{"id":378712,"date":"2025-06-03T09:15:27","date_gmt":"2025-06-03T08:15:27","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=378712"},"modified":"2025-06-09T14:44:57","modified_gmt":"2025-06-09T13:44:57","slug":"as-empadas-de-francisco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/as-empadas-de-francisco\/","title":{"rendered":"As empadas de Francisco"},"content":{"rendered":"<p><em>Jorge Pires Ferreira, Diocese de Aveiro<\/em><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jorge-Pires-Ferreira.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-270080 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jorge-Pires-Ferreira-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jorge-Pires-Ferreira-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jorge-Pires-Ferreira-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jorge-Pires-Ferreira-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jorge-Pires-Ferreira-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jorge-Pires-Ferreira.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>De uma coisa, de certeza, os jornalistas n\u00e3o se podiam queixar em rela\u00e7\u00e3o ao pontificado de Francisco: a falta de not\u00edcias. Se em algum momento surgisse alguma esp\u00e9cie de t\u00e9dio medi\u00e1tico, bastava procurar uma ag\u00eancia de not\u00edcias cat\u00f3lica (evidentemente, a Ecclesia) ou a agenda do Papa no site do Vaticano e de imediato n\u00e3o faltavam not\u00edcias: uma mensagem num encontro, um documento inesperado, algu\u00e9m a dizer que o Papa lhe tinha telefonado, uma visita papal n\u00e3o programada, um gesto de bondade com ecos prof\u00e9ticos, uma fotografia original&#8230; Foi um pontificado rico em imagens, palavras, gestos, de um Papa grande comunicador.<\/p>\n<p>Em tempos de hipermediatiza\u00e7\u00e3o \u2013 em todo o momento sabemos tudo o que acontece no mundo, gra\u00e7as ao pequeno ecr\u00e3 que trazemos no bolso e \u00e0s centenas de canais de informa\u00e7\u00e3o \u2013, Francisco foi o p\u00e1roco do mundo, algu\u00e9m que as pessoas sentiam pr\u00f3ximo, mesmo sem alguma vez o terem visto ao vivo. Durante anos, todos os dias, as ag\u00eancias difundiram diariamente as homilias matinais do Papa na Casa de Santa Marta, sempre incisivas, simples, mas com novidade.<\/p>\n<p>Duvido que seja \u201cser p\u00e1roco do mundo\u201d o que se pede a um papa, o sucessor de Pedro e chefe da Igreja Cat\u00f3lica por ser bispo de Roma. Mas, com os gestos marcantes que teve e na sociedade de comunica\u00e7\u00e3o em que vivemos, foi esse o resultado. O mundo tinha um p\u00e1roco. Ali\u00e1s, a sinodalidade que o Papa tanto quis significa passar o poder, ou boa parte dele, para as bases. E isto implica, pelo menos, relativizar as lideran\u00e7as. Uma igreja sinodal ser\u00e1 uma igreja menos papalizada, menos episcopalizada, menos presbiteralizada, ou, como Francisco tanto pregou, menos clerical.<\/p>\n<p>No rescaldo de mais um dia da Comunica\u00e7\u00f5es Sociais, vale a pena olhar para o modo como Francisco comunicou, o que poder\u00e1 ter muitas abordagens e aspetos. Saliento tr\u00eas, seguindo uma regra dele. Primeiro, apostou na simplicidade. Imensas vezes disse que as homilias (e n\u00e3o \u00e9 este o mais importante momento de comunica\u00e7\u00e3o pela palavra na Igreja?) deveriam ser breves, acess\u00edveis como a \u201cconversa da m\u00e3e\u201d, n\u00e3o mais que oito minutos, simples, contendo tr\u00eas elementos \u201cuma ideia, um sentimento, uma imagem\u201d (a tal regra que sigo agora).