{"id":370705,"date":"2025-04-20T00:00:37","date_gmt":"2025-04-19T23:00:37","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=370705"},"modified":"2025-04-20T15:30:17","modified_gmt":"2025-04-20T14:30:17","slug":"o-sobrenatural-do-cristianismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-sobrenatural-do-cristianismo\/","title":{"rendered":"O sobrenatural do Cristianismo"},"content":{"rendered":"<p>Padre V\u00edtor Pereira, Diocese de Vila Real<!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_268285\" aria-describedby=\"caption-attachment-268285\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-268285\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-268285\" class=\"wp-caption-text\">Padre Vitor Pereira, Diocese de Vila Real<\/figcaption><\/figure>\n<p>O escritor e fil\u00f3sofo cat\u00f3lico franc\u00eas, Jean Guitton, deixou-nos o livro \u00abO Meu Testamento Filos\u00f3fico\u00bb. \u00c9 uma esp\u00e9cie de s\u00edntese do pensamento multifacetado de um fil\u00f3sofo que era lido e escutado dentro da Igreja Cat\u00f3lica, e a prova mais clara disso mesmo \u00e9 que foi convocado para participar no Conc\u00edlio Vaticano II. A um determinado momento do seu testamento filos\u00f3fico, num suposto di\u00e1logo com outro fil\u00f3sofo franc\u00eas, Bergson, Jean Guitton afirma:<\/p>\n<p>&#8211; \u00abN\u00e3o deu conta, Bergson, como o Cristianismo, uma vez tirado o sobrenatural real, se torna ins\u00edpido? O que fica? Um moralismo respeit\u00e1vel e bastante constrangedor; um humanitarismo que tem sempre o ar de procurar desculpar Deus por n\u00e3o evitar as mis\u00e9rias humanas; um \u00absolidarismo\u00bb simp\u00e1tico; uma esperan\u00e7a vaga na melhoria das dificuldades do s\u00e9culo. Tudo isto n\u00e3o \u00e9 s\u00f3lido, tudo isto n\u00e3o \u00e9 profundo. H\u00e1 necessidade de incomodar o pr\u00f3prio Deus para ensinar estas virtuosas banalidades? Tire o sobrenatural, o cristianismo \u00e9 vazio\u00bb.<\/p>\n<p>&#8211; Bergson respondeu: \u00abEstou de acordo consigo, Guitton. Quando o clero se torna racionalista, esvazia as igrejas e faz o sucesso das seitas\u00bb.<\/p>\n<p>&#8211; Guitton redarguiu: \u00abSe se perde a f\u00e9, resta p\u00f4r luto por uma cren\u00e7a defunta. Se Cristo n\u00e3o ressuscitou, deixemos de choramingar nas sacristias aviltando o mist\u00e9rio.\u00bb<\/p>\n<p>Jean Guitton lembra aos crist\u00e3os de todos os tempos a novidade e a originalidade do Cristianismo, que o distingue de todas as outras religi\u00f5es: tem uma origem sobrenatural e tem como fim estabelecer comunh\u00e3o com o sobrenatural. O Cristianismo foi fundado pelo pr\u00f3prio Filho de Deus, Jesus Cristo. Todas as outras religi\u00f5es foram fundadas por homens, de grande densidade humana e espiritual, \u00e9 verdade, mas homens. O Cristianismo tem na sua base e na sua fonte o sobrenatural e tudo o que prop\u00f5e e ensina \u00e9 para que o homem tome consci\u00eancia do seu destino sobrenatural e se deixe enriquecer e fascinar pela beleza do sobrenatural, come\u00e7ando por realizar a sua humanidade. Eis o encanto e a grandeza do Cristianismo: a vida de Deus, com toda a sua marca de eternidade e de plenitude, j\u00e1 \u00e9 comunicada aos crentes. Jesus Cristo teve sempre no centro da sua vida o \u00abPai\u00bb, para quem sempre quis viver. O principal interesse da sua exist\u00eancia foi sempre viver em uni\u00e3o e comunh\u00e3o com o Pai, Amor fontal e sustentador de todas as coisas e de todos, convidando outros a entrarem nesta mesma comunh\u00e3o sobrenatural, raz\u00e3o \u00faltima da vida do homem. Este \u00e9 o conte\u00fado fundamental do Cristianismo.