{"id":372027,"date":"2025-04-23T16:17:34","date_gmt":"2025-04-23T15:17:34","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=372027"},"modified":"2025-08-28T17:00:59","modified_gmt":"2025-08-28T16:00:59","slug":"do-passado-um-presente-sao-vicente-de-paulo-e-o-ecumenismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/do-passado-um-presente-sao-vicente-de-paulo-e-o-ecumenismo\/","title":{"rendered":"DO PASSADO, UM PRESENTE \u2013 S\u00e3o Vicente de Paulo e o ecumenismo"},"content":{"rendered":"<p><em>Padre Jos\u00e9 Alves, Congrega\u00e7\u00e3o da Miss\u00e3o<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/07-Jubileu-CM-Abril-2025.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-372031 \" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/07-Jubileu-CM-Abril-2025-717x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"571\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/07-Jubileu-CM-Abril-2025-717x1024.jpg 717w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/07-Jubileu-CM-Abril-2025-182x260.jpg 182w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/07-Jubileu-CM-Abril-2025.jpg 756w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a>O ecumenismo \u00e9 a busca da uni\u00e3o, da comunh\u00e3o e da harmonia entre crist\u00e3os, apesar das diferen\u00e7as; procura este movimento a unidade da f\u00e9 em Jesus Cristo, na diversidade de express\u00f5es e de ritos.<\/p>\n<p>No tempo de S\u00e3o Vicente de Paulo, numa Fran\u00e7a dilacerada por guerras religiosas (Calvinismo, Jansenismo, \u2026) cujas marcas continuavam bem vivas no cora\u00e7\u00e3o das pessoas, a linguagem era dura e o preconceito dividia, em muitos casos, sem possibilidades de aproxima\u00e7\u00e3o e muito menos de bom relacionamento. Express\u00f5es de vingan\u00e7a e de \u00f3dio apareciam em declara\u00e7\u00f5es, de parte a parte. Face a esta quest\u00e3o, o que pensava o Padre Vicente? Como agia?<\/p>\n<p>O Padre Vicente de Paulo cedo teve contacto com homens de outros \u201ccredos\u201d, pelas piores e pelas melhores raz\u00f5es: a sua ordena\u00e7\u00e3o sacerdotal ocorreu na capela da resid\u00eancia episcopal, em Ch\u00e2teau-l\u2019\u00c9v\u00eaque, onde o bispo de P\u00e9rigueux se encontrava exilado porque a catedral tinha sido incendiada pelos calvinistas; no cativeiro, teve contacto com a mulher do seu dono, crist\u00e3 ortodoxa, ele, um ap\u00f3stata, natural de Nice, e, atrav\u00e9s dela, o marido retorna \u00e0 f\u00e9 cat\u00f3lica e dele se serve Deus para libertar o Padre Vicente, fugindo, de barco, com a fam\u00edlia para Avinh\u00e3o, no sul de Fran\u00e7a; quando nomeado p\u00e1roco de Ch\u00e2tillon-les-Dombes, vai hospedar-se em casa de um calvinista e de quem se torna amigo; de S\u00e3o Francisco de Sales, bispo de Genebra, aprendeu como lidar com os que pensam de maneira diferente, sem f\u00faria nem exalta\u00e7\u00e3o, mas com suavidade e compreens\u00e3o (1).