{"id":378984,"date":"2025-06-08T09:31:49","date_gmt":"2025-06-08T08:31:49","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=378984"},"modified":"2025-06-05T12:43:36","modified_gmt":"2025-06-05T11:43:36","slug":"acores-e-na-area-social-que-mais-se-pode-ser-igreja-evangelizadora-d-armando-esteves-domingues","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/acores-e-na-area-social-que-mais-se-pode-ser-igreja-evangelizadora-d-armando-esteves-domingues\/","title":{"rendered":"A\u00e7ores: \u00ab\u00c9 na \u00e1rea social que mais se pode ser Igreja evangelizadora\u00bb &#8211; D. Armando Esteves Domingues"},"content":{"rendered":"<p><em>Na v\u00e9spera do Dia da Regi\u00e3o Aut\u00f3noma, a segunda-feira do Esp\u00edrito Santo, o bispo de Angra \u00e9 convidado da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_323588\" aria-describedby=\"caption-attachment-323588\" style=\"width: 1536px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Angra_Dia-do-Catequista_ilha-Terceira_Foto-Igreja-Acores-EM-3.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-323588 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Angra_Dia-do-Catequista_ilha-Terceira_Foto-Igreja-Acores-EM-3.jpg\" alt=\"\" width=\"1536\" height=\"2048\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Angra_Dia-do-Catequista_ilha-Terceira_Foto-Igreja-Acores-EM-3.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Angra_Dia-do-Catequista_ilha-Terceira_Foto-Igreja-Acores-EM-3-195x260.jpg 195w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Angra_Dia-do-Catequista_ilha-Terceira_Foto-Igreja-Acores-EM-3-768x1024.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Angra_Dia-do-Catequista_ilha-Terceira_Foto-Igreja-Acores-EM-3-300x400.jpg 300w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Angra_Dia-do-Catequista_ilha-Terceira_Foto-Igreja-Acores-EM-3-1152x1536.jpg 1152w\" sizes=\"(max-width: 1536px) 100vw, 1536px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-323588\" class=\"wp-caption-text\">Foto Igreja A\u00e7ores\/EM<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>Come\u00e7amos pela liga\u00e7\u00e3o entre as festas do Esp\u00edrito Santo e a celebra\u00e7\u00e3o da autonomia. Estamos perante a maior celebra\u00e7\u00e3o religiosa e c\u00edvica dos A\u00e7ores. De que forma \u00e9 que esta celebra\u00e7\u00e3o define a identidade da popula\u00e7\u00e3o, digamos assim?<\/em><\/p>\n<p>Sim, esta celebra\u00e7\u00e3o que se faz sempre na segunda-feira do Pentecostes n\u00e3o acontece por acaso. Ela est\u00e1, antes de mais, muito enraizada nas tradi\u00e7\u00f5es culturais e religiosas dos A\u00e7ores, tanto que esta celebra\u00e7\u00e3o do Divino Esp\u00edrito Santo, por altura do Pentecostes, era parte integrante da identidade a\u00e7oriana. Tornou-se, por isso, um marco, n\u00e3o s\u00f3 na vida social e religiosa, mas tamb\u00e9m na vida pol\u00edtica, assumindo esta devo\u00e7\u00e3o ao Esp\u00edrito Santo. Desde longa data que, nos A\u00e7ores, celebrando-se a festa do Divino Esp\u00edrito Santo, foi marcando os passos das comunidades e n\u00e3o h\u00e1 a\u00e7oriano que possa viver sem as festas do Esp\u00edrito Santo, mas tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 a\u00e7oriano que n\u00e3o se sinta envolvido. Devo dizer que a primeira vez, h\u00e1 muito pouco tempo nos A\u00e7ores, participei nos 300 anos do Imp\u00e9rio, na Silveira, Pico &#8211; a ilha do Pico \u00e9 provavelmente a ilha onde \u00e9 mais significativa esta festa, talvez 600 ou 700 pessoas numa sala, onde, para al\u00e9m das cerim\u00f3nias religiosas, se partilhavam as famosas sopas do Esp\u00edrito Santo. E isto s\u00f3 para dar uma imagem do que significa. \u00c0 mesa estavam estas centenas de pessoas, todas em mesas corridas, sem distin\u00e7\u00e3o de ningu\u00e9m, onde estavam os pol\u00edticos, entre