{"id":37875,"date":"2009-03-27T12:08:01","date_gmt":"2009-03-27T12:08:01","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/03\/27\/ii-catequese-quaresmal-do-bispo-do-porto\/"},"modified":"2009-03-27T12:08:01","modified_gmt":"2009-03-27T12:08:01","slug":"ii-catequese-quaresmal-do-bispo-do-porto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/ii-catequese-quaresmal-do-bispo-do-porto\/","title":{"rendered":"II Catequese Quaresmal do Bispo do Porto"},"content":{"rendered":"<p>\u00abDa evangeliza\u00e7\u00e3o feita \u00e0 evangeliza\u00e7\u00e3o a fazer: etapas mission\u00e1rias da Diocese do Porto\u00bb <!--more--> Ainda na primeira etapa da evangeliza\u00e7\u00e3o da diocese do Porto, principalmente com S. Martinho de Dume, nosso metropolita a partir de 569, entrevimos um cristianismo que se ia afirmando e organizando paulatinamente, entre a incultura\u00e7\u00e3o e a tens\u00e3o com a religiosidade aut\u00f3ctone, ainda t\u00e3o naturalista e polite\u00edsta, como m\u00e1gica e local. Tempos sucederam-se aos tempos. Desde o s\u00e9culo VIII a Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica conheceu o dom\u00ednio \u00e1rabe e a \u201creconquista\u201d crist\u00e3, com avan\u00e7os e recuos m\u00fatuos. Neste contexto nascer\u00e1 Portugal, de norte para sul, em meados do s\u00e9culo XII.  Sabemos alguma coisa do que sucedeu aos crist\u00e3os do Porto durante esse per\u00edodo. Uns teriam fugido mais para norte, refugiando-se em territ\u00f3rio crist\u00e3o ou reconquistado; outros teriam permanecido sob dom\u00ednio \u00e1rabe (mo\u00e7\u00e1rabes); por fim, foram-se reorganizando eclesialmente sob dom\u00ednio portucalense. Com a ordena\u00e7\u00e3o do bispo D. Hugo em 1113, a diocese do Porto ganha a normalidade conhecida. Nos \u00faltimos s\u00e9culos medievais consolidou-se a organiza\u00e7\u00e3o diocesana, com uma rede paroquial em subdivis\u00e3o crescente e o acompanhamento episcopal mais preciso. As coisas n\u00e3o se passavam t\u00e3o linearmente como hoje, nem na administra\u00e7\u00e3o nem na defini\u00e7\u00e3o pastoral. Os bispos integravam-se no sistema senhorial da altura \u2013 pertencendo-lhes, para mais, o burgo do Porto \u2013 e os problemas \u201cpol\u00edticos\u201d, locais e nacionais, levaram grande parte do seu tempo e preocupa\u00e7\u00f5es. As par\u00f3quias dependiam duma grande variedade de \u201cpadroeiros\u201d temporais, que preponderavam na respectiva administra\u00e7\u00e3o e rendimentos, algo id\u00eantico se passando com as casas religiosas, muitas vezes isentas ou arredadas da interven\u00e7\u00e3o episcopal.  Quanto a pessoas, nem os fi\u00e9is nem alguns membros do clero ultrapassavam uma cultura elementar, totalmente ou quase analfabeta. Cabidos, colegiadas e mosteiros podiam ir um pouco mais longe neste aspecto, com irradia\u00e7\u00e3o vari\u00e1vel para o Povo de Deus em geral.  