{"id":37200,"date":"2009-02-26T10:28:35","date_gmt":"2009-02-26T10:28:35","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/02\/26\/homilia-do-bispo-do-porto-na-quarta-feira-de-cinzas\/"},"modified":"2009-02-26T10:28:35","modified_gmt":"2009-02-26T10:28:35","slug":"homilia-do-bispo-do-porto-na-quarta-feira-de-cinzas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-do-porto-na-quarta-feira-de-cinzas\/","title":{"rendered":"Homilia do Bispo do Porto na Quarta-Feira de Cinzas"},"content":{"rendered":"<p>\u00abConvertamo-nos a Deus, servindo o pr\u00f3ximo!\u00bb <!--more--> \u201cConvertei-vos a Mim de todo o cora\u00e7\u00e3o\u201d, clamou-nos Deus pela boca do profeta Joel. \u201cReconciliai-vos com Deus\u201d, pediu-nos Paulo, em nome de Cristo. E, sobre a esmola, a ora\u00e7\u00e3o e o jejum, disse-nos o pr\u00f3prio Cristo que tudo se h\u00e1-de passar discretamente, entre n\u00f3s e Deus, \u201cque v\u00ea o que est\u00e1 oculto e dar\u00e1 a recompensa\u201d. Ser\u00e1 este, irm\u00e3os e irm\u00e3s, o pr\u00f3prio cerne da Quaresma, como da religi\u00e3o aut\u00eantica, nunca por demais retomada. Aquela que Jesus Cristo nos abre com a sua mesma Quaresma, repudiando o ter, o parecer e o poder, para simplesmente ser: ser Filho de Deus humanado, ser humanidade restaurada na filia\u00e7\u00e3o divina. Jesus coloca-nos os cora\u00e7\u00f5es e as vidas, ou seja, as vidas no seu cora\u00e7\u00e3o e ess\u00eancia, na \u00fanica realidade consistente, que \u00e9 o pr\u00f3prio Deus Pai, em que tudo se sustenta. A\u00ed colocados os cora\u00e7\u00f5es, como o de Jesus no Pai, estaremos finalmente pacificados e livres, proporcionando ao mundo que integramos seguran\u00e7a certa e liberdade tamb\u00e9m, ecologia integral, se quisermos dizer assim. Sabemo-lo por experi\u00eancia, como tamb\u00e9m o aprendemos por contraste. Contrasta, irm\u00e3os e irm\u00e3s, contrasta com isto um cora\u00e7\u00e3o fechado em si mesmo, no encurvamento do desejo e no egocentrismo da vida. Quanto mais no ter, quanto menos no ser, \u00e9 bom repeti-lo. Descentramento de si, desejos convertidos e vidas realmente oferecidas, isso sim, garante-nos na caridade \u201cque nunca acabar\u00e1\u201d, proporciona-nos uma comunh\u00e3o que \u00e9 outro nome de Deus, pois \u201cDeus \u00e9 amor\u201d, vida partilhada e oferecida, \u201cem nome do Pai, do Filho e do Esp\u00edrito Santo\u201d, como dizemos e nos benzemos, at\u00e9 que tais palavras inteiramente nos repassem. Temos hoje Quaresma, porque no princ\u00edpio tivemos P\u00e1scoa. Sabemo-lo bem, antecedendo esta \u00e0quela, na hist\u00f3ria da Igreja celebrante. \u00c9 tamb\u00e9m verdade conhecida, mas, no sentido espiritual da Quaresma, nunca por demais relembrada e proposta, como nestas Cinzas de 2009. Cinzas, irm\u00e3os e irm\u00e3s, \u00e9 o que fica de quanto se queimou e ardeu. Sobram dos grandes inc\u00eandios e dos pequenos tamb\u00e9m. Sobram de restos mortais e de terras destru\u00eddas. Mas n\u00e3o s\u00e3o estas as que recebemos hoje, para come\u00e7ar a Quaresma. Ou s\u00ea-lo-\u00e3o apenas como lembran\u00e7a da efemeridade das coisas e das vidas, se deixadas ou fechadas em si pr\u00f3prias. As que receberemos de seguida s\u00e3o lembran\u00e7as transformadas pelo Esp\u00edrito em outras tantas sementes de vida, na convers\u00e3o a Deus, servindo o pr\u00f3ximo.  Porque essa \u00e9 a novidade do \u201cfogo\u201d que Cristo trouxe \u00e0 terra, querendo ate\u00e1-lo ao universo inteiro. \u00c9 a do Esp\u00edrito divino que n\u00e3o destr\u00f3i, antes reconstr\u00f3i; e dos escombros faz caboucos e alicerces duma exist\u00eancia imortal: tornada a pr\u00f3pria morte em vida entregue, da morte renascemos na caridade divina. E para que assim aconte\u00e7a nos \u201ccorpos\u201d, em restaura\u00e7\u00e3o universal, antecipemo-lo nas \u201calmas\u201d, em caminho quaresmal.  