{"id":36628,"date":"2009-02-02T10:14:55","date_gmt":"2009-02-02T10:14:55","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/02\/02\/1810-1910-2010\/"},"modified":"2009-02-02T10:14:55","modified_gmt":"2009-02-02T10:14:55","slug":"1810-1910-2010","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/1810-1910-2010\/","title":{"rendered":"\u00ab1810 \u2013 1910 \u2013 2010\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>Interven\u00e7\u00e3o de D. Manuel Clemente no 5\u00ba Encontro Nacional de Referentes da Pastoral da Cultura <!--more--> As duas primeiras datas referidas sinalizam grandes desafios, feitos ao catolicismo portugu\u00eas no passado. A \u00faltima aparece como desafio actual, igualmente grande e inilud\u00edvel.  Em 1810 foi a 3\u00aa \u201cInvas\u00e3o Francesa\u201d, derradeiro epis\u00f3dio duma guerra que p\u00f4s fim a muito do que Portugal fora at\u00e9 a\u00ed, na pol\u00edtica, na economia, na sociedade, na cultura e at\u00e9 religiosamente. Ficou o pa\u00eds devastado, com a corte ausente e a organiza\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica abalada. Se quisermos, foi a chegada da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa a Portugal, no modo menos pac\u00edfico dela. Mas vieram tamb\u00e9m os \u201cprinc\u00edpios de 1789\u201d, que, pouco a pouco, expandiram o ide\u00e1rio e o sentimento liberal, como vieram a ser formulados: \u201cLiberdade, Igualdade, Fraternidade\u201d. A implanta\u00e7\u00e3o do nosso liberalismo, a partir de 1820, tamb\u00e9m n\u00e3o foi linear, significando, por exemplo, a extin\u00e7\u00e3o das congrega\u00e7\u00f5es religiosas e a reconstitui\u00e7\u00e3o da Igreja no quadro do constitucionalismo. Sabendo n\u00f3s como mosteiros e conventos tinham sido importantes centros de produ\u00e7\u00e3o cultural, podemos calcular a consequ\u00eancia negativa da sua extin\u00e7\u00e3o, debilitando a \u201cresposta\u201d cat\u00f3lica \u00e0 sociedade nova. Os pr\u00f3prios semin\u00e1rios diocesanos estiveram geralmente encerrados at\u00e9 meados do s\u00e9culo XIX e nunca foram muito longe nesse aspecto cultural, at\u00e9 ao fim da Monarquia. Saliente-se, por\u00e9m, que o \u201cmovimento cat\u00f3lico\u201d, entre 1840 e 1910, contou em Portugal com algumas personalidades, laicais ou eclesi\u00e1sticas, que conseguiram dialogar com a sociedade liberal em cujo esp\u00edrito em parte participavam (aceita\u00e7\u00e3o do regime constitucional, aprecia\u00e7\u00e3o positiva das liberdades modernas, desenvolvimento do associativismo religioso e social, cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e art\u00edstica, acompanhamento dos progressos cient\u00edficos, etc).  Marechal Duque de Saldanha, Necessidade de Associa\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica, 1871, p. 8: \u201cDuas express\u00f5es ou m\u00e1ximas levaram a revolu\u00e7\u00e3o francesa em volta do mundo: \u2018os direitos do homem\u2019, e as palavras \u2018liberdade, igualdade e fraternidade\u2019. Delas sa\u00edram bens e males, progressos e ru\u00ednas dos nossos tempos e de um futuro desconhecido. Tudo quanto h\u00e1 de bom e verdadeiro nestas m\u00e1ximas \u00e9 crist\u00e3o e foi proclamado pelo cristianismo. Ele repele e condena tudo quanto nelas h\u00e1 de funesto e falso\u201d.   