{"id":37769,"date":"2009-03-23T12:40:13","date_gmt":"2009-03-23T12:40:13","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/03\/23\/o-ano-paulino-a-pascoa-e-homem-novo\/"},"modified":"2009-03-23T12:40:13","modified_gmt":"2009-03-23T12:40:13","slug":"o-ano-paulino-a-pascoa-e-homem-novo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-ano-paulino-a-pascoa-e-homem-novo\/","title":{"rendered":"O Ano Paulino: a P\u00e1scoa e  Homem Novo"},"content":{"rendered":"<p>1- Chegou adiantada a Primavera deste ano devido ao calor das \u00faltimas semanas que fez desabrochar muitas \u00e1rvores antes do dia 21 de Mar\u00e7o. O povo suspeita dessa flora\u00e7\u00e3o precoce por ela amea\u00e7ar com desgostos futuros. H\u00e1 renova\u00e7\u00f5es ilus\u00f3rias.  Isto pode ajudar na reflex\u00e3o de um tema central nas cartas de S. Paulo: o \u00abhomem novo\u00bb, intimamente ligado com a \u00abnova P\u00e1scoa\u00bb,a \u00abnova alian\u00e7a\u00bb, o \u00abmandamento novo\u00bb, o \u00abnovo Testamento\u00bb, o \u00abc\u00e2ntico novo\u00bb, o \u00abfermento novo\u00bb, o \u00abvinho novo\u00bb, conceitos semeadas no Novo Testamento e na Liturgia.  2- Na linguagem corrente, quando dizemos que algo \u00e9 \u00abnovo\u00bb, isso pode entender-se como sin\u00f3nimo de \u00abrecente\u00bb e jovem, ou de algo \u00abdiferente e admir\u00e1vel\u00bb. No primeiro sentido, as coisas s\u00e3o novas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 data, e, assim, falamos de p\u00e3o novo, de vinho novo da \u00faltima colheita; no segundo sentido, falamos de vinho novo como sin\u00f3nimo de excepcional.  Na l\u00edngua grega havia duas palavras distintas para exprimir o sentido de \u00abnovo\u00bb: se se trata de algo recente, diz-se \u00abneos\u00bb ( neo-presb\u00edtero, jovem); se se trata de algo inaudito, diz-se \u00abkainos\u00bb. A l\u00edngua grega entrou na B\u00edblia pela tradu\u00e7\u00e3o grega dos LXX, aparecendo o termo \u00abneos\u00bb 23 vezes e \u00abkainos\u00bb 42 no Novo Testamento, pertencendo a Paulo, respectivamente, oito e doze vezes.  Em vern\u00e1culo, usamos o termo \u00abnovo\u00bb com os dois significados de \u00abrecente\u00bb e de \u00absurpreendente\u00bb, e a diferen\u00e7a de significado capta-se pelo conjunto da frase. Assim, as coisas do mundo s\u00e3o \u00abvelhas\u00bb e caducas, corro\u00eddas pela tra\u00e7a do tempo e pelo uso banal, profano, fora da for\u00e7a de Deus; pelo contr\u00e1rio, as coisas de Deus s\u00e3o sempre novas porque t\u00eam a for\u00e7a de Deus, e, mesmo com a idade, n\u00e3o enferrujam, t\u00eam folhas novas, porque \u00abDeus tem muitos anos mas n\u00e3o tem dias\u00bb. A arca da alian\u00e7a \u00e9 transportada num \u00abcarro novo\u00bb; para Deus reservam-se as \u00abprim\u00edcias\u00bb e os \u00abprimog\u00e9nitos\u00bb, os \u00abanimais\u00bb que ainda n\u00e3o tiveram jugo como a jumentinha do Domingo de Ramos, o cordeiro pascal de um ano e sem defeito, um sepulcro novo para sepultar Jesus. Para os tempos messi\u00e2nicos, prometem-se um ensino novo, diferente do  dos fariseus; uma alian\u00e7a nova, superior \u00e0 antiga; um vinho novo em odres novos.  