{"id":37625,"date":"2009-03-17T12:35:47","date_gmt":"2009-03-17T12:35:47","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/03\/17\/pascoa-da-tradicao-judaica-a-vivencia-crista\/"},"modified":"2009-03-17T12:35:47","modified_gmt":"2009-03-17T12:35:47","slug":"pascoa-da-tradicao-judaica-a-vivencia-crista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/pascoa-da-tradicao-judaica-a-vivencia-crista\/","title":{"rendered":"P\u00e1scoa: Da tradi\u00e7\u00e3o judaica \u00e0 viv\u00eancia crist\u00e3"},"content":{"rendered":"<p>A festa P\u00e1scoa, tal como n\u00f3s a concebemos, deve ser vista como um todo, de modo integrado (P\u00e1scoa judaica e P\u00e1scoa crist\u00e3), o que nos ajuda a compreender e perceber a simbologia da nossa P\u00e1scoa e da nossa liturgia, j\u00e1 que \u00e9 das tradi\u00e7\u00f5es judaicas que n\u00f3s recebemos o quadro de refer\u00eancia que d\u00e1 sentido \u00e0 linguagem e aos diversos s\u00edmbolos que usamos nas nossas celebra\u00e7\u00f5es. Por exemplo: Ceia pascal, Cordeiro pascal, a Noite pascal, etc.   Al\u00e9m das refer\u00eancias directas \u00e0s festas, temos tamb\u00e9m muitos motivos que s\u00e3o tomadas da simbologia das festas e da sua fundamenta\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica, recorrendo aos textos do Antigo Testamento. No caso da P\u00e1scoa, os textos mais significativos s\u00e3o: Ex 12; Lv 23,5-8; Nm 28,16-25; Dt 16,1-8.  Todas as festas t\u00eam na sua base e origem um sentido agr\u00edcola (ou agr\u00e1rio, se quisermos) e nom\u00e1dico. Correspondem \u00e0s grandes etapas (ou fases) da vida agr\u00edcola, da vida dos campos e dos n\u00f3madas. A P\u00e1scoa: sa\u00edda dos rebanhos, ap\u00f3s as chuvas de Inverno, no in\u00edcio da Primavera, correspondendo tamb\u00e9m \u00e0 \u00e9poca do germinar da vida e dos campos.  Portanto, temos aqui duas perspectivas fundamentais: Celebrar a vida nova que renasce e agradecer os dons recebidos, testemunhando assim que tudo isso \u00e9 um dom que o Povo de Israel, agradecido, vive e celebra.    \t<b> A P\u00e1scoa Judaica: O que \u00e9?<\/b> \t    A festa da P\u00e1scoa (Pesah) \u00e9 de todas a mais significativa do calend\u00e1rio judaico e a primeira das chamadas \u2018festas de peregrina\u00e7\u00e3o\u2019 (Ah harregal\u00eem: P\u00e1scoa, Pentecostes e Tabern\u00e1culos). Estas festas celebravam os principais acontecimentos da hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o e, por isso, todo o israelita devia \u2018subir\u2019 a Jerusal\u00e9m por ocasi\u00e3o de uma dessas tr\u00eas festas, para a\u00ed festejar os dons de Deus e a Sua alian\u00e7a. A celebra\u00e7\u00e3o da P\u00e1scoa, na noite de 14 de Nis\u00e3n, estava inserida e dava in\u00edcio a uma outra festa, a dos \u00c1zimos que durava sete dias e se conclu\u00eda com uma convoca\u00e7\u00e3o solene no 7\u00ba dia da festa (Dt 16,8) que assim encerrava o ciclo da solenidade pascal.     Os textos que chegaram at\u00e9 n\u00f3s mostram-nos duas tradi\u00e7\u00f5es muito fortes que se misturam e entrecruzam na sua redac\u00e7\u00e3o; falam-nos de origens nom\u00e1dicas (tradi\u00e7\u00f5es pastoris) e da experi\u00eancia da sa\u00edda do Egipto (tradi\u00e7\u00f5es do \u00caxodo). Estas fontes podem ter existido separadas e durante muito tempo, tendo depois sido cruzadas e elaboradas como uma narrativa conjunta. Quando e como?  \tO texto de Josu\u00e9 (5,10-11) leva-nos a supor que este cruzamento das diversas tradi\u00e7\u00f5es \u00e9 tardio, talvez j\u00e1 ligado \u00e0s escolas sacerdotais e teol\u00f3gicas que agora colocam em evid\u00eancia a experi\u00eancia do \u00caxodo, j\u00e1 que com a sedentariza\u00e7\u00e3o na terra e a centralidade cultual no Templo n\u00e3o fazia sentido privilegiar o sentido nom\u00e1dico, mas antes real\u00e7ar a ac\u00e7\u00e3o libertadora de Yahw\u00e9 que arrancou o Seu povo do Egipto.  \tCom a experi\u00eancia do ex\u00edlio da Babil\u00f3nia e o regresso a Jerusal\u00e9m, constituindo-se a comunidade eleita dos judeus \u2018santos e sacerdotes\u2019, as tradi\u00e7\u00f5es da liberta\u00e7\u00e3o do Egipto assumem ainda maior for\u00e7a e representam o verdadeiro padr\u00e3o do Israel eleito que foi resgatado e que de novo retoma a sua caminhada.   <b>2. A celebra\u00e7\u00e3o da P\u00e1scoa judaica<\/b>     A festa da P\u00e1scoa (Pesah), de todas a mais significativa do calend\u00e1rio judaico, era essencialmente um \u2018memorial\u2019 (Ex 12,14) da liberta\u00e7\u00e3o do Egipto. Em Jos 5,10-11, ap\u00f3s a passagem do Jord\u00e3o, os israelitas celebraram a 1\u00aa P\u00e1scoa j\u00e1 na terra prometida, \u2018comendo dos frutos da terra: p\u00e3es \u00e1zimos e espigas tostadas\u2019. Trata-se, naturalmente, de uma esp\u00e9cie de ritual de \u2018exorciza\u00e7\u00e3o\u2019 do local, para a\u00ed manifestar a supremacia sobre os costumes dos cananeus. Os textos da tradi\u00e7\u00e3o do \u00caxodo j\u00e1 combinavam as diferentes tradi\u00e7\u00f5es das tribos. Assim, Ex 23,15-19, que tinha a sua origem no Norte conhecia a tradi\u00e7\u00e3o dos \u00e1zimos mas desconhecia a P\u00e1scoa, enquanto que em Ex 34 encontramos j\u00e1 uma conjuga\u00e7\u00e3o dos dois ritos, conjuga\u00e7\u00e3o esta que depois est\u00e1 consagrada em Lv 23,5-8 e Dt 16,1-8. Por sua vez, o livro das Cr\u00f3nicas faz-se eco de duas celebra\u00e7\u00f5es da P\u00e1scoa: uma ao tempo de Ezequias (2 Cr 30,1) e a outra na \u00e9poca de Josias (2 Cr 35,1). O seu ritual evoca a sa\u00edda do Egipto com a imola\u00e7\u00e3o do cordeiro no Templo e a aspers\u00e3o do altar com o seu sangue.  A literatura ap\u00f3crifa d\u00e1 igualmente grande relevo \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o da festa de P\u00e1scoa. O livro dos Jubileus faz remontar a celebra\u00e7\u00e3o da P\u00e1scoa a Abra\u00e3o e estabelece uma rela\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca entre o sacrif\u00edcio de Isaac e a festa (18,13-19). Esta mesma rela\u00e7\u00e3o encontra-se tamb\u00e9m no Targum Lv 26,46, em que o sacrif\u00edcio de Isaac \u00e9 considerado como o verdadeiro fundamento da Alian\u00e7a.  Enquanto o juda\u00edsmo palestiniano destacava esta rela\u00e7\u00e3o entre o sacrif\u00edcio de Isaac e a P\u00e1scoa, o juda\u00edsmo alexandrino sublinhava mais o sentido aleg\u00f3rico da festa, como s\u00edmbolo da primeira cria\u00e7\u00e3o e an\u00fancio da nova cria\u00e7\u00e3o. \u00c9 particularmente Fil\u00e3o de Alexandria que desenvolve este sentido aleg\u00f3rico da sa\u00edda do Egipto, fazendo desta festa um \u2018memorial\u2019 e uma \u2018ac\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as\u2019 da