{"id":36663,"date":"2009-02-03T10:16:36","date_gmt":"2009-02-03T10:16:36","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/02\/03\/a-imagem-de-deus-criador\/"},"modified":"2009-02-03T10:16:36","modified_gmt":"2009-02-03T10:16:36","slug":"a-imagem-de-deus-criador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-imagem-de-deus-criador\/","title":{"rendered":"A imagem de Deus criador"},"content":{"rendered":"<p>No p\u00f3rtico de entrada para o monumento liter\u00e1rio e religioso que \u00e9 a B\u00edblia deparamos com uma imagem majestosa: a de Deus criador, imponente, soberano, princ\u00edpio de todas as coisas e pessoas. S\u00f3 podemos compreend\u00ea-la atendendo \u00e0 linguagem que a pinta nas narrativas da cria\u00e7\u00e3o em Gn 1-11. Lendo-as no contexto cultural, liter\u00e1rio e religioso do antigo Pr\u00f3ximo Oriente em que foram escritas, aparecem como mitos de cria\u00e7\u00e3o. Esta conclus\u00e3o, que emerge da exegese dos textos, \u00e9 positiva e fecunda para a compreens\u00e3o deles. Bastar\u00e1 para isso ter em mente a sua significa\u00e7\u00e3o, hoje consen-sual entre os especialistas. Eles s\u00e3o uma forma de comunica\u00e7\u00e3o, aproveitada para a revela\u00e7\u00e3o desse tra\u00e7o da imagem de Deus cristalizar por escrito. De facto, \u201cna Sagrada Escritura Deus falou por meio de homens e \u00e0 maneira humana\u201d (Dei Verbum 12) e \u201cnenhum dos modos de falar, de que entre\u2026 os orientais se servia a linguagem para exprimir o pensamento, se pode dizer incompat\u00edvel com os livros santos\u201d (Pio XII, Divino afflante 20). No mundo da B\u00edblia, os mitos de cria\u00e7\u00e3o, entendidos como narrativa que incorpora s\u00edmbolos primitivos fundamentais e arqu\u00e9tipos de exist\u00eancia humana, visam compreender a complexidade das realidades do mundo, compreens\u00e3o que transcende a experi\u00eancia sens\u00edvel e o discurso abstracto. Como forma de dar-lhes a maior dignidade poss\u00edvel e o mais elevado sentido humano e religioso, contam as suas origens e atribuem-nas \u00e0 ac\u00e7\u00e3o criadora do Deus \u00fanico \u201cno princ\u00edpio\u201d absoluto de tudo. S\u00e3o aut\u00eanticos actos de f\u00e9: resultantes de uma atitude contemplativa dos seus autores, v\u00eaem Deus em todas as coisas e apreendem todas as coisas \u00e0 luz de Deus. Pela f\u00e9, interpretam e sublimam a exist\u00eancia. Como o \u00edcone, proporcionam um encontro de comunh\u00e3o espiritual e de reconhecimento de uma Presen\u00e7a transcendente. Com imagens, exprimem simbolicamente uma experi\u00eancia de relacionamento activo do Deus invis\u00edvel com o mundo vis\u00edvel, convidando os humanos a senti-lo na sua vida e a ench\u00ea-la de significado. Abrindo-nos ao Mist\u00e9rio, do qual s\u00e3o Imagem e representa\u00e7\u00e3o, abrem-nos a Deus como Inef\u00e1vel Criador e transformam-nos. Portanto, os mitos de cria\u00e7\u00e3o s\u00e3o narrativas reveladoras de sentido e reposit\u00f3rio de sentido. N\u00e3o relatam acontecimentos localiz\u00e1veis no tempo e no espa\u00e7o. Nem se entendem \u00e0 letra, sob pena de obscurecer a transcend\u00eancia de Deus e p\u00f4r a nu contradi\u00e7\u00f5es entre a primeira e a segunda narrativa da cria\u00e7\u00e3o! Assim retiram toda a consist\u00eancia ao criacionismo. N\u00e3o respondem a perguntas cient\u00edficas sobre as origens f\u00edsicas do mundo e da vida. N\u00e3o s\u00e3o hist\u00f3ricos sen\u00e3o na medida em que implicam e explicam a hist\u00f3ria humana. S\u00f3 remontam ao original para explicar o actual. N\u00e3o s\u00e3o fotografia do que aconteceu