No s\u00e9culo XIII os mendicantes (franciscanos, dominicanos\u2026) trouxeram-nos mais frescura evang\u00e9lica e outra proximidade apost\u00f3lica com as popula\u00e7\u00f5es. Foi decisiva a sua influ\u00eancia na piedade e na devo\u00e7\u00e3o, dando-lhes mais orienta\u00e7\u00e3o cristoc\u00eantrica e mariana, mais sentido de reden\u00e7\u00e3o e caridade. Desenvolveram-se concomitantemente as \u201cordens terceiras\u201d, as irmandades ou confrarias, as institui\u00e7\u00f5es assistenciais, corporativas ou outras. Foi este o grande ganho da cristandade medieval tardia: uma rede densa e diversificada de comunidades locais e organiza\u00e7\u00f5es caritativas, com ampla participa\u00e7\u00e3o de cl\u00e9rigos, religiosos e leigos. De tempos a tempos, os bispos deviam reunir os cl\u00e9rigos mais responsabilizados, fazendo s\u00ednodos para divulgarem decis\u00f5es can\u00f3nicas e pastorais, de ordem geral ou particular. Mais frequentemente ainda, deviam visitar as par\u00f3quias, pessoalmente ou por outros, verificando o estado das pessoas e das coisas, confirmando ou corrigindo o que encontrassem. A documenta\u00e7\u00e3o dos s\u00ednodos diocesanos e das visita\u00e7\u00f5es, da Baixa Idade M\u00e9dia \u00e0 Modernidade, tem o maior interesse para avaliarmos esta nova etapa da evangeliza\u00e7\u00e3o da nossa Diocese. Muita se perdeu, mas alguma felizmente se conserva, como advert\u00eancia e sinal para os tempos de hoje. O precioso Synodicon Hispanum, no volume correspondente a Portugal, traz-nos not\u00edcias de v\u00e1rios s\u00ednodos da nossa diocese, como sejam o do bispo D. Juli\u00e3o Fernandes, que foi prelado portucalense de 1247 a 1260, o de D. Vicente Mendes em 1265, o de D. Jo\u00e3o Gomes em 1326, o de D. Pedro Afonso em 1344, os de D. Afonso Pires em 1360 e 1371, o de D. Ant\u00e3o Martins de Chaves em 1430, o de D. Gon\u00e7alo Anes uns vinte anos depois, o de D. Jo\u00e3o de Azevedo, tamb\u00e9m em altura incerta do seu longo episcopado (1465-1495), e o de D. Diogo de Sousa, realizado a 24 de Agosto de 1496. \u00c9 neste \u00faltimo que nos deteremos, dada a sua grande import\u00e2ncia a v\u00e1rios t\u00edtulos. O referido Synodicon apresenta assim o bispo &#8211; que presidiu \u00e0 diocese de 1496 a 1503, sendo depois arcebispo de Braga &#8211; e a sua inten\u00e7\u00e3o pastoral: \u201cD. Diogo de Sousa [\u2026], descendente de uma nobre fam\u00edlia, era de\u00e3o da Capela Real ao ser nomeado bispo do Porto. Estudou em \u00c9vora, Salamanca e Paris, onde obteve o grau de doutor em teologia. Pouco depois de tomar posse da diocese do Porto reuniu s\u00ednodo no dia 24 de Agosto de 1496. Foi um dos prelados mais not\u00e1veis do seu tempo pela cultura e pelo zelo em manter a disciplina eclesi\u00e1stica nas duas dioceses que governou\u201d (Synodicum Hispanum. II Portugal. Dirigido por Antonio Garcia y Garcia. Madrid: BAC, 1982, p. 354). Tendo vivido em Salamanca, Paris e Roma, D. Diogo chegara ao Porto imbu\u00eddo do reformismo cat\u00f3lico que alguns esp\u00edritos j\u00e1 evidenciavam nesses ambientes, certamente em contraste com muitos outros, mais desmotivados ou distra\u00eddos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s grandes urg\u00eancias apost\u00f3licas da altura.   O que D. Diogo de Sousa nos evidenciar\u00e1 \u00e9 a forte componente pastoral e catequ\u00e9tica que esta nova etapa da evangeliza\u00e7\u00e3o da Diocese pretendeu ter. Pastoral, antes de mais, pela insist\u00eancia na vida e no minist\u00e9rio dos pastores; catequ\u00e9tica, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 forma\u00e7\u00e3o dos fi\u00e9is.   