{"id":371056,"date":"2025-04-21T09:44:43","date_gmt":"2025-04-21T08:44:43","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=371056"},"modified":"2025-05-06T17:14:36","modified_gmt":"2025-05-06T16:14:36","slug":"francisco-estarei-aqui-enquanto-deus-quiser-em-relacao-a-minha-morte-tenho-uma-atitude-muito-pragmatica-autobiografia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/francisco-estarei-aqui-enquanto-deus-quiser-em-relacao-a-minha-morte-tenho-uma-atitude-muito-pragmatica-autobiografia\/","title":{"rendered":"Francisco: \u00abEstarei aqui enquanto Deus quiser. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 minha morte, tenho uma atitude muito pragm\u00e1tica\u00bb (autobiografia)"},"content":{"rendered":"<p><em>Livro in\u00e9dito passou em revista vida de Jorge Mario Bergoglio, da f\u00e1brica de meias ao pontificado<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_371554\" aria-describedby=\"caption-attachment-371554\" style=\"width: 1200px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-371554 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Papa-Francisco.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"748\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Papa-Francisco.jpg 1200w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Papa-Francisco-400x249.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Papa-Francisco-1024x638.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Papa-Francisco-768x479.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-371554\" class=\"wp-caption-text\">Foto EPA\/Lusa<\/figcaption><\/figure>\n<p>Cidade do Vaticano, 21 abr 2025 (Ecclesia) \u2013 O Papa Francisco, que morreu hoje aos 88 anos de idade, publicou em janeiro a sua primeira autobiografia, em que dizia ter uma \u201catitude muito pragm\u00e1tica\u201d perante a morte.<\/p>\n<p>\u201cEstarei aqui enquanto Deus quiser. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 minha morte, tenho uma atitude muito pragm\u00e1tica. E o mesmo quando algu\u00e9m me fala de poss\u00edveis riscos de atentados. Quando acontecer, n\u00e3o serei sepultado em S\u00e3o Pedro, mas em Santa Maria Maior\u201d, escreveu, dando a conhecer o seu desejo quanto ao local em que vai ser enterrado.<\/p>\n<p>\u201cO Vaticano \u00e9 a casa do meu \u00faltimo servi\u00e7o, n\u00e3o a da eternidade\u201d, justificou, falando da grande devo\u00e7\u00e3o a Nossa Senhora, em particular o \u00edcone da \u2018Salus Populi Romani\u2019, junto do qual rezou sempre antes e depois de cada viagem internacional do pontificado.<\/p>\n<p>Em 2023, numa entrevista \u00e0 vaticanista mexicana Valentina Alazraki, justificou a escolha da Bas\u00edlica Papal, em Roma: \u201cComo sempre prometi \u00e0 Virgem \u2013 e o lugar est\u00e1 pronto -, quero ser sepultado em Santa Maria Maior\u201d.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 a minha grande devo\u00e7\u00e3o. Muito grande. Ia sempre l\u00e1, aos domingos de manh\u00e3 estava l\u00e1 durante algum tempo. H\u00e1 uma liga\u00e7\u00e3o muito forte\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Na sua autobiografia, Francisco referiu ainda que \u201co ritual das ex\u00e9quias era demasiado carregado\u201d.<\/p>\n<p>\u201cFalei com o mestre de cerim\u00f3nias para o aligeirar: nada de estrado, nenhuma cerim\u00f3nia para o encerramento do caix\u00e3o nem a coloca\u00e7\u00e3o da uma de cipreste dentro de uma segunda de chumbo e depois numa terceira de carvalho. Com dignidade, mas como qualquer crist\u00e3o\u201d, precisou.