{"id":376856,"date":"2025-05-21T09:12:48","date_gmt":"2025-05-21T08:12:48","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=376856"},"modified":"2025-05-20T12:47:47","modified_gmt":"2025-05-20T11:47:47","slug":"leao-xiv-como-o-cordeiro-mensageiro-da-paz-e-da-justica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/leao-xiv-como-o-cordeiro-mensageiro-da-paz-e-da-justica\/","title":{"rendered":"Le\u00e3o XIV, como o Cordeiro, mensageiro da Paz e da Justi\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p><i>Padre Ant\u00f3nio Henrique, Diocese de Viseu<\/i><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><em>Algumas impress\u00f5es e viv\u00eancias do Conclave, a partir da Pra\u00e7a de S\u00e3o Pedro<\/em><\/p>\n<p><em><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-268332 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeAntonioHenrique-viseu-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeAntonioHenrique-viseu-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeAntonioHenrique-viseu-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeAntonioHenrique-viseu-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeAntonioHenrique-viseu-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeAntonioHenrique-viseu-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeAntonioHenrique-viseu-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeAntonioHenrique-viseu-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeAntonioHenrique-viseu.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/em>Era de manh\u00e3zinha, ainda cedo, quando, naquele dia, o segundo da semana, uma not\u00edcia correu o mundo: o Papa Francisco acabara de viver a sua P\u00e1scoa definitiva, passara deste mundo para o Pai. Era segunda-feira da oitava da P\u00e1scoa, 21 de abril de 2025, 7:35h!<\/p>\n<p>A voz dos sem voz calara-se e, no entanto, por entre um grande sil\u00eancio, continuava a sentir-se a eloqu\u00eancia da sua vida, dos seus gestos. A Igreja sentia-se como um rebanho sem pastor (cf. Mt 9,36) e o mundo perdia a voz que muitos consideravam ser de um pai que sabe orientar e apontar caminhos de uma Esperan\u00e7a que n\u00e3o engana (Rm 5,5), recordando \u00e0 Igreja e ao mundo, que todos somos <em>peregrinos<\/em> a caminho de uma p\u00e1tria que n\u00e3o \u00e9 daqui (Fil 3,20-21; 2Cor 5,1-10).<\/p>\n<p>Mas, a vida da Igreja \u00e9 mesmo assim! A morte de um Papa \u00e9 sempre geradora de um novo <em>kair\u00f3s<\/em> de Esperan\u00e7a, porta que se abre como acontecimento e oportunidade de gra\u00e7a. Ao longo dos seus dois mil anos de hist\u00f3ria, ininterruptamente, \u00e0 morte de um Papa, depois das celebra\u00e7\u00f5es exequiais, os Cardeais eleitores re\u00fanem-se em Conclave (do latim <em>cum clave<\/em>, que significa com chave, isto \u00e9 fechados) para proceder, no Esp\u00edrito Santo, \u00e0 elei\u00e7\u00e3o do sucessor de Pedro. E assim sucedeu. Toda a Igreja era, agora, convocada a unir-se, em ora\u00e7\u00e3o, ao Conclave que iria eleger o 267\u00ba Pastor do rebanho do Senhor: o novo Papa.<\/p>\n<p>Entretanto, ao chegar a Roma, depois de umas f\u00e9rias de P\u00e1scoa, senti de imediato o frenesim instalado! Os dias tinham um ritmo pr\u00f3prio, mais vertiginoso do que o habitual, marcado particularmente pelas Congrega\u00e7\u00f5es dos Cardeais, as missas <em>novendiali<\/em> pelo Papa Francisco e todos os preparativos associados ao Conclave, com especial destaque para a instala\u00e7\u00e3o da famosa chamin\u00e9 na Capela Sistina, que haveria de dar ao mundo o primeiro sinal sobre a elei\u00e7\u00e3o, ou n\u00e3o, do novo Papa.