{"id":37024,"date":"2009-02-18T14:32:29","date_gmt":"2009-02-18T14:32:29","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/02\/18\/reflexao-de-d-joaquim-goncalves-sobre-o-ano-paulino-5\/"},"modified":"2009-02-18T14:32:29","modified_gmt":"2009-02-18T14:32:29","slug":"reflexao-de-d-joaquim-goncalves-sobre-o-ano-paulino-5","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/reflexao-de-d-joaquim-goncalves-sobre-o-ano-paulino-5\/","title":{"rendered":"Reflex\u00e3o de D. Joaquim Gon\u00e7alves sobre o Ano Paulino"},"content":{"rendered":"<p>Ano Paulino \u2013 S. Valentim e os Cor\u00edntios <!--more--> 1 \u2013 Tem algo de provocante este t\u00edtulo. Mas porque S. Valentim \u00e9 nesta semana o nome que alimenta o mercado dos afectos amorosos, afigura-se l\u00edcito utiliz\u00e1-lo para estimular a leitura das cartas de Paulo aos crist\u00e3os de Corinto, uma das cidades por ele evangelizadas juntamente com Atenas, \u00c9feso, Roma e outras.   O ambiente cultural e social do mundo greco-romano do Mediterr\u00e2neo e do M\u00e9dio Oriente tinha uma not\u00f3ria componente sensual, de que eram expoentes, na Gr\u00e9cia, a cidade de Corinto e, na \u00c1sia de ent\u00e3o (hoje Turquia), a cidade de \u00c9feso, ambas com grandes portos de mar. Reinava nas duas cidades um erotismo sacralizado, em volta de Afrodite na primeira, e de Artemisa na segunda. (A Artemisa dos ef\u00e9sios, deusa da fecundidade, \u00e9 diferente da Artemis grega, deusa da ca\u00e7a). Vinha de longe esta tonalidade da cultura grega e oriental, chegando a rela\u00e7\u00e3o amorosa a refinar-se em clubes de pederastas e safismo.  2 \u2013 Corinto, situada num istmo que unia o continente grego e o Peloponeso, Corinto tinha dois portos de mar voltados para dois mares. Hoje esse istmo deu lugar a um canal, rasgado entre 1882 e 1893. Quando Paulo l\u00e1 chegou, era capital da prov\u00edncia romana da Acaia, com popula\u00e7\u00e3o heterog\u00e9nea, calculada em meio milh\u00e3o de habitantes. Desde os tempos de Homero que a cidade gozava da fama de rica e, ap\u00f3s a restaura\u00e7\u00e3o levada a cabo por J\u00falio C\u00e9sar, era, de facto, a cidade mais rica da Gr\u00e9cia, um centro cultural e art\u00edstico, ponte comercial ente o oriente e o ocidente. O com\u00e9rcio era a base da economia onde pontificavam os senhores romanos servidos pelos antigos escravos libertos, os comerciantes asi\u00e1ticos e uma numerosa col\u00f3nia judaica. Socialmente, as classes sociais estavam bem definidas e as pessoas reuniam-se em \u00abconfrarias\u00bb ou associa\u00e7\u00f5es conforme a sua posi\u00e7\u00e3o social, mas a riqueza andava pelas m\u00e3os de alguns e os escravos constitu\u00edam um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o.  A cultura aberta e cosmopolita inclu\u00eda templos, cultos, cren\u00e7as e filosofias diversas com professores ambulantes que se pagavam. Al\u00e9m do culto oficial ao Imperador romano e aos deuses locais (templos de Hera, de Hermes, de H\u00e9racles, de Apolo e de Pos\u00eddon (deus do mar em honra de quem se faziam de dois em dois anos os jogos \u00edstmicos), havia o culto de Cibele da Anat\u00f3lia, ritos secretos de mist\u00e9rios orientais e promessas de salva\u00e7\u00e3o. A deusa \u00cdsis, trazida do Egipto com o seu consorte Ser\u00e1pis, ganhara relevo destacado. At\u00e9 a vida sexual tinha ali foros de sacralidade: no monte Acrocorinto, elevado 550 metros acima da plan\u00edcie, erguia-se o templo de Afrodite (equivalente \u00e0 V\u00e9nus romana, deusa do amor), uma fortaleza onde se detinham, segundo Estrab\u00e3o, mil sacerdotisas dedicadas \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o sagrada. Tamb\u00e9m as ruas de Corinto (onde a mulher usufru\u00eda de um estatuto muito diferente de Atenas) andavam enxameadas de mulheres do g\u00e9nero, seleccionadas e bem falantes, que vendiam caros os seus favores. Da\u00ed o ad\u00e1gio espalhado pelos romanos de que \u00abnem a todos \u00e9 dado ir a Corinto\u00bb. A corrup\u00e7\u00e3o era enorme: \u00abcorintizar\u00bb e \u00abrapariga de Corinto\u00bb eram sin\u00f3nimos de vida prom\u00edscua e de prostituta. Voltada para o futuro e cheia de vigor, Corinto era uma cidade livre do peso da tradi\u00e7\u00e3o, terra para novos ricos.  