{"id":368105,"date":"2025-04-06T09:31:05","date_gmt":"2025-04-06T08:31:05","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=368105"},"modified":"2025-04-04T13:20:42","modified_gmt":"2025-04-04T12:20:42","slug":"saude-e-preciso-desospitalizar-a-vivencia-do-final-da-vida-a-vida-ate-o-fim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saude-e-preciso-desospitalizar-a-vivencia-do-final-da-vida-a-vida-ate-o-fim\/","title":{"rendered":"Sa\u00fade: \u00c9 preciso \u00abdesospitalizar a viv\u00eancia do final da vida, a vida at\u00e9 o fim\u00bb"},"content":{"rendered":"<p><em>No Jubileu dos Doentes e do Mundo da Sa\u00fade, \u00e9 convidada da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia, Catarina Pazes, da Associa\u00e7\u00e3o Portuguesa de Cuidados Paliativos<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_313517\" aria-describedby=\"caption-attachment-313517\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Cuidados-Paliativos-Beja-1.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-313517 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Cuidados-Paliativos-Beja-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1282\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Cuidados-Paliativos-Beja-1.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Cuidados-Paliativos-Beja-1-389x260.jpg 389w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Cuidados-Paliativos-Beja-1-1024x684.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Cuidados-Paliativos-Beja-1-768x513.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Cuidados-Paliativos-Beja-1-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Cuidados-Paliativos-Beja-1-1536x1026.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-313517\" class=\"wp-caption-text\">Catarina Pazes<br \/>Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/HM<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>Ainda recentemente teve a oportunidade de voltar a alertar para o facto de mais de 70% dos doentes n\u00e3o ter acesso em tempo \u00fatil a cuidados paliativos; um valor que sobe para os 90% quando estamos a falar de crian\u00e7as. Pergunto-lhe se se sente de alguma forma a pregar no deserto?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o me sinto a pregar no deserto porque n\u00e3o estou sozinha, n\u00e3o tenho essa sensa\u00e7\u00e3o, porque s\u00e3o muitos profissionais que comigo lutam por melhores cuidados paliativos, por melhores condi\u00e7\u00f5es para prestarem bons cuidados de sa\u00fade, a quem tem sofrimento por causa de doen\u00e7as graves ou incur\u00e1veis. O que sentimos e na Associa\u00e7\u00e3o Portuguesa de Cuidados Paliativos sentimos \u00e9 alguma desilus\u00e3o, porque foi em 2012 que surgiu a lei dos cuidados paliativos que garante o acesso a todos os portugueses a cuidados paliativos, independentemente do contexto, da idade, da tipologia de doen\u00e7a, todos os portugueses que tenham uma situa\u00e7\u00e3o de sofrimento grave por causa da sua doen\u00e7a terem acesso a cuidados, e sejam eles a n\u00edvel de internamento, a n\u00edvel da comunidade, durante o percurso de doen\u00e7a em ambulat\u00f3rio, todos esses contextos. E infelizmente a lei surge em 2012 e estamos em 2025 e infelizmente ainda n\u00e3o temos essa garantia para a grande maioria das pessoas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Dos contactos que vai mantendo e do conhecimento que tem, que explica\u00e7\u00f5es \u00e9 que encontra para que n\u00e3o se evolua nesse sentido?