Apresentando-se ao clero na sua pessoa e prop\u00f3sitos, o prelado conjugava logo, em m\u00fatua ajuda e conselho, o trabalho que todos deviam levar por diante:   \u201c\u2026 trazendo-nos Deus a este bispado por vosso bispo e irm\u00e3o, quisemos celebrar este santo s\u00ednodo para que nele me v\u00edsseis e conhec\u00easseis e vos declarasse a minha ten\u00e7\u00e3o acerca do que cumpre a regimento meu e vosso e assim desta igreja. Desejo certo muito n\u00e3o ser do conto daqueles que esconderam o dinheiro que lhes seu senhor deu para ganharem com ele e n\u00e3o fizeram dele fruto, mas queria com a gra\u00e7a de nosso Senhor e vossa ajuda e conselho o servir e viver segundo a ordem em que sou posto, e que v\u00f3s outros com a dita gra\u00e7a e meu conselho e ajuda pud\u00e9sseis outro tanto fazer\u201d (Cf. Synodicon, p. 355).  E muito havia a fazer, desdobrando-se o s\u00ednodo em sessenta \u201cconstitui\u00e7\u00f5es\u201d, que disp\u00f5em detalhadamente sobre os mais variados pontos pessoais e materiais, lit\u00fargicos e disciplinares, etc. Naturalmente, tais disposi\u00e7\u00f5es verificavam ou aplicavam no Porto o que D. Diogo conhecia e tirava da Cristandade em geral, referindo-se simultaneamente ao que acontecia, ao que n\u00e3o devia acontecer e ao que queria que acontecesse. Todo o reformismo eclesial pretende retomar mais intensamente a \u201cforma\u201d inicial da Igreja, como se depreende dos Evangelhos, dos Actos dos Ap\u00f3stolos e dos outros textos do Novo Testamento. Eclesialmente relidos, esses textos s\u00e3o tamb\u00e9m aprofundados, com a sucess\u00e3o dos tempos e das circunst\u00e2ncias. Assim sendo, reparamos que as v\u00e1rias \u201creformas\u201d ou \u201crenascen\u00e7as\u201d do nosso devir crist\u00e3o acentuam mais este ou aquele aspecto, conforme o respectivo contexto. Assim falamos de \u201crenascen\u00e7a carol\u00edngia\u201d, entre os s\u00e9culos VIII e IX, quando na pessoa de Carlos Magno, se tentou restaurar o Imp\u00e9rio crist\u00e3o ocidental, com tudo o que isso implicou de doutrina e cultura, al\u00e9m do mais. Ou falamos de \u201creforma gregoriana\u201d, quando, antes, durante e depois do pontificado de Greg\u00f3rio VII, na segunda metade do s\u00e9culo XI, se tentou \u201clibertar\u201d as institui\u00e7\u00f5es eclesi\u00e1sticas da submiss\u00e3o feudal em que se encontravam e reviver entre os cl\u00e9rigos a \u201cvida apost\u00f3lica\u201d, mais espiritual e colegial. Nos alvores da modernidade cat\u00f3lica, t\u00e3o bem representada no Porto por D. Diogo de Sousa, procurava-se uma maior defini\u00e7\u00e3o doutrinal e vivencial, para relan\u00e7ar a vida crist\u00e3 em todos os sectores sociais. Come\u00e7ando pelo pr\u00f3prio clero, numa linha que seria refor\u00e7ada depois pelo Conc\u00edlio de Trento (1545-1563), definindo sobremaneira o catolicismo ocidental subsequente. A esta luz se poder\u00e3o compreender porventura melhor as seguintes disposi\u00e7\u00f5es de D. Diogo, acentuando uma distin\u00e7\u00e3o \u201cexemplar\u201d dos cl\u00e9rigos em rela\u00e7\u00e3o aos outros fi\u00e9is, em contraste conversor, como era tomado na altura:  \u201c\u2026 ordenamos e mandamos, porque a vida dos cl\u00e9rigos n\u00e3o somente h\u00e1-de ser diferenciada dos leigos nas obras, mas ainda nas vestiduras e conversa\u00e7\u00e3o e falas, [\u2026] que da publica\u00e7\u00e3o desta nossa constitui\u00e7\u00e3o em diante as dignidades, c\u00f3negos, beneficiados da dita nossa igreja e assim das outras da cidade e de nosso bispado sejam mansos, honestos em todos seus autos e falas, a assim pratiquem e tratem as coisas do mundo como pessoas que nele menos parte devem de ter\u201d (Cf. Synodicon, p. 359).  