liberta\u00e7\u00e3o. Id\u00eantica perspectiva encontra-se no livro da Sabedoria com um sentido de reactualiza\u00e7\u00e3o do tema do \u00eaxodo para a comunidade judaica de Alexandria. O centro da celebra\u00e7\u00e3o lit\u00fargica da festa da P\u00e1scoa decorria no Templo e nas fam\u00edlias, com o Seder pascal: a refei\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia. \u00c9 a partir da reuni\u00e3o familiar que se desenvolve a Haggadah pascal que \u00e9, ao mesmo tempo, um \u2018ordo\u2019 da refei\u00e7\u00e3o e um memorial do acontecimento celebrado que n\u00e3o se confina apenas \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o do Egipto, mas tamb\u00e9m abarca os principais momentos da hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o.  No que diz respeito \u00e0 liturgia sinagogal, um dos textos mais belos e sugestivos sobre esta festa \u00e9 aquele que nos prov\u00e9m do Targum Ne\u00f3fiti. Trata-se de um coment\u00e1rio de tipo midr\u00e1shico que encontra o seu desenvolvimento a partir do facto do autor de Ex 12 referir 4 vezes o termo \u2018noite\u2019. Vejamos: <i>\u201cQuatro s\u00e3o as noites que est\u00e3o inscritas no livro das mem\u00f3rias. A primeira noite Deus manifestou-se sobre o mundo para o criar. O mundo era confus\u00e3o e trevas. As trevas cobriam o abismo. A Palavra de Yhaw\u00e9 era a luz e brilhava. Chamou-se a primeira noite. A segunda noite, quando Yhaw\u00e9 apareceu a Abra\u00e3o com a idade de 100 anos e a Sarah, sua esposa, com a idade de 90 anos, para realizar a Escritura que diz: Ser\u00e1 que Abra\u00e3o, com 100 anos de idade, vai gerar e Sarah, sua esposa, com 90 anos, vai dar \u00e0 luz? Isaac tinha 37 anos quando foi oferecido em sacrif\u00edcio sobre o altar\u2026 Chamou-se a segunda noite. A terceira noite Yhaw\u00e9 apareceu aos eg\u00edpcios no meio da noite: a sua m\u00e3o matou os primog\u00e9nitos dos eg\u00edpcios e a sua direita protegeu os primog\u00e9nitos de Israel para que se cumprisse a Escritura que diz: Meu filho primog\u00e9nito, \u00e9 Israel\u2026 Chamou-se a terceira noite. A quarta noite o mundo chegar\u00e1 ao seu fim para ser destru\u00eddo; os jugos de ferro ser\u00e3o destru\u00eddos e as gera\u00e7\u00f5es perversas ser\u00e3o aniquiladas. Mois\u00e9s subir\u00e1 do meio do deserto e o Rei Messias vir\u00e1 do alto. Um caminhar\u00e1 \u00e0 frente do rebanho e o outro caminhar\u00e1 \u00e0 frente do rebanho e a sua Palavra caminhar\u00e1 entre os dois. Eu e eles caminharemos lado a lado. \u00c9 a noite da P\u00e1scoa para a liberta\u00e7\u00e3o de todo Israel\u201d<\/i> (1)       Quanto aos textos rab\u00ednicos, a P\u00e1scoa aparece bem documentada nessas fontes, particularmente no tratado Pesahim da Mishn\u00e1. Os cap\u00edtulos 5\u00ba e 10\u00ba oferecem-nos uma detalhada descri\u00e7\u00e3o dos ritos fundamentais da festa segundo a tradi\u00e7\u00e3o rab\u00ednica, mas recolhendo tradi\u00e7\u00f5es que, provavelmente, s\u00e3o j\u00e1 do per\u00edodo posterior \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o do Templo, uma vez que n\u00e3o h\u00e1 alus\u00f5es \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o festiva no Templo e os rabinos citados s\u00e3o, em geral, tamb\u00e9m do per\u00edodo posterior a 70. Os rituais festivos que este tratado nos apresenta t\u00eam uma forte componente alusiva \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o familiar e assemelham-se em muito \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es que se perpetuam na Haggadah pascal que \u00e9 um texto que condensa em si esse sentido da festa celebrada e vivida na fam\u00edlia como memorial da hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o.  