Mas tr\u00eas artigos tem esta Quaresma cheia de P\u00e1scoa, t\u00e3o certos como concret\u00edssimos: 1\u00ba) Renasce e vive quem convive e partilha, ligando unidade e alteridade. 2\u00ba) Isto mesmo \u201cdefine\u201d Deus, definindo-nos depois como seu Povo, Corpo de Cristo e Templo do Esp\u00edrito Santo. 3\u00ba) Igualmente no mundo e para a salva\u00e7\u00e3o do mundo, \u00e9 esta a lei e a tarefa.        De \u201cDeus\u201d n\u00e3o faltam ideias nem congemina\u00e7\u00f5es, desde que, como humanidade consciente, nos pusemos a pens\u00e1-lo. Mas n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil concluir que muita ideia de Deus que por a\u00ed circula \u00e9 mera projec\u00e7\u00e3o de n\u00f3s mesmos e nem sempre do melhor que temos\u2026 Em nome de um \u201cDeus\u201d \u00e0 nossa medida ou apetite, fizemos e ainda se pode fazer muito mal. Tenhamos cuidado redobrado, nas actuais circunst\u00e2ncias, para n\u00e3o fabricarmos \u00eddolos nem invocarmos o santo nome de Deus em v\u00e3o. Com Cristo aprendemos que Deus \u00e9 em si mesmo \u201camor\u201d, isto \u00e9, vida no outro e para o outro, em plena circularidade: do Pai para o Filho e do Filho para o Pai, no eterno movimento do Esp\u00edrito. \u201cUm s\u00f3 Deus em tr\u00eas pessoas\u201d, na formula\u00e7\u00e3o tradicional: Cristo a rejubilar no Pai, no \u00edmpeto do Esp\u00edrito, como indica o Evangelho.  Assim \u2013 e muit\u00edssimo mais \u2013 \u00e9 o nosso Deus, s\u00f3 apreens\u00edvel na experi\u00eancia da partilha: religi\u00e3o \u00e9 conviv\u00eancia, religi\u00e3o \u00e9 caridade. E a pr\u00f3pria aritm\u00e9tica se altera, porque 1 \u00e9 igual a 3 e a alteridade coexiste com s unidade, sendo o seu pr\u00f3prio movimento interno e expansivo. Por consequ\u00eancia necess\u00e1ria e convers\u00e3o conseguida, a vida eclesial salva-nos comunitariamente, porque o Pai nos faz seus incorporando-nos em Cristo, habitados e vivificados por um s\u00f3 Esp\u00edrito. O caminho quaresmal tem, por isso mesmo, uma indispens\u00e1vel dimens\u00e3o comunit\u00e1ria. Penit\u00eancia e convers\u00e3o a Deus \u00e9 redescobri-lo como Pai comum, que nos quer verdadeiramente irm\u00e3os no Esp\u00edrito de Cristo.  N\u00e3o h\u00e1 reconcilia\u00e7\u00e3o com Deus sem reaproxima\u00e7\u00e3o daqueles que partilham connosco a \u00fanica condi\u00e7\u00e3o de baptizados. Por isso a Quaresma \u00e9 tempo especial de reconcilia\u00e7\u00e3o com Deus atrav\u00e9s da Igreja e especial oportunidade para a celebra\u00e7\u00e3o da Penit\u00eancia, incluindo a imprescind\u00edvel confiss\u00e3o individual. Repetem-se assim em cada um de n\u00f3s aqueles pessoal\u00edssimos encontros evang\u00e9licos de Jesus com os penitentes, um a um, com nome e figura. O caminho para a comunidade \u00e9 sempre pessoa a pessoa. E assim mesmo trabalha a gra\u00e7a, quer entre o penitente e o ministro da Reconcilia\u00e7\u00e3o, quer entre n\u00f3s todos, na aproxima\u00e7\u00e3o concreta de irm\u00e3o a irm\u00e3o. Unidade complementar em Deus, unidade complementar na Igreja, unidade complementar no mundo. A aplica\u00e7\u00e3o deste \u00faltimo item ganha mais urg\u00eancia nas actuais circunst\u00e2ncias do pa\u00eds e da vida internacional, come\u00e7ando aqui mesmo, fam\u00edlia a fam\u00edlia, lugar a lugar, escola a escola, empresa a empresa\u2026 Se ainda restassem d\u00favidas te\u00f3ricas sobre a necess\u00e1ria complementaridade de todos, coexistindo alteridade e unidade em cada patamar da sociabilidade humana, certamente desapareceriam diante do trist\u00edssimo resultado do seu contr\u00e1rio, como agora o verificamos e sofremos, por n\u00f3s e pelos outros.  