os quais o presidente do Governo Regional, deputados, autarcas, gente de todas as institui\u00e7\u00f5es e associa\u00e7\u00f5es, cl\u00e9rigos, tamb\u00e9m eu, e ningu\u00e9m estava acima de ningu\u00e9m, ningu\u00e9m estava em mesa distinta, a \u00fanica distin\u00e7\u00e3o que havia naquela grande sala era, sobre o palco, um pequeno trono com a coroa que simboliza o Esp\u00edrito Santo, esta presen\u00e7a de Deus no meio. Portanto, n\u00e3o h\u00e1 a\u00e7oriano que n\u00e3o viva esta realidade e de tal maneira se incultura que depois, quando saem, levam estas mesmas tradi\u00e7\u00f5es e as fazem de igual forma ou at\u00e9 ainda mais apuradas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Sente, portanto, que na regi\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 receio, problemas em manter esta rela\u00e7\u00e3o, desde que saud\u00e1vel, entre o profano e o religioso?<\/em><\/p>\n<p>Nem sempre foi f\u00e1cil. H\u00e1 aqui uma conce\u00e7\u00e3o muito comunit\u00e1ria, muito de express\u00e3o laical, do povo, o povo na sua inteireza, mas na sua complementaridade de pessoas. Ningu\u00e9m pergunta quem \u00e9 que vem \u00e0s sopas. H\u00e1 pouco falei numa sala grande, mas h\u00e1 lugares onde s\u00e3o salas pequenas que, vivendo durante a semana, durante os dias que precederam todos os dinamismos das festas do Esp\u00edrito Santo, podemos imaginar quantas pessoas s\u00e3o envolvidas a oferecer, com esmolas, oferecem imensas vacas para as festas, tudo \u00e9 gr\u00e1tis, e n\u00e3o tendo salas grandes, durante uma tarde inteira, passam centenas, milhares, h\u00e1 lugares onde s\u00e3o 5 ou 6 mil pessoas, que passam para comer tudo gratuitamente.<\/p>\n<p>Portanto, h\u00e1 aqui uma din\u00e2mica de solidariedade, de caridade, de partilha, que \u00e9 muito express\u00e3o quase de um poder intr\u00ednseco ao povo e nem sempre estes relacionamentos com a hierarquia ao longo dos s\u00e9culos foram pac\u00edficos. Num s\u00edtio porque as festas eram demasiado exuberantes, se calhar eram demasiado profanas, mas tamb\u00e9m porque qualquer coisa poderia fugir ali ao poder. Nalgumas alturas, houve tentativas de controlo, enfim, n\u00e3o t\u00e3o pac\u00edfico e d\u00e1-se conta que ningu\u00e9m se saiu bem daquilo. Hoje h\u00e1 uma pr\u00e1tica perfeitamente assumida pela Igreja desta colabora\u00e7\u00e3o. Os p\u00e1rocos dos lugares onde existem os Imp\u00e9rios, as sedes das pequenas irmandades, que depois gerem todas as din\u00e2micas das festas, v\u00e3o benzer as ofertas, as carnes, em muitos s\u00edtios \u00e9 assim. Mas depois tamb\u00e9m h\u00e1 dezenas de pessoas que fazem milhares de bolos ou de rosquilhas, como se chama, por exemplo, na Ilha do Pico, e isto tudo gratuito e distribu\u00eddo gratuitamente. H\u00e1 uma par\u00f3quia da Madalena que distribui, creio, umas 4 mil rodilhas, que s\u00e3o mais do que as pessoas que l\u00e1 vivem, quem vai pode levar gratuitamente.<\/p>\n<p>Hoje existe uma harmonia grande, aceitando que esta dimens\u00e3o comunit\u00e1ria e espont\u00e2nea da organiza\u00e7\u00e3o do povo, quase um poder, \u00e9 de todos, \u00e9 das pessoas, \u00e9 dos cl\u00e9rigos, \u00e9 do rico, \u00e9 do pobre, \u00e9 do mais culto, menos culto, e \u00e9 t\u00e3o bonito ver esta conviv\u00eancia espont\u00e2nea, como era tamb\u00e9m a Igreja dos primeiros tempos, podemos tamb\u00e9m a\u00ed chegar, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Falou ainda pouco da quest\u00e3o da di\u00e1spora. Esta marca identit\u00e1ria da devo\u00e7\u00e3o ao Esp\u00edrito Santo \u00e9 algo que tamb\u00e9m acompanha quem sai da ilha e que traz de volta tamb\u00e9m quando regressa?