<\/p>\n<p>A agita\u00e7\u00e3o era grande e a expectativa gerava uma curiosidade crescente no Vaticano, na cidade de Roma e no mundo, tal era a quantidade de <em>media<\/em> presente. Quem vir\u00e1 a ser o novo Papa? Ser\u00e1 este ou aquele? Qual ser\u00e1 a sua proveni\u00eancia? Que nome escolher\u00e1? Os italianos, claro est\u00e1, torciam por algu\u00e9m que fosse \u201cda casa\u201d! Enfim, os homens a tentar saber qual o des\u00edgnio de Deus! Mas, o ditado \u00e9 antigo: \u00abquem entre Papa sai cardeal!\u00bb. E assim foi, mais uma vez!<\/p>\n<p>E, eis que \u00e9 chegado o dia 07\/05\/2025. O Conclave ia iniciar. Estamos em pleno tempo pascal, no cora\u00e7\u00e3o do Jubileu da Esperan\u00e7a. Dentro de pouco tempo um novo Papa! Depois de assistir na televis\u00e3o, com esp\u00edrito de ora\u00e7\u00e3o e, tamb\u00e9m, alguma curiosidade expectante, \u00e0 entrada, e respetivo juramento, dos Cardeais eleitores na Capela Sistina, quase nem conseguia acreditar que, dito o <em>extra omnes<\/em> (todos fora), poderia sair de casa, descer a rua e entrar na Pra\u00e7a de S\u00e3o Pedro, para, ali vivenciar todo este acontecimento de ora\u00e7\u00e3o e espera(n\u00e7a). Que adrenalina!<\/p>\n<p>E, em cerca de 40 minutos, depois de passar toda a seguran\u00e7a, ali estava eu, juntamente com dois colegas, padres do Patriarcado de Lisboa e da Arquidiocese de \u00c9vora, e milhares de pessoas, na Pra\u00e7a de S\u00e3o Pedro, junto \u00e0 est\u00e1tua de S\u00e3o Paulo, a rezar e esperar em feliz esperan\u00e7a o Papa que Deus, pelo Seu Esp\u00edrito Santo, gerava n@ (c)ora\u00e7\u00e3o dos Cardeais, e nos nossos, ali ou em qualquer parte do mundo. A emo\u00e7\u00e3o era mais do que muita, mas procurava, por entre o \u00eaxtase de cada passo, viver e meditar no cora\u00e7\u00e3o, ao jeito de Maria, tudo o que estava a acontecer. Confesso que tivera, desde sempre, uma enorme vontade em viver de perto este acontecimento de gra\u00e7a e rara expectativa, certamente, \u00fanico na minha vida e na de muitos. Na verdade, n\u00e3o consigo descrever com clareza o que senti e vivenciei. \u00c9 muito forte!<\/p>\n<p>O desconhecido desafiava \u00e0 especula\u00e7\u00e3o e agu\u00e7ava ainda mais a curiosidade! Quanto tempo demoram as vota\u00e7\u00f5es? S\u00e3o 133 Cardeais! Na verdade, na era do digital e do imaterial, onde a informa\u00e7\u00e3o flui quase instantaneamente e se faz anunciar atrav\u00e9s de uma notifica\u00e7\u00e3o ou atualiza\u00e7\u00e3o das redes sociais, todos esper\u00e1vamos, com os olhos (as lentes, as objetivas, as c\u00e2maras dos <em>smartphones<\/em>) voltados para uma chamin\u00e9, que, mais cedo ou mais tarde, daria alguma resposta. Afinal, \u00e9 importante n\u00e3o ter pressa e saber esperar! J\u00e1 n\u00e3o estamos habituados a n\u00e3o saber o que se passa; e ningu\u00e9m sabia, de facto, o que se passava, e se passou, em concreto na Sistina.<\/p>\n<p>A resposta, essa, viria do alto, com a leveza de uma fuma\u00e7a: <em>preta<\/em>, a indicar que n\u00e3o houve elei\u00e7\u00e3o ou <em>branca<\/em>, a proclamar, como primeiro an\u00fancio, que temos um novo Papa. Quem diria que na era do digital a espera seria por uma fuma\u00e7a anal\u00f3gica com o poder brutal de informar o mundo inteiro acerca da not\u00edcia mais aguardada! Que mundo, este! E eis que sa\u00edram os primeiros sinais de fumo, ao in\u00edcio da noite, e, como era de esperar, eram de fumo preto. Os milhares de pessoas que se tinham dirigido \u00e0 Pra\u00e7a de S\u00e3o Pedro regressavam agora a suas casas desejosos do dia seguinte! A noite passou num fechar e abrir de olhos!