Para Paulo tudo o que se refere a Cristo \u00e9 \u00abnovo\u00bb e divide tudo em \u00abantes de Cristo\u00bb e \u00abdepois dele\u00bb: antes, tudo \u00e9 \u00abvelho\u00bb e caduco; com Ele tudo \u00e9 \u00abnovo\u00bb, vigoroso e inaudito. A causa dessa \u00abnovidade\u00bb \u00e9 a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus, que ele experimentou na estrada de Damasco. Cristo ressuscitado tudo renova, retira o \u00abv\u00e9u\u00bb que encobria as Sagradas Escrituras e alumia o passado, o presente e o futuro. Paulo l\u00ea a B\u00edblia a partir de Cristo, do fim para o princ\u00edpio, pois s\u00f3 Ele permite ler bem o passado: a \u00abterra prometida\u00bb e a salva\u00e7\u00e3o n\u00e3o se limitam \u00e0 Palestina e a viver \u00abmuitos anos\u00bb, \u00abver crescer os filhos dos filhos at\u00e9 \u00e0 quarta gera\u00e7\u00e3o\u00bb, \u00abter muitos bois e camelos\u00bb, como pensava Job, mas estende-se por todo o mundo e para al\u00e9m da morte.  De um modo grandioso, como se escrevesse um novo livro do G\u00e9nesis, Paulo afirma que Cristo \u00e9 o novo Ad\u00e3o (1 Cor 15,22,44-49) e fala de uma nova cria\u00e7\u00e3o ( Rom 8,19,23; 2Cor 5,17; G\u00e1l 6,15) ou nova humanidade come\u00e7ada no baptismo, n\u00e3o por qualquer banho de \u00e1gua mas como obra do Esp\u00edrito Santo ( Rom 7,8; 8,1-16; Gal 5,16, 25). O baptismo novo n\u00e3o \u00e9 um qualquer banho de \u00e1gua mas obra do Esp\u00edrito Santo (Rom 7,8; 8,1-16; Gal 5,16, 25). O homem novo ou homem espiritual, oposto ao carnal ( Rom 6,4), \u00e9 uma \u00abenxertia\u00bb e crescer\u00e1 durante toda a vida chegando a \u00abadulto\u00bb na escatologia final. Entretanto, ele \u00e9 fermento novo (1Cor 5; Col 3, 10; Ef 4,22) para um \u00abmundo  novo\u00bb na terra, destruindo os muros que separavam judeus, gregos e romanos (Ef 2,15), n\u00e3o havendo mais escravo e homem livre, homem e mulher.  3- Recordemos que S.Paulo evangelizou grupos judaicos e uma sociedade pag\u00e3 envolta em religiosidade, e as palavras novo, salva\u00e7\u00e3o, justifica\u00e7\u00e3o, reden\u00e7\u00e3o, t\u00eam um significado claramente religioso e o homem \u00e9 \u00abnovo\u00bb e \u00abjusto\u00bb por ter as medidas de Deus. A sociedade actual vive um paganismo diferente: tem a pretens\u00e3o de haver ultrapassado a necessidade do religioso vive do mero esfor\u00e7o humano e a constru\u00e7\u00e3o de uma \u00abnova terra\u00bb e de um \u00abhomem novo\u00bb, ser\u00e3o fruto do \u00abprogresso econ\u00f3mico e social\u00bb, e a \u00abreden\u00e7\u00e3o ou salva\u00e7\u00e3o\u00bb obra da \u00abrevolu\u00e7\u00e3o\u00bb.  Todos os revolucion\u00e1rios europeus falaram da necessidade de fazer surgir um \u00abcidad\u00e3o novo\u00bb, um \u00abestado novo\u00bb, uma \u00abra\u00e7a nova\u00bb. Disse-o Rousseau a respeito da educa\u00e7\u00e3o; disse-o Marx e Lenine acerca da sociedade sem classes; disse-o Nietzsche anunciando o homem novo pela vontade de poder; disse-o Freud acerca do homem que ultrapassaria as neuroses religiosas e sexuais; disse-o a investiga\u00e7\u00e3o laboratorial prussiana, antes de Hitler, em busca de uma ra\u00e7a pura. S\u00f3 os judeus se negaram sempre a aceitar essa linguagem de homem novo, e percebe-se porqu\u00ea: consideravam-se \u00abos eleitos\u00bb, n\u00e3o havendo lugar para nada melhor fora da lei moisaica e por isso rejeitaram Jesus. A sua dolorosa experi\u00eancia hist\u00f3rica na Europa acentuou ainda mais o medo do homem novo estranho ao judaismo.   