{"id":37508,"date":"2009-03-12T11:02:21","date_gmt":"2009-03-12T11:02:21","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/03\/12\/carta-de-sua-santidade-bento-xvi-aos-bispos-da-igreja-catolica-a-proposito-da-remissao-da-excomunhao-aos-quatro-bispos-consagrados-pelo-arcebispo-lefebvre\/"},"modified":"2009-03-12T11:02:21","modified_gmt":"2009-03-12T11:02:21","slug":"carta-de-sua-santidade-bento-xvi-aos-bispos-da-igreja-catolica-a-proposito-da-remissao-da-excomunhao-aos-quatro-bispos-consagrados-pelo-arcebispo-lefebvre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/carta-de-sua-santidade-bento-xvi-aos-bispos-da-igreja-catolica-a-proposito-da-remissao-da-excomunhao-aos-quatro-bispos-consagrados-pelo-arcebispo-lefebvre\/","title":{"rendered":"\u00abCarta de Sua Santidade Bento XVI aos Bispos da Igreja Cat\u00f3lica, a prop\u00f3sito da remiss\u00e3o da excomunh\u00e3o aos quatro Bispos consagrados pelo Arcebispo Lefebvre\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>Amados Irm\u00e3os no minist\u00e9rio episcopal!  A remiss\u00e3o da excomunh\u00e3o aos quatro Bispos, consagrados no ano de 1988 pelo Arcebispo Lefebvre sem mandato da Santa S\u00e9, por variadas raz\u00f5es suscitou, dentro e fora da Igreja Cat\u00f3lica, uma discuss\u00e3o de tal veem\u00eancia como desde h\u00e1 muito tempo n\u00e3o se tinha experi\u00eancia. Muitos Bispos sentiram-se perplexos perante um facto que se verificou inesperadamente e era dif\u00edcil de enquadrar positivamente nas quest\u00f5es e nas tarefas actuais da Igreja. Embora muitos Bispos e fi\u00e9is estivessem, em linha de princ\u00edpio, dispostos a considerar positivamente a decis\u00e3o do Papa pela reconcilia\u00e7\u00e3o, contra isso levantava-se a quest\u00e3o acerca da conveni\u00eancia de semelhante gesto quando comparado com as verdadeiras urg\u00eancias duma vida de f\u00e9 no nosso tempo. Ao contr\u00e1rio, alguns grupos acusavam abertamente o Papa de querer voltar atr\u00e1s, para antes do Conc\u00edlio: desencadeou-se assim um avalanche de protestos, cujo azedume revelava feridas que remontavam mais al\u00e9m do momento. Por isso senti-me impelido a dirigir-vos, amados Irm\u00e3os, uma palavra esclarecedora, que pretende ajudar a compreender as inten\u00e7\u00f5es que me guiaram a mim e aos \u00f3rg\u00e3os competentes da Santa S\u00e9 ao dar este passo. Espero deste modo contribuir para a paz na Igreja.  Uma contrariedade que eu n\u00e3o podia prever foi o facto de o caso Williamson se ter sobreposto \u00e0 remiss\u00e3o da excomunh\u00e3o. O gesto discreto de miseric\u00f3rdia para com quatro Bispos, ordenados v\u00e1lida mas n\u00e3o legitimamente, de improviso apareceu como algo completamente diverso: como um desmentido da reconcilia\u00e7\u00e3o entre crist\u00e3os e judeus e, consequentemente, como a revoga\u00e7\u00e3o de quanto, nesta mat\u00e9ria, o Conc\u00edlio tinha deixado claro para o caminho da Igreja. E assim o convite \u00e0 reconcilia\u00e7\u00e3o com um grupo eclesial implicado num processo de separa\u00e7\u00e3o transformou-se no seu contr\u00e1rio: uma aparente invers\u00e3o de marcha relativamente a todos os passos de reconcilia\u00e7\u00e3o entre crist\u00e3os e judeus feitos a partir do Conc\u00edlio \u2013 passos esses cuja adop\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o tinham sido, desde o in\u00edcio, um objectivo do meu trabalho teol\u00f3gico pessoal. O facto de que esta sobreposi\u00e7\u00e3o de dois processos contrapostos se tenha verificado e que durante algum tempo tenha perturbado a paz entre crist\u00e3os e judeus e mesmo a paz no seio da Igreja, posso apenas deplor\u00e1-lo profundamente. Disseram-me