<\/p>\n<p>E chega o segundo dia. Logo de manh\u00e3, a Pra\u00e7a come\u00e7ava, novamente, a encher para ver de que cor seria o fumo ap\u00f3s as duas vota\u00e7\u00f5es matutinas. Mas, enquanto n\u00e3o havia sinais de fumo, durante o tempo de espera, as pessoas rezavam, liam, conversavam, brincavam, sorriam, faziam fotografias, visitavam a Bas\u00edlica\u2026 e eis que pelas 11:50h (hora local) os gritos e o voltar de cabe\u00e7as, quase sincronizado, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 chamin\u00e9, faziam estremecer o cora\u00e7\u00e3o e a mente, colocando todos em alerta m\u00e1ximo: \u201cest\u00e1 a sair fumo\u201d, gritavam! Mas, rapidamente nos apercebemos que ainda n\u00e3o era da cor desejada! Novamente fumo preto. Era hora de almo\u00e7o e todos dispers\u00e1mos. Era necess\u00e1rio retemperar as for\u00e7as.<\/p>\n<p>Logo ao in\u00edcio da tarde, debaixo de um calor t\u00f3rrido, as pessoas come\u00e7avam a chegar e a procurar aquele que entendiam ser o melhor lugar. Eram crian\u00e7as, jovens, fam\u00edlias, de v\u00e1rias idades e nacionalidades! Todos aflu\u00edam \u00e0 Pra\u00e7a! Eu, juntamente com os colegas, procurei ir para o lugar onde sempre t\u00ednhamos estado, na primeira linha, junto \u00e0 estatua de S\u00e3o Paulo, de frente para a chamin\u00e9, com \u00f3tima vis\u00e3o para a varanda central da Bas\u00edlica, onde seria apresentado o novo Papa, e diante de um ecr\u00e3 gigante, onde pod\u00edamos ver todos os pormenores. \u00c0 medida que a tarde ia avan\u00e7ando, iam-se juntando outros colegas portugueses e angolanos, residente no Col\u00e9gio Portugu\u00eas, todos na expectativa do resultado das vota\u00e7\u00f5es daquela tarde, quarta e quinta, respetivamente. As \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es de Papas aconteceram entre a quarta e a quinta vota\u00e7\u00f5es. Seria agora?<\/p>\n<p>Eram 17:30h\/18h e todos pens\u00e1vamos: \u201cbem! temos que esperar pela quinta vota\u00e7\u00e3o ou pelo dia de amanh\u00e3, se houvesse novo Papa j\u00e1 teria sa\u00eddo a fuma\u00e7a\u2026\u201d e sem que ningu\u00e9m estivesse \u00e0 espera, todos distra\u00eddos a olhar para as gaivotas que teimavam em n\u00e3o desarmar de junto da chamin\u00e9, desta vez, para gaudio da multid\u00e3o, com uma cria, eis que, da chamin\u00e9 mais observada do planeta, come\u00e7a a sair fumo: \u00e9 branco! \u00c9 branco! Come\u00e7am a ouvir-se gritos de alegria e j\u00fabilo! Seriam umas 18:08h! Que emo\u00e7\u00e3o! Era imposs\u00edvel n\u00e3o se arrepiar e comover.<\/p>\n<p>Na euforia daquele instante, como seria de esperar, o primeiro <em>habemus Papam<\/em> foi pronunciado festivamente pela multid\u00e3o em coro:<em> \u00abHabemus Papam!\u00bb<\/em>, ouvia-se por entre gritos, palmas, abra\u00e7os, l\u00e1grimas, arrepios e sorrisos\u2026! Ainda ningu\u00e9m sabia quem era o novo Papa e j\u00e1 este era amado e aclamado por todos. O fumo continuava a sair\u2026 juntaram-se-lhe os sinos da Bas\u00edlica que tocavam festivamente. As pessoas, saindo de todos os lados, corriam em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s imedia\u00e7\u00f5es da Pra\u00e7a. A via da <em>Conciliazione<\/em>, num instante, parecia um rio de gente! Ningu\u00e9m queria perder aquele momento!<\/p>\n<p>Uma hora e pouco depois do fumo branco, eis o an\u00fancio solene, pelo Cardeal Dominique Mamberti: <em>annuntio vobis gaudium magnum: habemus Papam<\/em> (anuncio-vos uma grande alegria: temos Papa): Robert Francis Prevost. Um americano! \u00abO menos americano dos americanos\u00bb, dizia um jornal, que esteve longos anos em miss\u00e3o no Peru, em particular como bispo da diocese de Chiclayo, e que, para surpresa de todos, escolheu para si o nome <em>Le\u00e3o XIV<\/em>, evocando o Papa Le\u00e3o XIII, que escrevera a primeira enc\u00edclica social, <em>Rerum novarum<\/em>.