{"id":366270,"date":"2025-03-20T15:47:22","date_gmt":"2025-03-20T15:47:22","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=366270"},"modified":"2025-03-20T15:47:22","modified_gmt":"2025-03-20T15:47:22","slug":"combater-o-medo-dos-outros-e-o-antissemitismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/combater-o-medo-dos-outros-e-o-antissemitismo\/","title":{"rendered":"Combater o medo dos outros e o antissemitismo"},"content":{"rendered":"<p>Padre V\u00edtor Pereira, Diocese de Vila Real<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_268285\" aria-describedby=\"caption-attachment-268285\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-268285\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-268285\" class=\"wp-caption-text\">Padre Vitor Pereira, Diocese de Vila Real<\/figcaption><\/figure>\n<p>George Steiner, professor e cr\u00edtico liter\u00e1rio franc\u00eas, descendente de judeus, falecido em 2020, lamentava em tempos, numa entrevista ao Expresso, que n\u00e3o temos aprendido absolutamente nada com a hist\u00f3ria e o quanto isso tem sido tr\u00e1gico para a hist\u00f3ria da humanidade. Referia-se mais concretamente ao \u201cantissemitismo que est\u00e1 presente mesmo na minha amada Inglaterra. Est\u00e1 a crescer, a multiplicar-se\u201d. Para ele era impens\u00e1vel que depois de se terem cometido as barbaridades e atrocidades contra os judeus ao longo da hist\u00f3ria e, sobretudo, no s\u00e9culo XX, com o compromisso de n\u00e3o se odiar e aniquilar jamais um povo daquela forma, se voltasse a assistir a uma escalada de \u00f3dio e viol\u00eancia contra o povo judeu. Como \u00e9 poss\u00edvel o ser humano n\u00e3o crescer e n\u00e3o aprender com os erros do passado, repetindo a\u00e7\u00f5es e recuperando sentimentos que geram sofrimento e desumanidade, que deveriam definitivamente ser lan\u00e7ados no mar do esquecimento ou no s\u00f3t\u00e3o da repulsa hist\u00f3rica?<\/p>\n<p>Sinto apreens\u00e3o e repugn\u00e2ncia com algumas manifesta\u00e7\u00f5es que est\u00e3o a acontecer na sociedade portuguesa nos \u00faltimos tempos, e um pouco por todo o mundo, segundo dizem, de grupos nacionalistas racistas, de v\u00e1rios quadrantes ideol\u00f3gicos, pedindo a retirada de muitas pessoas que v\u00eam de fora ou lan\u00e7ando o an\u00e1tema sobre elas, nas palavras deles, inimigos da p\u00e1tria portuguesa, e proclamando alguns princ\u00edpios da sua cartilha xen\u00f3foba e nacionalista. Merecem uma clara condena\u00e7\u00e3o quer nos seus intentos, inconcili\u00e1veis com o respeito pela liberdade e a dignidade humana e violadores dos princ\u00edpios do regime democr\u00e1tico em que vivemos, quer na sua linguagem, completamente despropositada, ofensiva e obsoleta. Repete-se a pergunta: ser\u00e1 que n\u00e3o aprendemos nada com a hist\u00f3ria e queremos estupidamente repeti-la? Movimentos desta natureza mancharam tenebrosamente a hist\u00f3ria da humanidade, assentam em preconceitos e premissas err\u00f3neas (o mal est\u00e1 sempre no outro, sobretudo no imigrante, causa de todos os males), e n\u00e3o podem ter qualquer justifica\u00e7\u00e3o e sustenta\u00e7\u00e3o. E com toda a leviandade do mundo levantam-se punhos e fazem-se encena\u00e7\u00f5es a imitar os indescrit\u00edveis movimentos, que s\u00f3 espalharam a barb\u00e1rie pela hist\u00f3ria. Guilherme d\u2019Oliveira Martins afirmou esta ter\u00e7a-feira: \u201c\u00c9 preciso que n\u00f3s, C\u00e1ritas, n\u00f3s, crist\u00e3os, compreendamos exatamente que esse discurso que por a\u00ed anda, que \u00e9 um discurso do medo dos outros, o medo da diferen\u00e7a, o medo da integra\u00e7\u00e3o, o medo da diversidade, h\u00e1 medo relativamente a essas situa\u00e7\u00f5es\u2026 E temos de recusar esse discurso f\u00e1cil, que \u00e9 o discurso de dizer cada um por si, cada um por si. N\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o pode ser este o caminho a seguir, caminho que, como j\u00e1 vimos pela hist\u00f3ria, nos vai arrastar para o lama\u00e7al do ressabiamento, do revanchismo, da intoler\u00e2ncia, da injusti\u00e7a, do sofrimento, da incompreens\u00e3o m\u00fatua, da inferniza\u00e7\u00e3o da vida de todos. Chega de extremismo, \u00f3dio, racismo, xenofobia, viol\u00eancia, fanatismo nacionalista, de intoler\u00e2ncia para com a diferen\u00e7a, combate e luta entre culturas, preconceitos imbecis, culpabiliza\u00e7\u00e3o injusta dos outros e do diferente pelos nossos males, de ver o outro sempre como uma amea\u00e7a \u00e0 nossa felicidade e \u00e0 nossa prosperidade, de alimentar sentimentos para destruir o outro. O caminho certo \u00e9 a assimila\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o da toler\u00e2ncia, respeito por todos, pela diferen\u00e7a, pelas culturas, pela imigra\u00e7\u00e3o, pela identidade de cada pessoa humana, pela dignidade humana de cada ser humano, que tem direito a existir, a ser e a viver em liberdade onde quer que se encontre.