{"id":377884,"date":"2025-05-27T15:08:55","date_gmt":"2025-05-27T14:08:55","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=377884"},"modified":"2025-05-27T15:13:30","modified_gmt":"2025-05-27T14:13:30","slug":"talvez-precisemos-ser-como-criancas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/talvez-precisemos-ser-como-criancas\/","title":{"rendered":"Talvez precisemos ser como crian\u00e7as\u2026"},"content":{"rendered":"<p style=\"font-weight: 400;\"><em>L\u00edgia Silveira, Ag\u00eancia ECCLESIA<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><!--more--><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-141293 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/ligia_silveira-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/ligia_silveira-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/ligia_silveira-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/ligia_silveira-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/ligia_silveira-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/ligia_silveira.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/>O livro \u00abA Papoila Encarnada\u00bb, da autoria de Ana Patr\u00edcia Fonseca, nasceu da tristeza, da aus\u00eancia de uma racionalidade que explique a surpresa; nasceu da necessidade de \u00ablibertar os sentimentos e as emo\u00e7\u00f5es que o acontecer da vida proporciona viver\u00bb; nasceu de forma inesperada, num local inusitado, e acabou por se apresentar de forma evidente &#8211; \u00abO seu caule era firme e as ra\u00edzes agarradinhas \u00e0 terra que a formou\u00bb.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Podemos pensar no pai da autora \u2013 cujo falecimento motivou a escrita &#8211; ou pensar na papoila encarnada que nasceu na terra por cima do seu corpo e que Ana Patr\u00edcia Fonseca, numa visita, ali encontrou.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A Biologia diz-nos que h\u00e1 seis esp\u00e9cies de papoilas nativas em Portugal, sendo que a papoila-vermelha ou papoila-dos-campos, \u00e9 a mais comum e abundante. O caule, esguio e coberto por finos pelos r\u00edgidos, se for quebrado, liberta um l\u00e1tex branco que rapidamente sela a ferida e ajuda na cicatriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">No Egito era designada pela \u2018planta da alegria\u2019 pela sua capacidade de reduzir a dor e acalmar. Na Gr\u00e9cia antiga, a papoila \u00e9 associada ao deus do sono, Morfeu, e colocada nos t\u00famulos para honrar os mortos. Hoje, para muitos, \u00e9 s\u00edmbolo da paz.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O poeta e m\u00edstico, do s\u00e9culo XVII, Angelus Silesius, escreve num poema:<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00abA rosa \u00e9 sem porqu\u00ea; floresce porque floresce,<br \/>\nn\u00e3o cuida de si pr\u00f3pria, n\u00e3o pergunta se a vemos\u00bb<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Se pens\u00e1ssemos que tantas papoilas surgem porque nascem \u00e0 beira da estrada, em terrenos incultos, searas, prados, pastagens e olivais. Elas nascem e n\u00e3o perguntam se as vemos, tamb\u00e9m de t\u00e3o fr\u00e1geis n\u00e3o cuidam de si, mas oferecem beleza quando o nosso olhar as cruza e, diz-nos a Biologia, que o seu caule ajuda a cicatrizar feridas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Da necessidade de colocar no papel tudo o que sentia, as palavras da autora procuram fazer perdurar a mem\u00f3ria, os gestos, a partilha, a proximidade, a rotina e fazem-nos confrontar com a saudade, porque tamb\u00e9m tornam evidentes as qualidades da pessoa: \u00abT\u00edmida e pequena, grandeza, bondade, generosidade, trabalhadora, honrada, retid\u00e3o, decidida, s\u00e1bia, paz, mansid\u00e3o, serenidade\u00bb \u2013 \u00abEra, de verdade, uma papoila boa\u00bb, resume.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Volto ao poeta Angelus Silesius para partilhar outro poema seu: \u2018Deus fora da criatura\u2019:<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00abVai onde n\u00e3o podes; olha onde n\u00e3o v\u00eas;<br \/>\nEscuta onde nada tine: estar\u00e1s onde Deus fala\u00bb.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A dor, o inesperado, a n\u00e3o compreens\u00e3o, leva-nos a lugares inaugurais e, talvez aqui, trata-se do exerc\u00edcio de confian\u00e7a &#8211; ir onde n\u00e3o sabemos onde vamos chegar; olhar o que aparentemente n\u00e3o tem significado, ou n\u00e3o se consegue entender; estar atento a um estado de alma que parece n\u00e3o ser o nosso, onde parece que n\u00e3o nos reconhecemos. Mas diz-nos o poeta que em tudo isto \u2013 interroga\u00e7\u00f5es, indefini\u00e7\u00f5es &#8211; Deus falar\u00e1.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A palavra nasce onde tantas vezes nos perdemos e foge de n\u00f3s, se fugirmos do sil\u00eancio. Elas aparecem, se calhar t\u00edmidas ao in\u00edcio, magoadas &#8211; com certeza &#8211; mas tornam-se inteiras e cheias quando apresentam um significado, e trazem a paz quando se aproximam do que sentimos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Penso que \u00abA Papoila Encarnada\u00bb revela esse exerc\u00edcio.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Quando tudo o que lemos n\u00e3o basta, n\u00e3o se aproxima do que sentimos, aconselha ainda o poeta e m\u00edstico alem\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00abCaso queiras ler mais, vai, torna-te tu pr\u00f3prio a escrita e a ess\u00eancia\u00bb. Assim a autora o fez com esta \u00abPapoila Encarnada\u00bb.