<\/p>\n<p>Francisco lamentava a a \u201cinstrumentaliza\u00e7\u00e3o\u201d do momento de Bento XVI, seu predecessor, a 31 de dezembro de 2022, e nos dias do funeral, no in\u00edcio de 2023.<\/p>\n<p>\u201cFoi uma coisa que me fez sofrer\u201d, admitiu.<\/p>\n<p>Entre as v\u00e1rias curiosidades que o Papa deu a conhecer na in\u00e9dita autobiografia, disse que apendeu a cozinhar aos 12 anos, como irm\u00e3o mais velho, quando a m\u00e3e ficou a recuperar de um parto dif\u00edcil.<\/p>\n<p>O primeiro emprego foi numa f\u00e1brica de meias, aos 13 anos, fazendo limpezas, e acabada a escola b\u00e1sica, Jorge Mario Bergoglio pensava ser m\u00e9dico; esteve \u00e0s portas da morte, em 1957, devido a problemas respirat\u00f3rios, tendo depois entrado no noviciado dos Jesu\u00edtas.<\/p>\n<p>A obra trag\u00e9dias que marcaram a sua adolesc\u00eancia e juventude na Argentina, como a de um colega que \u201cpegou na arma do pai e matou um rapaz da sua idade, um amigo do bairro\u201d.<\/p>\n<p>Da inf\u00e2ncia, Jorge M\u00e1rio Bergoglio recordou a vida numa casa simples e num bairro em que as pessoas confiavam umas nas outras.<\/p>\n<p>\u201cA dignidade era um ensinamento sempre presente nas palavras e nos gestos dos nossos pais\u201d, escreveu.<\/p>\n<p>Filho de imigrantes italianos, Francisco falou do \u201clado mais sombrio e cansativo da exist\u00eancia\u201d, nas periferias da capital argentina, com refer\u00eancia a uma \u201cMadalena contempor\u00e2nea\u201d, Porota, antiga prostituta que se dedicou depois a \u201ccuidar dos corpos com os quais ningu\u00e9m se importa\u201d.<\/p>\n<p>A obra aborda o papel da religi\u00e3o, rejeitando a ideia de que seja \u201c\u00f3pio do povo\u201d, ao real\u00e7a o \u201ccompromisso pastoral e civil\u201d de muitos cat\u00f3licos.<\/p>\n<p>\u201cAssim como a f\u00e9, todo o servi\u00e7o \u00e9 sempre um encontro, e somos n\u00f3s, acima de tudo, que podemos aprender muito com os pobres\u201d, indicou o pont\u00edfice.<\/p>\n<p>O Papa n\u00e3o via televis\u00e3o desde 1990, para respeitar um voto que fez \u00e0 Virgem do Carmo na noite de 15 de julho daquele ano, e a \u00faltima vez que fez f\u00e9rias \u201cfora de casa\u201d foi h\u00e1 50 anos, com a comunidade jesu\u00edta, em 1975, na Argentina.<\/p>\n<p>Em \u201cEsperan\u00e7a\u201d, Francisco recordava o gosto pelo futebol, apesar dos \u201cdois p\u00e9s esquerdos\u201d que o levaram, muitas vezes, a ser guarda-redes, e dizia sentir falta de \u201csair para comer pizza\u201d.<\/p>\n<p>O livro recordou a fundadora das \u2018M\u00e3es da Pra\u00e7a de Maio\u2019, contra os desaparecimentos durante a ditadura militar argentina (1976-1983), Esther Ballestrino de Careaga.<\/p>\n<p>\u201cForam anos terr\u00edveis, e para mim tamb\u00e9m de enorme tens\u00e3o: transportar pessoas \u00e0s escondidas atrav\u00e9s dos postos de controlo na zona de Campo de Mayo, ter confiadas as suas vidas, a salva\u00e7\u00e3o comum. Ou, do mesmo modo, preparar a fuga de um jovem que me foi confiado por um sacerdote uruguaio, porque no seu pa\u00eds arriscava a vida\u201d, pode ler-se.<\/p>\n<p>Esther Ballestrino de Careaga era encarregada do laborat\u00f3rio onde Jorge Mario Bergoglio trabalhou na sua juventude; despareceu a 8 de dezembro de 1977 e nunca mais foi vista, mas os seus restos mortais foram encontrados em 2005.