{"id":37196,"date":"2009-02-25T22:38:12","date_gmt":"2009-02-25T22:38:12","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/02\/25\/homilia-do-cardeal-patriarca-na-missa-de-quarta-feira-de-cinzas\/"},"modified":"2009-02-25T22:38:12","modified_gmt":"2009-02-25T22:38:12","slug":"homilia-do-cardeal-patriarca-na-missa-de-quarta-feira-de-cinzas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-cardeal-patriarca-na-missa-de-quarta-feira-de-cinzas\/","title":{"rendered":"Homilia do Cardeal-Patriarca na Missa de Quarta-Feira de Cinzas"},"content":{"rendered":"<p>\u00abQuaresma: a esperan\u00e7a da convers\u00e3o\u00bb <!--more--> 1. Come\u00e7a hoje a Quaresma, tempo de gra\u00e7a e de intensidade espiritual. \u00c9 um tempo em que somos chamados a sentir e a exprimir a densidade da P\u00e1scoa e a dramaticidade da nossa convers\u00e3o. No seu simbolismo de 40 dias, a Quaresma afirma-se como o tempo de Deus, o \u201cKair\u00f3s\u201d, o tempo da Sua gra\u00e7a. N\u00e3o vale pela dura\u00e7\u00e3o humana do calend\u00e1rio, mas pela realiza\u00e7\u00e3o do des\u00edgnio de Deus: pode significar um momento, toda a vida de cada um de n\u00f3s, ou o tempo largo que abra\u00e7a a hist\u00f3ria. Quarenta dias esteve Jesus no deserto e Mois\u00e9s no Monte Oreb; quarenta anos peregrinou Israel no deserto. Em todos estes casos este tempo significa o \u201cKair\u00f3s\u201d, o tempo de Deus, o momento em que Ele se cruza connosco, manifestando em n\u00f3s a Sua gl\u00f3ria.  A Igreja tem uma longa experi\u00eancia deste tempo de gra\u00e7a, pois aprofundou ao longo dos s\u00e9culos a sua compreens\u00e3o. Da parte de Deus, ele \u00e9 tempo de gra\u00e7a, atrav\u00e9s da Sua Palavra que dirige ao Povo e manifestando em acontecimentos de salva\u00e7\u00e3o, essa gesta maravilhosa de Deus em favor do Seu Povo. Da nossa parte, ele \u00e9 tempo de convers\u00e3o, atitude de quem n\u00e3o recusa o dom de Deus e aceita o confronto com a Sua Palavra criadora, e a transforma\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o. \u00c9 na convers\u00e3o que este tempo se revela para n\u00f3s tempo de gra\u00e7a.   2. \u00c9 por isso que a convers\u00e3o ocupa o lugar central na espiritualidade da Quaresma. Antes de mais, no convite insistente da Palavra de Deus \u00e0 convers\u00e3o. Temos na Liturgia de hoje dois exemplos impressionantes do convite \u00e0 convers\u00e3o. O do Profeta Joel: \u201cvoltai para mim de todo o cora\u00e7\u00e3o\u201d; e o do Ap\u00f3stolo Paulo: \u201cN\u00f3s vo-lo pedimos por amor de Cristo: reconciliai-vos com Deus\u201d. S\u00e3o apelos veementes que exprimem a intensidade e a urg\u00eancia de Deus em nos salvar. Aqueles de n\u00f3s que n\u00e3o fecharmos os ouvidos e o cora\u00e7\u00e3o, vamos ouvir continuamente, durante estes quarenta dias, este apelo de Deus. A pr\u00f3pria morte de Cristo na Cruz \u00e9 o \u00faltimo grito de Deus a convidar-nos \u00e0 convers\u00e3o.  Mas a este apelo deve corresponder o nosso desejo de convers\u00e3o e a esperan\u00e7a da salva\u00e7\u00e3o, na sua fase presente, naquele \u201cKair\u00f3s\u201d, em que escutarmos a Palavra de Deus e nos dispusermos a que Deus mude a nossa vida. A maior parte dos nossos contempor\u00e2neos, fruto da cultura ambiente actual, n\u00e3o desejam a convers\u00e3o. O homem moderno \u00e9 um homem convencido, est\u00e1 contente com o que \u00e9, e, se pede mudan\u00e7as de vida, \u00e9 nos outros e n\u00e3o em si pr\u00f3prios. Contra esta atitude esbarra a Palavra de Deus como \u00e1gua a bater na rocha. S\u00f3 os que desejam a convers\u00e3o a podem esperar como dom de Deus. E esses, deveriam ser todos os crist\u00e3os: a esperan\u00e7a da convers\u00e3o \u00e9 a for\u00e7a que os abrir\u00e1 a este tempo favor\u00e1vel. A esperan\u00e7a \u00e9 uma abertura confiante \u00e0 ac\u00e7\u00e3o de Deus, \u00e9 express\u00e3o, ainda que incompleta, da caridade.   