A \u201creforma\u201d devia come\u00e7ar pelos cl\u00e9rigos, que deviam ser \u201cmansos e honestos\u201d, conformando-se mais com Cristo, sem darem azo a qualquer ambiguidade no estar, no falar e no agir. Ser\u00e1 essa, repito, a grande insist\u00eancia do conc\u00edlio Trento no que respeita aos pastores e \u00e0 pastoral, designadamente com a institui\u00e7\u00e3o dos Semin\u00e1rios, que na nossa diocese teve de esperar pelo s\u00e9culo XIX\u2026 Passando esta \u201cetapa da evangeliza\u00e7\u00e3o\u201d pela redefini\u00e7\u00e3o do clero em termos de estar e agir, insistia tamb\u00e9m na sua habilita\u00e7\u00e3o b\u00e1sica para o of\u00edcio sacerdotal. Tanto mais que algumas disposi\u00e7\u00f5es de D. Diogo de Sousa nos esclarecem sobre o muito que faltava neste ponto, quer aqui quer pelo pa\u00eds fora e a cristandade geral da altura:  \u201cSabendo por muitos dignos de crer com quanta ignor\u00e2ncia neste bispado os sacramentos da Igreja se ministram, estabelecemos e mandamos sob pena de excomunh\u00e3o a todos os cl\u00e9rigos, especialmente aos de missa que t\u00eam cura de almas, que daqui em diante aprendam a ler, cantar e rezar como a seu of\u00edcio s\u00e3o obrigados, em maneira que n\u00e3o mintam no que lerem. E saibam reger o brevi\u00e1rio e assim digam missa manso e apontadamente [\u2026]. E assim lhe mandamos que os outros sacramentos especialmente o do baptismo celebrem e d\u00eaem pausadamente\u2026\u201d (Cf.  Synodicon, p. 361).  Outra das insist\u00eancias tridentinas seria a da \u201cresid\u00eancia\u201d e perman\u00eancia geral dos pastores nas comunidades que lhes fossem atribu\u00eddas, tentando ultrapassar pr\u00e1ticas anteriores, tantas vezes mais lucrativas do que propriamente ministeriais. Mas o que conc\u00edlio voltaria a dispor, repetindo ali\u00e1s tomadas de posi\u00e7\u00e3o mais antigas, estava j\u00e1 presente no esp\u00edrito e nas indica\u00e7\u00f5es dos pastores mais reformistas e zelosos, como era o caso do prelado portuense que vimos escutando, no s\u00ednodo de 1496. Mais concretamente:  \u201c\u2026 porque os beneficiados que t\u00eam cura de almas s\u00e3o obrigados de direito fazer cont\u00ednua resid\u00eancia pessoal nos ditos seus benef\u00edcios em que t\u00eam a dita cura, [\u2026] n\u00f3s mandamos a todos os beneficiados [\u2026] que, da publica\u00e7\u00e3o desta nossa constitui\u00e7\u00e3o em diante, se v\u00e3o assentar nos ditos seus benef\u00edcios e fa\u00e7am continuadamente resid\u00eancia pessoal\u201d (Cf. Synodicon, p. 365).  