{"id":365977,"date":"2025-04-06T09:23:19","date_gmt":"2025-04-06T08:23:19","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=365977"},"modified":"2025-04-11T16:57:09","modified_gmt":"2025-04-11T15:57:09","slug":"a-programacao-cultura-e-o-interior-entre-a-tradicao-e-o-futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-programacao-cultura-e-o-interior-entre-a-tradicao-e-o-futuro\/","title":{"rendered":"A programa\u00e7\u00e3o cultural e o interior \u2013 Entre a tradi\u00e7\u00e3o e o futuro"},"content":{"rendered":"<p><em>David Miguel Vaz, Diocese de Bragan\u00e7a-Miranda<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-365978 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/David-Vaz-braganca-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/David-Vaz-braganca-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/David-Vaz-braganca-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/David-Vaz-braganca-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/David-Vaz-braganca-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/David-Vaz-braganca.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/>Em territ\u00f3rios de baixa densidade, programar cultura tem de ser muito mais do que preencher vazios \u2013 aqui a cultura deve resistir, reinventar e reivindicar. A cultura faz o imposs\u00edvel. Ergue pontes acess\u00edveis onde h\u00e1 dist\u00e2ncias imensas, d\u00e1 voz onde o sil\u00eancio impera e \u00e9 capaz de transformar o que \u00e9 visto como periferia, num centro vivo de identidade, criatividade e inova\u00e7\u00e3o. A cultura n\u00e3o deve ser tida como um luxo, mas sim como uma necessidade. Esta forma de encarar a cultura pode revelar-se como o mais justo e equitativo dos elevadores sociais, o mais fiel m\u00e9todo de equilibrar as assimetrias geogr\u00e1ficas e, acima de tudo, a mais poderosa estrat\u00e9gia de resist\u00eancia e afirma\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria.<\/p>\n<p>A cultura, quando bem pensada e genuinamente enraizada no territ\u00f3rio, n\u00e3o \u00e9 um ap\u00eandice da comunidade \u2013 \u00e9 a sua espinha dorsal. Programar n\u00e3o \u00e9 apenas calendarizar: \u00e9 transformar sem trair, criar sem esquecer, inovar sem apagar. O verdadeiro desafio n\u00e3o est\u00e1 apenas em manter viva a mem\u00f3ria do passado, mas sim em garantir que ela continue a fazer sentido hoje e a inspirar o amanh\u00e3.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O passado tem futuro&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Entre desafios estruturais e a necessidade de inova\u00e7\u00e3o, a gest\u00e3o cultural nestas regi\u00f5es exige um equil\u00edbrio delicado entre o passado e o futuro. \u00c9 important\u00edssimo considerar aquilo que recebemos e ser exigentes naquilo que deixamos para quem se seguir. Mas como garantir a continuidade das tradi\u00e7\u00f5es, sem que se tornem apenas \u201cpe\u00e7as est\u00e1ticas\u201d de museu? Como atrair novos p\u00fablicos sem descaracterizar o patrim\u00f3nio imaterial? Estas s\u00e3o algumas das quest\u00f5es que deveriam moldar a programa\u00e7\u00e3o cultural em espa\u00e7os perif\u00e9ricos, onde a cultura deve ser interpretada tanto como um recurso, como um motor de desenvolvimento.<\/p>\n<p>Apesar de flu\u00edda e din\u00e2mica, a identidade cultural de um territ\u00f3rio est\u00e1 profundamente ligada \u00e0s suas tradi\u00e7\u00f5es, quase sempre transmitidas ao longo de gera\u00e7\u00f5es por meio de pr\u00e1ticas em comunidade. No entanto, a perman\u00eancia dessas manifesta\u00e7\u00f5es parece depender da sua capacidade em dialogar com os tempos atuais, at\u00e9 pelos meios e potencialidades \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o. Estas tradi\u00e7\u00f5es, se vistas como algo imut\u00e1vel, correm s\u00e9rio risco de se tornar um artefacto do passado, afastado da realidade contempor\u00e2nea e sem perspetivas de futuro. Por isso, entendo que a inova\u00e7\u00e3o e a criatividade (ou capacidade de adapta\u00e7\u00e3o) surgem como elementos essenciais para manter vivas essas express\u00f5es culturais, garantindo que continuem a fazer sentido para as novas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Este equil\u00edbrio entre tradi\u00e7\u00e3o e inova\u00e7\u00e3o na programa\u00e7\u00e3o cultural \u00e9 um desafio e implica um processo cont\u00ednuo de reflex\u00e3o e experimenta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o basta ser-se c\u00f3pia de casos de sucesso. \u00c9 preciso adequar o pensamento, envolver os locais e conjugar as diferentes etapas do trabalho com o meio onde o nosso objeto de a\u00e7\u00e3o se encontra. A introdu\u00e7\u00e3o de novas formas art\u00edsticas e at\u00e9 tecnol\u00f3gicas deve ser pensada de modo a complementar e valorizar o patrim\u00f3nio existente, n\u00e3o a sobrep\u00f4-lo ou descaracteriz\u00e1-lo. Penso que o verdadeiro desafio est\u00e1 em evitar a cristaliza\u00e7\u00e3o do passado, tornando a cultura num organismo vivo, inteiro, em constante