{"id":365473,"date":"2025-03-16T09:25:56","date_gmt":"2025-03-16T09:25:56","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=365473"},"modified":"2025-03-17T17:22:10","modified_gmt":"2025-03-17T17:22:10","slug":"a-paz-pelo-rearmamento-moral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-paz-pelo-rearmamento-moral\/","title":{"rendered":"A paz pelo rearmamento moral"},"content":{"rendered":"<p><em>Jorge Teixeira da Cunha, Diocese do Porto<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-321545 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Jorge-Teixeira-da-Cunha-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Jorge-Teixeira-da-Cunha-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Jorge-Teixeira-da-Cunha-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Jorge-Teixeira-da-Cunha-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Jorge-Teixeira-da-Cunha-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Jorge-Teixeira-da-Cunha-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Jorge-Teixeira-da-Cunha.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/>Hoje vou pregar no deserto. Mas no deserto espero estar em boa companhia. Apresentar a via da defesa civil n\u00e3o-violenta para a paz \u00e9 uma proposta com escassa actualidade. De um modo geral, a opini\u00e3o p\u00fablica, mesmo eclesial, est\u00e1 de acordo com a recente op\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia de canalizar um montante estratosf\u00e9rico para o rearmamento da nossa parte do continente. O motivo \u00e9 a previs\u00e3o do fim da velha alian\u00e7a militar que tem assegurado a dissuas\u00e3o pelo medo. Pois, vendo as coisas desde a perspectiva da moral crist\u00e3, essa op\u00e7\u00e3o de defender a paz pelas armas \u00e9 tudo menos indiscut\u00edvel.<\/p>\n<p>A primeira figura que faz companhia a quem prop\u00f5e a via da resist\u00eancia n\u00e3o-violente \u00e9 a do Papa Jo\u00e3o Paulo II. Tive o privil\u00e9gio de me encontrar em Roma, nos idos de 1983, altura em que se e celebrava um jubileu extraordin\u00e1rio da reden\u00e7\u00e3o. Quem l\u00e1 esteve nessa altura, lembra-se certamente da figura do ent\u00e3o vigorosa do Papa que falava \u00e0 multid\u00e3o incont\u00e1vel reunida na Pra\u00e7a de S. Pedro, afirmando com \u00eanfase inaudito: \u201cNunca mais a guerra!\u201d O Papa conhecia por experi\u00eancia pessoal a Guerra 1939-45 e estava empenhado na dissolu\u00e7\u00e3o dos dois blocos antag\u00f3nicos que ent\u00e3o dividiam o mundo e se amea\u00e7avam mutuamente com o uso da bomba nuclear. A sua voz bem timbrada ecoou de forma de tal forma convincente que a hist\u00f3ria da Europa mudou. O pesadelo do comunismo teve fim alguns anos depois e a amea\u00e7a da guerra parecia mais dilu\u00edda.\u00a0 Mas a Igreja n\u00e3o tem falado com a mesma credibilidade contra a legitimidade da guerra.<\/p>\n<p>Antes de Jo\u00e3o Paulo II, t\u00ednhamos tido outro Bento XV que, contra toda a previsibilidade, tinha combatido a inutilidade tr\u00e1gica da guerra, durante a segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo XX. Em vista dessa atitude, a hostilidade contra Bento XV foi terr\u00edvel nesses anos. Ele falou sozinho contra tudo e contra todos. E conheceu sobretudo a oposi\u00e7\u00e3o dos de dentro, como \u00e9 o caso do te\u00f3logo dominicano A. D. Sertillanges que, muito seguro da sua moral neo-escol\u00e1stica, defendia a ideia de guerra justa e pregava do p\u00falpito de Notre-Dame de Paris contra o Papa e a \u201csua paz\u201d. J\u00e1 depois do fim da Grande Guerra, Bento XV escreveu uma enc\u00edclica sobre o caminho crist\u00e3o da pacifica\u00e7\u00e3o (\u201cPacem, Dei Munus\u201d), texto t\u00e3o importante como a muito mais conhecida \u201cPacem in Terris\u201d, de 1963. Honra seja a ambos estes servidores da C\u00e1tedra de Pedro, que, cada um a seu modo, est\u00e3o do lado da condena\u00e7\u00e3o, quando se trata de desmontar o racioc\u00ednio que justifica o caminho da paz mediante a luta armada.<\/p>\n<p>A condena\u00e7\u00e3o da beliger\u00e2ncia n\u00e3o pode ser inocente e acr\u00edtica, uma vez que a evid\u00eancia do conflito n\u00e3o sofre discuss\u00e3o. Mesmo assim, do ponto de vista crist\u00e3o, n\u00e3o parece haver d\u00favida de que o caminho da paz \u00e9 o da defesa civil n\u00e3o-violenta. Esse caminho tem preced\u00eancia mesmo quando se trata da resposta a uma agress\u00e3o actual injusta, a chamada guerra defensiva. As principais raz\u00f5es que fundamentam este caminho para a paz s\u00e3o uma raz\u00e3o teol\u00f3gica, uma vez que a moral de Jesus vai nesse sentido. H\u00e1 tamb\u00e9m uma raz\u00e3o antropol\u00f3gica, uma vez que a defesa n\u00e3o-violenta desmonta o mecanismo que sacrifica v\u00edtimas inocentes ou culpadas em favor da paz. Defender sem armas coloca o sofrimento redentor do lado do sujeito que se oferece voluntariamente para enfrentar a violento, e n\u00e3o do lado de quem sempre \u00e9 apanhado nos meandros de uma decis\u00e3o pol\u00edtica pela guerra. Para al\u00e9m disso, a defesa n\u00e3o-violente tem-se mostrado mais eficaz para superar as guerras e as inj\u00farias do que a beliger\u00e2ncia declarada.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o que se deve fazer para pacificar as sociedades pela via da defesa c\u00edvel? Ser\u00e1 a forma\u00e7\u00e3o e a organiza\u00e7\u00e3o de pessoas e grupos que professem convictamente a defesa n\u00e3o-violenta e estejam decididas a enfrentar, desarmadas, o violento. Essas pessoas devem ser encontradas e organizar-se em ambos os lados dos povos em conflito. Entre estas pessoas, deve crescer o n\u00famero de objectores de consci\u00eancia ao servi\u00e7o militar em armas. Quando o n\u00famero de pessoas e de grupos n\u00e3o-violentos se torna significativo, a probabilidade da guerra declarada diminui sempre mais. Nenhum ditador consegue derrotar um povo inteiro que recusa pegar em armas.<\/p>\n<p>Os crist\u00e3os nunca foram un\u00e2nimes na recusa do servi\u00e7o militar, mesmo no tempo da persegui\u00e7\u00e3o. Mas o n\u00famero e a qualidade dos n\u00e3o-violentos e dos pacifistas foram sempre vis\u00edveis em todas as \u00e9pocas da hist\u00f3ria. Os dias de hoje merecem que se relance esta discuss\u00e3o.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jorge Teixeira da Cunha, Diocese do Porto<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":321545,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-365473","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/365473","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=365473"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/365473\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/321545"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=365473"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=365473"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=365473"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}