Este tipo de insist\u00eancias, pr\u00e9 e p\u00f3s-tridentinas, foi ganhando aplica\u00e7\u00e3o nos tempos modernos. E o mesmo se diga das que diziam respeito ao decoro pr\u00f3prio dos templos, como casas de ora\u00e7\u00e3o e doutrina. Pouco a pouco se foram distinguindo melhor fun\u00e7\u00f5es, tempos e lugares, como acabou por prevalecer. Voltemos ao nosso s\u00ednodo diocesano de 1496:  \u201c\u2026 ordenamos e estabelecemos e mandamos a todos os abades e capel\u00e3es que os mosteiros e igrejas de nosso bispado estejam limpas e varridas e desocupadas de todas as coisas tocantes a suas rendas, tirando aquelas que s\u00e3o necess\u00e1rias para celebrar missas e os of\u00edcios divinos, porque o trabalho corporal que nisso pode levar e receber \u00e9 grande fundamento e causa da limpeza da alma e d\u00e1 azo como o povo a maior devo\u00e7\u00e3o seja provocado\u201d (Cf. Synodicon, p. 370).  Para D. Diogo de Sousa era clara e directa a rela\u00e7\u00e3o entre limpeza material dos templos e purifica\u00e7\u00e3o espiritual do culto. E assim mesmo estipulava que fosse, igreja a igreja, religiosa ou paroquial, por toda a diocese. Com igual ou maior intensidade, queria o bispo que os fi\u00e9is se afervorassem na pr\u00e1tica sacramental, ponto em que verificava muita irregularidade. Ponto tamb\u00e9m que, algumas d\u00e9cadas depois, havia de refor\u00e7ar a identidade cat\u00f3lica em rela\u00e7\u00e3o ao protestantismo em geral. Da\u00ed o seguinte passo:  \u201c\u2026 achamos que certos sacramentos s\u00e3o necess\u00e1rios a qualquer fiel crist\u00e3o, os que s\u00e3o: baptismo, confirma\u00e7\u00e3o, penit\u00eancia e \u00faltima un\u00e7\u00e3o e Eucaristia. E chamam-se necess\u00e1rios porque nenhuma pessoa sem eles pode ser salva, podendo-os haver [\u2026]. E porque somos informados que muitos dos nossos s\u00fabditos que h\u00e3o nome de baptizados e confirmados, e n\u00e3o no parecem ser, pois n\u00e3o seguem o que ordena e manda a Santa Madre Igreja, n\u00e3o se querendo muitas vezes confessar e outras comungar e outras n\u00e3o receber o sacramento da un\u00e7\u00e3o, [\u2026] pelo qual ordenamos e mandamos que todo o abade, capel\u00e3o, tanto que souber que algum seu fregu\u00eas \u00e9 doente o v\u00e3o visitar\u2026\u201d (Synodicon, p. 376).  Insistia-se numa pastoral total, em tempos de cristandade totalizante. Mas tirando da\u00ed a aplica\u00e7\u00e3o decorrente, com muito maior exig\u00eancia para cl\u00e9rigos e fi\u00e9is. A Europa moderna, nos seus alvores, caminharia no sentido das defini\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-religiosas exigentes, por a\u00ed passando tamb\u00e9m a nova etapa da evangeliza\u00e7\u00e3o. De facto, ao longo dos s\u00e9culo XVI e XVII as reformas ser\u00e3o tamb\u00e9m e mutuamente contra-reformas, afirmando-se por exig\u00eancia e contraste. N\u00e3o podemos acompanhar ponto por ponto as disposi\u00e7\u00f5es do s\u00ednodo de 1496, momento alto da hist\u00f3ria pastoral portucalense. Mas em algo mais temos obrigatoriamente de nos deter, ainda que em simples relance.   