{"id":37446,"date":"2009-03-10T10:29:31","date_gmt":"2009-03-10T10:29:31","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/03\/10\/inculturacao-em-africa\/"},"modified":"2009-03-10T10:29:31","modified_gmt":"2009-03-10T10:29:31","slug":"inculturacao-em-africa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/inculturacao-em-africa\/","title":{"rendered":"Incultura\u00e7\u00e3o em Africa"},"content":{"rendered":"<p><b>Incultura\u00e7\u00e3o no Novo Testamento<\/b> A incultura\u00e7\u00e3o \u00e9 um fen\u00f3meno t\u00edpico de todas as religi\u00f5es que conseguem entrar em di\u00e1logo profundo com a mentalidade, o modo de viver, as tradi\u00e7\u00f5es e os valores de um povo concreto. Em breve, a incultura\u00e7\u00e3o \u00e9 o processo com o qual uma f\u00e9 vinda de fora entra na cultura de um povo para a transformar e para ser por ela transformada. Mesmo se a palavra incultura\u00e7\u00e3o se encontra no vocabul\u00e1rio crist\u00e3o s\u00f3 depois do Conc\u00edlio Vaticano II, e n\u00f3s gostamos de a usar particularmente quando falamos do cristianismo em Africa, a realidade que tal palavra exprime encontra-se claramente presente entre n\u00f3s j\u00e1 desde os primeiros passos do cristianismo.   A realidade fundamental da nossa f\u00e9, a pessoa  de Jesus de Nazar\u00e9, \u00e9 um homem perfeitamente identificado com o contexto social, cultural e religioso do seu povo e do seu tempo. Nele, Deus revelou-se, veio ao encontro da humanidade, dialogou connosco, perfeitamente integrado na cultura e nas tradi\u00e7\u00f5es religiosas de um povo concreto. A sua posi\u00e7\u00e3o cultural n\u00e3o foi passiva ou servilista; ele foi tamb\u00e9m capaz de criticar e contestar, mas fazia-o sempre a partir de dentro daquela cultura que ele mesmo tinha assimilado completamente.  O car\u00e1cter \u201cjudeu\u201d da cultura de Jesus e das primeiras comunidades de disc\u00edpulos logo ap\u00f3s a sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 evidenciado pelas mudan\u00e7as que foi preciso fazer logo que a f\u00e9 crist\u00e3 come\u00e7ou a passar dali para o contexto cultural helen\u00edstico, na nova comunidade de Antiochia (Act 13; 15). Ali, como em todas as outras comunidades fundadas pouco depois por Paulo e pelos seus colaboradores, certas coisas que aos crist\u00e3os judeus pareciam fundamentais (circuncis\u00e3o, a lei de Mois\u00e9s, &#8230;), eram irrelevantes para os crist\u00e3os que provinham de uma outra tradi\u00e7\u00e3o cultural e religiosa, o mundo greco-romano. As comunidades que Paulo fundou na Gr\u00e9cia ou as que viviam em Roma j\u00e1 estavam a formar um tipo de cristianismo organizado e vivido de maneira muito diferente, mesmo se se tratava sempre daquela mesma f\u00e9 vivida nas comunidades de cultura judaica.  Para muitos te\u00f3logos cat\u00f3licos o facto de este processo estar j\u00e1 bem documentado no Novo Testamento indica que aquilo que n\u00f3s hoje chamamos \u2018incultura\u00e7\u00e3o\u2019 \u00e9 parte da revela\u00e7\u00e3o que recebemos no Novo Testamento e por isso mesmo deve ser considerado algo de indispens\u00e1vel sempre que a f\u00e9 crist\u00e3 passa de uma cultura para outra.   <b>Evangelho e Culturas Africanas<\/b> Em \u00c1frica encontramos uma riqueza imensa de culturas muito diferentes entre si. Mas h\u00e1 boas raz\u00f5es para as considerar semelhantes pelo menos em alguns aspectos fundamentais. Penso no profundo sentido de solidariedade quase-ontol\u00f3gica entre as pessoas de uma mesma comunidade humana que se exprime com o axioma, \u201ceu sou porque n\u00f3s somos\u201d; penso no conceito vital do universo (o conceito filos\u00f3fico de vitalogia) em que o mundo humano est\u00e1 intimamente entrela\u00e7ado com mundo espiritual, animal, vegetal, mineral; pensemos tamb\u00e9m no sentido de comunh\u00e3o existencial e de inter-depend\u00eancia profunda entre a comunidade dos vivos neste mundo e a comunidade