Em termos teol\u00f3gicos, podemos sintetizar a teologia da P\u00e1scoa em 3 grandes perspectivas:   <u>a) Sentido messi\u00e2nico-escatol\u00f3gico da celebra\u00e7\u00e3o pascal<\/u>     A festa actualiza a sa\u00edda do Egipto na vida da comunidade e, ao mesmo tempo, antecipa a liberta\u00e7\u00e3o definitiva. A simbologia dos ritos festivos t\u00eam uma dimens\u00e3o escatol\u00f3gica, prefigurada no vinho do banquete messi\u00e2nico, tal como o deixa entender o Targum do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos. De acordo com Gn 49,11, o vinho tem um sentido profundamente messi\u00e2nico, pois o Messias lavar\u00e1 as suas vestes no sangue da videira (2). Esta dimens\u00e3o messi\u00e2nica \u00e9 tamb\u00e9m confirmada por Pesh 9,11 que refere que \u2018os habitantes de Jerusal\u00e9m convidavam os pobres para a refei\u00e7\u00e3o pascal, j\u00e1 que Elias se manifestaria sob a forma de um pobre, antes do advento do Messias que deve acontecer na noite pascal.   A P\u00e1scoa \u00e9 tamb\u00e9m a festa do an\u00fancio da liberta\u00e7\u00e3o que Yhaw\u00e9 concede ao seu povo, fazendo-o passar da \u2018casa da escravid\u00e3o\u2019 que era o Egipto para a liberta\u00e7\u00e3o que \u00e9 a Terra Prometida. N\u00e3o se trata de um an\u00fancio celebrativo, mem\u00f3ria do passado; ele \u00e9 antes um grito de esperan\u00e7a que percorre toda a hist\u00f3ria do povo e aberto ao futuro. De facto, a perspectiva escatol\u00f3gica da liturgia pascal est\u00e1 bem presente num texto atribu\u00eddo a Rabban Gamaliel (3), em que cada um dos crentes judeus \u00e9 convidado a celebrar a festa como se ele pr\u00f3prio tivesse estado presente na altura da sua institui\u00e7\u00e3o. Diz o texto: <i>\u201cCada um de n\u00f3s tem o dever de se considerar como se ele pr\u00f3prio tivesse sa\u00eddo do Egipto, j\u00e1 que est\u00e1 escrito: Explicar\u00e1s ao teu filho naquele dia, dizendo: \u2018\u00c9 pelo que o Senhor fez em meu favor quando sa\u00ed da terra do Egipto\u2019. Por isso, estamos obrigados a dar-lhe gra\u00e7as, louv\u00e1-lo, cantar, magnificar, exaltar, glorificar, bendizer aquele que fez, em favor dos nossos antepassados e por n\u00f3s, todos estes prod\u00edgios. Ele conduziu-nos da escravid\u00e3o \u00e0 liberdade, da tristeza \u00e0 alegria, do luto \u00e0 festa, das trevas \u00e0 luz, da escravid\u00e3o \u00e0 reden\u00e7\u00e3o. Cantemos em Seu louvor, Aleluia\u201d.<\/i>  Esta dimens\u00e3o escatol\u00f3gica da festa \u00e9 aquela que melhor se coaduna e que mais facilmente foi assumida pela liturgia crist\u00e3. De acordo com os Evangelhos Sin\u00f3pticos, o pr\u00f3prio Jesus tinha consci\u00eancia da dimens\u00e3o escatol\u00f3gica da Sua ceia pascal, quando ap\u00f3s a b\u00ean\u00e7\u00e3o da ta\u00e7a do vinho acrescenta: \u201cEu vos asseguro que j\u00e1 n\u00e3o beberei do fruto da videira at\u00e9 ao dia em que o beba de novo no reino de Deus (Mc 14,25)\u201d (4). Jesus n\u00e3o s\u00f3 conferiu \u00e0 refei\u00e7\u00e3o pascal com os disc\u00edpulos este sentido escatol\u00f3gico, mas tamb\u00e9m a pr\u00f3pria comunidade crist\u00e3 primitiva encontrou aqui a \u2018chave de leitura\u2019 da vida do Mestre. O seu sangue, tal como o do \u2018cordeiro pascal\u2019, selou uma nova alian\u00e7a, a alian\u00e7a escatol\u00f3gica que fora proclamada pelos profetas e que agora se concretiza no mist\u00e9rio da sua P\u00e1scoa.           <u>b) A P\u00e1scoa como nova cria\u00e7\u00e3o<\/u>     O juda\u00edsmo alexandrino cultivou muito o m\u00e9todo aleg\u00f3rico e simb\u00f3lico na sequ\u00eancia da tradi\u00e7\u00e3o plat\u00f3nica. Muitos dos acontecimentos da hist\u00f3ria do povo de Israel foram interpretados e comentados como alegorias de realidades futuras ou, ent\u00e3o, como prot\u00f3tipos dos verdadeiros mist\u00e9rios da salva\u00e7\u00e3o (5). Tamb\u00e9m com a festa da P\u00e1scoa sucede o mesmo. Assim, sendo o m\u00eas de Nis\u00e3n o primeiro dos meses (Ex 12,2) [6], Fil\u00e3o de Alexandria interpreta isso como sendo \u2018um memorial da origem do mundo\u2019 (7) e a P\u00e1scoa, enquanto festa da primavera, era o memorial da nova cria\u00e7\u00e3o que Deus realiza, libertando o Seu povo da escravid\u00e3o para a liberdade (8). A leitura do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos (Shir haShirim) que era feita na liturgia pascal confere a esta celebra\u00e7\u00e3o um sentido de \u2018n\u00fapcias festivas\u2019 entre Deus e o Seu povo e dessas n\u00fapcias nasce um povo novo, o povo da alian\u00e7a. A pr\u00f3pria tradi\u00e7\u00e3o rab\u00ednica tamb\u00e9m interpreta o \u201c\u00eaxodo como uma esp\u00e9cie de cria\u00e7\u00e3o precedendo o nascimento de Israel\u201d (9), j\u00e1 que para certos rabinos a origem do mundo teria tido lugar no m\u00eas de Nis\u00e3n. A pr\u00f3pria simbologia dos p\u00e3es \u00e1zimos\u2019 (os matzot) confere o significado de algo novo, original \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o, determinando assim o come\u00e7o de uma realidade que se inicia sem qualquer m\u00e1cula, ou seja, em santidade. O mesmo se pode dizer do \u2018ovo\u2019 que se coloca na ceia pascal, simbolizando a origem da vida, mas tamb\u00e9m a vida nova da ressurrei\u00e7\u00e3o. Podemos dizer que a liturgia pascal \u00e9, por ela mesma, um apelo \u00e0 esperan\u00e7a, n\u00e3o s\u00f3 a Israel, mas tamb\u00e9m a toda a humanidade, que se renova num novo dinamismo de liberta\u00e7\u00e3o. \u00c9 esta a mensagem que o texto de Pesh 10,5 nos deixa quando diz que a P\u00e1scoa \u00e9 a passagem \u2018das trevas \u00e0 luz\u2019, passagem que o Targum confirma pondo a noite pascal em liga\u00e7\u00e3o com a noite da cria\u00e7\u00e3o.        <u>c) A P\u00e1scoa e a Aqedah de Isaac<\/u>     A liturgia judaica, tal como se pode constatar pelo texto do Targum Ne\u00f3fiti a Ex 12,42, estabelecia uma estreita rela\u00e7\u00e3o entre a festa da P\u00e1scoa e o sacrif\u00edcio de Isaac. Esta rela\u00e7\u00e3o foi tamb\u00e9m assumida pela liturgia crist\u00e3 que na noite de P\u00e1scoa retoma a leitura de Gn 22 como um dos momentos mais significativos da hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o e pr\u00e9-figura\u00e7\u00e3o do sacrif\u00edcio de Cristo, o novo Isaac.  