{"id":375401,"date":"2025-05-10T11:55:48","date_gmt":"2025-05-10T10:55:48","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=375401"},"modified":"2025-05-10T11:55:48","modified_gmt":"2025-05-10T10:55:48","slug":"um-lirio-um-livro-e-um-coracao-transverberado-para-entender-leao-xiv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/um-lirio-um-livro-e-um-coracao-transverberado-para-entender-leao-xiv\/","title":{"rendered":"Um l\u00edrio, um livro e um cora\u00e7\u00e3o transverberado &#8211; Para entender Le\u00e3o XIV"},"content":{"rendered":"<p><em>Padre Pablo de Lima<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/pablo_lima_2019.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-131853 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/pablo_lima_2019-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/pablo_lima_2019-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/pablo_lima_2019-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/pablo_lima_2019-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/pablo_lima_2019-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/pablo_lima_2019.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>Ontem o Papa Le\u00e3o descreveu-se como \u201cum filho de Santo Agostinho\u201d. E \u00e9-o verdadeiramente. Em primeiro lugar, porque \u00e9 um frade agostiniano (em rigor, os agostinianos eram monges, porque a Ordem de Santo Agostinho segue a regra de Sto. Agostinho, do s\u00e9c. V, mas foram refundados no movimento mendicante do s\u00e9c. XII). Em segundo lugar, e ainda mais, porque actualizou na sua vida o esp\u00edrito do santo bispo africano de Hipona (actual Arg\u00e9lia).<\/p>\n<p>No seu bras\u00e3o episcopal (que ser\u00e1 provavelmente adaptado \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o pontif\u00edcia, mas n\u00e3o alterado na sua ess\u00eancia) constam tr\u00eas s\u00edmbolos. O \u201cl\u00edrio dos vales\u201d do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos (2,1-2) \u00e9 o s\u00edmbolo mariano por excel\u00eancia. S\u00edmbolo da pureza imaculada de Maria, obra mais excelsa da Sant\u00edssima Trindade, \u00e9 tamb\u00e9m conhecido na vers\u00e3o tripartida (alus\u00e3o \u00e0s tr\u00eas pessoas divinas) ou francesa como flor-de-lis. Este \u00e9 um s\u00edmbolo mariano universal, n\u00e3o \u00e9 espec\u00edfico da sua ordem religiosa. N\u00e3o h\u00e1 sombra de d\u00favida sobre o amor terno do Papa Le\u00e3o pela Virgem Santa Maria, a quem invocou sob o t\u00edtulo de Pompeia e que nos convidou a rezar com ele a Ave-Maria.<\/p>\n<p>O livro e o cora\u00e7\u00e3o trespassado s\u00e3o s\u00edmbolos excelentemente agostinianos. Comecemos pelo cora\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o de Jesus, como erradamente alguns se t\u00eam apressado a dizer na internet e n\u00e3o s\u00f3. Na verdade, \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o mesmo de Santo Agostinho e refere-se a um ideal de vida. Santo Agostinho, nascido em Tagaste (Arg\u00e9lia), \u00e9 conhecido como o te\u00f3logo do amor e da amizade. Dele \u00e9 profusamente conhecida a express\u00e3o \u201cPondus meum amor meus; eo feror, quocumque feror&#8221; (Conf., XXXIII,9), que poder\u00edamos traduzir como \u201co meu amor \u00e9 o meu peso, \u00e9 ele que me move para onde quiser\u201d. \u201cPeso\u201d quer dizer \u201ccentro de gravidade\u201d e consist\u00eancia. Para Santo Agostinho, o amor \u00e9 a verdadeira for\u00e7a motora e, por isso, afirmava que \u00e9 necess\u00e1rio tudo organizar segundo o \u201cordo amoris\u201d, a ordem\/forma do amor (De Doct. Christ. I,28; De Vera Rel. 48,93).<\/p>\n<p>Esta centralidade do amor levou \u00e0 inven\u00e7\u00e3o de uma frase atribu\u00edda a Santo Agostinho e que pulula na internet: \u201cama et quod vis fac\u201d, isto \u00e9, \u201cama e faz o que quiseres\u201d. A frase \u00e9 linda e muito original, mas n\u00e3o \u00e9 de Santo Agostinho. De Santo Agostinho \u00e9 sim uma outra, vivida \u00e0 saciedade pelo Papa Le\u00e3o XIV: \u201csit amoris officium pascere dominicum gregem\u201d (In Ioh. Evang., 123, 5), isto \u00e9, \u201capascentar o rebanho do Senhor seja um servi\u00e7o de amor\u201d. Por estes dias, circulam j\u00e1 fotos do ent\u00e3o bispo de Chiclayo, no Per\u00fa, a servir sopa aos pobres e a visitar as comunidades de cavalo, para poder chegar aonde os carros ainda n\u00e3o podem deslocar-se, vivendo assim na pr\u00e1tica o \u201cof\u00edcio do amor\u201d.