade por caridade e estejamos com Deus servindo o pr\u00f3ximo. H\u00e1 duzentos anos o Porto sofreu em pouco tempo a soma de muitas calamidades: guerra, pilhagem, atrocidades sem conto e morte tr\u00e1gica duma multid\u00e3o espavorida. Nem a imagina\u00e7\u00e3o nos chega para o que sucedeu nesta encosta, da catedral ao rio\u2026 Mas poder\u00edamos continuar, at\u00e9 \u00e0s not\u00edcias antigas ou actual\u00edssimas de trag\u00e9dias semelhantes por esse mundo fora. E \u00e9 precisamente aqui que esta comemora\u00e7\u00e3o redunda em compromisso, certamente refor\u00e7ado, para que a mem\u00f3ria dos mortos se torne salva\u00e7\u00e3o dos vivos, tornando-nos mais capazes de honrar aqueles, servindo os aflitos de hoje em dia. Significa isto promover activamente a paz. Permiti-me ilustr\u00e1-lo com alguns pontos de doutrina cat\u00f3lica, partilhados por todos e para o bem de todos: \u201cA paz constr\u00f3i-se dia a dia na busca da ordem querida por Deus e pode florescer somente quando todos reconhecem as pr\u00f3prias responsabilidades na sua promo\u00e7\u00e3o. Para prevenir conflitos e viol\u00eancias, \u00e9 absolutamente necess\u00e1rio que a paz comece a ser vivida como valor profundo no \u00edntimo de cada pessoa: s\u00f3 assim pode estender-se \u00e0s fam\u00edlias e \u00e0s diversas formas de agrega\u00e7\u00e3o social, at\u00e9 envolver toda a comunidade pol\u00edtica. S\u00f3 num clima difuso de conc\u00f3rdia e de respeito pela justi\u00e7a pode amadurecer uma aut\u00eantica cultura de paz, capaz de se difundir tamb\u00e9m na comunidade internacional. [\u2026] Tal ideal de paz n\u00e3o pode conseguir-se na terra se n\u00e3o se salvaguardar o bem dos indiv\u00edduos, e os homens n\u00e3o comunicarem entre si com confian\u00e7a e por sua pr\u00f3pria vontade as riquezas do seu esp\u00edrito e das suas faculdades criadoras\u201d (Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja, n\u00ba 495). Em suma: a paz estabelece-se como sentimento e pedagogia, da pessoa e da fam\u00edlia at\u00e9 \u00e0 comunidade pol\u00edtica e internacional; a paz concretiza-se e garante-se no servi\u00e7o a cada um e na partilha integral de todos.  E aqui vale a religi\u00e3o \u2013 essa mesma que essencialmente nos une \u00e0s v\u00edtimas que evocamos \u2013 e mais como inspira\u00e7\u00e3o essencial do que como mero \u201csuplemento de alma\u201d. Realize-se em n\u00f3s a promessa divina, que ouvimos ao profeta Jeremias, ultrapassando a pr\u00f3pria letra dos c\u00f3digos pela for\u00e7a viva das convic\u00e7\u00f5es: \u201cNaqueles dias, diz o Senhor: hei-de imprimir a minha lei no \u00edntimo da sua alma e grav\u00e1-la-ei no seu cora\u00e7\u00e3o\u201d.  Assim se manifestar\u00e1 todo o significado da Cruz, onde Deus e o homem inteiramente se unem, na vit\u00f3ria da caridade e da paz, realizando a profecia de Cristo: \u201cQuando Eu for elevado da terra, atrairei todos a Mim\u201d. Na verdade, N\u2019Ele estavam todas as v\u00edtimas da terra, recolhidas na miseric\u00f3rdia do C\u00e9u. S\u00e9 do Porto &#8211; 29 de Mar\u00e7o de 2009, 5.\u00ba Domingo da Quaresma <i>+ Manuel Clemente    <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia de D. Manuel Clemente sobre o desastre da Ponte das Barcas e todas as v\u00edtimas de guerras e trag\u00e9dias<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[168,187,206,91],"class_list":["post-37899","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-diocese-da-guarda","tag-diocese-do-porto","tag-familia","tag-quaresma"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37899","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=37899"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37899\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=37899"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=37899"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=37899"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}