{"id":37852,"date":"2009-03-26T11:56:07","date_gmt":"2009-03-26T11:56:07","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/03\/26\/revista-communio-lanca-edicao-dedicada-ao-tema-da-beleza\/"},"modified":"2009-03-26T11:56:07","modified_gmt":"2009-03-26T11:56:07","slug":"revista-communio-lanca-edicao-dedicada-ao-tema-da-beleza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/revista-communio-lanca-edicao-dedicada-ao-tema-da-beleza\/","title":{"rendered":"Revista \u00abCommunio\u00bb lan\u00e7a edi\u00e7\u00e3o dedicada ao tema da Beleza"},"content":{"rendered":"<p>A nossa contemporaneidade assistiu recorrentemente aos an\u00fancios do \u201cfim\u201d. Nesse teatro das hermen\u00eauticas, o belo encontra-se entre essas trag\u00e9dias crepusculares. Abundam, pois, os tenores do fim do belo e os an\u00fancios da beleza imposs\u00edvel. Prop\u00f5e-se neste fasc\u00edculo da revista \u00abCommunio\u00bb um conjunto de itiner\u00e1rios que procuram situar a mundivid\u00eancia crist\u00e3 perante as hodiernas indaga\u00e7\u00f5es e experimenta\u00e7\u00f5es do belo.   Nos itiner\u00e1rios da sociog\u00e9nese humana, a arte apresenta-se, tal como a t\u00e9cnica ou a magia, como modo de agir sobre o mundo (R. Pi\u00f1ero Moral). A express\u00e3o art\u00edstica acrescenta a esse poder as linguagens da interioridade humana. Assim se entende, talvez, a sua proximidade das experi\u00eancias do sagrado. Se o cristianismo resistiu \u00e0 clausura de uma forma hist\u00f3rica ou naturalizada de sagrado, tamb\u00e9m teria de se distanciar de uma rela\u00e7\u00e3o imediata entre a beleza e o divino. Na mem\u00f3ria b\u00edblica, Deus \u00e9 impronunci\u00e1vel e a sua beleza somente pode ser entrevista: \u201cas teofanias s\u00e3o acontecimentos desarmantes, porque Deus foge do declarado e do n\u00edtido e apresenta-se no impercet\u00edvel, naquilo que \u00e9 apenas sussurrado\u201d (J. Tolentino Mendon\u00e7a). Nesse sentido, os percursos do espiritual na arte contempor\u00e2nea &#8211; como que uma fenda no mundo (P. Vale) &#8211; podem ler-se como abertura ao questionamento teof\u00e2nico, mesmo se resistem \u00e0 redu\u00e7\u00e3o do Deus nitidamente figurado.   A experi\u00eancia crist\u00e3 da arte encontra na liturgia um testemunho privilegiado. N\u00e3o apenas porque ela se tornou, historicamente, mobilizadora de in\u00fameros recursos criativos, mas porque na l\u00f3gica do mist\u00e9rio crist\u00e3o da Encarna\u00e7\u00e3o ela se oferece como abertura ao \u201cDeus que vem\u201d, que a liturgia bizantina celebra na beleza do rosto de Cristo (S. Parenti). A experi\u00eancia lit\u00fargica continua a oferecer-se aos crist\u00e3os como lugar de comunica\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, n\u00e3o redut\u00edvel a uma ordem normativa, nem aprision\u00e1vel nos labirintos do sujeito, aberto sim \u00e0 comunh\u00e3o eclesial: \u201cComunicamos porque estamos j\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o e n\u00e3o para nos colocarmos em rela\u00e7\u00e3o. Quando nos reunimos atualizamos uma comunica\u00e7\u00e3o que pr\u00e9-existe ao pr\u00f3prio encontro\u201d (J. A. Mour\u00e3o).   Um dos cl\u00e1ssicos da teoria social, Max Weber, reconheceu a exist\u00eancia de uma profunda afinidade entre a esfera est\u00e9tica e a religi\u00e3o, reuni\u00e3o que produziu grande parte das cria\u00e7\u00f5es art\u00edsticas da humanidade. Mas na medida em que o dom\u00ednio est\u00e9tico se foi emancipando, desenvolveram-se tens\u00f5es que Weber viu cristalizadas na distin\u00e7\u00e3o \u201cconte\u00fado\/forma\u201d. Na sua \u00f3ptica, se as religi\u00f5es de tipo soteriol\u00f3gico vivem na demanda dos sentidos da realidade para responder aos problemas da humanidade, a arte ter-se-ia emancipado por via do exerc\u00edcio da forma. Mais, a express\u00e3o est\u00e9tica p\u00f4de tornar-se concorrente da religi\u00e3o, na medida em que, no tr\u00e2nsito das consequ\u00eancias da modernidade, se apresentou como ref\u00fagio intelectual para os desiludidos do excesso racionalista. O esteticismo, para Weber, verte-se, assim, numa &#8220;reden\u00e7\u00e3o intramundana&#8221; que chega aos universos da \u00e9tica, terreno privilegiado das religi\u00f5es da reden\u00e7\u00e3o: o esteticismo substituiria, pois, os ju\u00edzos \u00e9ticos por ju\u00edzos de gosto. No entanto, a quest\u00e3o est\u00e9tica conheceu novas articula\u00e7\u00f5es com a \u00e9tica no contexto da explos\u00e3o das diferen\u00e7as que caracteriza as m\u00faltiplas modernidades. O grito est\u00e9tico vem, com frequ\u00eancia, do verso do mundo, reivindicando a dignidade da voz e o olhar emancipado. O movimento americano Black is Beautiful, afirmando a cidadania da cultura afro-americana, face \u00e0 hegemonia do modelo cultural branco, pode ser um lugar particular de observa\u00e7\u00e3o da contempor\u00e2nea reivindica\u00e7\u00e3o sociopol\u00edtica a partir de uma linguagem est\u00e9tica (Maria Lu\u00edsa Falc\u00e3o).   Historicamente, as teologias crist\u00e3s articularam-se com a metaf\u00edsica cl\u00e1ssica, explorando os dom\u00ednios da rela\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca entre o belo, o bom e o verdadeiro. \u201cFrente a uma metaf\u00edsica abstracta que dissolve a realidade num &#8216;mundo&#8217; suprassens\u00edvel ou em conceitos l\u00f3gico-subjectivos, a traject\u00f3ria p\u00f3s-metaf\u00edsica da est\u00e9tica contempor\u00e2nea alerta para a vincula\u00e7\u00e3o sens\u00edvel do conhecimento e da nossa compreens\u00e3o do sentido, permanecendo por isso impreterivelmente ligada \u00e0 particularidade de entes e de acontecimentos, sem o que se distanciaria nihilisticamente da pr\u00f3pria realidade.&#8221; (J. Duque). Mesmo se a conting\u00eancia pode ser o lugar de interpela\u00e7\u00e3o do absoluto e incondicional, a fragmenta\u00e7\u00e3o cultural pr\u00f3pria da modernidade radicalizada fragilizou as grandes narrativas legitimadoras dos c\u00e2nones est\u00e9ticos, exigindo outras gram\u00e1ticas para a apreens\u00e3o das novas po\u00e9ticas do mundo. Essa transforma\u00e7\u00e3o envolve o pr\u00f3prio \u201cobjecto\u201d de arte e sua circula\u00e7\u00e3o. \u00c9 dif\u00edcil, hoje, compreender o campo das produ\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas sem dar aten\u00e7\u00e3o \u00e0s l\u00f3gicas de mercado que determinam o seu valor &#8211; mesmo se o ato criador transporta em si uma transcend\u00eancia que n\u00e3o cabe nas leis do c\u00e1lculo (Clara Men\u00e9res).  O dossier tem\u00e1tico constitu\u00eddo termina com um depoimento sobre a bibliofilia &#8211; a arte \u201cinexplic\u00e1vel\u201d dos livros (Pedro Azevedo). Na sec\u00e7\u00e3o \u00abPerspectivas\u00bb, inicia-se a apresenta\u00e7\u00e3o de um ensaio antropol\u00f3gico sobre a sexualidade humana (F. Micael Pereira) e abre-se um itiner\u00e1rio de leitura sobre a teologia de S. Paulo (Th. S\u00f6ding), des\u00edgnio que acompanhar\u00e1 a \u00abCommunio\u00bb durante o ano paulino.   Em s\u00edntese, eis os textos e autores desta edi\u00e7\u00e3o: \u201cEu sou o belo Pastor\u201d (Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a); Sobre o belo e o sagrado. Arquitect\u00f3nica da arte crist\u00e3 (Ricardo Pi\u00f1ero Moral); A est\u00e9tica na era p\u00f3s-metaf\u00edsica (Jo\u00e3o Duque); A beleza do rosto de Cristo na liturgia bizantina (Stefano Parenti); Para uma est\u00e9tica de comunica\u00e7\u00e3o lit\u00fargica (Jos\u00e9 Augusto Mour\u00e3o); Arte e mercadoria (Clara Men\u00e9res); Uma fenda no mundo. Do espiritual na arte contempor\u00e2nea (Paulo Vale); Black is beautiful (M. Lu\u00edsa Falc\u00e3o); A bibliofilia. Notas ao inexplic\u00e1vel (Pedro F. de Azevedo).  <i>M. Lu\u00edsa Falc\u00e3o, Alfredo Teixeira, M. Lu\u00edsa Ribeiro Ferreira\/rm, \u00abCommunio\u00bb, n.\u00ba 3 (2008)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A nossa contemporaneidade assistiu recorrentemente aos an\u00fancios do \u201cfim\u201d. Nesse teatro das hermen\u00eauticas, o belo encontra-se entre essas trag\u00e9dias crepusculares. Abundam, pois, os tenores do fim do belo e os an\u00fancios da beleza imposs\u00edvel. 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