<\/em><\/p>\n<p>Mesmo que quem vive nos A\u00e7ores, quem cresce nesta dimens\u00e3o, nesta simbiose entre f\u00e9 e f\u00e9 inculturada que depois se faz cultura &#8211; quantos dos nossos grandes escritores nos A\u00e7ores escrevem apaixonadamente sobre as festas do Esp\u00edrito Santo, mas tamb\u00e9m se envolvem nelas. Quem vive desde mi\u00fado esta incultura\u00e7\u00e3o da festa, a religiosidade que se comunica uns aos outros, n\u00e3o a partir de hierarquia, mas da viv\u00eancia das casas. Dou ainda mais um exemplo, quando \u00e9 a prepara\u00e7\u00e3o da festa, em que h\u00e1 coroa\u00e7\u00e3o, nas casas recebe-se a coroa, reza-se o ter\u00e7o, convida-se os amigos, partilha-se o p\u00e3o. Quem faz estas experi\u00eancias e sai, j\u00e1 n\u00e3o consegue viver sem elas. Ir a uma das comunidades dos Estados Unidos, ou do Canad\u00e1, ou mesmo at\u00e9 no Brasil, Bermudas, ir a uma destas comunidades \u00e9 o mesmo que estar nos A\u00e7ores. As mesmas bandeiras, os mesmos s\u00edmbolos, a mesma coroa, o mesmo cetro, as mesmas din\u00e2micas das sopas, como se chama essa grande refei\u00e7\u00e3o, mesmo os doces. Estamos em casa e a vida, esta simbiose entre a religi\u00e3o e a viv\u00eancia cultural, solid\u00e1ria, de partilha \u00e9 a mesma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Tendo em conta a forte presen\u00e7a da comunidade a\u00e7oriana no pa\u00eds, existe um receio de uma eventual deporta\u00e7\u00e3o de imigrantes dos Estados Unidos?<\/em><\/p>\n<p>Alguns pol\u00edticos falaram nesta quest\u00e3o, afirmando que a ningu\u00e9m faltar\u00e1 o apoio dentro dos A\u00e7ores se voltarem. N\u00f3s temos a\u00e7orianos que voltaram por op\u00e7\u00e3o. O a\u00e7oriano \u00e9 um pouco diferente, por exemplo, do continental, em que quem vai sonha regressar, na grande maioria; aqui, quando sa\u00edram, sa\u00edram por trag\u00e9dias. Os grandes surtos de imigra\u00e7\u00e3o surgiram por trag\u00e9dias, ou vulc\u00f5es, ou terramotos, destrui\u00e7\u00e3o, e quando partiam n\u00e3o pensavam muito na casa que deixavam, nos bens que deixavam. Agora \u00e9 natural que alguns voltem, que se queiram voltar a estabelecer aqui, e a esses, mesmo do ponto de vista pol\u00edtico, se diz que a ningu\u00e9m faltar\u00e1 apoio. Ainda n\u00e3o \u00e9 muito relevante este regresso.<\/p>\n<p>Sabemos que alguns vivem receosos, \u00e0s vezes at\u00e9 evitando irem demasiado a lugares p\u00fablicos, com medo de serem repatriados. Ainda n\u00e3o \u00e9 relevante, mas h\u00e1 preocupa\u00e7\u00e3o, sem d\u00favida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 preocupada com a nova pol\u00edtica da administra\u00e7\u00e3o de Donald Trump e as repercuss\u00f5es que possa ter na base das Lajes?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 uma resposta que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de dar. E eu vou lhe dizer, h\u00e1 dois anos estive na Calif\u00f3rnia, em Turlock, e este \u00faltimo ano, faz agora um ano no ver\u00e3o, estive em Fall River. S\u00e3o duas zonas um bocadinho diferentes, tamb\u00e9m do ponto de vista pol\u00edtico. Num lado mais a influ\u00eancia republicana, na zona de S\u00e3o Francisco, naquelas zonas agr\u00edcolas, com grandes vacarias, e muitas delas portuguesas. A\u00ed h\u00e1, claramente, um forte enraizamento republicano e, portanto, um forte apoio a estas pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Os portugueses gostam das coisas bem feitas, sempre foram muito trabalhadores, muito esfor\u00e7ados, e, portanto, identificam-se com pol\u00edticas\u2026 n\u00e3o sei como lhe chamar, mas encontrei ali uma grande simpatia e uma enorme avers\u00e3o por tudo o que n\u00e3o era dessa linha. Mesmo at\u00e9 entre cl\u00e9rigos, nos Estados Unidos \u00e9 assim, quem tem uma op\u00e7\u00e3o tem, exprime, diz e defende.<\/p>\n<p>Do outro lado, n\u00e3o tanto, e a comunidade portuguesa est\u00e1 apreensiva. Mas, a certa altura, a uma pessoa at\u00e9 muito influente perguntei: \u201cent\u00e3o, isto, como \u00e9 que est\u00e1?