evolu\u00e7\u00e3o. Uma programa\u00e7\u00e3o bem-sucedida \u00e9 aquela que permite que a comunidade se reconhe\u00e7a nas diferentes express\u00f5es culturais, enquanto simultaneamente abre espa\u00e7o para a cria\u00e7\u00e3o e reinven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A cultura como resist\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Num mundo cada vez mais globalizado, onde tend\u00eancias e narrativas culturais tendem a uniformizar-se, as especificidades locais enfrentam o risco de se diluir. A l\u00f3gica do consumo r\u00e1pido e da mercantiliza\u00e7\u00e3o das express\u00f5es culturais podem esvaziar os significados profundos das tradi\u00e7\u00f5es, transformando-as em meros produtos tur\u00edsticos ou reduzindo-as a espet\u00e1culos repetitivos, \u201cchave-na-m\u00e3o\u201d e descontextualizados. A homogeneiza\u00e7\u00e3o cultural amea\u00e7a, seriamente, a diversidade e a riqueza das identidades locais.<\/p>\n<p>Neste contexto, a programa\u00e7\u00e3o cultural pode (e deve) desempenhar um papel crucial, n\u00e3o apenas na preserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f3nio, mas na sua reinterpreta\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, garantindo que as tradi\u00e7\u00f5es evoluam sem perder a sua ess\u00eancia. Mais do que um resgate nost\u00e1lgico do passado, programar no interior deve ser um processo din\u00e2mico, onde a cultura seja vivida, questionada e reinventada a partir das suas ra\u00edzes.<\/p>\n<p>O Festival D\u2019ONOR, por exemplo, tem demonstrado que \u00e9 poss\u00edvel unir a for\u00e7a da tradi\u00e7\u00e3o com novas leituras contempor\u00e2neas, promovendo a identidade local sem a fossilizar. A integra\u00e7\u00e3o de linguagens art\u00edsticas inovadoras e colabora\u00e7\u00f5es com criadores de diferentes \u00e1reas permite que o evento seja, simultaneamente, um espa\u00e7o de continuidade e de experimenta\u00e7\u00e3o. Nesta iniciativa, a programa\u00e7\u00e3o tem procurado integrar performances art\u00edsticas diferenciadas, sem perder de vista os elementos tradicionais que d\u00e3o identidade ao local e, por consequ\u00eancia, ao evento. A inclus\u00e3o de novas abordagens e linguagens art\u00edsticas (relativamente ao meio onde decorre a a\u00e7\u00e3o), demonstra como a inova\u00e7\u00e3o pode enriquecer o patrim\u00f3nio cultural, sem o descaracterizar.<\/p>\n<p>Al\u00e9m deste, outros exemplos demonstram a for\u00e7a da cultura enquanto ato de resist\u00eancia e afirma\u00e7\u00e3o. A luta pela cultura mirandesa, nomeadamente as quest\u00f5es relacionadas com a L\u00edngua, a valoriza\u00e7\u00e3o das m\u00e1scaras e das festividades de inverno de Tr\u00e1s-os-Montes, atrav\u00e9s do seu estudo e de novas produ\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, ou os movimentos que promovem a m\u00fasica e a literatura de raiz popular s\u00e3o exemplos de boas pr\u00e1ticas de como contrariar a homogeneiza\u00e7\u00e3o e fortalecer o sentido de perten\u00e7a.<\/p>\n<p>A resist\u00eancia cultural n\u00e3o est\u00e1 apenas na defesa do passado, mas tamb\u00e9m na forma como se permite que o \u201contem\u201d interaja com o presente (\u201co hoje\u201d) e o \u201camanh\u00e3\u201d. Apostar numa programa\u00e7\u00e3o que valorize o local, sem cair em estere\u00f3tipos ou simplifica\u00e7\u00f5es, \u00e9 um dos maiores desafios da gest\u00e3o cultural em territ\u00f3rios perif\u00e9ricos \u2013 e, talvez, a sua maior oportunidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O amanh\u00e3 come\u00e7ou ontem&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Nos territ\u00f3rios do interior e neste elevador social chamado \u201ccultura\u201d, onde efetivamente cabem todos, decide-se a evolu\u00e7\u00e3o da identidade local, a afirma\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a, num mundo que insiste em se homogeneizar, e a possibilidade de futuro para tradi\u00e7\u00f5es que, sem reinven\u00e7\u00e3o, correm o risco de se perder na espuma dos dias.<\/p>\n<p>Assim, na programa\u00e7\u00e3o, ou encaramos a cultura como for\u00e7a viva e em constante reinven\u00e7\u00e3o, ou aceitamos v\u00ea-la diluir-se na banalidade. O amanh\u00e3 n\u00e3o espera \u2013 come\u00e7ou ontem.<\/p>\n<p><em>David Miguel Vaz, Doutorando em Ci\u00eancias da Cultura \u2013 UTAD<\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>David Miguel Vaz, Diocese de Bragan\u00e7a-Miranda<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":365978,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-365977","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/365977","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=365977"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/365977\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/365978"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=365977"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=365977"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=365977"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}