{"id":37610,"date":"2009-03-16T18:17:24","date_gmt":"2009-03-16T18:17:24","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/03\/16\/igreja-em-africa-sonhos-para-o-sec-xxi\/"},"modified":"2009-03-16T18:17:24","modified_gmt":"2009-03-16T18:17:24","slug":"igreja-em-africa-sonhos-para-o-sec-xxi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/igreja-em-africa-sonhos-para-o-sec-xxi\/","title":{"rendered":"Igreja em \u00c1frica: Sonhos para o s\u00e9c. XXI"},"content":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria do cristianismo africano durante os primeiros s\u00e9culos \u00e9 uma fonte de grandes alegrias, mas tamb\u00e9m de profundas ang\u00fastias e amargas li\u00e7\u00f5es. O cristianismo floresceu na \u00c1frica do Norte, tendo como centros Alexandria e Cartago. A \u00c1frica produziu excelentes te\u00f3logos, intelectuais, santos e m\u00e1rtires, tanto homens como mulheres. O cristianismo difundiu-se na Eti\u00f3pia e na N\u00fabia, no cora\u00e7\u00e3o do continente. A \u00c1frica produziu pelo menos tr\u00eas papas durante este per\u00edodo e introduziu na Igreja a vida mon\u00e1stica, que depressa se estendeu a leste e a ocidente. De facto, durante os primeiros s\u00e9culos, a \u00c1frica contribuiu grandemente para o crescimento da doutrina e da moral crist\u00e3s.   Este primitivo cristianismo africano, todavia, n\u00e3o conseguiu resistir \u00e0 amea\u00e7a isl\u00e2mica. Ali\u00e1s, foi totalmente varrido da zona norte do continente, excepto do Egipto, onde sobreviveu em alguns lugares. At\u00e9 na N\u00fabia, depois de um per\u00edodo florescente entre os s\u00e9culos VIII e XIII, que culminou com a cria\u00e7\u00e3o do reino crist\u00e3o da N\u00fabia, a f\u00e9 desapareceu como resultado da invas\u00e3o turca. A Igreja sobreviveu s\u00f3 na Eti\u00f3pia, mas sem din\u00e2mica mission\u00e1ria. As v\u00e1rias tentativas, ao longo dos s\u00e9culos, para fazer reviver a cristandade primitiva no Norte de \u00c1frica fracassaram. A li\u00e7\u00e3o \u00e9 clara: o que aconteceu uma vez pode acontecer de novo. A hist\u00f3ria, n\u00e3o obstante tudo, repete-se.   A segunda vaga de evangeliza\u00e7\u00e3o da \u00c1frica \u2013 a partir do s\u00e9culo XV e tendo como objectivo levar a f\u00e9 crist\u00e3 aos territ\u00f3rios sub-sarianos \u2013 foi um fracasso maior que o anterior. Tendo chegado a Angola, a Mo\u00e7ambique, a Madag\u00e1scar, ao Reino do Congo, \u00e0s principais ilhas da costa ocidental e oriental do continente, ela desapareceu, sem deixar marcas, no princ\u00edpio do s\u00e9culo XVIII. Apesar de numerosos africanos terem aceite a nova f\u00e9 e muitos se terem tornado eles mesmos evangelizadores. De entre eles ficou famoso o pr\u00edncipe Henrique, filho de Afonso, rei crist\u00e3o do Congo, que foi consagrado bispo em Roma em 1521, tornando-se, assim, o primeiro bispo africano a sul do Sara.   As causas deste segundo desaparecimento do cristianismo foram bem analisadas pelos historiadores. As principais s\u00e3o duas. A primeira \u00e9 que o cristianismo n\u00e3o podia coexistir com o abomin\u00e1vel com\u00e9rcio de escravos. A segunda deve-se ao facto que o sistema do Padroado \u2013 pelo qual ao rei de Portugal era confiado pelo Papa a funda\u00e7\u00e3o e dota\u00e7\u00e3o de sedes episcopais, capelanias e conventos, e o direito de nomear p\u00e1rocos e cobrar as contribui\u00e7\u00f5es eclesi\u00e1sticas \u2013 era caracterizado por uma rejei\u00e7\u00e3o obstinada dos mission\u00e1rios de outros pa\u00edses, que eram vistos como uma potencial amea\u00e7a para o imp\u00e9rio portugu\u00eas. Da\u00ed que, cedo, a falta de pessoal mission\u00e1rio n\u00e3o permitiu continuar com o trabalho come\u00e7ado.   