{"id":377222,"date":"2025-05-23T09:19:52","date_gmt":"2025-05-23T08:19:52","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=377222"},"modified":"2025-08-28T17:00:49","modified_gmt":"2025-08-28T16:00:49","slug":"sao-vicente-de-paulo-e-a-necessaria-inculturacao-para-a-transmissao-do-evangelho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/sao-vicente-de-paulo-e-a-necessaria-inculturacao-para-a-transmissao-do-evangelho\/","title":{"rendered":"DO PASSADO, UM PRESENTE \u2013 S\u00e3o Vicente de Paulo e a necess\u00e1ria incultura\u00e7\u00e3o para a transmiss\u00e3o do Evangelho"},"content":{"rendered":"<p><em>Padre Jos\u00e9 Alves, CM<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/08-Jubileu-CM-Maio-2025.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-377225 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/08-Jubileu-CM-Maio-2025-722x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"501\" height=\"711\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/08-Jubileu-CM-Maio-2025-722x1024.jpg 722w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/08-Jubileu-CM-Maio-2025-183x260.jpg 183w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/08-Jubileu-CM-Maio-2025.jpg 762w\" sizes=\"(max-width: 501px) 100vw, 501px\" \/><\/a>A incultura\u00e7\u00e3o \u00e9 exig\u00eancia do Mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o. O primeiro a inculturar-se foi o Verbo de Deus, que se fez carne para que pud\u00e9ssemos perceber toda a mensagem que o Pai, atrav\u00e9s d\u2019Ele, queria comunicar aos homens (1). Essa mensagem \u00e9 transmitida na cultura semita (aramaica) e, posteriormente, na grega, romana, eg\u00edpcia, ass\u00edria, dando origem a express\u00f5es e ritos diferentes na transmiss\u00e3o da f\u00e9 e na mensagem revelada aos v\u00e1rios povos. Este fen\u00f3meno vai continuar ao longo da hist\u00f3ria com a evangeliza\u00e7\u00e3o dos povos eslavos e anglos-sax\u00f3nicos do centro e norte da Europa: a mensagem crist\u00e3 influenciou os seus h\u00e1bitos e costumes, transformando-os; por sua vez, recebeu influ\u00eancia desses mesmos povos, integrando, no culto e na linguagem, express\u00f5es culturais, que os ajudavam a interiorizar a mensagem crist\u00e3.<\/p>\n<p>Nos s\u00e9culos XVI e XVII encontramos dois movimentos de sentido contr\u00e1rio. Com a descoberta de novos mundos, povos e culturas, sentiu-se a necessidade de continuar esta incultura\u00e7\u00e3o, resultado da experi\u00eancia mission\u00e1ria long\u00ednqua, em povos de culturas t\u00e3o diferentes (2). Em sentido contr\u00e1rio, com o surgir e crescer dos nacionalismos, a Europa, sobretudo a Fran\u00e7a, considerava-se o centro do mundo e, com o nascimento e crescimento do absolutismo, qualquer pensamento que n\u00e3o fosse europeu, era visto com alguma desconfian\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c9 neste contexto que se situa a vida e a\u00e7\u00e3o pastoral do Padre Vicente de Paulo. Embora a sua a\u00e7\u00e3o pastoral se tivesse desenrolado dentro do grande hex\u00e1gono do territ\u00f3rio franc\u00eas, o que pensava ele sobre esta quest\u00e3o pastoral? H\u00e1 dois aspetos a considerar.<\/p>\n<p>O Padre Vicente, sem utilizar a palavra, insiste muito numa incultura\u00e7\u00e3o que torne o Evangelho acess\u00edvel aos pobres, aos camponeses. Eles s\u00e3o portadores de uma cultura bem diferente da elite aristocr\u00e1tica e burguesa. Falar claro e de maneira acess\u00edvel a toda a gente, de modo que a mensagem crist\u00e3 seja compreendida, \u00e9 ponto de honra da sua prega\u00e7\u00e3o. A isto chamou ele o \u201cPequeno M\u00e9todo\u201d ou m\u00e9todo simples. Alguns dizem talvez influenciado pelas ideias cartesianas, mas a raz\u00e3o fundamental era a consci\u00eancia muito viva de que o Evangelho tinha de ser anunciado em linguagem que as pessoas entendessem e as levasse \u00e0 convers\u00e3o, traduzida na mudan\u00e7a de costumes, individuais e sociais.