\u201d E ele diz: \u201coh, senhor bispo, est\u00e1 bem, olha, eu votei Trump\u201d. Portanto, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil para n\u00f3s, estando aqui longe, fazermos uma avalia\u00e7\u00e3o e os nossos imigrantes s\u00e3o um bocadinho esse espelho. Est\u00e3o no meio do que \u00e9 a sociedade americana, partilham e sentem que h\u00e1 um radicalismo, um estremar de posi\u00e7\u00f5es que \u00e9 cada vez mais convicto e, portanto, h\u00e1 uma sociedade dividida, mas participam dela e a vida econ\u00f3mica, o trabalho continua. N\u00e3o sabemos o que \u00e9 que o futuro lhes trar\u00e1, mas n\u00e3o \u00e9, para muitos deles, uma grande preocupa\u00e7\u00e3o esta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A pergunta era no sentido de se perceber se a popula\u00e7\u00e3o das Lajes est\u00e1 preocupada com a eventual sa\u00edda, em definitivo, dos americanos da Base\u2026<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s tivemos milhares de americanos aqui a viver na Base das Lajes, agora est\u00e1 menos de uma centena. Teve um forte impacto quando as Lajes ficaram sem aquele ex\u00e9rcito permanente americano, tem c\u00e1 alguns avi\u00f5es, tem algumas pessoas, \u00e9 uma base est\u00e1 sempre montada, se for preciso vir algu\u00e9m, ainda se pensou ou temeu, digamos assim, que quando surgiu este conflito na Ucr\u00e2nia que pudessem vir americanos, ainda vieram para ir umas delega\u00e7\u00f5es ver, mas depois n\u00e3o aumentou. A grande \u201ctrag\u00e9dia\u201d para a Terceira foi quando desmobilizaram esta presen\u00e7a americana, depois teve um per\u00edodo quase de negocia\u00e7\u00f5es com outros pa\u00edses, nomeadamente com a China, que estaria eventualmente interessada, depois voltou-se a estabilizar, mas neste momento s\u00e3o poucos os americanos presentes, de tal maneira que n\u00e3o \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o para a ilha.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Que balan\u00e7o faz dos pouco mais de dois anos como bispo de Angra? J\u00e1 conhece o rebanho e o seu cheiro?<\/em><\/p>\n<p>Olha, eu posso dizer que j\u00e1 conhe\u00e7o o rebanho e que j\u00e1 sinto muito mais hoje e sofro e caminho com este povo, com este rebanho, vamos dizer assim, com este grande povo de irm\u00e3os, este povo bom, que ainda continuo, como \u00e9 evidente, a conhecer, mas que j\u00e1 agora conhe\u00e7o tamb\u00e9m tantas pessoas. Vou muito pelas ilhas, eu cheguei ontem aqui a casa, \u00e0 Terceira, mas estive mais de 15 dias fora, em tr\u00eas ilhas, portanto \u00e9 normal eu viver fora de casa e o balan\u00e7o \u00e9 sempre dif\u00edcil de fazer, mas conhecer, posso dizer que j\u00e1 conhe\u00e7o quase todos os cantos das ilhas todas. Nalgumas delas fiz visita pastoral, portanto, foram mesmo os cantos todos. Depois, n\u00f3s vamo-nos conhecendo e continuo a conhecer e a descobrir as caracter\u00edsticas deste povo, tamb\u00e9m dos padres, das pessoas que colaboram comigo. Depois do descobrir, tamb\u00e9m j\u00e1 estamos numa fase em que, seja do ponto de vista pastoral, nas suas vertentes evangelizadoras, sociais, j\u00e1 se podem fazer projetos.<\/p>\n<p>Temos em m\u00e3o o grande projeto a 10 anos, at\u00e9 aos 500 anos da Diocese, que ser\u00e1 em 2034, completamos 500 anos e vamos iniciar ciclos de tr\u00eas anos desta caminhada conjunta, gostar\u00edamos de envolver o povo todo, o povo de Deus, n\u00e3o s\u00f3 o povo praticante, digamos assim, mas sermos capazes de ouvir todos, de dar aten\u00e7\u00e3o a todos, dar a voz a todos, que \u00e9 o mais dif\u00edcil nos tempos que correm. As pessoas est\u00e3o envolvidas em muitas coisas, preocupadas com muitas coisas e n\u00f3s n\u00e3o podemos pensar que temos de andar com as pessoas todas a vir ter connosco, mas encontrar