Refiro-me ao aspecto doutrinal e catequ\u00e9tico, que foi ent\u00e3o a par com o j\u00e1 indicado refor\u00e7o pastoral do minist\u00e9rio. D. Diogo de Sousa reparava numa ignor\u00e2ncia religiosa t\u00e3o geral como inadmiss\u00edvel. E reagia nestes termos:  \u201c&#8230; porquanto somos ora informado, pelos visitadores que at\u00e9 aqui foram neste bispado e assim por muitas pessoas dignas de crer, que muitos fregueses assim homens como mulheres das igrejas deste nosso bispado, por sua neglig\u00eancia e rudeza e culpa dos abades e capel\u00e3es, n\u00e3o sabem o Pater noster, nem Ave Maria, nem mais pouco sabem os preceitos e mandamentos, nem as obras de miseric\u00f3rdia, nem os pecados mortais, pelo qual n\u00e3o se sabem confessar, [\u2026] mandamos que daqui em diante todos os abades, reitores e capel\u00e3es das igrejas do dito nosso bispado que [\u2026] a todos os domingos que obrigados forem celebrar e disserem as missas, \u00e0 oferta delas, ensinem a todos os seus fregueses em modo que o bem possam aprender por linguagem os preceitos e mandamentos\u2026\u201d (Synodicon, p. 377).                                    Com este not\u00e1vel prelado portucalense, a situa\u00e7\u00e3o estava advertida e o rem\u00e9dio adiantado e urgido. Nas d\u00e9cadas seguintes foi-o cada vez mais, caracterizando a pastoral moderna e acompanhando necessidades refor\u00e7adas de doutrina e apolog\u00e9tica. Acompanhando tamb\u00e9m as novas possibilidades provindas da divulga\u00e7\u00e3o da imprensa. Respiguemos, a prop\u00f3sito, algumas frases dum autor recente, historiando os catecismos portugueses: \u201cEm Portugal, a grande campanha n\u00e3o foi contra a heresia, mas sim contra a ignor\u00e2ncia: ilustrar a f\u00e9 e ensinar aos baptizados a doutrina e o caminho da salva\u00e7\u00e3o. [\u2026] O mais grave, no aspecto da ignor\u00e2ncia religiosa, \u00e9 que n\u00e3o se tratava de uma ignor\u00e2ncia apenas dos fi\u00e9is, mas, sobretudo, daqueles que tinham a miss\u00e3o de os ensinar nos mist\u00e9rios da f\u00e9, os pastores. Esta \u00e9 a raz\u00e3o por que a maior parte dos catecismos est\u00e1 dirigida \taos p\u00e1rocos\u201d (RAMOS, Ant\u00f3nio Manuel Moiteiro \u2013 Os catecismos portugueses. Lisboa. Paulinas, 1998, p. 22-24). Importante \u00e9 real\u00e7ar, quando nos preparamos para a Miss\u00e3o 2010, que o s\u00ednodo portucalense de 1496 foi, tamb\u00e9m nesta mat\u00e9ria, verdadeiramente inaugural e inovador: \u201cS\u00e3o not\u00e1veis estas constitui\u00e7\u00f5es sinodais porque t\u00eam um ap\u00eandice, infelizmente mutilado no exemplar existente, com o que se pode chamar o mais antigo catecismo portugu\u00eas impresso\u201d (Synodicon, p. 354).  <i>D. Manuel Clemente <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abDa evangeliza\u00e7\u00e3o feita \u00e0 evangeliza\u00e7\u00e3o a fazer: etapas mission\u00e1rias da Diocese do Porto\u00bb<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[127,172,175,187,190,203,206,213,91,294],"class_list":["post-37875","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-catequese","tag-diocese-de-braga","tag-diocese-de-evora","tag-diocese-do-porto","tag-dominicanos","tag-europa","tag-familia","tag-franciscanos","tag-quaresma","tag-sacramentos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37875","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=37875"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37875\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=37875"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=37875"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=37875"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}