<\/p>\n<p>O cora\u00e7\u00e3o transverberado \u00e9 um epis\u00f3dio simb\u00f3lico da vida de Santo Agostinho, ainda que a maior parte dos crist\u00e3os s\u00f3 o conhe\u00e7am aplicado \u00e0 vida de Santa Teresa de Jesus, na famos\u00edssima escultura de Bernini. No entanto, quase toda a iconografia de Santo Agostinho o apresenta com o b\u00e1culo de bispo numa m\u00e3o e, na outra, o livro aberto sobre o qual repousa um cora\u00e7\u00e3o em chamas (ou trespassado por uma seta abrasada). Este cora\u00e7\u00e3o em chamas estrategicamente colocado sobre um livro, isto \u00e9, sobre a B\u00edblia, est\u00e1 associado a outra express\u00e3o de Santo Agostinho: \u201cmens et amor et notitia (\u2026) unum sunt\u201d (De Trin. IX,4,4) ou, \u201ca mente, o amor e o conhecimento s\u00e3o uma coisa s\u00f3\u201d. Ou, nas palavras magistrais de S\u00e3o Greg\u00f3rio: \u201camoris ipse notitia est\u201d (In Ev., II, 27, 4), \u201co amor \u00e9 em si mesmo conhecimento\u201d. De facto, para Santo Agostinho o amor move a querer conhecer e ensina quem \u00e9 o Amado. Na teologia e espiritualidade agostinianas, amar a Deus leva a desejar conhecer Deus profundamente, n\u00e3o s\u00f3 na ora\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m no estudo das Escrituras. Por isso, Santo Agostinho foi um estudioso e pregador insigne das Sagradas Escrituras e Robert Pr\u00e9vost n\u00e3o o foi menos como frade, p\u00e1roco, professor, reitor e bispo.<\/p>\n<p>Um outro significado do livro est\u00e1 associado a um epis\u00f3dio da vida de Santo Agostinho, relatado por ele mesmo na sua autobiografia \u201cAs Confiss\u00f5es\u201d (VIII, XII, 29). Recorda o Padre da Igreja que, estando um dia num jardim, ouviu uma voz de crian\u00e7a que lhe dizia \u201ctolle, lege; tolle, lege\u201d, isto \u00e9, \u201ctoma e l\u00ea, toma e l\u00ea\u201d!\u201d. Obedecendo, pegou na Carta aos Romanos (13,13-14) e, lendo a exorta\u00e7\u00e3o a abandonar as obras da carne e revestir-se de Cristo, deu o passo final de ser baptizado e tornar-se crist\u00e3o: \u201cTinhas convertido a ti o meu ser\u201d (VIII, XII, 30). Assim, as Escrituras foram o instrumento definitivo pela qual se operou a convers\u00e3o de Aur\u00e9lio Agostinho ao evangelho de Jesus.<\/p>\n<p>Por estas ideias centrais em Santo Agostinho, o lema da ordem agostiniana \u00e9 \u201cAmor et Scientia\u201d ou \u201cAmor e Conhecimento\u201d ou \u201cAmor e Estudo\u201d. Desta forma, para os agostinianos, a vida crist\u00e3, e ainda mais a vida sacerdotal ou episcopal, consistem no amor ou caridade e no estudo, conhecimento e ensino da Palavra. Por\u00e9m, o Papa Le\u00e3o XIV, escolheu como seu lema episcopal uma outra frase de Santo Agostinho: \u201cIn illo uno unum\u201d (Enarr. in Ps 127,3) ou, \u201cN\u2019Ele, que \u00e9 Um (s\u00f3), somos um\u201d. Mas deixemos para outra momento a reflex\u00e3o sobre este apelo \u00e0 unidade dos crentes em Cristo. Por enquanto, n\u00e3o ficam d\u00favidas de que Le\u00e3o XIV \u00e9 um \u201cfilho de Santo Agostinho\u201d.<\/p>\n<p><em>Pablo de Lima, 09.V.2025.<\/em><\/p>\n<p>PS. O meu percurso vocacional come\u00e7ou na Venezuela com a Ordem Agostiniana Recoleta (OAR) que me incutiu o amor \u00e0 figura e escritos de Santo Agostinho, particularmente o P. Jos\u00e9 Lu\u00eds Uru\u00f1uela. Este pequeno texto \u00e9 tamb\u00e9m uma pequena homenagem pela marca que deixaram na minha caminhada e que agora reencontro pelo exemplo do Papa Le\u00e3o XIV, primeiro papa agostiniano da hist\u00f3ria da Igreja.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Pablo de Lima<\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":131853,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[974],"class_list":["post-375401","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao","tag-leao-xiv"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/375401","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=375401"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/375401\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/131853"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=375401"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=375401"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=375401"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}