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Pontificado e atualidade<\/strong><\/p>\n<p>A autobiografia abordou o impacto da crise de abusos sexuais, na Igreja, sublinhando a prioridade que deve ser dada \u00e0s v\u00edtimas.<\/p>\n<p>\u201cAs v\u00edtimas devem saber que o Papa est\u00e1 do seu lado. E que nisto n\u00e3o se retrocede nem um passo\u201d, indicou.<\/p>\n<p>\u201cCom vergonha e arrependimento, a Igreja deve pedir perd\u00e3o pelo terr\u00edvel dano que aqueles religiosos causaram com os abusos sexuais de crian\u00e7as, um crime que gera profundas feridas de sofrimento e de impot\u00eancia, sobretudo nas v\u00edtimas, mas tamb\u00e9m nos seus familiares e em toda a comunidade\u201d, acrescentava.<\/p>\n<p>Francisco pediu que os respons\u00e1veis cat\u00f3licos levem os casos \u201ca s\u00e9rio, sem qualquer hesita\u00e7\u00e3o ou subestima\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO sofrimento das v\u00edtimas \u00e9 um lamento que sobe ao c\u00e9u, que toca a alma e que durante muito tempo foi ignorado, escondido ou mesmo obrigado a calar. Na raiva, justificada, das pessoas, a Igreja v\u00ea o reflexo da ira de Deus, tra\u00eddo e esbofeteado por esses desonestos consagrados\u201d, observou.<\/p>\n<blockquote><p>Olhando para o passado, nunca ser\u00e1 suficiente aquilo que se fizer para pedir perd\u00e3o e procurar reparar o dano causado. Olhando para o futuro, nunca ser\u00e1 pouco o que se fizer para dar vida a uma cultura capaz de evitar que n\u00e3o s\u00f3 tais situa\u00e7\u00f5es se repitam, mas que encontrem um espa\u00e7o para serem encobertas\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>O livro recordava um encontro entre o Papa Francisco e Bento XVI, no in\u00edcio do pontificado, em 2013.<\/p>\n<p>\u201cO meu predecessor entregou-me uma grande caixa branca: \u00abEst\u00e1 tudo aqui dentro\u00bb, disse-me ele, as atas com as situa\u00e7\u00f5es mais dif\u00edceis e dolorosas, os abusos, os casos de corrup\u00e7\u00e3o, os epis\u00f3dios obscuros, os erros. \u00abEu cheguei at\u00e9 aqui, tomei estas provid\u00eancias, afastei estas pessoas, agora cabe a ti.\u00bb Eu prossegui o seu caminho\u201d, relatou Francisco.<\/p>\n<p>A obra evoca as quatro Jornadas Mundiais da Juventude do pontificado, que decorreram no Brasil, na Pol\u00f3nia, no Panam\u00e1 e em Portugal, as quais deixaram no Papa \u201cum sentimento reconhecedor de esperan\u00e7a\u201d, que se uniu ao \u201csentido de mist\u00e9rio\u201d.<\/p>\n<p>As guerras na Ucr\u00e2nia e no M\u00e9dio Oriente tamb\u00e9m foram abordadas, pedindo a interven\u00e7\u00e3o da comunidade internacional para \u201cidentificar caminhos para o dia\u0301logo, as negociac\u0327o\u0303es, a mediac\u0327a\u0303o\u201d.<\/p>\n<p>O Papa aludiu ainda \u00e0 \u201cbarba\u0301rie\u201d comec\u0327ada com o atentado de 7 de outubro de 2013, quando as mil\u00edcias do Hamas atravessaram as barreiras que dividem a Faixa de Gaza de Israel e mataram militares e civis israelitas, \u201cda maneira mais diab\u00f3lica e brutal\u201d, fazendo ainda v\u00e1rios ref\u00e9ns.<\/p>\n<p>\u201cPerdi tambe\u0301m amigos argentinos naquela carnificina, uma dupla dor, pessoas que conhecia ha\u0301 anos e que viviam num kibutz na fronteira com Gaza\u201d, revelou.<\/p>\n<p>Francisco considerava que a resposta israelita representou \u201coutra, enorme\u201d barb\u00e1rie: \u201cDezenas de milhares de mortos inocentes, em grande parte, mulheres e crianc\u0327as, centenas de milhares de deslocados, de casas destrui\u0301das, de pessoas a um passo da penu\u0301ria\u201d.