<\/em><\/p>\n<p>A explica\u00e7\u00e3o mais simples \u00e9 que verdadeiramente eles n\u00e3o foram priorizados. Esta \u00e1rea de cuidados de sa\u00fade n\u00e3o foi priorizada verdadeiramente. Ela est\u00e1 na lei, existem v\u00e1rios documentos legais que at\u00e9 nos p\u00f5em numa situa\u00e7\u00e3o confort\u00e1vel em termos de pa\u00eds, e em termos de evolu\u00e7\u00e3o dos cuidados paliativos do ponto de vista legal estamos numa situa\u00e7\u00e3o confort\u00e1vel, mas na pr\u00e1tica n\u00e3o foram dadas as condi\u00e7\u00f5es nem foram priorizadas medidas que garantissem a constitui\u00e7\u00e3o das equipas com os profissionais necess\u00e1rios, no n\u00famero necess\u00e1rio, com a forma\u00e7\u00e3o e as compet\u00eancias adequadas para prestarem cuidados de qualidade.<\/p>\n<p>Ainda hoje temos equipas abaixo dos m\u00ednimos para prestarem bons cuidados, e, portanto, estamos a defraudar as pessoas porque v\u00e3o ao hospital e perguntam, \u201cmas aqui existe cuidados paliativos\u201d? Sim, existe uma equipa, mas depois quando v\u00e3o perguntar como funciona percebem que afinal \u00e9 s\u00f3 \u00e0s segundas e \u00e0s quartas ou s\u00f3 de manh\u00e3 ou s\u00f3 tem um m\u00e9dico de vez em quando e isso n\u00e3o \u00e9 dizer que temos uma equipa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Nessa perspetiva seria importante trazer o tema para a pr\u00f3xima campanha eleitoral?<\/em><\/p>\n<p>Sem d\u00favida nenhuma. Muito recentemente fomos ao Parlamento em janeiro, \u00e0 Comiss\u00e3o Parlamentar da Sa\u00fade, precisamente para apelar aos deputados, e chamar a aten\u00e7\u00e3o para um problema que \u00e9 premente para o Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade, \u00e9 absolutamente urgente e precisa de ser entendido por todos, porque \u00e9 transversal, ele n\u00e3o \u00e9 uma bandeira de ningu\u00e9m, ele \u00e9 transversal a todos os partidos. E o apelo que fazemos \u00e9 que seja um assunto transversal e que seja trazido de facto para a campanha com uma discuss\u00e3o s\u00e9ria sobre as medidas urgentes a propor no imediato.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>O facto de termos uma esperan\u00e7a m\u00e9dia de vida cada vez mais longa e uma popula\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m necessariamente cada vez mais envelhecida vai obrigar a procurar solu\u00e7\u00f5es neste campo?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade aponta para uma duplica\u00e7\u00e3o em muito pouco tempo. Em 2060 teremos o dobro das necessidades, claro que s\u00e3o previs\u00f5es, s\u00e3o estimativas, mas deve obrigar a pensar. Isto \u00e9 um tsunami. O n\u00famero de pessoas mais velhas com o aumento do n\u00famero de pessoas com doen\u00e7a grave, com doen\u00e7a cr\u00f3nica traz certamente muita ang\u00fastia e muita necessidade de adequa\u00e7\u00e3o de cuidados ao longo do percurso, com processos de tomada de decis\u00e3o, com a necessidade de apoio para o doente, para a sua fam\u00edlia, para o cuidador. E um apoio e um suporte ao longo do processo de doen\u00e7a. E a\u00ed entram as v\u00e1rias tipologias de cuidados paliativos, como eu estava a dizer no in\u00edcio, far\u00e1 e traz uma diferen\u00e7a enorme no stress associado \u00e0 doen\u00e7a, \u00e0 viv\u00eancia da doen\u00e7a, no stress associado \u00e0 doen\u00e7a para o doente e para a fam\u00edlia, no sofrimento associado. Nas situa\u00e7\u00f5es de fim de vida, o stress associado \u00e0s tomadas de decis\u00f5es nessa altura, nessa fase da vida, e depois tamb\u00e9m os processos de luto, que trazem muito peso n\u00e3o s\u00f3 do ponto de vista da sa\u00fade de quem est\u00e1 a viv\u00ea-lo, mas tamb\u00e9m para aquilo que representa, em termos de limita\u00e7\u00f5es com que a pessoa fica para a sua vida normal. Portanto, trata-se aqui de um investimento que precisa de acontecer a bem do futuro da sa\u00fade em Portugal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Que solu\u00e7\u00f5es preconiza para se poder dar mais qualidade de vida a quem sofre? \u00c9 precisa uma melhor articula\u00e7\u00e3o entre a rede de cuidados continuados e a rede de cuidados paliativos?