<\/p>\n<p>Depois, apostou na imagem. Um dia, numa reuni\u00e3o de comunicadores cat\u00f3licos, em F\u00e1tima, algu\u00e9m afirmou que o Papa, ao aparecer com uma bata (verde) de hospital e um beb\u00e9 rec\u00e9m-nascido ao colo, faz mais pela defesa da vida (e contra o aborto) do que muitos discursos. H\u00e1 imensas imagens destas. Como a caminhar pelas ruas vazias de Roma, durante a pandemia, a caminho da Igreja de S\u00e3o Marcelo, ou a celebrar missa na ilha de Lampedusa, pelos migrantes, ou a almo\u00e7ar com os pobres, ou a lavar p\u00e9s de esquecidos da sociedade, ou a oferecer ovos de chocolate gigantes a crian\u00e7as. Imagens que marcam.<\/p>\n<p>E comunicou sentimentos. Muitos sentimentos. Porque s\u00e3o os sentimentos (alimentados, pensados, rezados, purificados), que nos humanizam. E por isso termino com um excerto de um dos \u00faltimos textos de Francisco, da enc\u00edclica \u201cDilexit nos\u201d (24-10-2024), que sendo sobre o Cora\u00e7\u00e3o de Jesus e o cora\u00e7\u00e3o humano, \u00e9 um contraponto ao \u201cracionalismo grego e pr\u00e9-crist\u00e3o\u201d, ao \u201cidealismo p\u00f3s-crist\u00e3o\u201d e ao \u201cmaterialismo nas suas diversas formas\u201d: \u201cNa era da intelig\u00eancia artificial, n\u00e3o podemos esquecer que a poesia e o amor s\u00e3o necess\u00e1rios para salvar o humano. O que nenhum algoritmo conseguir\u00e1 abarcar \u00e9, por exemplo, aquele momento de inf\u00e2ncia que se recorda com ternura e que continua a acontecer em todos os cantos do planeta, mesmo com o passar dos anos. Penso na utiliza\u00e7\u00e3o do garfo para selar as bordas daquelas empadas caseiras que prepar\u00e1vamos com as nossas m\u00e3es ou av\u00f3s. \u00c9 aquele momento de aprendizagem culin\u00e1ria, a meio caminho entre a brincadeira e a idade adulta, em que assumimos a responsabilidade do trabalho para ajudar o outro. Tal como o exemplo do garfo, poderia citar milhares de pequenos pormenores que sustentam a biografia de cada um: sorrir com uma piada, fazer um desenho em contraluz numa janela, jogar o primeiro jogo de futebol com uma \u201cbola de trapos\u201d, cuidar de lagartas numa caixa de sapatos, secar uma flor entre as p\u00e1ginas de um livro, cuidar de um p\u00e1ssaro que caiu do ninho, formular um desejo ao despetalar uma margarida. Todos estes pequenos pormenores, o ordin\u00e1rio-extraordin\u00e1rio, nunca poder\u00e3o estar entre os algoritmos. Porque o garfo, as piadas, a janela, a bola, a caixa de sapatos, o livro, o p\u00e1ssaro, a flor\u2026 s\u00e3o sustentados pela ternura preservada nas mem\u00f3rias do cora\u00e7\u00e3o\u201d (Dislexit nos, 20).<\/p>\n<p>Nunca tinha visto um Papa falar e escrever sobre garfos e empadas. Isto n\u00e3o se esquece.<\/p>\n<p><em>Nota final: Quando Bento XVI resignou, houve quem louvasse tal gesto. Alguns seriam os mesmos que tinha dito, no final aflitivo da vida de Jo\u00e3o Paulo II, que \u201c\u00e0 paternidade n\u00e3o se renuncia\u201d. E quando Francisco foi eleito, os livros de Bento XVI entraram em saldo nas livrarias do Vaticano. Agora que temos Le\u00e3o XIV, n\u00e3o descartemos t\u00e3o rapidamente Francisco. Ainda temos muito a aprender com ele.<\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jorge Pires Ferreira, Diocese de Aveiro<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":270080,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-378712","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/378712","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=378712"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/378712\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/270080"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=378712"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=378712"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=378712"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}