que o acompanhar com aten\u00e7\u00e3o as not\u00edcias ao nosso alcance na internet teria permitido chegar tempestivamente ao conhecimento do problema. Fica-me a li\u00e7\u00e3o de que, para o futuro, na Santa S\u00e9 deveremos prestar mais aten\u00e7\u00e3o a esta fonte de not\u00edcias. Fiquei triste pelo facto de inclusive cat\u00f3licos, que no fundo poderiam saber melhor como tudo se desenrola, se sentirem no dever de atacar-me e com uma virul\u00eancia de lan\u00e7a em riste. Por isso mesmo sinto-me ainda mais agradecido aos amigos judeus que ajudaram a eliminar prontamente o equ\u00edvoco e a restabelecer aquela atmosfera de amizade e confian\u00e7a que, durante todo o per\u00edodo do meu pontificado \u2013 tal como no tempo do Papa Jo\u00e3o Paulo II \u2013, existiu e, gra\u00e7as a Deus, continua a existir.  Outro erro, que lamento sinceramente, consiste no facto de n\u00e3o terem sido ilustrados de modo suficientemente claro, no momento da publica\u00e7\u00e3o, o alcance e os limites do provimento de 21 de Janeiro de 2009. A excomunh\u00e3o atinge pessoas, n\u00e3o institui\u00e7\u00f5es. Um ordena\u00e7\u00e3o episcopal sem o mandato pontif\u00edcio significa o perigo de um cisma, porque p\u00f5e em quest\u00e3o a unidade do col\u00e9gio episcopal com o Papa. Por isso a Igreja tem de reagir com a puni\u00e7\u00e3o mais severa, a excomunh\u00e3o, a fim de chamar as pessoas assim punidas ao arrependimento e ao regresso \u00e0 unidade. Passados vinte anos daquelas ordena\u00e7\u00f5es, tal objectivo infelizmente ainda n\u00e3o foi alcan\u00e7ado. A remiss\u00e3o da excomunh\u00e3o tem em vista a mesma finalidade que pretende a puni\u00e7\u00e3o: convidar uma vez mais os quatro Bispos ao regresso. Este gesto tornara-se poss\u00edvel depois que os interessados exprimiram o seu reconhecimento, em linha de princ\u00edpio, do Papa e da sua potestade de Pastor, embora com reservas em mat\u00e9ria de obedi\u00eancia \u00e0 sua autoridade doutrinal e \u00e0 do Conc\u00edlio. E isto traz-me de volta \u00e0 distin\u00e7\u00e3o entre pessoa e institui\u00e7\u00e3o. A remiss\u00e3o da excomunh\u00e3o era um provimento no \u00e2mbito da disciplina eclesi\u00e1stica: as pessoas ficavam libertas do peso de consci\u00eancia constitu\u00eddo pela puni\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica mais grave. \u00c9 preciso distinguir este n\u00edvel disciplinar do \u00e2mbito doutrinal. O facto de a Fraternidade S\u00e3o Pio X n\u00e3o possuir uma posi\u00e7\u00e3o can\u00f3nica na Igreja n\u00e3o se baseia, ao fim e ao cabo, em raz\u00f5es disciplinares mas doutrinais. Enquanto a Fraternidade n\u00e3o tiver uma posi\u00e7\u00e3o can\u00f3nica na Igreja, tamb\u00e9m os seus ministros n\u00e3o exercem minist\u00e9rios leg\u00edtimos na Igreja. Por conseguinte, \u00e9 necess\u00e1rio distinguir o n\u00edvel disciplinar, que diz respeito \u00e0s pessoas enquanto tais, do n\u00edvel doutrinal em que est\u00e3o em quest\u00e3o o minist\u00e9rio e a institui\u00e7\u00e3o. Especificando uma vez mais: enquanto as quest\u00f5es relativas \u00e0 doutrina n\u00e3o forem esclarecidas, a Fraternidade n\u00e3o possui qualquer estado can\u00f3nico na Igreja, e os seus ministros \u2013 embora tenham sido libertos da puni\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica \u2013 n\u00e3o exercem de modo leg\u00edtimo qualquer minist\u00e9rio na Igreja.  \u00c0 luz desta situa\u00e7\u00e3o, \u00e9 minha inten\u00e7\u00e3o unir, futuramente, a Comiss\u00e3o Pontif\u00edcia \u00abEcclesia Dei\u00bb \u2013 institui\u00e7\u00e3o competente desde 1988 para as comunidades e pessoas que, sa\u00eddas da Fraternidade S\u00e3o Pio X ou de id\u00eanticas agrega\u00e7\u00f5es, queiram voltar \u00e0 plena comunh\u00e3o com o Papa \u2013 \u00e0 Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9. Deste modo torna-se claro que os problemas, que agora se devem tratar, s\u00e3o de natureza essencialmente doutrinal e dizem respeito sobretudo \u00e0 aceita\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio Vaticano II e do magist\u00e9rio p\u00f3s-conciliar dos Papas. Os organismos colegiais pelos quais a Congrega\u00e7\u00e3o estuda as quest\u00f5es que se lhe apresentam (especialmente a habitual reuni\u00e3o dos Cardeais \u00e0s quartas-feiras e a Plen\u00e1ria anual ou bienal) garantem o envolvimento dos Prefeitos de v\u00e1rias Congrega\u00e7\u00f5es romanas e dos representantes do episcopado mundial nas decis\u00f5es a tomar. N\u00e3o se pode congelar a autoridade magisterial da Igreja no ano de 1962: isto deve ser bem claro para a Fraternidade. Mas, a alguns daqueles que se destacam como grandes defensores do Conc\u00edlio, deve tamb\u00e9m ser lembrado que o Vaticano II traz consigo toda a hist\u00f3ria doutrinal da Igreja. Quem quiser ser obediente ao Conc\u00edlio, deve aceitar a f\u00e9 professada no decurso dos s\u00e9culos e n\u00e3o pode cortar as ra\u00edzes de que vive a \u00e1rvore.  Dito isto, espero, amados Irm\u00e3os, que tenham ficado claros tanto o significado positivo como os limites do provimento de 21 de Janeiro de 2009. Mas resta a quest\u00e3o: Tal provimento era necess\u00e1rio? Constitu\u00eda verdadeiramente uma prioridade? N\u00e3o h\u00e1 porventura coisas muito mais importantes? Certamente existem coisas mais importantes e mais urgentes. Penso ter evidenciado as prioridades do meu Pontificado nos discursos que pronunciei nos seus prim\u00f3rdios. Aquilo que disse ent\u00e3o permanece inalteradamente a minha linha orientadora. A primeira prioridade para o Sucessor de Pedro foi fixada pelo Senhor, no Cen\u00e1culo, de maneira inequivoc\u00e1vel: \u00abTu (\u2026) confirma os teus irm\u00e3os\u00bb (Lc 22, 32). O pr\u00f3prio Pedro formulou, de um modo novo, esta prioridade na sua primeira Carta: \u00abEstai sempre prontos a responder (\u2026) a todo aquele que vos perguntar a raz\u00e3o da esperan\u00e7a que est\u00e1 em v\u00f3s\u00bb (1 Ped 3, 15). No nosso tempo em que a f\u00e9, em vastas zonas da terra, corre o perigo de apagar-se como uma chama que j\u00e1 n\u00e3o recebe alimento, a prioridade que est\u00e1 acima de todas \u00e9 tornar Deus presente neste mundo e abrir aos homens o acesso a Deus. N\u00e3o a um deus qualquer, mas \u00e0quele Deus que falou no Sinai; \u00e0quele Deus cujo rosto reconhecemos no amor levado at\u00e9 ao extremo (cf. Jo 13, 1) em Jesus Cristo crucificado e ressuscitado. O verdadeiro problema neste momento da nossa hist\u00f3ria \u00e9 que Deus possa desaparecer do horizonte dos homens e que, com o apagar-se da luz vinda de Deus, a humanidade seja surpreendida pela falta de orienta\u00e7\u00e3o, cujos efeitos destrutivos se manifestam cada vez mais.  Conduzir os homens para Deus, para o Deus que fala na B\u00edblia: tal \u00e9 a prioridade suprema e fundamental da Igreja e do Sucessor de Pedro neste tempo. Segue-se daqui, como consequ\u00eancia l\u00f3gica, que devemos ter a peito a unidade dos crentes. De facto, a sua desuni\u00e3o, a sua contraposi\u00e7\u00e3o interna p\u00f5e em d\u00favida a credibilidade do seu falar de Deus. Por isso, o esfor\u00e7o em prol do testemunho comum de f\u00e9 dos crist\u00e3os \u2013 em prol do ecumenismo \u2013 est\u00e1 inclu\u00eddo na prioridade suprema. A isto vem juntar-se a necessidade de que todos aqueles que cr\u00eaem em Deus procurem juntos a paz, tentem aproximar-se uns dos outros a fim de caminharem juntos \u2013 embora na diversidade das suas imagens de Deus \u2013 para a fonte da Luz: \u00e9 isto o di\u00e1logo inter-religioso. Quem anuncia Deus como Amor levado \u00abat\u00e9 ao extremo\u00bb deve dar testemunho do amor: dedicar-se com amor aos doentes, afastar o \u00f3dio e a inimizade, tal \u00e9 a dimens\u00e3o social da f\u00e9 crist\u00e3, de que falei na Enc\u00edclica Deus caritas est.  