daqueles que vivem al\u00e9m da morte. O encontro de di\u00e1logo entre o Evangelho e as culturas africanas continua hoje a realizar-se ao n\u00edvel destes valores profundos, na consci\u00eancia das pessoas e comunidades humanas, e n\u00e3o s\u00f3 em termos de gestos, dan\u00e7as ou outros rituais que gostamos de ver nas celebra\u00e7\u00f5es da liturgia. Considero como \u00e2mbitos privilegiados e particularmente fecundos deste encontro as pequenas comunidades crist\u00e3s e os grupos de catec\u00famenos adultos. O Evangelho encontra as culturas africanas nesses encontros de ora\u00e7\u00e3o e partilha do Evangelho que se fazem semanalmente em milhares de pequenas comunidades crist\u00e3s (SCC = Small Christian Communities) espalhadas por todo o continente mesmo se com articula\u00e7\u00f5es diversas nas v\u00e1rias grandes zonas da \u00c1frica. A\u00ed, s\u00e3o os crist\u00e3os locais, entre eles mesmos, que recebem o Evangelho e procuram na ora\u00e7\u00e3o os modos concretos para o viverem e o porem em pr\u00e1tica no ambiente concreto em que vivem, e na continuidade ou descontinuidade com as tradi\u00e7\u00f5es culturais e religiosas que herdaram dos seus antepassados. O segundo \u00e2mbito privilegiado deste di\u00e1logo entre a f\u00e9 crist\u00e3 e as tradi\u00e7\u00f5es culturais e religiosas da Africa s\u00e3os os grupos de catec\u00famenos adultos, particularmente nas Igrejas onde se conseguiu j\u00e1 deixar para tr\u00e1s um catecumenato tipo \u2018escola que prepara ao exame de doutrina que \u00e9 preciso superar para aceder ao baptismo\u2019, e se aposta seriamente num itiner\u00e1rio catecumenal em que os m\u00e9todos did\u00e1cticos t\u00edpicos das inicia\u00e7\u00f5es tradicionais Africanas (ex. aprender participando, a figura do mestre de inicia\u00e7\u00e3o, a dimens\u00e3o comunit\u00e1ria do processo de amadurecer na vida, os rituais de passagem, etc.) s\u00e3o colocados ao servi\u00e7o de Cristo e conduzem a um baptismo vivido como um aut\u00eantico renascer para uma vida nova, com um forte sentido de perten\u00e7a e de corresponsabilidade na nova comunidade crist\u00e3.   <b>Desafios e esperan\u00e7as<\/b> Liturgia e ora\u00e7\u00e3o. A m\u00fasica africana e a dan\u00e7a sagrada s\u00e3o parte integrante da celebra\u00e7\u00e3o solene da liturgia em quase todo o continente. O \u2018Rito Zairense\u2019 usado h\u00e1 muitos na R.D. do Congo mostra bem como se pode celebrar a santa Missa em profunda sintonia com a sensibilidade cultural e religiosa t\u00edpica das tradi\u00e7\u00f5es africanas: abundam o canto e a dan\u00e7a ritual, a ora\u00e7\u00e3o e a prega\u00e7\u00e3o dialogada, os momentos de comunh\u00e3o com os antepassados, com a natureza, &#8230; elementos que encontram a sua plenitude na pessoa de Cristo presente na comunidade de celebra a Eucaristia. H\u00e1 tamb\u00e9m formas locais de ora\u00e7\u00e3o que se est\u00e3o a desenvolver pouco a pouco, penso particularmente \u00e0 ora\u00e7\u00e3o com os doentes, e nos importantes rituais ligados ao mist\u00e9rio do nascimento e da morte. O in\u00edcio e o fim da vida, assim como a dor nos momentos de doen\u00e7a grave, s\u00e3o sempre momentos profundamente comunit\u00e1rios que precisam de ser celebrados na ora\u00e7\u00e3o. A fam\u00edlia. Um \u00e2mbito da vida crist\u00e3 africana onde se encontram alguns sinais de esperan\u00e7a, mas que enfrenta ainda muitas dificuldades e incompreens\u00f5es. Em muitas sociedades africanas a constru\u00e7\u00e3o de uma nova fam\u00edlia n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o privada entre os noivos, mas envolve profundamente as fam\u00edlias alargadas de ambos. Al\u00e9m disso, \u00e9 um processo longo que passa por v\u00e1rias fazes. Muito frequentemente \u00e9 s\u00f3 depois dos primeiros filhos que uma fam\u00edlia atinge o grau de estabilidade necess\u00e1ria \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o do sacramento do matrim\u00f3nio cat\u00f3lico. Alguns pastores consideram estes casais jovens em \u2018estado de adult\u00e9rio\u2019, quando na verdade constroem a pr\u00f3pria fam\u00edlia seguindo o itiner\u00e1rio que desde h\u00e1 s\u00e9culos a sociedade aceita como moralmente bom e apto para a estabilidade das fam\u00edlias. Isto significa que a maior parte das fam\u00edlias formadas por cat\u00f3licos s\u00e3o exclu\u00eddas da vida activa da Igreja durante os seus primeiros anos de vida familiar. Um desafio pastoral imenso.  