{"id":366830,"date":"2025-03-25T11:56:00","date_gmt":"2025-03-25T11:56:00","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=366830"},"modified":"2025-08-28T17:01:02","modified_gmt":"2025-08-28T16:01:02","slug":"do-passado-um-presente-sao-vicente-de-paulo-e-a-urgencia-da-formacao-permanente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/do-passado-um-presente-sao-vicente-de-paulo-e-a-urgencia-da-formacao-permanente\/","title":{"rendered":"DO PASSADO, UM PRESENTE \u2013 S\u00e3o Vicente de Paulo e a urg\u00eancia da forma\u00e7\u00e3o permanente"},"content":{"rendered":"<p><em>Padre Jos\u00e9 Alves, Congrega\u00e7\u00e3o da Miss\u00e3o<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/06-Jubileu-CM-Marco-2025.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-366831 \" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/06-Jubileu-CM-Marco-2025-720x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"465\" height=\"661\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/06-Jubileu-CM-Marco-2025-720x1024.jpg 720w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/06-Jubileu-CM-Marco-2025-183x260.jpg 183w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/06-Jubileu-CM-Marco-2025.jpg 759w\" sizes=\"(max-width: 465px) 100vw, 465px\" \/><\/a>Este assunto anda na boca de muita gente e \u00e9 foco de aten\u00e7\u00e3o dos respons\u00e1veis de institui\u00e7\u00f5es e de empresas sob pena de ficarem ou fora do seu tempo, ou de n\u00e3o responderem aos objetivos propostos. Encontraremos esta mesma preocupa\u00e7\u00e3o em S\u00e3o Vicente de Paulo, no s\u00e9culo XVII?<\/p>\n<p>O Padre Vicente nasceu, cresceu e exerceu o seu minist\u00e9rio numa \u00e9poca de grandes mudan\u00e7as: feridas de guerras religiosas dividiam a Fran\u00e7a; luta em busca de um poder cada vez mais centralizado a caminho do poder absoluto; escandalosa injusti\u00e7a na distribui\u00e7\u00e3o das riquezas; chocante ignor\u00e2ncia do povo resvalando facilmente para a magia e a supersti\u00e7\u00e3o, \u00e0 procura de resposta para os seus problemas e afli\u00e7\u00f5es; um clero divido em alto clero, possuidor de rendas e prebendas, geradoras de grande riquezas, e o baixo clero, sem forma\u00e7\u00e3o adequada para o exerc\u00edcio do minist\u00e9rio, visto como carreira e ascensor social; total controlo da Igreja pelo Estado a caminho do prepotente galicanismo. Por outro lado, o fervilhar de novas ideias e descobertas cient\u00edficas deram in\u00edcio \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica abrindo caminho para o que ficou na hist\u00f3ria, mais tarde, com o nome de \u2018Iluminismo\u2019: nova linguagem, nova atitude, nova a\u00e7\u00e3o pastoral.<\/p>\n<p>\u00c0 tentativa de algumas reformas isoladas na vida da Igreja, respondia a lentid\u00e3o na aplica\u00e7\u00e3o dos decretos reformistas do Conc\u00edlio de Trento que s\u00f3 tiveram luz verde, em Fran\u00e7a, em 1617. O Padre Vicente via-se, assim, entre um passado de que era fruto, um presente inst\u00e1vel \u00e0 procura de rumo e de consolida\u00e7\u00e3o e um futuro que ele desejava, vislumbrava e em cuja constru\u00e7\u00e3o queria participar. Dele, sabemos que se formou na Universidade de Toulouse, frequentou Sarago\u00e7a, licenciou-se em Direito em Paris e, numa carta ao senhor Comet, diz continuar os seus estudos em Roma. Por sua forma\u00e7\u00e3o e pela leitura que fazia da realidade social e eclesial, sentia necessidade de uma profunda reforma, que s\u00f3 poderia ter \u00eaxito atrav\u00e9s de uma adequada forma\u00e7\u00e3o inicial e permanente.