{"id":37163,"date":"2009-02-25T10:15:48","date_gmt":"2009-02-25T10:15:48","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/02\/25\/amor-que-sensibiliza-a-dura-cerviz\/"},"modified":"2009-02-25T10:15:48","modified_gmt":"2009-02-25T10:15:48","slug":"amor-que-sensibiliza-a-dura-cerviz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/amor-que-sensibiliza-a-dura-cerviz\/","title":{"rendered":"Amor que sensibiliza a <i>dura cerviz<\/i>"},"content":{"rendered":"<p>Nestes alvores do terceiro mil\u00e9nio, a sociedade humana global est\u00e1 a ser aspirada num v\u00f3rtice de descr\u00e9dito, de decad\u00eancia estrutural, de viol\u00eancia, de desumanidade, de depress\u00e3o e de crise de esperan\u00e7a. \u201cDespertamos do sono dogm\u00e1tico \u2013 diz Michel Foucauld \u2013 e ca\u00edmos entorpecidos no sono antropol\u00f3gico\u201d. O mundo ocidental gerou e alimenta no seu seio uma elite, poderosa no campo pol\u00edtico, na educa\u00e7\u00e3o, nos media e veiculadora de ideologias: 1) secularistas, que encerram o ser humano e o mundo na estrita iman\u00eancia, 2) propagadoras do relativismo, em nome de uma pretensa defesa da autodetermina\u00e7\u00e3o e da considera\u00e7\u00e3o absoluta da liberdade individual, 3) promotoras de uma mentalidade eug\u00e9nica, em nome da qualidade de vida e da dignidade humana. O Cristianismo, por seu lado, quer nas suas institui\u00e7\u00f5es, quer no testemunho crist\u00e3o, apresenta, muitas vezes, um Deus evangelicamente irreconhec\u00edvel. Apesar de tudo, o ideal crist\u00e3o continua a apontar ao mundo um sentido poss\u00edvel de realiza\u00e7\u00e3o humana e de plenitude de vida. Este ideal lembra-nos que o desenvolvimento humano n\u00e3o se mede somente pelo poder econ\u00f3mico, pelas proezas t\u00e9cnicas e pelas conquistas cient\u00edficas. O verdadeiro e humano desenvolvimento orienta-se tamb\u00e9m e decisivamente pelo \u201cpar\u00e2metro interior\u201d da dignidade da pessoa humana, criada \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus, e dos direitos humanos.  Diante da quest\u00e3o social actual, a Igreja precisa de definir uma metodologia adequada e desenvolver estrat\u00e9gias s\u00f3cio-anal\u00edticas \u00e0 luz da antropologia crist\u00e3, com repercuss\u00f5es consequentes na ac\u00e7\u00e3o social. Ao mesmo tempo, a Igreja precisa de instituir uma atitude de permanente autocr\u00edtica e de defini\u00e7\u00e3o da peculiaridade da sua miss\u00e3o.  A miseric\u00f3rdia imp\u00f5e-se \u00e0 reflex\u00e3o e \u00e0 ac\u00e7\u00e3o social da Igreja como ethos civilizacional a configurar com urg\u00eancia. Se a terminologia miseric\u00f3rdia n\u00e3o est\u00e1 em sintonia com a sensibilidade moderna, o seu conte\u00fado \u00e9 de total actualidade ao evocar a fraternidade rec\u00edproca. Miseric\u00f3rdia rima com abertura do cora\u00e7\u00e3o ao miser\u00e1vel, rima com compaix\u00e3o com aquele que sofre, rima com ternura, rima com amor, rima com salva\u00e7\u00e3o, rima com dignidade. Em registo crist\u00e3o, a miseric\u00f3rdia situa-se no horizonte do amor, para al\u00e9m da solidariedade e da justi\u00e7a. \u00c9 esta compreens\u00e3o que Jo\u00e3o Paulo II tem quando escreve: \u201cA miseric\u00f3rdia difere da justi\u00e7a mas n\u00e3o se lhe op\u00f5e\u201d e \u201cO primado e superioridade do amor em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 justi\u00e7a manifesta-se precisamente atrav\u00e9s da miseric\u00f3rdia\u201d (Dives in Misericordia \u00a74).  