O minist\u00e9rio na Igreja. Em muitas zonas do continente, as voca\u00e7\u00f5es ao minist\u00e9rio ordenado s\u00e3o abundantes. Mas n\u00e3o \u00e9 sempre f\u00e1cil discernir bem as motiva\u00e7\u00f5es aut\u00eanticas. Um estilo de vida por vezes copiado sem oportunas distin\u00e7\u00f5es dos padres europeus ou americanos, torna dif\u00edcil aos sacerdotes africanos uma vida ministerial bem inserida nas comunidades locais. Em muitas sociedades continua a ser muito dif\u00edcil aceitar como chefe de uma comunidade um homem que n\u00e3o constituiu a sua pr\u00f3pria fam\u00edlia. Deve-se dizer, por\u00e9m, que muitos sacerdotes e bispos vivem esta situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil com admir\u00e1vel generosidade e fidelidade \u00e0 Igreja.   <b>Observa\u00e7\u00f5es conclusivas<\/b> A Palavra de Deus ao povo. Multiplicam-se as tradu\u00e7\u00f5es da b\u00edblia nas l\u00ednguas nativas africanas, bem como os programas pastorais para as divulgar entre o povo. Esta presen\u00e7a abundante da Palavra na vida dos fi\u00e9is abre o campo a um di\u00e1logo muito fecundo entre a f\u00e9 e as culturas locais, que levar\u00e1 as comunidades a serem cada vez mais profundamente crist\u00e3s e mais autenticamente africanas. Pastores locais. \u00c0 frente da grande maioria das dioceses africanas, encontramos hoje pastores locais. Os bispos mission\u00e1rios s\u00e3o cada vez menos. Uma vez superada a tenta\u00e7\u00e3o inicial se serem \u2018mais romanos que o papa\u2019, estes pastores tornam-se mestres s\u00e1bios que guiam e encorajam as comunidades no processo de di\u00e1logo profundo entre o cristianismo e a riqueza das tradi\u00e7\u00f5es africanas. Tempos longos. N\u00e3o esque\u00e7amos que foram precisos muitos s\u00e9culos de caminho, por vezes dif\u00edcil, antes de termos conseguido elaborar uma cultura euro-peia crist\u00e3. Ser\u00e3o precisas ainda muitas gera\u00e7\u00f5es para chegarmos a algo de semelhante em \u00c1frica. Mas temos boas raz\u00f5es para trabalhar com confian\u00e7a: todos os elementos importantes est\u00e3o presentes para que, neste continente, o Esp\u00edrito nos guie na direc\u00e7\u00e3o de uma Igreja profundamente fiel a Cristo e amplamente enriquecida pelas culturas e tradi\u00e7\u00f5es africanas.  <i>Pe. Fernando Domingues, Mission\u00e1rio Comboniano<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Incultura\u00e7\u00e3o no Novo Testamento A incultura\u00e7\u00e3o \u00e9 um fen\u00f3meno t\u00edpico de todas as religi\u00f5es que conseguem entrar em di\u00e1logo profundo com a mentalidade, o modo de viver, as tradi\u00e7\u00f5es e os valores de um povo concreto. Em breve, a incultura\u00e7\u00e3o \u00e9 o processo com o qual uma f\u00e9 vinda de fora entra na cultura de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[101,144,206,246,314],"class_list":["post-37446","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-africa","tag-concilio-vaticano-ii","tag-familia","tag-liturgia","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37446","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=37446"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37446\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=37446"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=37446"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=37446"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}