{"id":369385,"date":"2025-04-14T12:44:36","date_gmt":"2025-04-14T11:44:36","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=369385"},"modified":"2025-04-20T15:29:51","modified_gmt":"2025-04-20T14:29:51","slug":"a-tatica-dos-ovos-a-esperanca-como-azimute-da-evangelizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-tatica-dos-ovos-a-esperanca-como-azimute-da-evangelizacao\/","title":{"rendered":"A t\u00e1tica dos ovos &#8211; A esperan\u00e7a como azimute da evangeliza\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em>Pe. Jos\u00e9 Miguel Cardoso, Diocese de Braga<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-369386 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/padre-jose-miguel-cardoso-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/padre-jose-miguel-cardoso-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/padre-jose-miguel-cardoso-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/padre-jose-miguel-cardoso-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/padre-jose-miguel-cardoso-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/padre-jose-miguel-cardoso.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/p>\n<p>1. A medicina diz-nos que para sobreviver bastam quatro coisas: temperatura, \u00e1gua, oxig\u00e9nio e nutri\u00e7\u00e3o. E de todos os alimentos existentes, a maioria dos nutricionistas \u00e9 un\u00e2nime em sustentar que o mais rico \u00e9 o leite materno, seguindo-se\u2026 o ovo (aten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 o \u201covo de chocolate\u201d, \u00e9 mesmo o \u201covo de galinha\u201d ou similares). Contudo, mesmo ocupando o segundo lugar da hierarquia, nem todos os ovos s\u00e3o ben\u00e9ficos, pelo que serve aplicar o \u201cm\u00e9todo cient\u00edfico da falsificabilidade\u201d de Karl Popper ou, na falta deste, o \u201cm\u00e9todo das nossas av\u00f3s\u201d: colocar um ovo num copo de \u00e1gua. Se ele vier \u00e0 tona, \u00e9 porque n\u00e3o \u00e9 bom, logo \u00e9 melhor n\u00e3o o comer. Se ele ficar no fundo, bom apetite!<\/p>\n<p>Mas por que motivo o ovo \u00e9 assim t\u00e3o nutritivo? Porque possui prote\u00ednas de alta qualidade, vitaminas essenciais, minerais relevantes (sel\u00eanio, f\u00f3sforo e ferro), gordura saud\u00e1vel e antioxidantes. Em suma, o ovo \u00e9 portador de uma elevada riqueza imunit\u00e1ria e energ\u00e9tica. Pela mesma raz\u00e3o, comer ovos em excesso faz mal. E para as gera\u00e7\u00f5es mais antigas, certamente que ainda se recordam das famosas \u201cgemadas de ovo\u201d, uma esp\u00e9cie de \u201cRed Bull\u201d ainda antes de existir propriamente o \u201cRed Bull\u201d: uma bebida (batido de ovos) que se tomava de manh\u00e3 cedo nos dias em que os trabalhos agr\u00edcolas eram de grande exig\u00eancia e desgaste f\u00edsicos.<\/p>\n<p>2. Posto isto, ser\u00e1 que o ovo \u00e9 tamb\u00e9m relevante na nossa rela\u00e7\u00e3o com Deus? Embora ele seja um elemento de grande simbolismo cultural patente j\u00e1 nas civiliza\u00e7\u00f5es ancestrais, como descreve o c\u00f3smico \u201cOvo Azul\u201d da artista Milena Mijovi\u0107-Durutovi\u0107, das raras vezes que esta palavra aparece na B\u00edblia, encontramos esta pergunta de Jesus: \u00abQual o pai (\u2026) que, se o filho lhe pedir um ovo, lhe dar\u00e1 um escorpi\u00e3o?\u00bb (Lc 11,11-12). Por meio do ovo, Jesus ensina-nos um dos pilares da pedagogia familiar: o amor extremo de um pai\/m\u00e3e pelo seu filho (Mt 19,18-19; cfr. Ex 20,12). Da mesma forma que \u00e9 assim o agir de Deus: s\u00f3 nos d\u00e1 aquilo que (Ele entende que) \u00e9 o melhor para n\u00f3s.<\/p>\n<p>Ao celebrarmos o \u201cJubileu da Esperan\u00e7a\u201d (2025), o Papa Francisco desafia-nos a redescobrir esta virtude que, infelizmente, ao longo da hist\u00f3ria do cristianismo foi demasiado desvalorizada em detrimento das outras duas virtudes teologais: a f\u00e9 e a caridade (K. Rahner). Diante dos desafios que se colocam ao cristianismo, talvez n\u00e3o seja de todo errado mudar a t\u00e1tica (n\u00e3o a estrat\u00e9gia!): antes de anunciarmos os conte\u00fados da f\u00e9, come\u00e7armos por comunicar as raz\u00f5es da nossa esperan\u00e7a (1Pe 3,15). E por que raz\u00e3o? Se muitos at\u00e9 podem prescindir da f\u00e9, provavelmente poucos s\u00e3o os que prescindem da esperan\u00e7a, como nos explicita uma das tr\u00eas perguntas finais da \u00f3pera <em>Turandot<\/em> (G. Puccini). Indo mais longe, a crise de f\u00e9 adv\u00e9m de uma crise de esperan\u00e7a (J. Moltmann). E o que \u00e9 que um ovo interessa para o discurso sobre a esperan\u00e7a?