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A escritora Etty Hillesum, que morreu em Auschwitz, procurou durante o tempo em que viveu num campo de exterm\u00ednio encontrar beleza e humanidade. E ela dizia &#8211; \u00abAcho a vida prenha de sentido, apesar de tudo\u00bb.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A Etty aprendeu a retirar-se, a ficar im\u00f3vel e a escutar: \u00abA minha vida tornou-se um di\u00e1logo ininterrupto contigo, \u00f3 Deus, um grande di\u00e1logo. \u00c0s vezes, quando me posto nalgum canto do campo, com os meus p\u00e9s plantados na tua terra e os meus olhos erguidos para o teu c\u00e9u, o meu rosto fica inundado de l\u00e1grimas, l\u00e1grimas de profunda emo\u00e7\u00e3o e gratid\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Trata-se de abra\u00e7ar o sil\u00eancio e deixar que as palavras ganhem express\u00e3o, sem medo da dor que elas provoquem, e estar muito atento ao que os sentidos nos dizem. A Etty quis mostrar, que na mais funda dor, h\u00e1 qualquer luz, qualquer rasgo, qualquer lembran\u00e7a que consola e que evidencia que Deus est\u00e1.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Precisamos de tempo para que seja o sil\u00eancio a pontuar o cora\u00e7\u00e3o e a mente, para ali colocar as palavras certas, aquelas que nos aproximam do inesperado, do que est\u00e1 fora do nosso alcance.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 atrav\u00e9s do sil\u00eancio que ouvimos. Se nos calarmos, no mesmo instante, escutamos o sil\u00eancio e a\u00ed, no sil\u00eancio onde nada tine, a voz de Deus.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">No livro \u00abA Papoila e o Monge\u00bb, o poeta Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a tem um poema que diz:<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00abO sil\u00eancio s\u00f3 raramente \u00e9 vazio<br \/>\ndiz alguma coisa<br \/>\ndiz o que n\u00e3o \u00e9\u00bb<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Tamb\u00e9m a folha em branco mostra o sil\u00eancio mas chama, n\u00e3o a preench\u00ea-lo s\u00f3 porque sim, mas a dar-lhe nomes.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O livro \u00abA papoila encarnada\u00bb, que nasceu desta folha em branco, convida-nos a integrar a morte pela boca das crian\u00e7as &#8211; nas suas palavras sinceras, vemos as nossas perguntas:<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00abPorque \u00e9 que a papoila n\u00e3o esperou mais duas semanas, para acompanhar o meu anivers\u00e1rio?\u00bb<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00abPorque \u00e9 que ela n\u00e3o foi ao m\u00e9dico mais cedo?\u00bb<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00abEu s\u00f3 vivi oito anos da minha vida com a papoila encarnada. Isso \u00e9 t\u00e3o pouco\u00bb.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Das perguntas passamos aos caminhos que encontramos para abra\u00e7ar a saudade: como escrever um postal, uma carta ou manter uma fotografia perto, usar um objeto, olhar para o c\u00e9u, dedicar um golo.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A surpresa e incompreens\u00e3o de tr\u00eas crian\u00e7as, as suas perguntas e forma de entendimento, talvez seja a melhor forma de nos aproximarmos do que permanece desconhecido.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00abVou escrever a encarnado para ela ver e gostar l\u00e1 no c\u00e9u\u00bb; \u00abvou escrever e dizer tudo o que me faz lembrar a papoila encarnada\u00bb; \u00abNos gost\u00e1vamos tanto da papoila encarnada, e ainda gostamos, s\u00f3 que n\u00e3o conseguimos ver o seu corpo, s\u00f3 atrav\u00e9s da nossa mem\u00f3ria\u00bb; \u00abo corpo \u00e9 apenas para proteger a sua alma, que nunca desaparece\u00bb.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Talvez precisemos ser como crian\u00e7as para compreender o que n\u00e3o conseguimos explicar. Talvez precisemos escrever como elas, e para elas, para que de forma gradual possamos respirar, apaziguar, integrar.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o perguntes porque partiu; pergunta antes o que a pessoa te deixou. E aqui, na \u00abPapoila Encarnada\u00bb encontramos isso: \u00abSemeou brandura, serenidade, paz, paci\u00eancia, bondade, nobreza, honestidade, retid\u00e3o, firmeza, humildade, simplicidade, do\u00e7ura, beleza, generosidade\u00bb.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00abTu n\u00e3o ir\u00e1s para o c\u00e9u<br \/>\nSe tu pr\u00f3prio antes disso n\u00e3o fores j\u00e1 um c\u00e9u vivo\u00bb, escreve ainda Angelus Silesius.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Ana Patr\u00edcia Fonseca, com este livro, deixou escrito o pequeno c\u00e9u que conheceu e, com esta \u2018Papoila encarnada\u2019, mostrou-nos tamb\u00e9m o c\u00e9u que j\u00e1 vivemos e o mesmo que aguarda por n\u00f3s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>L\u00edgia Silveira, Ag\u00eancia ECCLESIA<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":141293,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-377884","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/377884","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=377884"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/377884\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/141293"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=377884"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=377884"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=377884"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}