<\/p>\n<p>Nas cartas e confer\u00eancias de Vicente de Paulo encontramos uma linguagem nada comum, no seu tempo, embora tamb\u00e9m n\u00e3o aquela a que estamos habituados, ap\u00f3s o Conc\u00edlio Vaticano II. A um mission\u00e1rio leigo embarcado para Madag\u00e1scar, em companhia de alguns huguenotes (2), e que exercia a profiss\u00e3o de cirurgi\u00e3o escreve: <em>\u201cEstou preocupado por saber que alguns huguenotes viajar\u00e3o no mesmo barco e, por conseguinte, haver\u00e1 muito que sofrer da parte deles. Mas, enfim, Deus \u00e9 o dono desta obra e permitiu tudo isso por raz\u00f5es que n\u00f3s desconhecemos. (\u2026) talvez para o obrigar a si, a ser mais contido na presen\u00e7a deles, e mais humilde e mais devoto para com Deus, mais caritativo para com o pr\u00f3ximo, para que, vendo a beleza e a santidade da nossa religi\u00e3o encontrem raz\u00f5es para a ela voltar. Evite, com muito cuidado, toda a esp\u00e9cie de discuss\u00e3o, mostre-se am\u00e1vel e afetuoso, ainda que o provoquem ou falem contra as nossas cren\u00e7as e pr\u00e1ticas religiosas. A virtude \u00e9 t\u00e3o bela e am\u00e1vel que se sentir\u00e3o obrigados a am\u00e1-la, em si, se voc\u00ea a praticar bem. Nos servi\u00e7os que desempenha no barco, n\u00e3o fa\u00e7a ace\u00e7\u00e3o de pessoas; n\u00e3o estabele\u00e7a nenhuma diferen\u00e7a entre cat\u00f3licos e huguenotes, para que percebam que voc\u00ea os ama em Deus. Espero que os seus bons exemplos aproveitem a uns e a outros. Cuide da sua sa\u00fade e da dos nossos mission\u00e1rios\u201d<\/em> (3). Resulta, ent\u00e3o, que o Padre Vicente real\u00e7a a for\u00e7a do testemunho atrav\u00e9s das obras, realizadas com dedica\u00e7\u00e3o e amor, mais convincente do que a pol\u00e9mica e argumenta\u00e7\u00e3o agressiva.<\/p>\n<p>Por vezes, abordavam-se estas quest\u00f5es a partir do preconceito: \u201cse \u00e9 como eu penso, \u00e9 bom\u201d, caso contr\u00e1rio, \u201c\u00e9 mau\u201d; \u201cse \u00e9 cat\u00f3lico, \u00e9 bom, se n\u00e3o \u00e9 cat\u00f3lico, \u00e9 mau\u201d. Numa carta escrita ao Padre Guilherme Gallais, Superior de Sedan, enredado em algumas pol\u00e9micas jur\u00eddicas, recomendava: <em>\u201c(\u2026) N\u00e3o \u00e9 conveniente, padre, que nos metamos em neg\u00f3cios seculares ainda que tenham alguma coisa a ver com o espiritual. Ou os assuntos se referem somente a cat\u00f3licos, ou s\u00f3 a pessoas da outra religi\u00e3o; ou, ent\u00e3o, dizem respeito a cat\u00f3licos e huguenotes. Pois bem, (\u2026) se a quest\u00e3o \u00e9 entre um cat\u00f3lico e um huguenote, como sabe voc\u00ea que o cat\u00f3lico tem justos motivos para a demanda? H\u00e1 grande diferen\u00e7a entre ser cat\u00f3lico e ser justo! Ainda que voc\u00ea esteja convencido de que a demanda em tribunal \u00e9 justa, quem lhe garante que os ju\u00edzes n\u00e3o julgaram de acordo com a sua consci\u00eancia?\u201d<\/em> E termina a carta: \u201c<em>Que bons mission\u00e1rios ser\u00edamos, voc\u00ea e eu, se soub\u00e9ssemos animar as almas com o esp\u00edrito do Evangelho. Garanto-lhe que nada mais santifica os cat\u00f3licos e converte os \u201chereges\u201d do que esta maneira de proceder, como tamb\u00e9m nada mais os afasta do que a atitude contr\u00e1ria\u201d <\/em>(4). Toda a carta \u00e9, pois, uma chamada de aten\u00e7\u00e3o, quase repreens\u00e3o, sobre algumas maneiras de agir desse mission\u00e1rio, metido em pol\u00e9micas jur\u00eddicas em que entravam pessoas de confiss\u00e3o calvinista.<\/p>\n<p>Sobre a validade do sacramento do Batismo ministrado pelos huguenotes, corria a informa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o era v\u00e1lido porque n\u00e3o respeitava o essencial da forma. O Padre Vicente pede a um mission\u00e1rio, a trabalhar nessa zona, que investigue, seriamente, sem fazer ru\u00eddo, e o informe; a quem lhe pedia esclarecimento comunica: <em>\u201cdepois de uma s\u00e9ria investiga\u00e7\u00e3o para saber a verdade, os huguenotes batizam validamente porque n\u00e3o falham no essencial<\/em>\u201d (5).