{"id":370455,"date":"2025-04-18T19:46:45","date_gmt":"2025-04-18T18:46:45","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=370455"},"modified":"2025-04-18T19:46:45","modified_gmt":"2025-04-18T18:46:45","slug":"homilia-de-sexta-feira-santa-do-bispo-do-funchal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-de-sexta-feira-santa-do-bispo-do-funchal\/","title":{"rendered":"Homilia de Sexta-feira Santa do bispo do Funchal"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><\/p>\n<p>\u201cAcreditar e esperar no Crucificado\u201d<\/p>\n<ol>\n<li>O peregrino que v\u00e1 a Jerusal\u00e9m pode, ainda hoje, refazer o percurso de Jesus nestes dias derradeiros. S\u00e3o acontecimentos bem descritos e documentados, situados num lugar e num tempo precisos. Contudo, ao escrever a narra\u00e7\u00e3o do sucedido, S. Jo\u00e3o diz: \u201cAquele que viu \u00e9 que d\u00e1 testemunho e o seu testemunho \u00e9 verdadeiro. Ele sabe que diz a verdade, para que tamb\u00e9m v\u00f3s acrediteis. Assim aconteceu para se cumprir a Escritura\u201d.<\/li>\n<\/ol>\n<p>\u201cPara que tamb\u00e9m v\u00f3s acrediteis\u201d. Que somos convidados a acreditar? Em acontecimentos hist\u00f3ricos, n\u00e3o precisamos de acreditar: eles est\u00e3o a\u00ed, desenrolam-se \u00e0 vista de todos\u2026 Mas S. Jo\u00e3o, o \u201cdisc\u00edpulo amado\u201d, n\u00e3o se limita a narrar os acontecimentos: afirma tamb\u00e9m que Jesus os tinha preanunciado, e entrela\u00e7a tudo com diversas refer\u00eancias \u00e0 Sagrada Escritura, concluindo: \u201cAssim se cumpria a Escritura\u201d.<\/p>\n<p>Para a esmagadora maioria dos habitantes de Jerusal\u00e9m, Jesus foi apenas um condenado por se fazer Filho de Deus; para os chefes judaicos, tratava-se de defender as prerrogativas que lhes conferiam alguma independ\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o a Roma; para os soldados era apenas mais um crucificado, entre tantos que Pilatos condenara; mesmo para a maioria dos disc\u00edpulos de Jesus, o que naqueles dias sucedeu em Jerusal\u00e9m constitui uma desilus\u00e3o, uma derrota.<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li>A pergunta choca, mas temos de a colocar: podemos n\u00f3s, homens e mulheres do s\u00e9culo XXI, acreditar em Algu\u00e9m que foi crucificado? Podemos entregar-lhe o que pensamos, o que fazemos, o que somos? E, ainda mais: podemos acreditar no testemunho de Jo\u00e3o? Podemos acreditar no modo como ele l\u00ea para n\u00f3s o significado dos acontecimentos, e faz\u00ea-lo nosso?<\/li>\n<\/ol>\n<p>Jo\u00e3o, o disc\u00edpulo amado (aquele que \u201cviu e acreditou\u201d quando foi confrontado com o t\u00famulo vazio, e que, h\u00e1 pouco, nos convidava a essa mesma sua atitude de f\u00e9) foi capaz de ir al\u00e9m dos simples acontecimentos. Na reda\u00e7\u00e3o do evangelho n\u00e3o lhe bastou o simples enumerar de factos. Em cada acontecimento da vida de Jesus, ele percebia o cumprimento das Escrituras, a realiza\u00e7\u00e3o do plano de Deus. Isso mesmo o reconheceu no final do seu evangelho: \u201cMuitos outros sinais realizou Jesus diante dos seus disc\u00edpulos, que n\u00e3o est\u00e3o escritos neste livro. Estes, por\u00e9m, foram escritos para que acrediteis que Jesus \u00e9 o Cristo, o Filho de Deus, e para que, acreditando, tenhais a vida no seu nome\u201d (Jo 20,30-31; cf. 21,24-25)<\/p>\n<p>Jo\u00e3o escreveu o seu evangelho com um objectivo: \u201cPara que acrediteis\u201d. Prop\u00f5e-nos que, como ele, sejamos capazes de perceber que a cruz do Senhor, mais que pat\u00edbulo, \u00e9 trono real; que, longe de ser derrota, \u00e9 exalta\u00e7\u00e3o; que, longe de ser ced\u00eancia \u00e0 morte, \u00e9 luta e vit\u00f3ria; \u00e9 amor vivido e entregue, pelos seus e por todos, at\u00e9 ao fim.