<\/p>\n<p>3. Das muitas defini\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas e t\u00e9cnicas sobre a esperan\u00e7a, uma bastante peculiar \u00e9-nos dada por Santo Agostinho (354-430): a esperan\u00e7a \u00e9 como um ovo. O ovo embora j\u00e1 seja uma realidade (algo que existe empiricamente), ele n\u00e3o \u00e9 um fim em si mesmo: transporta dentro de si algo mais, que ainda n\u00e3o se v\u00ea, mas que se intui que exista (o pintainho), porque existe o ovo. Portanto, quando vemos um ovo, n\u00e3o vemos apenas o ovo em si, mas algo mais: a esperan\u00e7a que o ovo transporta dentro de si (o pintainho).<\/p>\n<p>Deixando para os mais h\u00e1beis a pergunta de quem nasceu primeiro, se a galinha ou o ovo, esta met\u00e1fora agostiniana elucida-nos sobre a import\u00e2ncia da esperan\u00e7a: a capacidade de ver algo mais na realidade do que aquilo que a realidade nos permite ver \u201c\u00e0 primeira vista\u201d. A esperan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 tanto o ver coisas novas, mas ver as coisas de um modo novo. Porque a nossa vida n\u00e3o se reduz a este mundo, somos \u00abperegrinos da esperan\u00e7a\u00bb (<em>Spes non confundit<\/em>, 1) em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 eternidade.<\/p>\n<p>4. Por esta raz\u00e3o, na rela\u00e7\u00e3o com Deus n\u00e3o nos basta apenas alimentarmo-nos da f\u00e9 e da caridade, precisamos tamb\u00e9m de ovos, ou seja, da esperan\u00e7a (C. P\u00e9guy). Sem esperan\u00e7a, a f\u00e9 corre o risco de se reduzir a uma filosofia transit\u00f3ria e a caridade, a uma mera filantropia. Em rigor, \u00e9 a esperan\u00e7a que distingue um crist\u00e3o de todos os outros (1Ts 4,13).<\/p>\n<p>No entanto, esta esperan\u00e7a crist\u00e3 n\u00e3o significa um quietismo, antes um dinamismo (1Pe 1,3). A sua pr\u00e1xis traduz-se num \u201cato de antecipa\u00e7\u00e3o\u201d, sendo este o cerne que distingue a esperan\u00e7a crist\u00e3 de todos os outros tipos de esperan\u00e7a. Em boa verdade, a esperan\u00e7a crist\u00e3 \u00e9 como o algod\u00e3o: n\u00e3o engana (Rm 5,5). Neste confluir entre a a\u00e7\u00e3o humana (futuro) e a proximidade de Deus (advento), o amanh\u00e3 constr\u00f3i-se entre estes dois atores: o c\u00e1lculo humano e a surpresa divina. Por outras palavras, entre o ovo (que vemos) e o que est\u00e1 dentro do ovo (que ainda n\u00e3o vemos plenamente). Assim sendo, poder\u00e1 Deus \u201cfazer omeletes sem ovos\u201d? Deixamos a pergunta em aberto.<\/p>\n<p>5. Se somos salvos na esperan\u00e7a (Rm 8,24), ent\u00e3o tamb\u00e9m \u00ab\u00e9 pecado n\u00e3o ter esperan\u00e7a\u00bb (E. Hemingway). O ate\u00edsmo n\u00e3o \u00e9 apenas o \u201cn\u00e3o crer\u201d em Deus, mas tamb\u00e9m o \u201cn\u00e3o esperar\u201d n\u2019Ele e com Ele. Que a Semana Santa que se aproxima seja um motivo para repensarmos quais os ovos que devemos priorizar: se os ovos de chocolate, que incutem uma \u201cesperan\u00e7a comercial\u201d, ou os ovos da proposta de Santo Agostinho, que explicitam a diferen\u00e7a da esperan\u00e7a crist\u00e3.<\/p>\n<p>Disso nos evidencia a Cruz do Crucificado na Catedral de Burgos (Espanha): uma Cruz com ovos na parte inferior. Este \u00e9 o centro da nossa esperan\u00e7a: a ressurrei\u00e7\u00e3o (vida nova dentro do ovo) que est\u00e1 impl\u00edcita na Cruz (ovo). Se Cristo n\u00e3o ressuscitou, \u00e9 v\u00e3 a nossa f\u00e9 (1Cor 15,14)&#8230; como \u00e9 v\u00e3 tamb\u00e9m a nossa esperan\u00e7a (1Cor 15,19).<\/p>\n<p>Pe. Jos\u00e9 Miguel Cardoso<br \/>\n<em>Diocese de Braga<\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pe. 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