<\/p>\n<p>Vemos que no Padre Vicente de Paulo h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o ecum\u00e9nica que vai fazer escola nos Padres da Congrega\u00e7\u00e3o da Miss\u00e3o. Por isso, n\u00e3o resisto a fazer uma refer\u00eancia a um acontecimento moderno que est\u00e1 na origem do movimento ecum\u00e9nico da Igreja e que vai culminar no Conc\u00edlio Vaticano II com o Decreto \u201cUnitatis Reintegratio\u201d, sobre o ecumenismo: as Confer\u00eancias de Malines. Protagonistas destas Confer\u00eancias foram o Lord Halifax (anglicano) e o Padre Fernando Portal, CM (franc\u00eas, da Congrega\u00e7\u00e3o da Miss\u00e3o) ambos temporariamente a residir na ilha da Madeira, lugar escolhido providencialmente, para arquitetar este arranque do movimento ecum\u00e9nico, mais tarde (em 1925) a desabrochar com o alto patroc\u00ednio do cardeal Mercier, arcebispo de Malines, e do arcebispo de Cantu\u00e1ria, Randal Davidson.<\/p>\n<p>De destacar, igualmente, o Padre Justino de Jacobis, mission\u00e1rio vicentino na Eti\u00f3pia, herdeiro desta preocupa\u00e7\u00e3o ecum\u00e9nica do Padre Vicente Paulo, que vai chamar para Igreja Cat\u00f3lica uma parte dos crist\u00e3os de tradi\u00e7\u00e3o copta daquele pa\u00eds, respeitando, contudo, os seus ritos, l\u00edngua e tradi\u00e7\u00f5es lit\u00fargicas.<\/p>\n<p>\u00c9 na aceita\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a, no acess\u00f3rio, que se constr\u00f3i a comunh\u00e3o no essencial: em Jesus Cristo.<\/p>\n<p><strong><em>Padre Jos\u00e9 Alves, CM<\/em> <\/strong><\/p>\n<p>&#8212;&#8211;<\/p>\n<p>(1) S\u00e3o Francisco de Sales, nomeado bispo de Genebra, vivia em Annecy, porque Genebra estava dominada pelos Calvinistas.<\/p>\n<p>(2) Huguenotes, palavra para designar os membros da Igreja reformada em Fran\u00e7a de origem calvinista.<\/p>\n<p>(3) Cfr. Carta a Filipe Patte, irm\u00e3o leigo da Miss\u00e3o em Nantes (San Vicente de Pa\u00fal, <em>Obras completas<\/em>, Tomo VIII, 167-8).<\/p>\n<p>(4) Cfr. Carta ao Padre Guilherme Gallais, superior da casa de Nantes (San Vicente de Pa\u00fal, <em>Obras completas<\/em>, Tomo II, 376-377).<\/p>\n<p>(5) Cfr. Carta ao Padre Edmundo Jolly, superior da casa de Roma (San Vicente de Pa\u00fal, <em>Obras completas<\/em>, Tomo VIII, 106).<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Jos\u00e9 Alves, Congrega\u00e7\u00e3o da Miss\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":345947,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[984],"class_list":["post-372027","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao","tag-400-anos-vicentinos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/372027","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=372027"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/372027\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/345947"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=372027"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=372027"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=372027"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}