<\/p>\n<p>O Papa alertou para o aumento dos populismos, considerando que \u201cas promessas que se baseiam no medo, acima de tudo, o medo do outro s\u00e3o a censura habitual dos populismos e o in\u00edcio das ditaduras e das guerras\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEmigra\u00e7\u00e3o e guerra s\u00e3o duas faces da mesma moeda. Tal como foi bem escrito, a maior f\u00e1brica de migrantes \u00e9 a guerra. De uma maneira ou de outra, porque tamb\u00e9m as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e a pobreza s\u00e3o em grande parte o fruto doente de uma guerra surda que o homem declarou: a uma mais igualit\u00e1ria distribui\u00e7\u00e3o dos recursos, \u00e0 natureza, ao seu pr\u00f3prio planeta\u201d, sustentou.<\/p>\n<p>Recordando o in\u00edcio do pontificado, em 2013, Francisco admitiu que, na altura, \u201cn\u00e3o acreditava que escreveria quatro enc\u00edclicas, e todas as cartas, os documentos, as exorta\u00e7\u00f5es apost\u00f3licas, nem que faria todas estas viagens, a mais de 60 pa\u00edses\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA Igreja que caminha ser\u00e1 cada vez mais universal, e o seu futuro e a sua for\u00e7a vir\u00e3o tamb\u00e9m da Am\u00e9rica Latina, da \u00c1sia, da \u00cdndia, de \u00c1frica, j\u00e1 se v\u00ea pela riqueza das voca\u00e7\u00f5es. Mesmo na Indon\u00e9sia, em Singapura, na Nova Guin\u00e9 ou em Timor-Leste, em setembro de 2024 \u2014 uma experi\u00eancia maravilhosa, que muito desejava, uma infinidade de crian\u00e7as, de pessoas que lan\u00e7avam as suas capas, enquanto o carro papal passava, ao longo dos dezasseis quil\u00f3metros do caminho para a Nunciatura \u2014, encontrei uma Igreja em crescimento e com uma identidade pr\u00f3pria\u201d, indicou.<\/p>\n<p>Francisco refletia sobre os seus problemas de sa\u00fade e disse nunca ter ainda colocado a possibilidade de renunciar ao pontificado.<\/p>\n<p>\u201cCada vez que um Papa est\u00e1 doente sente-se soprar um pouco de vento de Conclave, mas a realidade \u00e9 que nem nos dias das opera\u00e7\u00f5es cir\u00fargicas, nunca pensei em renunciar, a n\u00e3o ser para dizer que, para todos, \u00e9 sempre uma possibilidade, que desde o momento da elei\u00e7\u00e3o tinha entregue ao cardeal camerlengo uma carta de ren\u00fancia em caso de impedimento por motivos m\u00e9dicos\u201d, explicou.<\/p>\n<p>A obra assumiu resist\u00eancias ao pontificado, dentro da Igreja, defendendo as posi\u00e7\u00f5es sobre divorciados e homossexuais<\/p>\n<p>\u201cNa Igreja, s\u00e3o todos convidados, mesmo as pessoas divorciadas, mesmo as pessoas homossexuais, mesmo as pessoas transexuais\u201d, real\u00e7ou.<\/p>\n<p>O Papa recordava a primeira vez que um grupo de transexuais foi ao Vaticano e \u201csa\u00edram a chorar, comovidas\u201d.<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o filhas de Deus! Podem receber o batismo nas mesmas condi\u00e7\u00f5es dos outros fi\u00e9is e nas mesmas condi\u00e7\u00f5es dos outros, podem ser aceites na fun\u00e7\u00e3o de padrinho ou madrinha, bem como ser testemunhas de um casamento. Nenhuma lei do direito can\u00f3nico o pro\u00edbe\u201d, defendeu.<\/p>\n<p>Num cap\u00edtulo intitulado \u2018Todos fora e todos dentro\u2019, o Papa reconheceu que \u201cexistem sempre resist\u00eancias, na maioria das vezes ligadas a um escasso conhecimento ou a alguma forma de hipocrisia\u201d.