<\/em><\/p>\n<p>Esse \u00e9 um dos pontos que n\u00f3s apontamos como urgente. De facto, essa articula\u00e7\u00e3o \u00e9 muito importante, necess\u00e1ria, e tem de ser vista como natural. Dentro dos cuidados continuados integrados existem muitas tipologias de resposta, diferentes tipo de unidades, e tamb\u00e9m existem equipas de cuidados continuados integrados na comunidade, que s\u00e3o equipas que se deslocam a casa. E todas estas tipologias, quer de internamento, quer domicili\u00e1rias est\u00e3o a responder a doentes com necessidades paliativas.\u00a0E precisam de ter uma articula\u00e7\u00e3o f\u00e1cil com as equipas especializadas em cuidados paliativos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ainda recentemente, ligando aqui as quest\u00f5es, o Tribunal de Contas falava, no caso dos cuidados continuados, que essa rede estava muito aqu\u00e9m das metas. E n\u00f3s vemos que nos hospitais, se prolongam internamento que se as pessoas tivessem os cuidados necess\u00e1rios, poderiam libertar muitas camas. H\u00e1 at\u00e9 a falta de perce\u00e7\u00e3o do benef\u00edcio que teria para a comunidade em geral, poder desospitalizar os cuidados\u2026<\/em><\/p>\n<p>E essa situa\u00e7\u00e3o, essa perspetiva de desospitalizar os cuidados, desospitalizar a viv\u00eancia do final da vida, a vida at\u00e9 o fim, e dando \u00e0s pessoas o direito de escolher onde estar nessa fase, tem um impacto enorme para a pessoa e para os seus entes queridos, e tem um impacto enorme para o sistema.<\/p>\n<p>Medidas que tragam essa humaniza\u00e7\u00e3o, que tragam a humaniza\u00e7\u00e3o dos cuidados \u00e0s pessoas que est\u00e3o numa situa\u00e7\u00e3o de fim de vida, s\u00e3o medidas que se imp\u00f5em do ponto de vista \u00e9tico, do ponto de vista deontol\u00f3gico, da presta\u00e7\u00e3o de cuidados de sa\u00fade, e que o Estado deve garantir. E do ponto de vista financeiro e de sustentabilidade tamb\u00e9m. Porque as pessoas que est\u00e3o a viver situa\u00e7\u00f5es de doen\u00e7a mais avan\u00e7ada, quando n\u00e3o t\u00eam um percurso suportado, acompanhado, muitas vezes &#8211; e quem nos est\u00e1 a ouvir provavelmente consegue identificar isto &#8211; muitas vezes recorrem a m\u00faltiplos recursos de sa\u00fade, porque est\u00e1 perdido, porque est\u00e1 ansioso, porque est\u00e1 angustiado, n\u00e3o sabe o que \u00e9 que vem a seguir, e n\u00e3o sabe como lidar com o que est\u00e1 a aparecer. E esses m\u00faltiplos recursos t\u00eam repercuss\u00f5es em custos, mas infelizmente n\u00e3o trazem benef\u00edcio para a pessoa. E \u00e9 essa situa\u00e7\u00e3o que est\u00e1 a fazer com que o sistema esteja a ficar mesmo insustent\u00e1vel, porque a procura dos servi\u00e7os de sa\u00fade est\u00e1 a aumentar por parte de pessoas que t\u00eam doen\u00e7as cr\u00f3nicas, que t\u00eam doen\u00e7as avan\u00e7adas, porque s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es de pessoas mais velhas, com v\u00e1rios problemas, com v\u00e1rios problemas de sa\u00fade, que precisam efetivamente de uma assist\u00eancia adequada \u00e0 sua situa\u00e7\u00e3o. Provavelmente uma assist\u00eancia diferente daquela que est\u00e3o a ter, mas n\u00f3s como n\u00e3o nos preparamos para isso e continuamos a n\u00e3o nos preparar para isso, continuamos a dar a resposta que a pessoa n\u00e3o necessita, ou uma resposta diferente daquela que ela necessita, mas que infelizmente se traduz em muitas vezes, agravamento do pr\u00f3prio sofrimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E quando falamos de paliativos, falamos tamb\u00e9m da fam\u00edlia e da forma como se lida com o luto. Qual \u00e9 o papel dos especialistas neste campo?