De facto, a teologia judaica sempre interpretou a entrega de Isaac no pa\u00eds de Mori\u00e1 como o nascimento do povo de Israel na pessoa do filho de Abra\u00e3o. \u00c9 em aten\u00e7\u00e3o aos m\u00e9ritos de Isaac que Israel subsiste aos olhos de Deus. Para o Livro dos Jubileus (18,3), o sacrif\u00edcio de Isaac teve lugar a 15 de Nis\u00e3n. A inten\u00e7\u00e3o do autor dos Jubileus \u00e9 a de mostrar que as festas judaicas, especialmente a mais importante de todas \u2013 a P\u00e1scoa \u2013 tinham j\u00e1 uma origem patriarcal atrav\u00e9s da concretiza\u00e7\u00e3o do apelo que Yhaw\u00e9 lhe fizera. Os sete dias da festa de P\u00e1scoa eram a \u2018mem\u00f3ria\u2019 dos sete dias da viagem de Abra\u00e3o at\u00e9 ao pa\u00eds de Mori\u00e1. O mesmo se pode deduzir desta haggadah a Ex 12,2 que diz: <i>\u201cEste m\u00eas ser\u00e1 para v\u00f3s o primeiro dos meses (Ex 12,2). O Santo, bendito seja Ele, designou para os israelitas um m\u00eas de reden\u00e7\u00e3o no qual eles foram redimidos do Egipto e no qual eles ser\u00e3o redimidos\u2026 Nesse m\u00eas nasceu Isaac, e nesse m\u00eas ele foi \u2018ligado\u2019\u201d (10).<\/i>     No entanto, a rela\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica entre os dois acontecimentos n\u00e3o se restringe apenas \u00e0 data; \u00e9 muito mais profunda. Assim, o cordeiro pascal recorda o cordeiro sacrificado por Abra\u00e3o em substitui\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio filho, embora, como diz o Targum, Isaac \u00e9 o verdadeiro cordeiro para o sacrif\u00edcio. Ele mesmo, quando est\u00e1 a ser atado ao altar, suplica ao pai para que o ate bem, j\u00e1 que n\u00e3o quer remexer-se nem manifestar qualquer recusa da sua entrega, a fim de que o seu sacrif\u00edcio n\u00e3o seja inv\u00e1lido e desta forma Israel possa ser redimido pelos seus m\u00e9ritos. Isaac \u00e9 assim a perfeita imagem do \u2018cordeiro pascal\u2019 que se oferece para merecer a salva\u00e7\u00e3o para Israel. Por sua vez, o Targum de Lv 22,27 reconhece que os cordeiros oferecidos no Templo o eram para \u2018fazer mem\u00f3ria\u2019 do sacrif\u00edcio de Isaac. Desta forma, Isaac \u00e9 o prot\u00f3tipo do crente israelita que se entrega a Deus para expiar o pecado do mundo, tal como outrora ele se oferecera no altar. Foi em aten\u00e7\u00e3o ao sacrif\u00edcio de Isaac que Yhaw\u00e9 preservou, na noite pascal da liberta\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do sangue do cordeiro, os primog\u00e9nitos dos israelitas.  Esta teologia fundada na Aqedah de Isaac foi tamb\u00e9m desenvolvida pelos autores crist\u00e3os que a aplicaram ao sacrif\u00edcio de Cristo, tal como nos mostra Melit\u00e3o de Sardes no seu Peri Pascha. O facto do juda\u00edsmo p\u00f3s-rab\u00ednico e moderno ter transferido o memorial da Aqedah de Isaac para a festa de Rosh haShanah (festa do ano novo, no m\u00eas de Tishri) pode ser uma consequ\u00eancia da apropria\u00e7\u00e3o feita pelo cristianismo do tema do sacrif\u00edcio de Isaac e da sua releitura como chave interpretativa do sacrif\u00edcio de Cristo, novo Isaac. \t <i>Pe. Jo\u00e3o Louren\u00e7o, professor de Sagrada Escritura na UCP<\/i> NOTAS: 1 &#8211; Targum Ne\u00f3fiti a Ex 12,42. 