A li\u00e7\u00e3o que fica \u00e9 importante: se, depois de 300 anos de evangeliza\u00e7\u00e3o, o cristianismo levado e tutelado pelo padroado portugu\u00eas desapareceu, ent\u00e3o nunca devemos tomar as coisas por adquiridas. O optimismo ing\u00e9nuo n\u00e3o deve ter lugar no trabalho de evangeliza\u00e7\u00e3o.  O terceiro encontro de \u00c1frica com o Evangelho come\u00e7ou no s\u00e9culo XIX e estendeu-se aos nossos dias. Algu\u00e9m o definiu como \u00aba \u00e9poca de convers\u00e3o mais pr\u00f3spera em toda a hist\u00f3ria da Igreja\u00bb. Muitos crist\u00e3os africanos, institutos mission\u00e1rios estrangeiros e a Igreja Cat\u00f3lica como um todo est\u00e3o muito satisfeitos com o que se conseguiu com esta nova tentativa de evangeliza\u00e7\u00e3o. Hoje, o continente conta com mais de 500 dioceses, muitas delas com bispos africanos. Padres, religiosos e religiosas africanos s\u00e3o aos milhares. Catequistas a tempo inteiro s\u00e3o mais de dez mil. Os baptizados s\u00e3o cerca de 110 milh\u00f5es. Escolas, cl\u00ednicas, projectos de desenvolvimento s\u00e3o numerosos. A teologia africana \u2013 nas suas v\u00e1rias correntes \u2013 avan\u00e7ou muito. O Vaticano II trouxe nova vida \u00e0 Igreja africana; o S\u00ednodo Africano de 1994 sugeriu novas iniciativas e direc\u00e7\u00f5es.   Ao mesmo tempo que temos o direito de estar contentes com tudo o que se conseguiu, cometer\u00edamos um erro fatal se n\u00e3o reconhec\u00eassemos os grandes problemas, preocupa\u00e7\u00f5es e desafios que se p\u00f5em ao cristianismo africano.   <b>Mensagem da vida<\/b> Na nossa avalia\u00e7\u00e3o do actual cristianismo africano, a \u00eanfase deve ser posta na pr\u00f3pria \u00abmensagem da vida\u00bb, nos evangelizadores, nos agentes pastorais e nos seus m\u00e9todos e meios de evangeliza\u00e7\u00e3o. A natureza e profundidade da convers\u00e3o e o impacte do cristianismo no mundo africano deve ser avaliado examinando a qualidade de vida dos africanos, a sua identidade e hist\u00f3ria, as suas culturas e religi\u00f5es tradicionais, a sua moralidade e filosofia, a sua vis\u00e3o do mundo, as suas lutas de liberta\u00e7\u00e3o e o seu contributo para o enriquecimento do cristianismo e da Igreja universal.  De entre as perguntas que devemos colocar ao fazermos esta avalia\u00e7\u00e3o e encontrarmos uma vis\u00e3o para o futuro, as seguintes merecem particular aten\u00e7\u00e3o: qual \u00e9 a novidade particular que o cristianismo introduziu e desenvolveu em \u00c1frica durante os \u00faltimos dois mil anos e especialmente durante o s\u00e9culo XX? Ter\u00e1 a vida dos crist\u00e3os africanos melhorado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 dos seus antepassados pr\u00e9-crist\u00e3os? Ter\u00e3o conseguido tornar sua a mensagem do Evangelho e a Igreja, ou s\u00e3o as duas realidades ainda consideradas como \u00abestrangeiras\u00bb? A maioria dos crist\u00e3os africanos aprecia a sua nova identidade ou considera-a como um peso insuport\u00e1vel? Ter\u00e3o os crist\u00e3os tido a liberdade suficiente para enriquecer a Igreja universal e a mensagem crist\u00e3, ou foram vistos sobretudo como meros receptores de um pacote comercial?  