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>O papel dos especialistas \u00e9 um t\u00f3pico muit\u00edssimo importante. As equipas de cuidados paliativos s\u00e3o equipas formadas por v\u00e1rios profissionais, por enfermeiros, m\u00e9dicos, psic\u00f3logos, assistentes sociais, terapeutas, fisioterapeutas, nutricionistas, etc., mas todos n\u00f3s tivemos uma forma\u00e7\u00e3o que nos permite abordar as quest\u00f5es do luto e do suporte no luto, quer ao longo do processo de doen\u00e7a, quer ap\u00f3s o doente falecer. Os psic\u00f3logos que trabalham nestas equipas t\u00eam uma forma\u00e7\u00e3o espec\u00edfica que lhes permite uma aten\u00e7\u00e3o ao doente e fam\u00edlia no sentido do ajustamento \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de doen\u00e7a e no sentido da vida, tamb\u00e9m num percurso de doen\u00e7a, e que lhes permite uma aten\u00e7\u00e3o e uma interven\u00e7\u00e3o muito especializada na \u00e1rea dos cuidados paliativos.<\/p>\n<p>Aquilo que defendemos \u00e9 que de facto sejam dadas as condi\u00e7\u00f5es \u00e0s equipas, precisamente para que as equipas que existem possam garantir aquilo que n\u00f3s estamos aqui a apregoar. Porque quem nos ouve l\u00e1 em casa, ou no carro, ou em qualquer local, provavelmente j\u00e1 teve alguma experi\u00eancia com cuidados paliativos e diz assim: \u201cmas eu n\u00e3o tive isto, eu n\u00e3o tive um psic\u00f3logo, eu n\u00e3o tive acesso a este apoio que esta pessoa est\u00e1 a referir-se\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O pa\u00eds prepara-se para ver uma lei de eutan\u00e1sia aprovada. O facto de tantas pessoas morrerem mal, em sofrimento, sem estes cuidados, sem esta equipa de apoio, pode ter ajudado a uma perce\u00e7\u00e3o mais favor\u00e1vel na opini\u00e3o p\u00fablica relativamente \u00e0 legaliza\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia?<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s tivemos a oportunidade de expressar a opini\u00e3o enquanto associa\u00e7\u00e3o, parece-nos uma legisla\u00e7\u00e3o absolutamente extempor\u00e2nea e continua a s\u00ea-lo precisamente pela nossa incapacidade de discutir o fim da vida e como se vive at\u00e9 ao fim. Para v\u00f3s tamb\u00e9m deve ser f\u00e1cil de entender que debates sobre a forma como se vive at\u00e9 ao fim n\u00e3o existem.<\/p>\n<p>S\u00f3 existem debates sobre como se morre, como \u00e9 que eu quero morrer. Morrer \u00e9 o momento. Agora, se a perce\u00e7\u00e3o que eu tenho do fim da vida e dos \u00faltimos tempos da vida \u00e9 uma perce\u00e7\u00e3o de grande sofrimento, associada a tantas interven\u00e7\u00f5es que trazem sofrimento e ang\u00fastia, a tantos internamentos hospitalares, a tubos, medidas desproporcionadas, agress\u00e3o, ent\u00e3o eu, enquanto pessoa que pensa nestas coisas, penso assim, eu n\u00e3o quero viver isso, eu n\u00e3o quero sofrer no final da minha vida. Porque s\u00f3 quem est\u00e1 l\u00e1 \u00e9 que sabe o que \u00e9, mas n\u00f3s imaginamos que \u00e9 algo muito mau e ent\u00e3o pensamos: Se n\u00e3o h\u00e1 apoio, n\u00e3o h\u00e1 suporte, n\u00e3o h\u00e1 ajuda; viver essa fase da vida deve ser mesmo horr\u00edvel.