<\/p>\n<p>Ainda tenho na mem\u00f3ria os resultados de uma sondagem que encontrei numa revista cat\u00f3lica, aqui h\u00e1 uns anos, sondagem que teve como fim averiguar junto dos crist\u00e3os se acreditavam mesmo na divindade e na ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo. Os resultados foram espantosos: a maioria dos entrevistados n\u00e3o acreditava nas duas coisas. O que nos leva a perguntar: mas, afinal, porque \u00e9 que s\u00e3o crist\u00e3os? Ter\u00e3o a m\u00ednima no\u00e7\u00e3o do que andam a dizer e a viver? Para um bom n\u00famero, Jesus foi um homem m\u00edstico \u00abque teve uma experi\u00eancia muito forte do divino\u00bb, experi\u00eancia que o tornou um mestre admir\u00e1vel de moral e de espiritualidade, da eleva\u00e7\u00e3o e da perfei\u00e7\u00e3o humanas, mas n\u00e3o passava de um \u00abhomem\u00bb. Deus \u00e9 Deus, o homem \u00e9 o homem. Quanto \u00e0 ressurrei\u00e7\u00e3o, tinham muitas d\u00favidas e dificuldades em afirm\u00e1-la. Poder\u00e1 ser mais um produto da forja da hist\u00f3ria fict\u00edcia da humanidade ou bela inven\u00e7\u00e3o dos amigos \u00edntimos de Jesus. Lembramos S. Paulo: \u00abSe Cristo n\u00e3o ressuscitou, \u00e9 v\u00e3 a nossa f\u00e9\u00bb. As verdades basilares do Cristianismo \u2013 a divindade e a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus \u2013 n\u00e3o s\u00e3o aceites por muitos crist\u00e3os, ou pelos menos suscitam muitas d\u00favidas. Mas n\u00e3o h\u00e1 Cristianismo sem o sobrenatural. Este menino de quem celebramos o nascimento n\u00e3o foi apenas um profeta de uma nova humanidade ou um Che Guevara da Palestina que combateu poderes opressores e injusti\u00e7as no seu tempo, amigo dos pobres e dos exclu\u00eddos, ou um simples mestre de afetos sublimes e de regras morais para se ser feliz, imagens rom\u00e2nticas a que tantos gostam de o reduzir, Ele \u00e9 o Filho de Deus que se fez homem e que ofereceu a vida para recriar a vida do mundo, ressuscitando ao terceiro dia, sendo fonte de vida nova e eterna para todos os que o querem amar e seguir. N\u00e3o captar esta verdade e esta novidade em Jesus Cristo \u00e9 viver um Cristianismo vazio e sem sentido.<\/p>\n<p>Celebramos hoje o dia maior da f\u00e9 crist\u00e3, o dia de P\u00e1scoa. Que podemos dizer da Ressurrei\u00e7\u00e3o? Vivemos num tempo em que a t\u00e9cnica e a ci\u00eancia, e sua doen\u00e7a que \u00e9 o cientismo, est\u00e3o no seu esplendor, e em que as grandes perguntas da vida foram metidas na gaveta do dia seguinte. Pergunto-me como \u00e9 que os homens e mulheres de hoje acolher\u00e3o o acontecimento da ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus. Jesus ressuscitou, venceu a morte, voltou \u00e0 vida, entrou noutro est\u00e1dio de exist\u00eancia, isso \u00e9 inquestion\u00e1vel. Teremos poucas d\u00favidas de que os disc\u00edpulos de Jesus Cristo experimentam algo de completamente novo depois da sua morte. Contudo, a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus \u00e9 um acontecimento transcendente, mas \u00e9 \u201ccapt\u00e1vel\u201d pela f\u00e9. O te\u00f3logo Joseph Moingt alerta desde logo que \u201cn\u00e3o \u00e9 mediante uma evid\u00eancia puramente sens\u00edvel, visual, t\u00e1ctil que nasce a sua f\u00e9 em Jesus ressuscitado\u201d. E a ressurrei\u00e7\u00e3o \u201ctamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 um cad\u00e1ver que anda pelo mundo e possui o dom da ubiquidade! Paulo falar\u00e1 de um \u00abcorpo espiritual\u00bb. Por mim, prefiro dizer: os ap\u00f3stolos tiveram inegavelmente a experi\u00eancia de que ele estava vivo, lhes falava e podiam falar com ele. Jesus faz-se reconhecer pelos seus disc\u00edpulos e torna conhecida a sua ressurrei\u00e7\u00e3o dizendo-se a eles e dentro deles.