<\/p>\n<p>A obra abordou a pol\u00e9mica com a declara\u00e7\u00e3o \u2018Fiducia supplicans\u2019, do Dicast\u00e9rio para a Doutrina da F\u00e9 sobre as b\u00ean\u00e7\u00e3os aos irregulares, que assinou em dezembro de 2023.<\/p>\n<p>\u201cAben\u00e7oam-se as pessoas, n\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es\u201d, precisou o Papa.<\/p>\n<p>Olhando para os 12 anos de pontificado, Francisco disse que \u201cas decis\u00f5es mais dif\u00edceis, mais dolorosas, foram tomadas ap\u00f3s consultas e reflex\u00f5es, procurando unanimidade e numa via sinodal\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA reforma da C\u00faria Romana foi a mais dif\u00edcil e a que registou durante mais tempo as maiores resist\u00eancias \u00e0 mudan\u00e7a, por exemplo, na gest\u00e3o econ\u00f3mica\u201d, revelou.<\/p>\n<blockquote><p>Tenho uma certeza dogm\u00e1tica: Deus est\u00e1 na vida de todas as pessoas, Deus est\u00e1 na vida de cada um. Mesmo que a vida de uma pessoa tenha sido um desastre, tenha sido destru\u00edda pelos v\u00edcios, pela droga ou por qualquer outra coisa, Deus est\u00e1 naquela vida\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Conclave<\/strong><\/p>\n<p>O Papa apresenta mem\u00f3rias in\u00e9ditas do conclave em que foi eleito, em mar\u00e7o de 2013, recordando a curiosidade dos cardeais e a surpresa perante a sua decis\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cDizer que n\u00e3o esperava nada do g\u00e9nero, nunca na vida e muito menos no in\u00edcio daquele conclave, \u00e9 certamente dizer pouco\u201d, relatou.<\/p>\n<p>O cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio, ent\u00e3o com 76 anos, entrou para o conclave de 2013, a 12 de mar\u00e7o, e foi eleito no dia seguinte como sucessor de Bento XVI, assumindo o in\u00e9dito nome de Francisco.<\/p>\n<p>O Papa assinalou que, como dizem os vaticanistas, poderia ser um \u201ckingmaker\u201d, entre os eleitores do sucessor de Bento XVI, na sua condi\u00e7\u00e3o de cardeal latino-americano, capaz de \u201cendere\u00e7ar um n\u00famero de votos sobre este ou aquele candidato\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o contava, os candidatos fortes que os jornalistas indicavam e procuravam naqueles dias de mar\u00e7o de 2013, eram outros: o arcebispo de Mil\u00e3o, Angelo Scola; o cardeal de Boston, Sean O\u2019Malley; o arcebispo de S\u00e3o Paulo, Odilo Scherer; e Marc Ouellet, o cardeal canadiano que \u00e9 hoje presidente em\u00e9rito da Comiss\u00e3o Pontif\u00edcia para a Am\u00e9rica Latina\u201d, recordava.<\/p>\n<p>Nas congrega\u00e7\u00f5es gerais, as reuni\u00f5es preparat\u00f3rias do Col\u00e9gio dos Cardeais, Jorge Mario Bergoglio apresentou um discurso que tinha \u201cdespertado interesse, aten\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>\u201cUm cardeal aproximou-se de mim e disse-me: \u00abPois, gostar\u00edamos mesmo de uma pessoa que fizesse essas coisas\u2026\u00bb. \u00abSim, mas onde a encontras?\u00bb, respondi-lhe. E ele: \u00abTu.\u00bb Comecei a rir: \u00abAh, ah, ah, sim, est\u00e1 bem, cumprimentos l\u00e1 em casa\u00bb\u201d, escreveu.<\/p>\n<p>A 12 de mar\u00e7o, in\u00edcio do conclave, o futuro Papa apresentou-se na Casa de Santa Marta com a mala em que carregava \u201cpoucas coisas\u201d.<\/p>\n<p>\u201cTinha deixado tudo em Buenos Aires, os livros que come\u00e7ara a ler, as homilias que tinha preparado para o Domingo de Ramos e para a Quinta-feira Santa, e tamb\u00e9m um pouco de desordem. E j\u00e1 comprara o bilhete de regresso para o s\u00e1bado, 23\u201d, referia.