Tudo na vida reclama proximidade, companhia e entreajuda, complementando-se uns e outros em alteridade convergente, fecunda e perdur\u00e1vel. Homem e mulher \u201ccomo um s\u00f3\u201d; pais e m\u00e3es de filhos e filhas; fam\u00edlias solid\u00e1rias nas gera\u00e7\u00f5es que se sucedem, cuidando-se mutuamente em todo o arco da exist\u00eancia humana, protegida no seio materno e acompanhada na extrema velhice ou depend\u00eancia, sempre com igual dignidade.  Da fam\u00edlia \u00e0 sociedade, inscrevemo-nos pela presen\u00e7a e pela actividade, sempre por aquela e, quanto se possa, tamb\u00e9m por esta \u00faltima. \u00c9 a verdade de n\u00f3s todos que, alargando a matriz familiar, nos faz viver socialmente, em unidade complementar, em alteridade prestante de capacidades e cuidados. Quando, pelo contr\u00e1rio, cedemos \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o individualista, pretendendo viver sem os outros, ou at\u00e9 contra os outros, esquecendo a nossa \u00edndole comunit\u00e1ria e o destino universal dos bens, a responsabilidade social das empresas e a subsidiariedade de cada grupo no conjunto geral dum pa\u00eds, arriscamos a perda colectiva em ego\u00edsmos desencontrados. Em cada sector da sociedade e da cultura encontramos facilmente quer as possibilidades quer os entraves. Possibilidades que adv\u00eam sempre da conjuga\u00e7\u00e3o da liberdade e da criatividade pessoais com a conviv\u00eancia activa e mutuamente interessada. Entraves que subsistem ou se levantam, provindos duma pior considera\u00e7\u00e3o da liberdade individual, sobre si mesma encurvada e reduzida a mero sentimento ou apetite, sem respeito pela natureza das coisas, ainda que evolutiva, nem pelas necessidades dos outros, que afinal desafiam e aumentam a nossa capacidade de ser, isto \u00e9, de conviver partilhando. Avancemos ent\u00e3o, irm\u00e3os e irm\u00e3s, por este caminho aberto de liberdade e servi\u00e7o, que a Quaresma nos oferece. No Esp\u00edrito de Cristo, podemos e devemos crescer como filhos de Deus e irm\u00e3os universais. Tornemos priorit\u00e1ria a comunh\u00e3o com Deus e com os outros a partir de Deus, progredindo na unidade e na entreajuda. Ouvidos os apelos da Liturgia de hoje, coloquemos o cora\u00e7\u00e3o e o desejo na divina caridade. Ofere\u00e7amos \u00e0s fam\u00edlias, \u00e0s escolas, \u00e0s empresas e \u00e0 sociedade em geral o Evangelho vivo na vida dos crentes. Atraia-nos j\u00e1, como sempre, o clar\u00e3o da P\u00e1scoa. Irradiemo-lo tamb\u00e9m, por vidas autenticamente evang\u00e9licas. Convertamo-nos a Deus, servindo o pr\u00f3ximo.   S\u00e9 do Porto, Quarta-Feira de Cinzas, 25 de Fevereiro de 2009  <i>+ Manuel Clemente <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abConvertamo-nos a Deus, servindo o pr\u00f3ximo!\u00bb<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[187,206,221,232,246,275,91],"class_list":["post-37200","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-diocese-do-porto","tag-familia","tag-historia-da-igreja","tag-incendios","tag-liturgia","tag-pascoa","tag-quaresma"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37200","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=37200"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37200\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=37200"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=37200"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=37200"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}