A idiossincrasia crist\u00e3 \u00e9 o amor-miseric\u00f3rdia. Ele \u00e9 a medula do ethos evang\u00e9lico. Ele configura um novo pensar (logos) e um novo agir (ethos) em que a gratuidade, o dom, a hospitalidade, dominam a tenta\u00e7\u00e3o de cobran\u00e7a e de expectativa em meu favor. A \u00fanica expectativa que pode comportar \u00e9 a do bem do outro, sem que este bem do outro dependa da considera\u00e7\u00e3o do meu pr\u00f3prio bem.  S\u00f3 o amor-miseric\u00f3rdia pode combater, em do\u00e7ura, a fealdade que desfigura o mundo. S\u00f3 ele sensibiliza a dura cerviz e faz do cora\u00e7\u00e3o de pedra um cora\u00e7\u00e3o de carne. Ele \u00e9 o caminho para restaurar a beleza da cria\u00e7\u00e3o \u00e0 imagem do Deus caritas est. Hoje necessitamos de redescobrir o conceito, penetrar no seu sentido aut\u00eantico e recuperar a for\u00e7a operativa que dele brota para a vida. Este amor-miseric\u00f3rdia orientado para os mais pobres, para os mais fr\u00e1geis, e os mais necessitados, \u00e9, em si, aut\u00eantica liturgia, em que o amor ao pr\u00f3ximo e o louvor a Deus s\u00e3o indissoci\u00e1veis. Ele \u00e9 a figura que resta de todo o nosso esfor\u00e7o, individual e conjunto, para resolver as car\u00eancias ou aliviar os sofrimentos nomeados. Esgotadas as dilig\u00eancias, resta o amor-miseric\u00f3rdia, n\u00e3o como resposta \u00faltima, mas como resposta primeira, que guiou todos os passos dados. Ele \u00e9 o \u00fanico que sobrevive e resiste ao fracasso de todas as outras estrat\u00e9gias. O agir crist\u00e3o define-se ainda pela liberdade. A partir da leitura das Cartas de S. Paulo vemos que a liberdade crist\u00e3 distingue-se bem de outras perspectivas de liberdade. A liberdade crist\u00e3 \u00e9-o na medida da sua conformidade com Cristo: amor ao pr\u00f3ximo, amor ao inimigo, rela\u00e7\u00e3o com todas as criaturas, em do\u00e7ura, reconhecimento da dignidade humana, que maravilha Deus e nos \u201cmaravilha\u201d.  \u00c9 este maravilhar-se diante da dignidade humana que \u201cdetermina a miss\u00e3o da Igreja no mundo\u201d. Dignidade, que nenhum relativo social, pol\u00edtico ou cultural consegue fundamentar. Dignidade absoluta, s\u00f3 sustent\u00e1vel num fundamento absoluto, necessariamente teoc\u00eantrico. Neste sentido, o \u201cN\u00e3o matar\u00e1s\u201d, mais do que um relativo pol\u00edtico-cultural (provis\u00f3rio) \u00e9 um absoluto imperativo teologal (definitivo) que, numa formula\u00e7\u00e3o positiva, poder\u00e1 ser traduzido do seguinte modo: cuidar\u00e1s da vida, proteger\u00e1s a vida, mormente a vida fragilizada.   <i>Isabel Varanda <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nestes alvores do terceiro mil\u00e9nio, a sociedade humana global est\u00e1 a ser aspirada num v\u00f3rtice de descr\u00e9dito, de decad\u00eancia estrutural, de viol\u00eancia, de desumanidade, de depress\u00e3o e de crise de esperan\u00e7a. \u201cDespertamos do sono dogm\u00e1tico \u2013 diz Michel Foucauld \u2013 e ca\u00edmos entorpecidos no sono antropol\u00f3gico\u201d. O mundo ocidental gerou e alimenta no seu seio [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[189,193,237,246,314],"class_list":["post-37163","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-direitos-humanos","tag-educacao","tag-joao-paulo-ii","tag-liturgia","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37163","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=37163"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37163\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=37163"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=37163"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=37163"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}