<\/p>\n<p>Francisco recordou ter dito, dias antes, a outro arcebispo, que \u201cneste momento da Igreja, nenhum cardeal pode dizer que n\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>A primeira vota\u00e7\u00e3o encontrou o arcebispo de Buenos Aires \u201cabsolutamente tranquilo\u201d, embora os votos se fossem repetindo no segundo e terceiro escrut\u00ednios.<\/p>\n<p>O \u00faltimo Papa diz que foi sendo questionado por v\u00e1rios cardeais e que apenas quando lhe perguntaram sobre a suposta falta de um pulm\u00e3o \u2013 foi operado em 1957 para a retirada de um lobo superior, onde estavam tr\u00eas quistos \u2013 percebeu a possibilidade de ser eleito.<\/p>\n<p>\u201cCompreendi pelo menos que havia o risco\u201d, assinalou.<\/p>\n<p>Francisco disse que nunca preencheu o boletim que \u00e9 oferecido para contar os votos em cada cardeal, afirmando que \u201co escrut\u00ednio \u00e9 uma coisa mesmo aborrecida de seguir, parece um canto gregoriano, mas com muito menos harmonia\u201d.<\/p>\n<p>A maioria de dois ter\u00e7os dos votantes chegaria no quinto escrut\u00ednio, em que se repetiu a vota\u00e7\u00e3o devido a um cart\u00e3o em branco a mais.<\/p>\n<p>\u201cEnquanto os cardeais ainda aplaudiam e o escrut\u00ednio continuava, o cardeal Hummes, que tinha estudado no semin\u00e1rio franciscano de Taquari, no Rio Grande do Sul, levantou-se e veio abra\u00e7ar-me: \u2018N\u00e3o te esque\u00e7as dos pobres\u2019, disse-me ele. A sua frase marcou-me, senti-a na carne. Foi ent\u00e3o que surgiu o nome Francisco\u201d, lembrou.<\/p>\n<p>O Papa explicou que, na sacristia, colocou o anel da ordena\u00e7\u00e3o episcopal e rejeitou a cruz em ouro e os sapatos vermelhos: \u201cN\u00e3o foi nada de preparado. Era simplesmente o que sentia, com espontaneidade. Tal como n\u00e3o quis a capa de veludo nem o carretel de linho\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>Sa\u00ed e fui de imediato ter com o cardeal Ivan Dias, que estava numa cadeira de rodas e, talvez por ainda n\u00e3o ter confian\u00e7a com as novas vestes, tropecei num degrau. O meu primeiro ato de Papa\u2026 foi um trope\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o ca\u00ed\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Francisco admitia que encontrou paz, ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o, e que gostava de estar com as pessoas, recordando a op\u00e7\u00e3o por residir em Santa Marta, resposta \u00e0 necessidade de viver \u201cjunto dos outros\u201d, numa op\u00e7\u00e3o que provocou surpresa e algum desconforto, junto de respons\u00e1veis do Vaticano.<\/p>\n<p>O livro \u2018Spera\u2019 (\u2018Esperan\u00e7a\u2019), editado pela Mondadori, foi publicado em mais de cem pa\u00edses, incluindo Portugal (Nascente), tendo escrito com Carlo Musso, ex-diretor editorial de n\u00e3o-fic\u00e7\u00e3o da Piemme e da Sperling &amp; Kupfer.<\/p>\n<p>Ao longo de mais de 25 cap\u00edtulos e 300 p\u00e1ginas, Francisco refletiu sobre temas como as migra\u00e7\u00f5es, a crise ambiental, a pol\u00edtica social, a condi\u00e7\u00e3o da mulher, a sexualidade, o desenvolvimento tecnol\u00f3gico, o futuro da Igreja e o di\u00e1logo entre religi\u00f5es.<\/p>\n<p><em>OC<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Livro in\u00e9dito passou em revista vida de Jorge Mario Bergoglio, da f\u00e1brica de meias ao 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