<\/p>\n<p>A primeira a\u00e7\u00e3o, neste sentido, s\u00e3o os \u2018Exerc\u00edcios Espirituais ao Clero\u2019. Nasce esta obra daquilo que, hoje, chamar\u00edamos uma \u2018boleia\u2019 do bispo de Beauvais. Com efeito, numa viagem que era longa, conversavam sobre os problemas da Igreja. E um dos principais era o clero; n\u00e3o pela escassez, mas pela incompet\u00eancia, fruto da falta de prepara\u00e7\u00e3o. \u201c<em>Monsenhor <\/em>\u2013 recomenda o Padre Vicente \u2013<em> nunca ordene ningu\u00e9m sem que antes fa\u00e7a um retiro de 15 dias\u201d.<\/em> E ele mesmo se ofereceu para o fazer. Numa carta escrita ao Padre Du Coudray, em 15 de setembro, d\u00e1 conta de como est\u00e1 a decorrer esta atividade: a) exame aos candidatos; b) constitui\u00e7\u00e3o da equipa: Padres Messier, Duchesne, Vicente de Paulo, um p\u00e1roco local e o pr\u00f3prio bispo, chamado a tomar conta de algumas mat\u00e9rias (1). O resultado foi t\u00e3o bom que a experi\u00eancia se institucionalizou em S\u00e3o L\u00e1zaro e em muitas dioceses. Dela nasceram os Semin\u00e1rios Maiores atrav\u00e9s do alargamento do tempo de forma\u00e7\u00e3o: de quinze dias para dois meses, para seis meses, para um ano, para dois anos, \u2026<\/p>\n<p>Mas era necess\u00e1rio cuidar dos sacerdotes j\u00e1 ordenados e prepar\u00e1-los para o exerc\u00edcio do minist\u00e9rio. O Padre Vicente tem a ideia de juntar, em S\u00e3o L\u00e1zaro, um grupo de amigos para estudo e ora\u00e7\u00e3o: nascem as c\u00e9lebres \u2018Confer\u00eancias das Ter\u00e7as-feiras\u2019. Por ali passaram algumas das figuras mais ilustres da Igreja francesa, <em>v.g.,<\/em> Bossuet, Olier, Duval, \u2026<\/p>\n<p>Nessa mesma carta, escrita, de Beauvais, n\u00e3o esquece o pequeno grupo de S\u00e3o L\u00e1zaro, in\u00edcio da Congrega\u00e7\u00e3o da Miss\u00e3o, onde parece ter-se criado o h\u00e1bito da forma\u00e7\u00e3o permanente: \u201c<em>Est\u00e3o todos bem? Andam alegres. Continuam estudando e exercitando-se na controv\u00e9rsia. Pe\u00e7o-lhe padre que todos aprendam bem o pequeno B\u00e9can <\/em>(2)<em>. Nunca \u00e9 demais dizer quanto este livrinho \u00e9 \u00fatil. Quanto aos mais jovens, talvez seja bom lerem o \u2018Mestre das Senten\u00e7as\u2019 <\/em>(3).<\/p>\n<p>Na confer\u00eancia de 5 de agosto de 1659, toda ela dedicada ao saber que era necess\u00e1rio adquirir, rever e atualizar para o bom desempenho dos v\u00e1rios minist\u00e9rios face \u00e0s novas ideias e aos novos tempos, Vicente lamenta que alguns tenham esquecido a administra\u00e7\u00e3o dos sacramentos ou n\u00e3o saibam responder a algumas quest\u00f5es sobre a Eucaristia: <em>\u201cProcuraremos tornar-nos capazes de ensinar essas coisas \u00e0queles que nos foram confiados pelos senhores Bispos<\/em>\u201d. Depois, passa a um aspeto pr\u00e1tico: \u201c<em>Amanh\u00e3, pedirei ao Padre Almer\u00e1s que distribua exemplares dos \u201cCol\u00f3quios\u201d <\/em>(4)<em> aos estudantes e aos padres do Semin\u00e1rio: faremos tudo na sala de S\u00e3o L\u00e1zaro. \u00c0 tarde, depois das v\u00e9speras, come\u00e7aremos o exerc\u00edcio da administra\u00e7\u00e3o dos Sacramentos, etc. Quanto \u00e0s prega\u00e7\u00f5es, far-se-\u00e3o no tempo do almo\u00e7o e do jantar\u201d. <\/em>Toda a confer\u00eancia tem como objetivo convencer o seu audit\u00f3rio a dispor-se a uma forma\u00e7\u00e3o cont\u00ednua. Passa diante dos seus ouvintes todas as \u00e1reas do minist\u00e9rio sacerdotal: prega\u00e7\u00e3o, catecismo, teologia moral, liturgia, \u2026 E diz-lhes que n\u00e3o \u00e9 vergonha nenhuma rever mat\u00e9ria esquecida e aprender coisas novas. Aos mais renitentes ele mesmo diz que sente muitas vezes necessidade de o fazer e diz estar no grupo porque precisa de recordar muitas coisas e aprender outras novas.<\/p>\n<p>As preocupa\u00e7\u00f5es do Padre Vicente de Paulo s\u00e3o de uma atualidade extraordin\u00e1ria quanto \u00e0 necessidade de forma\u00e7\u00e3o e de forma\u00e7\u00e3o cont\u00ednua para um bom exerc\u00edcio do minist\u00e9rio. Hoje tamb\u00e9m h\u00e1 os que j\u00e1 sabem tudo, t\u00eam respostas para tudo e nada precisam de aprender; h\u00e1 os que, n\u00e3o sabendo, tamb\u00e9m n\u00e3o se preocupam por saber, porque sempre assim fizeram, e assim \u00e9 que est\u00e1 certo. Outros h\u00e1 que, fechados no seu mundo, n\u00e3o se d\u00e3o conta das mudan\u00e7as e v\u00e3o repetindo a \u2018sua a\u00e7\u00e3o pastoral\u2019 como quem repete uma cassete, aos solu\u00e7os, com cont\u00ednuas interrup\u00e7\u00f5es, completamente desligada dos destinat\u00e1rios, sem que passe a mensagem de que foram constitu\u00eddos mensageiros. Ler esta confer\u00eancia de um sacerdote de 78 anos ajuda-nos a sair de alguma letargia e acordar para uma renova\u00e7\u00e3o de linguagem, de m\u00e9todos e de conte\u00fados e, sobretudo, de compromisso.<\/p>\n<p><strong><em>Pe. Jos\u00e9 Alves, CM<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8212;&#8211;<\/p>\n<p>(1) Bernardo Duchesne e Lu\u00eds Messier, ambos formados na Universidade da Sorbonne e membros da Comunidade de S\u00e3o Nicolau de Chardonnet. Vicente de Paulo tinha a capacidade de agregar pessoas de outros grupos para uma obra comum.<\/p>\n<p>(2) Martin B\u00e9can, jesu\u00edta belga. Comp\u00f4s uma Suma Teol\u00f3gica e um manual de Controv\u00e9rsias. Era muito apreciado, sobretudo pela clareza e pelo m\u00e9todo.<\/p>\n<p>(3) Al\u00e9m de Pedro Lombardo, autor das \u201cSenten\u00e7as\u201d, aparecem autores citados ou recomendados pelo Padre Vicente: Frei Lu\u00eds de Granada, dominicano, autor muito apreciado pelas suas obras de teologia e de espiritualidade; e S\u00e3o Francisco de Sales, com a sua obra famosa \u201cTratado do Amor de Deus\u201d.<\/p>\n<p>(4) \u201cCol\u00f3quios dos Ordinandos\u201d era uma esp\u00e9cie de sebenta, redigida, a pedido do Padre Vicente, pelos Bispos de Bolonha (Francisco Perrochel), de Alet (Nicolau Pavillon) e pelo Padre Olier, cujo conte\u00fado se referia sobretudo \u00e0 teologia moral.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Jos\u00e9 Alves, Congrega\u00e7\u00e3o da 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