<\/p>\n<p>Nos horizontes do Padre Vicente n\u00e3o estavam, inicialmente, as miss\u00f5es \u201cAd Gentes\u201d. A sua grande preocupa\u00e7\u00e3o era o pobre povo do campo \u201cque se condena e morre de fome\u201d, do vasto territ\u00f3rio franc\u00eas e europeu. Quando lhe aparece este desafio, atrav\u00e9s da \u201cPropaganda Fide\u201d, apoia-o, mas sugerindo o nome de um sacerdote das chamadas \u201cConfer\u00eancias das Ter\u00e7as-feiras\u201d, o Padre Pallu, que se torna o fundador da \u201cSociedade das Miss\u00f5es Estrangeiras\u201d.<\/p>\n<p>Quando a \u201cProvid\u00eancia\u201d lhe d\u00e1 um outro sinal de alargar os horizontes para l\u00e1 da Europa, numa carta ao Padre Nacquart, a quem escolhe para esta nova miss\u00e3o, agora em Madag\u00e1scar, revela quais devem ser as linhas a ter presentes na evangeliza\u00e7\u00e3o de povos de cultura t\u00e3o diferente: <em>\u201cO seu principal esfor\u00e7o ser\u00e1 inculcar nessa pobre gente, nascida na ignor\u00e2ncia do Criador, as verdades santas da nossa f\u00e9, n\u00e3o com raz\u00f5es substanciais da teologia, mas com racioc\u00ednios a partir da natureza. \u00c9 preciso come\u00e7ar por isto. Tratareis de ensinar-lhes que nada mais fazeis do que desenvolver neles a marca que Deus lhes deixou de Si mesmo, e que a natureza corrompida, habituada ao mal, apagou. E gostaria que lhes mostrasse as enfermidades da natureza humana, pelas desordens que eles mesmos condenam\u201d<\/em>. Hoje, dir\u00edamos, \u00e9 preciso come\u00e7ar a evangeliza\u00e7\u00e3o a partir dos valores mais profundos desse povo, tentando descobrir as \u201cSementes do Verbo\u201d, segundo a linguagem do Conc\u00edlio Vaticano II.<\/p>\n<p>Depois sugere uma metodologia utilizada por ele para catequizar um jovem malgaxe que ia ser batizado nesse dia, em S\u00e3o L\u00e1zaro: <em>\u201csirvo-me de imagens para o instruir e parece-me que isto lhe prende a imagina\u00e7\u00e3o\u201d.<\/em><\/p>\n<p>E o Padre Nacquart seguiu o conselho do Padre Vicente; mandou pintar, com cores berrantes, um quadro enorme, sobre os nov\u00edssimos, que levava enrolado a tiracolo, e que desenrolava no momento da catequese levando o seu audit\u00f3rio emocionado a fazer a sua escolha. O mission\u00e1rio bem sabia que isto era apenas um instrumento para despertar as consci\u00eancias. Form\u00e1-las era bem mais dif\u00edcil e laborioso. O batismo, s\u00f3 depois de instru\u00e7\u00e3o e de garantias de perseveran\u00e7a. Hoje, dizemos, depois de um s\u00e9rio catecumenato. A sua vis\u00e3o sobre a evangeliza\u00e7\u00e3o ia bem mais longe do que o Padre Vicente lhe tinha sugerido. Pensou num semin\u00e1rio. Era preciso formar padres, tomados da ra\u00e7a, colhidos da terra. Mas as doen\u00e7as tropicais, a que o seu organismo n\u00e3o estava habituado, impediram-no de realizar os seus sonhos.<\/p>\n<p>Outra grande preocupa\u00e7\u00e3o do Padre Vicente era a aprendizagem da l\u00edngua do povo a quem o mission\u00e1rio era enviado. Aborda muitas vezes este assunto nas sua cartas, lamentando-se quando notava desinteresse da parte dos padres: <em>\u201cestou muito triste ao ver o pouco empenho que alguns revelam na aprendizagem da l\u00edngua do pa\u00eds\u201d<\/em>. <em>\u201cDiz-me que alguns padres andam tristes. Compreendo porque n\u00e3o podem dedicar-se \u00e0 sua miss\u00e3o: n\u00e3o conhecem a l\u00edngua. Anime-os e acompanhe-os no estudo da l\u00edngua local\u201d<\/em>. Na abordagem deste assunto n\u00e3o falta o tom humor\u00edstico, com cr\u00edtica velada ao pouco desenvolvimento deste trabalho: <em>\u201calegra-me muito saber que o Irm\u00e3o Dermortier tenha feito tanto progresso, na aprendizagem da l\u00edngua, que at\u00e9 j\u00e1 saiba dizer \u00abSim, senhor\u00bb\u201d.