3. Para aqueles que a desejam, esperar a convers\u00e3o \u00e9, antes de mais, saberem que a mudan\u00e7a de vida que desejam n\u00e3o \u00e9 o fruto da sua vontade e decis\u00e3o humanas, mas da ac\u00e7\u00e3o de Deus na sua vida. Sup\u00f5e a sabedoria humilde de n\u00e3o desperdi\u00e7ar os dons da gra\u00e7a, aqueles momentos e meios atrav\u00e9s dos quais Deus transforma o nosso cora\u00e7\u00e3o: a Palavra de Deus escutada como Palavra de amor e fonte de vida; os sacramentos nos quais, atrav\u00e9s da palavra da Igreja, se renova a gesta da cria\u00e7\u00e3o, manifesta\u00e7\u00e3o do poder criador da Palavra; a ora\u00e7\u00e3o enquanto desejo e abertura confiante a essa ac\u00e7\u00e3o de Deus; a esmola como sinal de que a caridade \u00e9 j\u00e1 o dinamismo que conduz a nossa vida e inspira as nossas op\u00e7\u00f5es. Todos estes meios s\u00e3o humildes, s\u00e3o concretiza\u00e7\u00f5es do sil\u00eancio de Deus. N\u00f3s queremos mudar de vida, n\u00e3o para nossa honra pessoal, mas para gl\u00f3ria de Deus e triunfo da caridade. A humildade sublinha a autenticidade do nosso desejo de convers\u00e3o. V\u00e3o nessa linha os ensinamentos de Jesus no Evangelho que escut\u00e1mos: \u201ctomai cuidado em n\u00e3o fazer diante dos homens a vossa pr\u00e1tica religiosa para serdes vistos por eles (\u2026) Ao dares esmola, n\u00e3o toques a trombeta diante de ti (\u2026); quando rezardes, n\u00e3o sejais como as pessoas fingidas (\u2026); e quando jejuardes n\u00e3o tomeis um ar sombrio, como as pessoas fingidas (\u2026)\u201d. No tempo de Jesus, como hoje, a sociedade estava cheia de vaidades, em que o primeiro efeito das atitudes que se tomam \u00e9 gerar boa impress\u00e3o a nosso respeito naqueles que as v\u00eaem. A verdadeira esperan\u00e7a da convers\u00e3o tem a humildade de quem precisa, a confian\u00e7a de quem implora, a alegria espiritual de quem confia.   4. Para alimentar o desejo e a esperan\u00e7a da convers\u00e3o, o Papa Bento XVI prop\u00f4s, este ano, \u00e0 Igreja, a redescoberta do sentido do jejum, lembrando-nos, no entanto, que ele \u00e9 indeslig\u00e1vel da ora\u00e7\u00e3o e da esmola. As concretiza\u00e7\u00f5es do jejum, como pr\u00e1tica penitencial, que est\u00e3o presentes na nossa mem\u00f3ria s\u00e3o aquelas que herd\u00e1mos de uma longa tradi\u00e7\u00e3o: experimentar a fome do corpo para poder sentir a fome do esp\u00edrito; renunciar a luxos e a prazeres f\u00edsicos, tantas vezes ligados \u00e0 comida, para nos abrirmos aos valores do esp\u00edrito. Sem negar nenhum destes aspectos, que mant\u00eam grande actualidade, temos de enriquecer a pr\u00e1tica do jejum no contexto das actuais exig\u00eancias da caridade: privar-se e renunciar, para distribuir; experimentar a mod\u00e9stia, para dominar a nossa vaidade; ser pobre para poder perceber e acolher muitos dos nossos irm\u00e3os.  No momento que estamos a atravessar aumentam, em cada dia, as exig\u00eancias da partilha. Renunciar para distribuir tem de ser a regra do nosso jejum, nunca esquecendo o conselho do Senhor: que a tua m\u00e3o esquerda n\u00e3o saiba o que faz a m\u00e3o direita. Temos assistido \u00e0 exuber\u00e2ncia do an\u00fancio das medidas financeiras, econ\u00f3micas, sociais, para responder \u00e0 crise. \u00c9 compreens\u00edvel porque o an\u00fancio de medidas correctas pode suscitar a esperan\u00e7a. J\u00e1 me foi perguntado se a Igreja, com uma longa experi\u00eancia de ajuda fraterna e social, n\u00e3o vai anunciar a sua estrat\u00e9gia, a sua maneira de responder \u00e0 crise. \u201cQue a tua m\u00e3o esquerda n\u00e3o saiba o que faz a direita!\u201d. Para al\u00e9m das respostas estruturadas, p\u00fablicas por natureza, este momento exige a ajuda silenciosa, discreta, de pessoa para pessoa, de vizinho para vizinho, na intimidade das comunidades. N\u00e3o est\u00e1 ao nosso alcance resolver os grandes problemas. Mas devemos acolher com amor, ajudar em tudo o que pudermos, porventura orientando as pessoas para outra fonte de solu\u00e7\u00e3o. E a\u00ed, renunciar para partilhar pode ser manifesta\u00e7\u00e3o da nossa esperan\u00e7a de convers\u00e3o. S\u00e9 Patriarcal, 25 de Fevereiro de 2009   <i>\u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abQuaresma: a esperan\u00e7a da convers\u00e3o\u00bb<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[120,199,246,275,91,294],"class_list":["post-37196","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-bento-xvi","tag-espiritualidade","tag-liturgia","tag-pascoa","tag-quaresma","tag-sacramentos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37196","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=37196"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37196\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=37196"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=37196"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=37196"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}