4- A constru\u00e7\u00e3o de um mundo novo regressa agora como fruto da pol\u00edtica econ\u00f3mica, da tecnologia, da cirurgia, da farmacologia. O homem tornar-se-\u00e1 novo se tiver melhores condi\u00e7\u00f5es de habita\u00e7\u00e3o e de higiene, assist\u00eancia m\u00e9dica e cir\u00fargica, meios de transporte, armazenagem dos produtos para horas de car\u00eancia, meios para se libertar das leis da sexualidade. Os recursos farmacol\u00f3gicos (drogas, comprimidos, preservativos, aborto, a eutan\u00e1sia, a fecunda\u00e7\u00e3o laboratorial para produ\u00e7\u00e3o de fetos destinados \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o e elimina\u00e7\u00e3o de defici\u00eancias graves em gera\u00e7\u00f5es futuras) apresentam-se como salvadores de contratempos individuais, conjugais, familiares e de pol\u00edtica social. Os transplantes de \u00f3rg\u00e3os e a doa\u00e7\u00e3o de esperma e \u00f3vulos poder\u00e3o ser uma nova fonte de rendimento econ\u00f3mico para homens e mulheres, como escreveu h\u00e1 dias um seman\u00e1rio. Deste modo, o homem \u00absalvar\u00e1 o mundo\u00bb pelos seus meios, sem precisar da \u00absalva\u00e7\u00e3o\u00bb de Jesus, devendo a Igreja ser \u00abafastada das coisas do mundo\u00bb por ser entrave, como disse na semana passada um comentador televisivo.  5- O leitor recolha-se um pouco e veja se este sonho n\u00e3o se instalou j\u00e1  no \u00edntimo de muitos contempor\u00e2neos. A salva\u00e7\u00e3o crist\u00e3 n\u00e3o desperta interesse, que vai todo para a pol\u00edtica econ\u00f3mica e social: os m\u00e9dicos, param\u00e9dicos, psiquiatras, psic\u00f3logos e pol\u00edticos s\u00e3o os novos sacerdotes; a publicidade e a propaganda partid\u00e1ria, a palavra da salva\u00e7\u00e3o; as cl\u00ednicas e os hospitais, os novos santu\u00e1rios; os recursos farmacol\u00f3gicos, os novos sacramentos.  Por experi\u00eancia pessoal de muitos anos, conhe\u00e7o a dedica\u00e7\u00e3o de muitas desses profissionais e a efic\u00e1cia de v\u00e1rios desses recursos. Mas eles ficam sempre na \u00e1rea biol\u00f3gica, e os afectos do doente, a mem\u00f3ria, o sentido da vida e a resposta aos grandes problemas, requerem outros meios. Sem eles e sem a \u00e9tica, surgir\u00e1 a \u00abidolatria\u00bb dos deuses da terra que ser\u00e3o tirania contra o homem. Por isso, tome a sua B\u00edblia, leia devagar os textos citados  extra\u00eddos das cartas aos Romanos, aos Cor\u00edntios, aos G\u00e1latas, aos Ef\u00e9sios, veja como se torna oportuno reflectir sobre  o \u00abhomem novo\u00bb e prepare-se para celebrar  a \u00abnova\u00bb P\u00e1scoa.  <i>Joaquim Gon\u00e7alves, Bispo de Vila Real  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1- Chegou adiantada a Primavera deste ano devido ao calor das \u00faltimas semanas que fez desabrochar muitas \u00e1rvores antes do dia 21 de Mar\u00e7o. O povo suspeita dessa flora\u00e7\u00e3o precoce por ela amea\u00e7ar com desgostos futuros. H\u00e1 renova\u00e7\u00f5es ilus\u00f3rias. Isto pode ajudar na reflex\u00e3o de um tema central nas cartas de S. 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