Neste contexto, \u00e9 importante definir \u00abmiss\u00e3o\u00bb. Por miss\u00e3o eu entendo o povo africano, os cat\u00f3licos africanos, possuidores da mensagem crist\u00e3. Quem s\u00e3o? Em que categorias podemos classific\u00e1-los? Quais s\u00e3o os seus actuais problemas e tens\u00f5es? Quais s\u00e3o as formas da sua sistem\u00e1tica escravid\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o? Que amea\u00e7as e injusti\u00e7as institucionalizadas ainda experimentam? Obviamente, nunca se deve generalizar. Os l\u00edderes eclesiais t\u00eam as suas alegrias e ang\u00fastias. As fam\u00edlias cat\u00f3licas, os sectores sociais vulner\u00e1veis, todo o Povo de Deus tem tamb\u00e9m as suas alegrias e ang\u00fastias. Todo o Povo de Deus tem os seus medos e esperan\u00e7as. Entre os baptizados h\u00e1 muitos com uma f\u00e9 e convic\u00e7\u00e3o superficial. Muitos deles falharam em integrar o cristianismo com as exig\u00eancias da sua religi\u00e3o e moralidade tradicionais e, por isso, conduzem uma exist\u00eancia \u00abdual\u00edstica\u00bb. Outros, pelo contr\u00e1rio, fazem o seu melhor para serem simult\u00e2nea e verdadeiramente africanos e crist\u00e3os. Qualquer vis\u00e3o do cristianismo em \u00c1frica deve tomar seriamente em considera\u00e7\u00e3o estas duas categorias de crist\u00e3os.  <b>Tarefa inacabada<\/b> A primeira evangeliza\u00e7\u00e3o em \u00c1frica est\u00e1 longe de ter acabado. Na proclama\u00e7\u00e3o massiva da Boa Nova aos povos africanos durante este s\u00e9culo, v\u00e1rias sociedades e inteiras \u00e1reas foram deixadas de lado, por uma raz\u00e3o ou por outra. No caso do Uganda, os Ik, povo das montanhas, no Karamoja, e os Bambuti da Prov\u00edncia Ocidental foram negligenciados por causa das duras condi\u00e7\u00f5es em que vivem. Em cada pa\u00eds africano h\u00e1 povos que foram ignorados pelos evangelizadores.  Ao mesmo tempo, muitas sociedades africanas resistiram \u00e0 Boa Nova, principalmente porque era apresentada duma maneira irrelevante, sen\u00e3o mesmo perigosa para a maneira de viver do povo. Estas sociedades s\u00e3o sobretudo de cultura n\u00f3mada e pastoril por natureza. Tais grupos \u00e9tnicos incluem os Karimojong, os Turkana, os Masai e outros na \u00c1frica oriental. Gostam dos aspectos materiais da Igreja, mas a sua mensagem n\u00e3o os atrai. O modo como o cristianismo lhes foi \u2013 e ainda \u00e9 \u2013 apresentado parece-lhes apropriado para povos sedent\u00e1rios e agr\u00edcolas, ou povos com uma \u00abfraca\u00bb cultura tradicional. Por \u00faltimo, outras sociedades africanas ouviram a mensagem crist\u00e3, mas mantiveram-na o mais superficialmente poss\u00edvel, de modo que n\u00e3o penetra nas suas vidas reais, culturas e vis\u00f5es do mundo. Quando muito, s\u00e3o meros simpatizantes da Igreja.  Todos estes grupos humanos nos desafiam, como agentes da mensagem evang\u00e9lica e, sobretudo, desafiam os nossos m\u00e9todos pastorais. Esta tarefa incompleta da evangeliza\u00e7\u00e3o pede-nos uma nova vis\u00e3o, uma nova prepara\u00e7\u00e3o de agentes pastorais e uma nova proclama\u00e7\u00e3o da mensagem da vida. Para faz\u00ea-lo de uma maneira aceit\u00e1vel, a Igreja africana precisa de maior liberdade do que tem tido at\u00e9 agora para pensar, planear e implementar a evangeliza\u00e7\u00e3o.  Mesmo onde o Evangelho chegou, a evangeliza\u00e7\u00e3o foi parcial. Em muitos lugares, ela concentrou-se meramente na liberta\u00e7\u00e3o espiritual; noutros, dirigiu-se ao desenvolvimento humano e espiritual, mas deixou de fora a liberta\u00e7\u00e3o mental; em muitos casos, esquivou-se completamente \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica e pol\u00edtica. Demasiadas vezes, a evangeliza\u00e7\u00e3o foi t\u00edmida a confrontar as muitas injusti\u00e7as sociais, que ainda oprimem os sectores vulner\u00e1veis da sociedade. Houve acordos indignos e conspira\u00e7\u00e3o de sil\u00eancio. Em muitas ocasi\u00f5es, a maneira como a mensagem crist\u00e3 foi apresentada n\u00e3o deu a impress\u00e3o clara de que era contra todos os tipos de servid\u00e3o que ofendem a dignidade e os direitos humanos. Estes falhan\u00e7os parciais reclamam uma mudan\u00e7a, uma nova \u00eanfase, uma nova coragem. A vis\u00e3o que queremos ter para o s\u00e9culo XXI deve ter em conta estes desafios.  <b>Incultura\u00e7\u00e3o<\/b>     Na exorta\u00e7\u00e3o p\u00f3s-sinodal \u201cA Igreja em \u00c1frica\u201d, Jo\u00e3o Paulo II insiste na ideia que a incultura\u00e7\u00e3o \u00e9 a chave para o cristianismo africano: \u00abO S\u00ednodo considera a incultura\u00e7\u00e3o uma prioridade e uma urg\u00eancia na vida das Igrejas particulares, para a real radica\u00e7\u00e3o do Evangelho em \u00c1frica, uma exig\u00eancia da evangeliza\u00e7\u00e3o, uma caminhada rumo a uma plena evangeliza\u00e7\u00e3o, um dos maiores desafios para a Igreja no continente ao avizinhar-se o terceiro mil\u00e9nio.\u00bb (A Igreja em \u00c1frica, 59)  Todavia, uma vez mais, a mensagem do Papa encontrou em muitos l\u00edderes eclesiais africanos ouvidos moucos. Muitos bispos e padres falam de incultura\u00e7\u00e3o, mas negam-na na pr\u00e1tica. Ora, sem genu\u00edna, profunda e sapiente incultura\u00e7\u00e3o, os crist\u00e3os africanos nunca se apropriar\u00e3o da f\u00e9. Se o cristianismo n\u00e3o se africanizar, o seu futuro, no longo andar, n\u00e3o pode ser totalmente garantido. A incultura\u00e7\u00e3o que \u00absalvar\u00e1\u00bb o cristianismo africano n\u00e3o pode ser superficial, a mera tradu\u00e7\u00e3o da f\u00e9 para a cultura, mas aquela que tamb\u00e9m come\u00e7a na cultura e no contexto real e chega \u00e0 f\u00e9, parte da injusti\u00e7a para a liberta\u00e7\u00e3o.  Requer-se coragem, liberdade de pensamento e participa\u00e7\u00e3o activa de todos os crist\u00e3os africanos. N\u00e3o haver\u00e1 desculpa para a ignor\u00e2ncia das realidades e exig\u00eancias africanas. Devemos aceitar totalmente ou a responsabilidade pelo refor\u00e7o do cristianismo atrav\u00e9s da incultura\u00e7\u00e3o ou pelo seu enfraquecimento pelo facto de n\u00e3o se atenderem os desafios que os crist\u00e3os enfrentam.    <b>Liberta\u00e7\u00e3o integral<\/b> A \u00c1frica, n\u00e3o obstante ser rica em humanidade, culturas e recursos naturais, tornou-se no s\u00e9culo XX o continente mais pobre de todos. Frequentemente \u00e9 referido como \u00abo continente doente e sem futuro\u00bb. Est\u00e1 a ser estrangulado por uma insuport\u00e1vel d\u00edvida externa, cuja amortiza\u00e7\u00e3o est\u00e1 a enriquecer diariamente as opulentas sociedades ocidentais. Est\u00e1 a ser dizimado pela epidemia da sida e por outras doen\u00e7as, que j\u00e1 foram erradicadas em outras partes do mundo. \u00c9 em \u00c1frica que o analfabetismo, a pobreza, a ignor\u00e2ncia, a doen\u00e7a e a explora\u00e7\u00e3o podem ser testemunhadas no seu pior. A moralidade crist\u00e3 e humana nunca poder\u00e3o tolerar que menos de metade da popula\u00e7\u00e3o do mundo seja livre e viva abundantemente, enquanto a maior parte \u00e9 escravizada pela pobreza, e n\u00e3o consegue satisfazer as necessidades b\u00e1sicas da vida.  A liberta\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica da \u00c1frica \u00e9 o maior desafio para o cristianismo africano no s\u00e9culo XXI. Os pa\u00edses ricos, de acordo com as exig\u00eancias do jubileu b\u00edblico, deviam cancelar a sua d\u00edvida externa. A solidariedade humana devia unir-se para eliminar a pobreza em \u00c1frica. A prega\u00e7\u00e3o crist\u00e3 devia apontar claramente como prioridade o desenvolvimento ecodesfavorecidos deve tornar-se o \u00e2mago do cristianismo africano. A justi\u00e7a social deve tornar-se a sua pedra-de-toque no novo s\u00e9culo. Os crist\u00e3os africanos devem unir-se com todas as pessoas de boa vontade para conseguir a liberta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da \u00c1frica. \u00c9 tempo de levantar-se e dizer