Este ambiente de grupos sociais, de espiritualidades filosofadas e de anarquia sexual, era, por si s\u00f3, suficiente para deixar hesitante qualquer ap\u00f3stolo. Pois \u00e9 a esta multid\u00e3o, heterog\u00e9nea e desorientada, de meretrizes e rufi\u00f5es, que Paulo vai anunciar a pessoa de Cristo morto e ressuscitado! Permaneceu a\u00ed dezoito meses e at\u00e9 foi bem sucedido, pois o cepticismo e a confus\u00e3o abriam os esp\u00edritos \u00abpara mais um culto\u00bb. As dores de cabe\u00e7a vieram depois quando foi necess\u00e1rio organizar a vida pessoal de cada crist\u00e3o e da comunidade. De Corinto escreveu Paulo a carta aos Romanos onde descreve em termos duros a corrup\u00e7\u00e3o dos gregos (Rom 1,16,18-32) e, mais tarde, repreender\u00e1 os cor\u00edntios crist\u00e3os enviando-lhe uma carta de \u00c9feso quando a\u00ed se encontrava (1Cor 5; 6; 10). Paulo n\u00e3o se limitou a despejar sobre os cor\u00edntios maldi\u00e7\u00f5es de Sodoma e Gomorra, mas procurou educar-lhes a sensibilidade e a intelig\u00eancia recorrendo \u00e0 imagem das corridas no est\u00e1dio e, a partir da ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus, proclamou a dignidade do corpo como templo do Esp\u00edrito Santo. Mais tarde faria o mesmo acerca da escravatura ao introduzir na reflex\u00e3o a dignidade da pessoa. Desde essa hora estava ferida de morte toda a estrutura social.  3 \u2013 Os \u00abgrupos rivais\u00bb, as \u00abespiritualidades sentimentais\u00bb e \u00abanarquia sexual\u00bb constitu\u00edam o tecido social de Corinto. As grandes cidades de hoje n\u00e3o andam longe deste cen\u00e1rio, e n\u00e3o \u00e9 novidade para ningu\u00e9m que tudo o que se relaciona com a sexualidade enche hoje p\u00e1ginas de livros e jornais, revistas de fim-de-semana. As imagens e textos na Net parecem as novas ruas de Corinto. A desorienta\u00e7\u00e3o sexual \u00e9 fonte de neg\u00f3cio em noites de sexta e s\u00e1bado e tardes de Domingos, de viagens tur\u00edsticas, de ind\u00fastrias farmacol\u00f3gicas e clubes de \u00abinvestigadores\u00bb, de feiras e festivais er\u00f3ticos, e agora de leis civis. Afinal, nada disso \u00e9 progressista, mas simples repeti\u00e7\u00e3o do passado.  H\u00e1, por\u00e9m, entre o mundo hel\u00e9nico e o nosso uma diferen\u00e7a cultural: a desordem sexual das cidades gregas evangelizadas por Paulo tinha um resto de sacralidade pag\u00e3, ao passo que hoje ela alimenta-se do laicismo triunfante e do pretenso estatuto \u00abcient\u00edfico\u00bb e do \u00abdireito \u00e0 liberdade\u00bb e aos \u00abafectos individuais\u00bb. Reveste at\u00e9 uma conota\u00e7\u00e3o de milit\u00e2ncia pol\u00edtica e ideol\u00f3gica, desviando os cidad\u00e3os de uma reflex\u00e3o serena e objectiva, aliciados pelo car\u00e1cter de \u00abnovidades\u00bb e \u00abliberdades\u00bb. Para todos os pais e educadores, pastores da Igreja e m\u00e9dicos, enfermeiros e assistentes sociais, esta onda constitui um desafio.  Dentro da din\u00e2mica pastoral proposta pelo Ano Paulino, o leitor leia devagar as duas cartas aos Cor\u00edntios que retratam os tr\u00eas males da comunidade: \u00abgrupos rivais dentro da Igreja\u00bb, \u00abtend\u00eancia para espiritualidades sentimentais\u00bb e \u00abanarquias sexuais\u00bb (1\u00aa Carta aos Cor\u00edntios, sobretudo 1, 10-16; 5; 6,12-20). A esses tr\u00eas desvios Paulo respondeu com tr\u00eas propostas para a comunidade crist\u00e3: a Igreja como \u00abcorpo\u00bb variado e unido sem ser uniforme, os \u00abcarismas e minist\u00e9rios\u00bb na Igreja, e o \u00absentido pascal do corpo humano\u00bb no casamento e na vida consagrada.  Fa\u00e7a o paralelo da \u00abpastoral de Corinto\u00bb com o nosso tempo: Que grupos apost\u00f3licos h\u00e1 nas par\u00f3quias e que uni\u00e3o existe entre eles? Que devo\u00e7\u00f5es e obras de espiritualidade? Que movimentos de educa\u00e7\u00e3o da afectividade sexual?  Na base daqueles tr\u00eas desvios dos cor\u00edntios estava o egocentrismo de pessoas e grupos, da afirma\u00e7\u00e3o pessoal. \u00c9 a hora de remover essa mentalidade e de preparar os mais capazes, de cultivar as v\u00e1rias devo\u00e7\u00f5es, e de fazer a educa\u00e7\u00e3o da complementaridade afectiva da pessoa humana no casamento e na fam\u00edlia. Nascer\u00e3o assim as comunidades previstas no Vaticano II, \u00aba Igreja de carismas e minist\u00e9rios\u00bb que sucede \u00e0 Igreja de \u00abmultid\u00f5es caladas e inertes diante do Pastor\u00bb (1Cor 7;12;14). Haver\u00e1 dores de cabe\u00e7a, mas \u00e9 esse o caminho a seguir (2Cor 6,11-18;13).  <i>D. Joaquim Gon\u00e7alves, Bispo de Vila Real   <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ano Paulino \u2013 S. 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