2 &#8211; Na refei\u00e7\u00e3o pascal cada israelita devia beber 4 ta\u00e7as de vinho, de acordo com o rito da Ceia (Seder), devendo permanecer uma 5\u00aa ta\u00e7a na mesa em honra de Elias, j\u00e1 que Elias era esperado na noite pascal e devia tomar parte no banquele celebrativo. Embora se trate de uma prescri\u00e7\u00e3o da Hallakah, a imagina\u00e7\u00e3o popular, como diz Ben Chorin (Le Juda\u00efsme en pri\u00e8re, 136), estabeleceu uma \u201crela\u00e7\u00e3o entre a ta\u00e7a do profeta Elias e a ora\u00e7\u00e3o de Jesus no Gets\u00e9mani\u201d quando suplica ao Pai: \u2018Meu Pai, se \u00e9 poss\u00edvel afasta de mim este c\u00e1lice\u2019 (Mt 26,39). Era o c\u00e1lice que evoca a chegada dos tempos messi\u00e2nicos.    3 &#8211;  Mishn\u00e1, Pesahim, 10,5. 4 &#8211; A tradi\u00e7\u00e3o judaica fala das 4 ta\u00e7as de vinho que se deviam beber durante a ceia pascal, \u00e0s quais era costume juntar uma quinta, a ta\u00e7a de Elias, o profeta que vinha na noite de P\u00e1scoa, evocando assim os tempos messi\u00e2nicos. Segundo Malaquias (3,23), Elias \u00e9 o mensageiro do Messias que vem \u00e0 frente a preparar-lhe o caminho (Mc 9,11-13).  5 &#8211; Fil\u00e3o de Alexandria dizia: \u201cAs coisas claras que s\u00e3o ditas s\u00e3o s\u00edmbolos de coisas escondidas e obscuras\u201d (De specialibus legibus I, 200). 6 &#8211; Trata-se do 1\u00ba m\u00eas do ano religioso ou ano cultual, j\u00e1 que o ano civil come\u00e7a com a festa de Rosh haShanah, no m\u00eas de Tishri que corresponde ao nosso Setembro-Outubro. De facto, a P\u00e1scoa era a festa das festas e da\u00ed que fosse ela a marcar o ritmo de toda a liturgia judaica, j\u00e1 que a lua nova de Nis\u00e3n determinava todo o ritmo festivo do ano. Todavia, \u00e9 bom ter presente que este calend\u00e1rio \u00e9 tardio, retomando inclusive nomes de alguns meses do calend\u00e1rio de Babil\u00f3nia.   7 &#8211;  De specialibus legibus II,151.168. 8 &#8211;  \u201cA P\u00e1scoa tem um sentido universal pela sua rela\u00e7\u00e3o com a harmonia da natureza. Porque a primavera nascente tr\u00e1s com ela uma renova\u00e7\u00e3o que recorda a cria\u00e7\u00e3o\u201d (De specialibus legibus II, 150-155), cf. La P\u00e2que: f\u00eate juive et f\u00eate chr\u00e9tienne, Le Monde de la Bible 43, Paris, 1986, 19. 9 &#8211; Cf. F. Manns, Le juda\u00efsme, 113. 10 &#8211; Ex Rabbah 15,11.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A festa P\u00e1scoa, tal como n\u00f3s a concebemos, deve ser vista como um todo, de modo integrado (P\u00e1scoa judaica e P\u00e1scoa crist\u00e3), o que nos ajuda a compreender e perceber a simbologia da nossa P\u00e1scoa e da nossa liturgia, j\u00e1 que \u00e9 das tradi\u00e7\u00f5es judaicas que n\u00f3s recebemos o quadro de refer\u00eancia que d\u00e1 sentido [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[100,295,206,246,275,321],"class_list":["post-37625","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-advento","tag-biblia","tag-familia","tag-liturgia","tag-pascoa","tag-ucp"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37625","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=37625"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37625\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=37625"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=37625"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=37625"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}