Em 1910, a Rep\u00fablica, enquanto mudan\u00e7a de regime, n\u00e3o trazia grande problema ao catolicismo portugu\u00eas, que soubera encontrar algum \u201cespa\u00e7o\u201d pr\u00f3prio, fora das conota\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Ali\u00e1s, a depend\u00eancia da vida eclesi\u00e1stica em rela\u00e7\u00e3o ao governo mon\u00e1rquico constitucional j\u00e1 fora sentida como excessiva por muitos cat\u00f3licos. No entanto, para grande n\u00famero de republicanos, o novo regime tamb\u00e9m deveria trazer ao pa\u00eds a laiciza\u00e7\u00e3o geral da vida p\u00fablica e a restri\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a institucional e cultural da Igreja Cat\u00f3lica, negativamente apreciada esta, face \u00e0 sua influ\u00eancia passada e face \u00e0 considera\u00e7\u00e3o \u201cpositivista\u201d das coisas, agora propugnada. Muitos cat\u00f3licos apreciariam a Rep\u00fablica como regime e at\u00e9 como ultrapassagem da incapacidade pol\u00edtica e administrativa do constitucionalismo mon\u00e1rquico, na sua fase final. Mas foi-lhes imposs\u00edvel aceitar o enquadramento religioso previsto pela Lei de Separa\u00e7\u00e3o de 20 de Abril de 1911, que n\u00e3o respeitava a identidade pr\u00f3pria do Catolicismo, enquanto Igreja hier\u00e1rquica e transnacional. Refira-se, no entanto, que o \u201cmovimento cat\u00f3lico\u201d soube relan\u00e7ar-se em Portugal, sobretudo depois de 1913, respeitando o regime e tentando, mesmo atrav\u00e9s da interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, modificar a legisla\u00e7\u00e3o que coibia a ac\u00e7\u00e3o da Igreja. Assim como os \u201ccat\u00f3licos liberais\u201d do constitucionalismo mon\u00e1rquico tinham lutado para que o regime fosse autenticamente liberal, respeitando os \u201cprinc\u00edpios de 1789\u201d no tocante \u00e0 \u201cliberdade da Igreja em Portugal\u201d, assim os cat\u00f3licos da Rep\u00fablica procuraram que esta respeitasse a Igreja e contasse com ela para a \u201cregenera\u00e7\u00e3o\u201d do pa\u00eds, ideal que igualmente compartilhavam e passaria pela generaliza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o e da participa\u00e7\u00e3o c\u00edvica e pol\u00edtica, pelo desenvolvimento econ\u00f3mico e pela reafirma\u00e7\u00e3o de Portugal no mundo.  Ab\u00fandio da Silva, Cartas a um abade, 1913, p. 415: \u201cCat\u00f3licos, seremos n\u00f3s a grande reserva de que o pa\u00eds disp\u00f5e para o colossal trabalho da sua regenera\u00e7\u00e3o; \u00e9 essa a obra que nos est\u00e1 destinada\u2026 se dela nos tornarmos merecedores. [\u2026] N\u00e3o \u00e9 um regresso ao antigo estado [mon\u00e1rquico], \u00e0 antiga ordem de coisas, que far\u00e1 reflorir a Igreja e restaurar o pa\u00eds: a nossa \u00e9poca condiciona uma situa\u00e7\u00e3o nova, na qual a grande obreira ser\u00e1 a liberdade civil e religiosa\u201d.  Em 2010, confrontamo-nos, enquanto cat\u00f3licos, com outros desafios, podendo resumi-los assim: individualismo \u201cp\u00f3s-moderno\u201d na cultura, retraindo as expectativas \u00e0 compensa\u00e7\u00e3o imediata de cada qual; e grande frustra\u00e7\u00e3o social e econ\u00f3mica, na presente crise global. O p\u00f3s-modernismo \u201ccompreende-se\u201d, porque a frustra\u00e7\u00e3o verificou-se primeiro em rela\u00e7\u00e3o aos grandes des\u00edgnios ideol\u00f3gicos que se arrastaram at\u00e9 h\u00e1 trinta anos. Repetiu-se de algum modo a reac\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica da primeira metade de Oitocentos em rela\u00e7\u00e3o aos \u201cexcessos\u201d da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa\u2026 Ali\u00e1s, o \u201csentimento de si\u201d em que hoje geralmente nos detemos, pode representar uma nova densidade pessoal. Mas o \u201cp\u00f3s-modernismo\u201d \u00e9 pouco propenso a levar a s\u00e9rio a liga\u00e7\u00e3o de cada um aos outros e \u00e0 sua pr\u00f3pria extens\u00e3o, enquanto projecto e sentido. Como se tem dito, \u00e9 \u201cef\u00e9mero\u201d. A projec\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-econ\u00f3mica deste sentimento \u00e9 problem\u00e1tica. No entanto, a sua considera\u00e7\u00e3o religiosa e cultural \u00e9 necess\u00e1ria.   F\u00e1tima, 31 de Janeiro de 2009 <i>D. Manuel Clemente<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Interven\u00e7\u00e3o de D. 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