<\/p>\n<p>Instantes depois, por entre uma imensa ova\u00e7\u00e3o e gritos de alegria, ei-lo: o Papa Le\u00e3o XIV, de rosto sereno, mas firme, aparece na varanda central da Bas\u00edlica de S\u00e3o Pedro para se apresentar, saudar a multid\u00e3o e dar a b\u00ean\u00e7\u00e3o \u00e0 Igreja, \u00e0 cidade e ao mundo. Finalmente, associava-se um rosto ao nome. Era um \u00abfilho de Santo Agostinho\u00bb. Visivelmente emocionado, procurava dominar as l\u00e1grimas, sorrindo e saudando a multid\u00e3o que gritava efusiva e incessantemente, em un\u00edssono: \u201cviva o Papa! Viva o Papa!\u201d, alternando com o grito do seu nome: \u201cLe\u00e3o! Le\u00e3o!\u201d.<\/p>\n<p>As suas primeiras palavras, fortes e convictas, penetraram instantaneamente o cora\u00e7\u00e3o de quem as escutava, fazendo-me cair as l\u00e1grimas. Impressionante! S\u00e3o uma cita\u00e7\u00e3o, composta, do Evangelho: \u00abA Paz esteja com todos v\u00f3s (cf. Jo 20,19). Car\u00edssimos irm\u00e3os e irm\u00e3s, esta \u00e9 a primeira sauda\u00e7\u00e3o de Cristo Ressuscitado, o Bom Pastor, que deu a vida pelo rebanho de Deus. Tamb\u00e9m eu gostaria que esta sauda\u00e7\u00e3o de paz entrasse no vosso cora\u00e7\u00e3o, chegasse \u00e0s vossas fam\u00edlias, a todas as pessoas, onde quer que se encontrem, a todos os povos, a toda a terra. A paz esteja convosco! Esta \u00e9 a paz de Cristo Ressuscitado, uma paz desarmada e uma paz desarmante, que \u00e9 humilde e perseverante. Que vem de Deus, do Deus que nos ama a todos incondicionalmente. [\u2026] Quero [\u2026] caminhar convosco, como Igreja unida, procurando sempre a paz, a justi\u00e7a, esfor\u00e7ando-se sempre por [\u2026] fi\u00e9is a Jesus Cristo, sem medo, [\u2026] anunciar o Evangelho, para ser mission\u00e1rios\u00bb.<\/p>\n<p>Este Papa, ao jeito de Cristo, \u00e9 um Le\u00e3o que, na verdade, entra e se apresenta como o Cordeiro que anuncia a Paz e a Justi\u00e7a. A este prop\u00f3sito, o Livro do Apocalipse \u00e9 bastante elucidativo: antes de introduzir \u00abo Cordeiro, de p\u00e9, como imolado\u00bb (Ap 5,6), o \u00fanico capaz de abrir o Livro selado, Este \u00e9 apresentado como \u00abo Le\u00e3o vencedor da tribo de Jud\u00e1\u00bb (Ap 5,5).<\/p>\n<p>Estes dois animais, numa linguagem simb\u00f3lica (<em>tereom\u00f3rfica<\/em>) messi\u00e2nica, sublinham a humildade e a mansid\u00e3o do Cordeiro, que levado ao matadouro n\u00e3o abriu a boca (cf. Is 53,7; Jr 11,19; Ex 12,1.27) e a coragem e a for\u00e7a irresist\u00edveis do Le\u00e3o (cf. Gn 49,9-10), ambas conjugadas na pessoa de Jesus Cristo Ressuscitado. Esta elabora\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica do autor do Apocalipse est\u00e1 em linha com a teologia joanina (cf. Jo 1,29.36) que nos fala da vit\u00f3ria pascal do Senhor, qual Cordeiro imolado, que traz em si os sinais vis\u00edveis da Paix\u00e3o e se apresenta aos seus disc\u00edpulos anunciando, precisamente, as palavras que inspiraram a sauda\u00e7\u00e3o do novo Papa: \u00abA Paz esteja convosco\u00bb (cf. Jo 20,19-22).<\/p>\n<p>Da uni\u00e3o das figuras do Le\u00e3o e do Cordeiro, em Cristo, agora de algum modo encarnadas no novo Pastor universal, fala-nos Santo Agostinho, seu pai e mestre, no seu <em>Discurso 375\/A<\/em>, onde nos apresenta o Crucificado e Ressuscitado como um rei inocente e poderoso, nossa P\u00e1scoa e nossa Esperan\u00e7a, que na Paix\u00e3o foi Cordeiro e na Ressurrei\u00e7\u00e3o foi Le\u00e3o, ou melhor dito, na Paix\u00e3o e Ressurrei\u00e7\u00e3o, foi Cordeiro e Le\u00e3o: Cordeiro porque viveu a Paix\u00e3o sem a evitar e Le\u00e3o porque, morto, matou a morte e agora vive eternamente.