fisicamente \u201cno princ\u00edpio\u201d, mas radiografia do mundo conhecido, por eles projectada em negativo nas origens; s\u00e3o uma imagem do mundo, visto \u00e0 luz de Deus. Dizer \u201cDeus criou o mundo\u201d n\u00e3o \u00e9 pensar que o arrancou do nada ou de mat\u00e9ria pr\u00e9-existente, por evolu\u00e7\u00e3o ou duma assentada; nem \u00e9 pensar no momento ou no acto da sua feitura. \u00c9 um convite a contemplar nele uma abertura ao transcendente, pondo ao vivo o mist\u00e9rio da sua rela\u00e7\u00e3o com Deus e vendo-o como feito por Ele. A dos mitos b\u00edblicos de cria\u00e7\u00e3o \u00e9, pois, uma teologia de rela\u00e7\u00e3o, um discurso que diz verdade sobre Deus e diz a verdade suprema do homem e da mulher, ao afirmar na f\u00e9 que prov\u00eam de Deus. Desde as primeiras p\u00e1ginas da B\u00edblia, a imagem de Deus n\u00e3o \u00e9 a do Ser em si, como se pud\u00e9ssemos falar d\u2019Ele com objectividade neutral. \u00c9 a de um Deus para: o Deus da pessoa e para a pessoa. O Deus criador \u00e9 Algu\u00e9m que age, fala e se revela em rela\u00e7\u00e3o com o destino humano. Ao fim de contas, por\u00e9m, Deus tem de ser o Deus do universo. Nem seria Deus se n\u00e3o fosse Deus de tudo o que existe. A concep\u00e7\u00e3o b\u00edblica de cria\u00e7\u00e3o sublinha, ent\u00e3o, a transcend\u00eancia de Deus. O \u00fanico tra\u00e7o de uni\u00e3o com a pr\u00f3pria obra \u00e9 a sua Palavra. Dizer que Deus criou pela Palavra (\u201cDeus disse\u201d e as coisas foram existindo) significa que ele n\u00e3o est\u00e1 no mundo sen\u00e3o para al\u00e9m dele: a criatura \u00e9 totalmente outra em rela\u00e7\u00e3o ao Criador. N\u00e3o se pode dizer que a sua Palavra seja causa produtora de efeitos; nem que o seu criar seja um efectuar. Precisamente porque as coisas s\u00e3o vistas como criadas pela palavra de Deus, podemos dizer que elas falam d\u2019Ele. Para a f\u00e9, o universo projecta para o exterior o ser de Deus (Sl 19,2-7), tornando-o objecto de contempla\u00e7\u00e3o. Assim os relatos de cria\u00e7\u00e3o fazem acontecer revela\u00e7\u00e3o. E esperam que o leitor actue \u00e0 altura da sua dignidade de imagem de Deus. Entendendo as narrativas da cria\u00e7\u00e3o como mitos, o Deus que nelas se projecta deixa de aparecer como deus menor, mesquinho ou irritado, que castiga com justi\u00e7a os desobedientes. A desobedi\u00eancia, cometida antes de os humanos terem adquirido o conhecimento e de estarem criados, tem a fun\u00e7\u00e3o de dar sentido aos aspectos penosos da vida, descrevendo-os como criados por Deus em forma de san\u00e7\u00e3o dos humanos que estavam a ser criados, por terem transgredido a proibi\u00e7\u00e3o divina, miticamente arranjada. Contando que as coisas foram criadas por Deus, os mitos de origem sugeriam que o sentido das coisas \u00e9 Deus e que a perda de Deus do horizonte da vida seria a perda do sentido! Ficaria s\u00f3 uma vida sem alma, uma vida desalmada, um deserto insuport\u00e1vel. Para a\u00ed aponta a mensagem das narrativas da cria\u00e7\u00e3o: Deus \u00e9 o tudo de cada coisa e do ser humano.\t\t\t\t\t  <i>P. Armindo Vaz, professor de B\u00edblia na UCP <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No p\u00f3rtico de entrada para o monumento liter\u00e1rio e religioso que \u00e9 a B\u00edblia deparamos com uma imagem majestosa: a de Deus criador, imponente, soberano, princ\u00edpio de todas as coisas e pessoas. S\u00f3 podemos compreend\u00ea-la atendendo \u00e0 linguagem que a pinta nas narrativas da cria\u00e7\u00e3o em Gn 1-11. 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