Em conclus\u00e3o, se o \u00e1rduo empenho em prol da f\u00e9, da esperan\u00e7a e do amor no mundo constitui neste momento (e, de formas diversas, sempre) a verdadeira prioridade para a Igreja, ent\u00e3o fazem parte dele tamb\u00e9m as pequenas e m\u00e9dias reconcilia\u00e7\u00f5es. O facto que o gesto submisso duma m\u00e3o estendida tenha dado origem a um grande rumor, transformando-se precisamente assim no contr\u00e1rio duma reconcilia\u00e7\u00e3o \u00e9 um dado que devemos registar. Mas eu pergunto agora: Verdadeiramente era e \u00e9 errado ir, mesmo neste caso, ao encontro do irm\u00e3o que \u00abtem alguma coisa contra ti\u00bb (cf. Mt 5, 23s) e procurar a reconcilia\u00e7\u00e3o? N\u00e3o deve porventura a pr\u00f3pria sociedade civil tentar prevenir as radicaliza\u00e7\u00f5es e reintegrar os seus eventuais aderentes \u2013 na medida do poss\u00edvel \u2013 nas grandes for\u00e7as que plasmam a vida social, para evitar a segrega\u00e7\u00e3o deles com todas as suas consequ\u00eancias? Poder\u00e1 ser totalmente errado o facto de se empenhar na dissolu\u00e7\u00e3o de endurecimentos e de restri\u00e7\u00f5es, de modo a dar espa\u00e7o a quanto nisso haja de positivo e de recuper\u00e1vel para o conjunto? Eu mesmo constatei, nos anos posteriores a 1988, como, gra\u00e7as ao seu regresso, se modificara o clima interno de comunidades antes separadas de Roma; como o regresso na grande e ampla Igreja comum fizera de tal modo superar posi\u00e7\u00f5es unilaterais e abrandar inflexibilidades que depois resultaram for\u00e7as positivas para o conjunto. Poder\u00e1 deixar-nos totalmente indiferentes uma comunidade onde se encontram 491 sacerdotes, 215 seminaristas, 6 semin\u00e1rios, 88 escolas, 2 institutos universit\u00e1rios, 117 irm\u00e3os, 164 irm\u00e3s e milhares de fi\u00e9is? Verdadeiramente devemos com toda a tranquilidade deix\u00e1-los andar \u00e0 deriva longe da Igreja? Penso, por exemplo, nos 491 sacerdotes: n\u00e3o podemos conhecer toda a trama das suas motiva\u00e7\u00f5es; mas penso que n\u00e3o se teriam decidido pelo sacerd\u00f3cio, se, a par de diversos elementos vesgos e combalidos, n\u00e3o tivesse havido o amor por Cristo e a vontade de anunci\u00e1-Lo e, com Ele, o Deus vivo. Poderemos n\u00f3s simplesmente exclu\u00ed-los, enquanto representantes de um grupo marginal radical, da busca da reconcilia\u00e7\u00e3o e da unidade? E depois que ser\u00e1 deles?  \u00c9 certo que, desde h\u00e1 muito tempo e novamente nesta ocasi\u00e3o concreta, ouvimos da boca de representantes daquela comunidade muitas coisas dissonantes: sobranceria e presun\u00e7\u00e3o, fixa\u00e7\u00e3o em pontos unilaterais, etc. Em abono da verdade, devo acrescentar que tamb\u00e9m recebi uma s\u00e9rie de comoventes testemunhos de gratid\u00e3o, nos quais se vislumbrava uma abertura dos cora\u00e7\u00f5es. Mas n\u00e3o deveria a grande Igreja permitir-se tamb\u00e9m de ser generosa, ciente da concep\u00e7\u00e3o ampla e fecunda que possui, ciente da promessa que lhe foi feita? N\u00e3o deveremos n\u00f3s, como bons educadores, ser capazes tamb\u00e9m de n\u00e3o reparar em diversas coisas n\u00e3o boas e diligenciar