\u00a0Ent\u00e3o eu prefiro antecipar o fim. Sim, a perce\u00e7\u00e3o que existe \u00e9 negativa, mas tamb\u00e9m n\u00e3o t\u00eam sido vi\u00e1veis discuss\u00f5es, conversas sobre este assunto de forma aberta. A conversa sobre o fim da vida e sobre como se vive at\u00e9 ao fim, de facto, \u00e9 muito travada nos locais de debate.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Precisamente, a ideia de recorrer aos paliativos ainda choca, de facto, muita gente. Isso mostra o preconceito que existe ligando os paliativos a uma morte iminente?<\/em><\/p>\n<p>Mostra um desconhecimento. Eu trabalho numa equipa de cuidados paliativos, estamos a acompanhar doentes que est\u00e3o em fases muito precoces da sua doen\u00e7a, a fazer tratamento dirigido, doentes que est\u00e3o a trabalhar e que t\u00eam necessidade paliativas diferentes, porque t\u00eam sofrimento, ang\u00fastias e incertezas, e dificuldade em falar com os seus filhos sobre a situa\u00e7\u00e3o que precisa do apoio e do suporte de uma equipa de cuidados paliativos numa fase diferente daquela que \u00e9 uma fase da doen\u00e7a avan\u00e7ada, em que a morte \u00e9 inevit\u00e1vel, o fim da vida \u00e9 inevit\u00e1vel, o agravamento da doen\u00e7a est\u00e1 a aproximar-se.<\/p>\n<p>E \u00e9 preciso planear toda essa fase de uma forma humanizada, ajustada \u00e0quilo que s\u00e3o as vontades do doente, ajustada \u00e0quilo que s\u00e3o as capacidades daquele familiar para prestar apoio, etc. Portanto, uma equipa de cuidados paliativos ajuda as pessoas a viver bem, independentemente da sua doen\u00e7a de base e da fase em que a doen\u00e7a esteja. Associar os cuidados paliativos \u00fanica e exclusivamente a uma fase mais avan\u00e7ada \u00e9 redutor, \u00e9 perigoso e \u00e9 desinforma\u00e7\u00e3o para as pessoas. E infelizmente ainda continua a ser essa a no\u00e7\u00e3o em muitos contextos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>No momento em que falamos, celebra-se no Vaticano o Jubileu dos Doentes e do Mundo da Sa\u00fade, que tamb\u00e9m recorda os profissionais deste setor &#8211; ali\u00e1s bastante recordados na altura da pandemia, mas n\u00e3o sei se depois dos cinco anos foram devidamente reconhecidos por esse trabalho. Pergunto-lhe se o estado de sa\u00fade do Papa, a sua forma de estar, que chama a aten\u00e7\u00e3o para a fragilidade, \u00e9 um testemunho necess\u00e1rio nos tempos que vivemos?<\/em><\/p>\n<p>Sem d\u00favida que, em muitos momentos, o Papa Francisco nos alertou para reflex\u00f5es essenciais, que t\u00eam a ver com este percurso na fragilidade, percurso da vida em contexto de fragilidade, de vulnerabilidade. Que \u00e9 humana, que faz parte de todos n\u00f3s e que tantas vezes esquecemos e faz-se de conta que isso n\u00e3o existe. E quando passamos pelo problema, como o Santo Padre est\u00e1 a passar, ou quando alguma pessoa muito pr\u00f3xima de n\u00f3s passa, e na verdade muitos de n\u00f3s viveram toda a situa\u00e7\u00e3o do Papa tamb\u00e9m muito atentos, porque \u00e9 algu\u00e9m que diz muito a muitos de n\u00f3s; todas essas mensagens foram muito essenciais.<\/p>\n<p>A viv\u00eancia de toda a situa\u00e7\u00e3o do Santo Padre, para quem \u00e9 paliativista, naturalmente que nos trouxe algumas reflex\u00f5es. E aquilo que eu pensei em muitos momentos, e at\u00e9 tive a oportunidade de publicar numa p\u00e1gina de uma rede social, foi: que n\u00e3o faltem ao Papa cuidados paliativos, independentemente do percurso que ele tenha e da possibilidade de reverter a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Independentemente do tempo de vida que lhe resta, n\u00e3o \u00e9?