<\/p>\n<p>Celebraram-se h\u00e1 dias os 80 anos da liberta\u00e7\u00e3o do complexo dos campos de concentra\u00e7\u00e3o de Auschwitz, na Pol\u00f3nia. No dia 27 de janeiro de 1945, as tropas sovi\u00e9ticas libertaram os prisioneiros, onde eram submetidos a trabalhos for\u00e7ados e a todo o tipo de humilha\u00e7\u00f5es e sev\u00edcias inimagin\u00e1veis, e onde muitos foram exterminados. S\u00f3 judeus, ter\u00e3o sido mortos mais de seis milh\u00f5es, n\u00e3o apenas ali, mas noutros campos e lugares, n\u00e3o esquecendo outros grupos, como ciganos, poloneses, sovi\u00e9ticos, deficientes, entre outros. Como \u00e9 que em pleno s\u00e9culo XX se deu um acontecimento com tamanha barbaridade, o expoente m\u00e1ximo da maldade humana! A mais insana banaliza\u00e7\u00e3o do mal e a mais estupenda e brutal ind\u00fastria de morte que jamais se inventou, promovida por um dos pa\u00edses mais desenvolvidos e cultos da humanidade! D\u00e1 que pensar!<\/p>\n<p>Um estudo de 2023 mostra que entre os jovens americanos com idades entre os 18 e os 29 anos, 20% acreditam que o Holocausto foi um mito. Um mito? Acreditam baseados em qu\u00ea? Mas ser\u00e1 que esta gente n\u00e3o l\u00ea, n\u00e3o v\u00ea e n\u00e3o ouve? Outros 30% n\u00e3o acreditam nem deixam de acreditar. No Reino Unido, um em cada 20 inquiridos n\u00e3o acredita que o Holocausto aconteceu. Mas n\u00e3o se trata de acreditar. Est\u00e1 devidamente estudado e documentado pelos historiadores. O holocausto aconteceu. H\u00e1 testemunhos vivos. N\u00e3o faltam provas. Os edif\u00edcios dos infames e abomin\u00e1veis campos de concentra\u00e7\u00e3o est\u00e3o de p\u00e9. \u00c9 inaceit\u00e1vel que se possa alimentar a suspei\u00e7\u00e3o de tudo isto foi uma fabrica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e \u00e9 uma manipula\u00e7\u00e3o com objetivos pol\u00edticos. N\u00e3o tem ponta por onde se lhe pegue qualquer tipo de negacionismo.<\/p>\n<p>Infelizmente, devido \u00e0 liquidez hist\u00f3rica em que vivemos, com graves consequ\u00eancias para a mem\u00f3ria e para o respeito pelo passado, ao rejuvenescimento de algumas for\u00e7as pol\u00edticas e ideologias, e \u00e0 exist\u00eancia atual de persistentes graves conflitos revestidos de crueldade e desumanidade, vemos o Holocausto a ser relativizado, manipulado e at\u00e9 negado, o que \u00e9 inaceit\u00e1vel. N\u00e3o h\u00e1 nada que se lhe possa comparar. Jamais devemos permitir que seja esquecido ou negado, e toda e qualquer forma de antissemitismo deve ser prontamente combatida, como j\u00e1 v\u00e1rias vezes o Papa Francisco enfatizou.<\/p>\n<p>Custa-me, sobretudo, ver como as ideologias que fomentaram este horror hist\u00f3rico ainda t\u00eam partid\u00e1rios e adeptos e a ligeireza com que se fazem alguns gestos na pra\u00e7a p\u00fablica ou se proferem certas express\u00f5es desprez\u00edveis, sem qualquer empatia ou respeito pelos milh\u00f5es de v\u00edtimas que fazem parte do cadastro da sua a\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. \u00c9 preciso fazer mem\u00f3ria do passado, mas, acima de tudo, tudo fazer para n\u00e3o o repetir, para que a forma de pensar e de agir de outros tempos n\u00e3o se repita. Nunca mais, foi o que pediram e pedem alguns dos sobreviventes deste tenebroso inferno terreno que viveram. Mas, infelizmente, a loucura humana parece n\u00e3o ter limites.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre V\u00edtor Pereira, Diocese de Vila Real<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":268285,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-366270","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/366270","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=366270"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/366270\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/268285"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=366270"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=366270"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=366270"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}