formas tamb\u00e9m de evangelizarmos saindo. Depois, tamb\u00e9m, o sentir que j\u00e1 estamos nesta fase de programar e pensar nalgumas prioridades, nomeadamente esta dimens\u00e3o mais solid\u00e1ria, t\u00e3o presente nas festas do Esp\u00edrito Santo, esta dimens\u00e3o t\u00e3o necess\u00e1ria de respondermos n\u00e3o s\u00f3 num dia de festa, partilhando tudo e estando com todos, mas fazer disso a nossa vida do dia-a-dia. As comunidades t\u00eam de ser muito mais fraternas, muito mais atentas, muito mais pr\u00f3ximas, o Evangelho tem de ser como este p\u00e3o ou esta carne ou este vinho que se partilha em dia do Esp\u00edrito Santo e temos de o tornar constitutivo da vida das comunidades.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Do conhecimento que j\u00e1 tem das comunidades, porque estava a falar claramente de um apelo \u00e0 solidariedade e \u00e0 fraternidade, confirmou a ideia de que estamos perante uma das regi\u00f5es mais deprimidas, mais pobres do pa\u00eds?<\/em><\/p>\n<p>Os\u00a0dados dizem-nos isso, n\u00f3s temos mais de 28% de a\u00e7orianos a viver em risco de pobreza, quase uma ter\u00e7a parte. Tamb\u00e9m aqui nos A\u00e7ores, 8% da popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 mesmo em situa\u00e7\u00e3o de priva\u00e7\u00e3o material severa e o rendimento m\u00e9dio \u00e9 tamb\u00e9m calculado 10% abaixo da m\u00e9dia nacional. Somos uma regi\u00e3o onde o governo com as suas medidas de apoio tenta e tem conseguido desenvolver pol\u00edticas que t\u00eam diminu\u00eddo a gravidade da situa\u00e7\u00e3o, mas mesmo com todas as IPSS e institui\u00e7\u00f5es que est\u00e3o no terreno, h\u00e1 muito a fazer.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Subsistem bolsas de pobreza nalgumas zonas do territ\u00f3rio?<\/em><\/p>\n<p>Temos, os A\u00e7ores t\u00eam. As ilhas pequenas passam um bocadinho despercebidas, h\u00e1 pequenos focos, mas sobretudo as ilhas maiores. E aqui, na Terceira, bastante, mas muito mais, a ilha de S\u00e3o Miguel, a grande ilha de S\u00e3o Miguel, que atrai a todos.<\/p>\n<p>E hoje em dia, para al\u00e9m destas dificuldades estruturais, temos a grande praga das subst\u00e2ncias que criam depend\u00eancias, nomeadamente as qu\u00edmicas. Para al\u00e9m destas dificuldades estruturais, digamos assim, da pobreza, n\u00f3s temos agora realidades novas. Tamb\u00e9m temos muitos sem-abrigo, mas sobretudo estas drogas sint\u00e9ticas que vieram atirar muitos jovens para as cadeias, para as ruas, para a mis\u00e9ria, para fora das escolas.<\/p>\n<p>H\u00e1 aqui dramas que s\u00e3o tamb\u00e9m avolumados devido ao facto de serem ilhas, de serem mais fechadas, mas onde todas estas propostas novas chegam e chegam com viol\u00eancia. A Igreja tamb\u00e9m est\u00e1, neste momento, a refletir isto seriamente, e a procurar tamb\u00e9m respostas, at\u00e9 olhando para as festas do Esp\u00edrito Santo, com esta dimens\u00e3o da proximidade, da preocupa\u00e7\u00e3o, da partilha, da esmola que se d\u00e1 sem esperar nada em troca. E lan\u00e7ar nas comunidades os frutos do Esp\u00edrito Santo, o amor, a alegria, a partilha. Enfim, quanto n\u00f3s podemos dar como contributo a esta car\u00eancia social e esta pobreza estrutural que n\u00f3s temos nalguns s\u00edtios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Qual \u00e9 que est\u00e1 a ser o papel da Igreja Cat\u00f3lica junto destas popula\u00e7\u00f5es mais desfavorecidas?<\/em><\/p>\n<p>A Igreja, para j\u00e1, \u00e9 quem est\u00e1 mais metida ao lado das pessoas. S\u00f3 pela pr\u00f3pria presen\u00e7a, por tudo aquilo que representa de integrador nos seus diversos grupos, da catequese, de grupos juvenis, de pastoral juvenil, de fam\u00edlias. Enfim, sentimos que nos \u00e9 pedido muito aqui nos A\u00e7ores.