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Exatamente. Independentemente do tempo e independentemente da possibilidade de reverter a situa\u00e7\u00e3o, porque est\u00e1vamos perante um alto n\u00edvel de incerteza. O progn\u00f3stico reservado que todos os dias ouv\u00edamos nas not\u00edcias tinha que ver com a incerteza, com a possibilidade de as coisas correrem mal, com a possibilidade das coisas evolu\u00edrem para o fim da vida. E nessa perspetiva da incerteza \u00e9 importante, por um lado, percebermos o que \u00e9 poss\u00edvel fazer para evitar a morte e promover tudo aquilo que \u00e9 poss\u00edvel para manter a vida &#8211; e foi isso que aconteceu &#8211; mas ao mesmo tempo sem esquecer aquilo que s\u00e3o as preocupa\u00e7\u00f5es com a dignidade, o conforto, o humanismo, o ser ele sempre.<\/p>\n<p>E essas duas dimens\u00f5es entrosadas nos cuidados s\u00e3o essenciais e o que n\u00f3s desejamos \u00e9 que toda esta situa\u00e7\u00e3o sirva tamb\u00e9m para refletirmos sobre isso e que percebamos que ela n\u00e3o est\u00e1 nas nossas m\u00e3os. Quando a morte \u00e9 inevit\u00e1vel, n\u00e3o est\u00e1 na m\u00e3o do m\u00e9dico decidir se deixa morrer ou n\u00e3o. Quando \u00e9 inevit\u00e1vel, \u00e9 inevit\u00e1vel e o que est\u00e1 na m\u00e3o do m\u00e9dico \u00e9 decidir se o doente tem ou n\u00e3o acesso a al\u00edvio do sofrimento e se vive aquele tempo com o m\u00ednimo sofrimento poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Aquilo que aconteceu com o Papa foi outra coisa. Havia potencial de ser evit\u00e1vel, havia potencial de se ver a situa\u00e7\u00e3o revertida e o que aconteceu foi isso. Foram institu\u00eddas todas as medidas que podiam reverter a situa\u00e7\u00e3o, porque era potencialmente poss\u00edvel. Agora, a gest\u00e3o da incerteza \u00e9 algo que nos deve preocupar e nos deve ocupar enquanto profissionais de sa\u00fade, porque \u00e9 um momento de grande, grande fragilidade, de vulnerabilidade, de sofrimento para o doente e para quem o ama, para quem lhe \u00e9 pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>E a aten\u00e7\u00e3o a todos os pormenores nessa fase faz toda a diferen\u00e7a. Quer as coisas corram pelo melhor, porque em algum momento v\u00e3o correr de outra maneira, porque \u00e9 assim, porque ser-se humano, implica isso; quer as coisas evoluam para a morte. E que seja sempre percecionado que fizemos tudo o que era adequado, que fizemos tudo o que era correto e que a pessoa teve uma vida digna at\u00e9 ao fim.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Jubileu dos Doentes e do Mundo da Sa\u00fade, \u00e9 convidada da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia, Catarina Pazes, da Associa\u00e7\u00e3o Portuguesa de Cuidados Paliativos<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":313517,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[204],"class_list":["post-368105","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-eutanasia-bioetica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/368105","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=368105"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/368105\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/313517"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=368105"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=368105"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=368105"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}