\u201d \u201cEstamos no mist\u00e9rio de uma outra realidade, de uma outra dimens\u00e3o, que n\u00e3o se situa fora do nosso tempo ou do nosso corpo, mas que tamb\u00e9m n\u00e3o se acha ao mesmo n\u00edvel que o nosso tempo ou o nosso corpo. A ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus \u00e9, de algum modo, a eternidade a entrar no tempo, ou o tempo a ascender \u00e0 dimens\u00e3o da eternidade.\u201d<\/p>\n<p>O Papa Bento XVI escreve assim no seu livro Jesus de Nazar\u00e9, parte II: \u201cEssencial \u00e9 o dado de que, com a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus, n\u00e3o foi revitalizado um indiv\u00edduo qualquer morto num determinado momento, mas se verificou um salto ontol\u00f3gico que toca o ser enquanto tal, foi inaugurada uma dimens\u00e3o que nos interessa a todos e que criou, para todos n\u00f3s, um novo \u00e2mbito da vida: o estar com Deus. A ressurrei\u00e7\u00e3o descerra o espa\u00e7o novo que abre a hist\u00f3ria para al\u00e9m de si mesma e cria o definitivo. \u00c9 preciso n\u00e3o esquecer que ela n\u00e3o est\u00e1 simplesmente fora ou acima da hist\u00f3ria. A ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus ultrapassa a hist\u00f3ria, mas deixou o seu rasto na hist\u00f3ria.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o esque\u00e7amos que tudo j\u00e1 come\u00e7ou no Batismo. O Padre Vasco Pinto de Magalh\u00e3es, em entrevista ao Padre Manuel Vilas Boas, no Podcast Vidas com Hist\u00f3ria, diz assim: \u201cExperimentamos a ressurrei\u00e7\u00e3o em n\u00f3s, desde j\u00e1. A teologia diz-nos que come\u00e7amos a ressuscitar no Batismo. Ressuscitamos cada vez que vencemos o ego\u00edsmo e trocamos o ego\u00edsmo pelo amor. O amor ressuscita-nos, d\u00e1-nos uma vida nova, ressurrei\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 depois da morte, \u00e9 depois do ego\u00edsmo. O ego\u00edsmo \u00e9 que nos mata. A morte n\u00e3o mata. O ego\u00edsmo mata. Mata. D\u00e1 cabo de n\u00f3s, d\u00e1 cabo das rela\u00e7\u00f5es, d\u00e1 cabo do futuro, tira-nos a alegria. O ego\u00edsmo mata. Por isso a morte tamb\u00e9m n\u00e3o mata. A morte \u00e9 transforma\u00e7\u00e3o. Come\u00e7amos a morrer no dia em que nascemos. E tudo faz sentido que n\u00e3o seja uma morte para nada. A morte \u00e9 um processo de transforma\u00e7\u00e3o. A ressurrei\u00e7\u00e3o que Jesus veio anunciar \u00e9 que vale a pena amar e morrer para alguma causa, porque isso \u00e9 encontrar uma nova vida.\u201d<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">Boa P\u00e1scoa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre V\u00edtor Pereira, Diocese de Vila Real<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":268285,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-370705","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/370705","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=370705"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/370705\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/268285"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=370705"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=370705"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=370705"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}