<\/em> E depois num tom mais s\u00e9rio: <em>\u201cEspero que rapidamente saiba o suficiente para que possa instruir os seus professores, isto \u00e9, a gente desse pa\u00eds. Nosso Senhor far\u00e1 dele um grande trabalhador, em favor dessa gente, com a sua ajuda\u201d<\/em> (3).<\/p>\n<p>Esta preocupa\u00e7\u00e3o por inculturar a mensagem crist\u00e3, na linguagem, na organiza\u00e7\u00e3o e na estrutura da Igreja local come\u00e7ada pelo Padre Vicente de Paulo vai tornar-se tradi\u00e7\u00e3o e patrim\u00f3nio na Congrega\u00e7\u00e3o da Miss\u00e3o. E, ao abordar este assunto, n\u00e3o posso esquecer o Padre Vicente Lebbe, mission\u00e1rio belga, juntamente com o seu confrade Padre Cotta (4), italiano, que influenciou o Papa Pio XI, tanto na grande enc\u00edclica mission\u00e1ria \u201cMaximum Ilud\u201d, como na nomea\u00e7\u00e3o dos seis primeiros bispos chineses. Fundou duas congrega\u00e7\u00f5es religiosas chinesas, desencadeando um movimento de incultura\u00e7\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica na China, tragicamente interrompido pela vit\u00f3ria do Partido Comunista chin\u00eas, em 1949, destruindo toda estrutura da Igreja chinesa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Padre Jos\u00e9 Alves, CM<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>&#8212;&#8211;<\/em><\/p>\n<p><em>(1) Cf. o Pr\u00f3logo do Evangelho segundo S\u00e3o Jo\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>(2) Os ritos chineses; a experi\u00eancia de incultura\u00e7\u00e3o no Brasil, na \u00cdndia, etc.; o filme a \u201cMiss\u00e3o\u201d, bem revelador deste trabalho.<\/em><\/p>\n<p><em>(3) Carta ao Padre Jo\u00e3o Martin, superior da Comunidade de Turim.<\/em><\/p>\n<p><em>(4) O Padre Antoine Cotta ingressou na Congrega\u00e7\u00e3o da Miss\u00e3o em 1891. Elaborou e enviou um \u201cMemorando\u201d, sobre as miss\u00f5es na China, ao Cardeal Serafini, Prefeito da \u201cPropaganda Fide\u201d, em 1917. Este memorando foi elaborado para promover o acesso do clero chin\u00eas ao episcopado, apoiado por argumentos extra\u00eddos de papas, bispos e outros. Ele acreditava que a pr\u00e1tica, no seu tempo, se opunha a tal acesso. Critica o \u201ccolonialismo espiritual\u201d dentro das miss\u00f5es chinesas; argumenta, defendendo que os crist\u00e3os chineses devem desenvolver uma Igreja autossuficiente para se desenvolver. Faz refer\u00eancia a v\u00e1rios documentos papais que apoiam a forma\u00e7\u00e3o de um clero nativo independente e insta a Igreja a capacitar padres chineses para assumirem fun\u00e7\u00f5es eclesi\u00e1sticas plenas. Este memorando \u00e9 importante pelo papel que desempenhou na inspira\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o do Papa Pio XI de ordenar os primeiros bispos chineses em 1926, marcando um ponto de viragem na vida da Igreja Cat\u00f3lica chinesa (resumo do referido \u201cMemorando\u201d).<\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Jos\u00e9 Alves, CM<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":345947,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[984],"class_list":["post-377222","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao","tag-400-anos-vicentinos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/377222","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=377222"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/377222\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/345947"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=377222"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=377222"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=377222"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}