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m Paulo \u2014 aquele fariseu observante que inicialmente perseguia os crist\u00e3os \u2014 depois de encontrado pelo Senhor no Caminho de Damasco e de ver toda a sua vida transformada, convertida, passou a olhar para a cruz de um outro modo. Deixou de a ver como mero e neutro acontecimento hist\u00f3rico; a cruz passou a ser a prova do amor que Deus tem por todos. Dizia ele aos crist\u00e3os de Corinto: \u201cEnquanto os judeus pedem sinais e os gregos procuram a sabedoria, n\u00f3s proclamamos Cristo crucificado, esc\u00e2ndalo para os judeus e loucura para os pag\u00e3os. \u00a0Mas para os que foram chamados, sejam eles judeus ou gregos, Cristo \u00e9 poder de Deus e sabedoria de Deus; porque a loucura de Deus \u00e9 mais s\u00e1bia do que os homens, e a fraqueza de Deus \u00e9 mais forte do que os homens\u201d (1Cor 1,22-25).<\/p>\n<p>Mas podemos n\u00f3s, homens e mulheres do s\u00e9culo XXI, acreditar, quer dizer: entregar toda a nossa vida a este Jesus morto na cruz?<\/p>\n<ol>\n<li>Jo\u00e3o foi capaz de perceber que, na Cruz, \u00e9 Deus que vive em primeira pessoa a morte humana para nos poder oferecer a sua vida, a Vida Eterna. E S. Paulo, noutro lugar, falando da vida crist\u00e3, afirmava: \u201cCom Cristo estou crucificado. J\u00e1 n\u00e3o sou eu que vivo, mas \u00e9 Cristo que vive em mim. O que agora vivo na carne, vivo-o na f\u00e9 no Filho de Deus, que me amou e a si pr\u00f3prio se entregou por mim\u201d (Gal 2,19-20). Vivo na carne e vivo na f\u00e9!<\/li>\n<\/ol>\n<p>Sim. O que nos torna crist\u00e3os \u00e9, precisamente reconhecermos Deus que, pregado na cruz, nos ama e nos salva. \u00c9 reconhecermos no madeiro da cruz Aquele que hoje nos pode salvar.<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li>E podemos esperar nele? Que podemos n\u00f3s esperar de um morto na cruz? Ao viver a nossa morte na cruz, Deus rompe as cadeias com que a morte nos prendia; derruba o muro que nos impedia de ver mais al\u00e9m, de viver a eternidade. Se antes todas as esperan\u00e7as humanas terminavam no abismo da morte, Aquele que por n\u00f3s morreu na cruz estendeu, por entre esse abismo que nos separava de Deus, uma ponte que nos permite ver, viver, esperar a Vida Eterna.<\/li>\n<\/ol>\n<p>\u201cAve, o Crux, spes unica\u201d \u2014 assim come\u00e7a um antigo hino crist\u00e3o: \u201cCruz do Senhor \u00e9s \u00fanica esperan\u00e7a\/ no tempo da tristeza e da paix\u00e3o.\/ Aumenta nos crist\u00e3os a luz da f\u00e9,\/ s\u00ea para os homens o sinal da paz\u201d. E Santa Edith Stein convidava: \u201cOs bra\u00e7os do Crucificado est\u00e3o estendidos para te atrair ao seu cora\u00e7\u00e3o. Ele quer a tua vida para te dar a sua\u201d(<a href=\"https:\/\/www.karmelitinnen-koeln.de\/edith-stein-archiv-kk\/gesamtausgabe\">Geistliche Texte II. Gesamtausgabe, Band 20<\/a>).<\/p>\n<p>Sim, irm\u00e3os, podemos esperar na Cruz do Senhor. Ali\u00e1s: apenas nela podemos esperar. Porque s\u00f3 podemos esperar no Amor. E, na Cruz de Jesus, Deus mostra como nos ama at\u00e9 ao fim, at\u00e9 ao mais \u00edntimo do seu e do nosso cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Celebra\u00e7\u00e3o a Paix\u00e3o do Senhor<br \/>\nS\u00e9, 18 de abril de 2025<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":3,"featured_media":124486,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[186],"class_list":["post-370455","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-diocese-do-funchal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/370455","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=370455"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/370455\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/124486"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=370455"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=370455"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=370455"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}