<\/p>\n<p>Mas depois tamb\u00e9m, neste momento, seja com os servi\u00e7os sociais de C\u00e1ritas, Servi\u00e7o Diocesano de Caridade, Vicentinos, todos, estamos aqui a iniciar tamb\u00e9m alguns trajetos novos. Um deles prende-se com a grande preocupa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o haja comunidades que n\u00e3o tenham gente atenta \u00e0s novas pobrezas. As pessoas ainda est\u00e3o muito a olhar para os subs\u00eddios, para as ajudas externas. N\u00f3s temos de introduzir dentro das c\u00e9lulas do nosso territ\u00f3rio, que s\u00e3o, por exemplo, as nossas par\u00f3quias, as nossas comunidades, mas que extravasem para al\u00e9m da vida restrita das comunidades e daqueles grupos organizados a quem se recorre no momento de mis\u00e9ria ou de pobreza, termos estruturas permanentes, como temos de catequese, como temos de liturgia. Se n\u00f3s n\u00e3o assumirmos que \u00e9 preciso construir isto, e \u00e9 na \u00e1rea social que mais se pode ser Igreja evangelizadora, porque congregar pessoas que n\u00e3o estejam propriamente no n\u00famero dos praticantes, envolver saberes, gente que perceba de assist\u00eancia social, de psicologia. Estes grupos caritativos e sociais t\u00eam de ter uma roupagem nova.<\/p>\n<p>Estamos a tentar fazer este caminho de reflex\u00e3o, tamb\u00e9m de organiza\u00e7\u00e3o, at\u00e9 com outros saberes, com outras pessoas, at\u00e9 do mundo empresarial que nos est\u00e3o a dar algumas achegas para este caminho, porque n\u00e3o podemos ficar de olhos fechados e simplesmente dizer, \u201cah, n\u00f3s n\u00e3o temos pobres\u201d. Isto \u00e9, todos comem, todos t\u00eam uma mesa, mas h\u00e1 muitas pobrezas hoje que n\u00e3o deixam evoluir e sair desta situa\u00e7\u00e3o de car\u00eancia e desta situa\u00e7\u00e3o assistencialista, para n\u00e3o dizer subsidiodepend\u00eancia. Porque, \u00e0s vezes, aquilo que se ouve na sociedade, que o povo diz e que alguns partidos proclamam e tornam a sociedade fraturada e uns contra os outros, que n\u00e3o pode ser, tem de nos alertar. Quem fala nas organiza\u00e7\u00f5es destes grupos de proximidade, que t\u00eam de ter mais forma\u00e7\u00e3o, mais capacidade, um voluntarismo mais formado, n\u00f3s precisamos tamb\u00e9m, depois, perceber at\u00e9 que ponto \u00e9 que o que n\u00f3s fazemos, tamb\u00e9m do ponto de vista caritativo, ajuda as pessoas a desenvolver-se, a ser protagonistas do seu pr\u00f3prio desenvolvimento. E isto \u00e9 atender, \u00e9 amar, \u00e9 eventualmente formar, sacrificar-nos, mas ajudar a que as pessoas assumam a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, porque, se n\u00e3o, segundo a terceira gera\u00e7\u00e3o, sabe que se pode viver sem trabalhar: isto \u00e9 terr\u00edvel, \u00e9 n\u00e3o ter esperan\u00e7a nenhuma na vida, \u00e9 sentar-se na cadeira \u00e0 espera que o mundo passe. H\u00e1 aqui desafios muito grandes que estamos a agarrar, que estamos a refletir e que vamos levar para a frente, procurando sempre incluir todos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na v\u00e9spera do Dia da Regi\u00e3o Aut\u00f3noma, a segunda-feira do Esp\u00edrito Santo, o bispo de Angra \u00e9 convidado da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":334068,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[169,199],"class_list":["post-378984","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-diocese-de-angra","tag-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/378984","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=378984"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/378984\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/334068"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=378984"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=378984"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=378984"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}