<\/p>\n<p>Com a escolha do nome e com as palavras de sauda\u00e7\u00e3o, o Papa Le\u00e3o XIV diz ao que vem: com a humildade de quem assume a Cruz de Cristo, mas com a coragem de quem nela descobre a for\u00e7a para ser a voz dos injusti\u00e7ados e dos \u00faltimos, afirmando que \u00abqueremos ser uma Igreja sinodal, uma Igreja que caminha, uma Igreja que procura sempre a paz, que procura sempre a caridade, que procura sempre estar pr\u00f3xima, sobretudo dos que sofrem\u00bb.<\/p>\n<p>Deste modo, o Papa Le\u00e3o vai-se apresentando e dando a conhecer, como algu\u00e9m que, por um lado, renova e reafirma a plena ades\u00e3o ao caminho \u00abque a Igreja universal percorre h\u00e1 d\u00e9cadas na esteira do Conc\u00edlio Vaticano II\u00bb e, por outro, \u00e0 atualiza\u00e7\u00e3o que o Papa Francisco empreendeu \u00abna Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica <em>Evangelii gaudium<\/em>, [\u2026] sublinha[ndo] alguns pontos fundamentais, tais como: o regresso ao primado de Cristo no an\u00fancio (cf. n. 11); a convers\u00e3o mission\u00e1ria de toda a comunidade crist\u00e3 (cf. n. 9); o crescimento na colegialidade e na sinodalidade (cf. n. 33); a aten\u00e7\u00e3o ao <em>sensus fidei<\/em> (cf. nn. 119-120), especialmente nas suas formas mais pr\u00f3prias e inclusivas, como a piedade popular (cf. n. 123); o cuidado amoroso com os marginalizados e os exclu\u00eddos (cf. n. 53); o di\u00e1logo corajoso e confiante com o mundo contempor\u00e2neo nas suas v\u00e1rias componentes e realidades (cf. n. 84; <em>Gaudium et spes<\/em>, 1-2). Trata-se de princ\u00edpios do Evangelho que sempre animaram e inspiraram a vida e o agir da Fam\u00edlia de Deus, valores atrav\u00e9s dos quais o rosto misericordioso do Pai se revelou e continua a revelar-se no Filho feito homem, \u00faltima esperan\u00e7a de quem procura com sinceridade a verdade, a justi\u00e7a, a paz e a fraternidade (cf. <em>Spe salvi<\/em>, 2; <em>Spes non confundit<\/em>, 3)\u00bb.<\/p>\n<p>Na esteira do Papa Francisco, mas \u00e0 sua maneira, o Papa Le\u00e3o, apresenta-se como um <em>Peregrino de esperan\u00e7a<\/em> que, como mensageiro da paz, com aud\u00e1cia, deseja imitar o Senhor que \u00abpassou pelo mundo fazendo o bem\u00bb (At 10,38), como confirmam as suas palavras na conclus\u00e3o da homilia, na missa de in\u00edcio do seu minist\u00e9rio petrino: \u00abcom a luz e a for\u00e7a do Esp\u00edrito Santo, construamos uma Igreja fundada no amor de Deus e sinal de unidade, uma Igreja mission\u00e1ria, que abre os bra\u00e7os ao mundo, que anuncia a Palavra, que se deixa inquietar pela hist\u00f3ria e que se torna fermento de conc\u00f3rdia para a humanidade. Juntos, como \u00fanico povo, todos irm\u00e3os, caminhemos ao encontro de Deus e amemo-nos uns aos outros\u00bb.<\/p>\n<p>Do cora\u00e7\u00e3o do novo Papa, brota para toda a humanidade um rugido de Paz, \u00abdesarmada e desarmante\u00bb, emitido com a humildade e mansid\u00e3o do Cordeiro e a for\u00e7a corajosa e irresist\u00edvel do Le\u00e3o que venceu o mundo: Jesus Cristo Ressuscitado, nossa Esperan\u00e7a e nossa Paz.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Ant\u00f3nio Henrique, Diocese de Viseu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":268332,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center 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