n\u00e3o \u00e0s guerras em \u00c1frica, n\u00e3o ao com\u00e9rcio de armamento, n\u00e3o ao genoc\u00eddio, n\u00e3o \u00e0s condi\u00e7\u00f5es que causam milh\u00f5es de refugiados, n\u00e3o \u00e0 ditadura, n\u00e3o ao abuso de poder e n\u00e3o \u00e0 explora\u00e7\u00e3o do Povo de Deus. O que a \u00c1frica precisa e requer \u00e9 paz para todos, justi\u00e7a para todos, democracia para todos e desenvolvimento para todos. A Igreja em \u00c1frica tem um mandato claro para ser um verdadeiro agente de liberta\u00e7\u00e3o e para dizer, juntamente com todo o Povo de Deus, n\u00e3o a tudo o que torna o continente escravo, pobre e repudiado.  Esta vis\u00e3o deve tornar-se parte integral da experi\u00eancia crist\u00e3 em \u00c1frica. Ela tem que imbuir as mentes e os cora\u00e7\u00f5es de todos os agentes pastorais e dos l\u00edderes eclesiais. Sem esta tomada de posi\u00e7\u00e3o, o cristianismo e a Igreja perder\u00e3o a sua credibilidade no continente.  O manifesto de Jesus Cristo, tal como \u00e9 apresentado em Lucas 4,18-19, deve tornar-se a bandeira do cristianismo africano no s\u00e9culo XXI: \u00abO Esp\u00edrito do Senhor est\u00e1 sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-me a proclamar a liberta\u00e7\u00e3o aos cativos e, aos cegos, a recupera\u00e7\u00e3o da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano favor\u00e1vel da parte do Senhor.\u00bb  <b>Uma Igreja adulta<\/b> Um sonho pode, obviamente, ser pura fantasia; uma vis\u00e3o o mero resultado de uma alucina\u00e7\u00e3o. H\u00e1, todavia, condi\u00e7\u00f5es para que um sonho seja real\u00edstico e para que uma vis\u00e3o seja verdadeiramente inspiradora. Relativamente \u00e0 Igreja africana do terceiro mil\u00e9nio, as condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o tr\u00eas: que possa auto-sustentar-se, ser auto-suficiente a n\u00edvel ministerial e seja mission\u00e1ria. J\u00e1 em meados do s\u00e9culo XIX, Henry Venn, da Sociedade da Igreja Mission\u00e1ria, se referiu a estas tr\u00eas condi\u00e7\u00f5es indispens\u00e1veis para que uma Igreja local o fosse realmente. Infelizmente, uma fraca teologia da Igreja e da miss\u00e3o contribui para deixar a Igreja africana ao n\u00edvel de \u00abmiss\u00e3o\u00bb, em vez de lev\u00e1-la ao pleno estatuto de Igreja local, que \u00e9: uma Igreja capaz de agir e tomar decis\u00f5es por si; capaz de servir o seu pr\u00f3prio povo atrav\u00e9s de ministros surgidos no seu seio; capaz de recolher entre os seus fi\u00e9is dinheiro suficiente para continuar o seu trabalho; e preparada para se abrir ao resto do mundo com verdadeiro esp\u00edrito mission\u00e1rio. N\u00e3o seria preciso afirmar que a aceita\u00e7\u00e3o destes desafios nunca deve p\u00f4r em causa a universalidade da f\u00e9 crist\u00e3, nem dos evangelizadores. Mas tamb\u00e9m \u00e9 verdade que s\u00f3 sendo uma Igreja autenticamente local e continental a Igreja Cat\u00f3lica africana ser\u00e1 capaz de cumprir o mandato de se evangelizar a si e aos outros continentes. <i>John Mary Walligo, Te\u00f3logo ugand\u00eas<\/i>  <a href= http:\/\/www.alem-mar.org\/cgi-bin\/quickregister\/scripts\/redirect.cgi?redirect=EEuFEEyukydGXMdmte target=\"_blank\"><u>Al\u00e9m-Mar<\/u><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria do cristianismo africano durante os primeiros s\u00e9culos \u00e9 uma fonte de grandes alegrias, mas tamb\u00e9m de profundas ang\u00fastias e amargas li\u00e7\u00f5es. O cristianismo floresceu na \u00c1frica do Norte, tendo como centros Alexandria e Cartago. A \u00c1frica produziu excelentes te\u00f3logos, intelectuais, santos e m\u00e1rtires, tanto homens como mulheres. 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