por arrastar para fora de mesquinhices? E n\u00e3o deveremos porventura admitir que, em ambientes da Igreja, tamb\u00e9m surgiu qualquer disson\u00e2ncia? \u00c0s vezes fica-se com a impress\u00e3o de que a nossa sociedade tenha necessidade pelo menos de um grupo ao qual n\u00e3o conceda qualquer toler\u00e2ncia, contra o qual seja poss\u00edvel tranquilamente arremeter-se com avers\u00e3o. E se algu\u00e9m ousa aproximar-se do mesmo \u2013 do Papa, neste caso \u2013 perde tamb\u00e9m o direito \u00e0 toler\u00e2ncia e pode de igual modo ser tratado com avers\u00e3o sem temor nem dec\u00eancia.  Amados Irm\u00e3os, nos dias em que me veio \u00e0 mente escrever-vos esta carta, deu-se o caso de, no Semin\u00e1rio Romano, ter de interpretar e comentar o texto de Gal 5, 13-15. Notei com surpresa o car\u00e1cter imediato com que estas frases nos falam do momento actual: \u00abN\u00e3o abuseis da liberdade como pretexto para viverdes segundo a carne; mas, pela caridade, colocai-vos ao servi\u00e7o uns dos outros, porque toda a lei se resume nesta palavra: Amar\u00e1s o teu pr\u00f3ximo como a ti mesmo. Se v\u00f3s, por\u00e9m, vos mordeis e devorais mutuamente, tomai cuidado em n\u00e3o vos destruirdes uns aos outros\u00bb. Sempre tive a propens\u00e3o de considerar esta frase como um daqueles exageros ret\u00f3ricos que \u00e0s vezes se encontram em S\u00e3o Paulo. E, sob certos aspectos, pode ser assim. Mas, infelizmente, este \u00abmorder e devorar\u00bb existe tamb\u00e9m hoje na Igreja como express\u00e3o duma liberdade mal interpretada. Porventura ser\u00e1 motivo de surpresa saber que n\u00f3s tamb\u00e9m n\u00e3o somos melhores do que os G\u00e1latas? Que pelo menos estamos amea\u00e7ados pelas mesmas tenta\u00e7\u00f5es? Que temos de aprender sempre de novo o recto uso da liberdade? E que devemos aprender sem cessar a prioridade suprema: o amor? No dia em que falei disto no Semin\u00e1rio Maior, celebrava-se em Roma a festa de Nossa Senhora da Confian\u00e7a. De facto, Maria ensina-nos a confian\u00e7a. Conduz-nos ao Filho, de Quem todos n\u00f3s podemos fiar-nos. Ele guiar-nos-\u00e1, mesmo em tempos turbulentos. Deste modo quero agradecer de cora\u00e7\u00e3o aos numerosos Bispos que, neste per\u00edodo, me deram comoventes provas de confian\u00e7a e afecto, e sobretudo me asseguraram a sua ora\u00e7\u00e3o. Este agradecimento vale tamb\u00e9m para todos os fi\u00e9is que, neste tempo, testemunharam a sua inalter\u00e1vel fidelidade para com o Sucessor de S\u00e3o Pedro. O Senhor nos proteja a todos n\u00f3s e nos conduza pelo caminho da paz. Tais s\u00e3o os votos que espontaneamente me brotam do cora\u00e7\u00e3o neste in\u00edcio da Quaresma, tempo lit\u00fargico particularmente favor\u00e1vel \u00e0 purifica\u00e7\u00e3o interior, que nos convida a todos a olhar com renovada esperan\u00e7a para a meta luminosa da P\u00e1scoa.  Com uma especial B\u00ean\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica, me confirmo  Vosso no Senhor  BENEDICTUS PP. XVI  Vaticano, 10 de Mar\u00e7o de 2009.  <B>Not\u00edcias relacionadas<\/B> <a href=\"noticia_all.asp?noticiaid=70541\">\u2022 Papa explica decis\u00e3o sobre Bispos lefebvrianos<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amados Irm\u00e3os no minist\u00e9rio episcopal! A remiss\u00e3o da excomunh\u00e3o aos quatro Bispos, consagrados no ano de 1988 pelo Arcebispo Lefebvre sem mandato da Santa S\u00e9, por variadas raz\u00f5es suscitou, dentro e fora da Igreja Cat\u00f3lica, uma discuss\u00e3o de tal veem\u00eancia como desde h\u00e1 muito tempo n\u00e3o se tinha experi\u00eancia. 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