{"id":364045,"date":"2025-03-11T09:25:15","date_gmt":"2025-03-11T09:25:15","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=364045"},"modified":"2025-03-07T11:27:45","modified_gmt":"2025-03-07T11:27:45","slug":"adao-onde-estas-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/adao-onde-estas-2\/","title":{"rendered":"Ad\u00e3o, onde est\u00e1s?"},"content":{"rendered":"<p><em>Ant\u00f3nio Salvado Morgado, Diocese da Guarda<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-271042 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/>Todos teremos quadros da nossa inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia com um significado vivencial t\u00e3o grande que nos acompanham pela vida fora. Eu tenho bastantes. Uns mais positivos e outros nem tanto.<\/p>\n<p>Aconteceu numa aula de Educa\u00e7\u00e3o Moral e Religiosa. O professor, sacerdote, ia discorrendo sobre a cria\u00e7\u00e3o, invocando o quadro b\u00edblico do G\u00e9nesis para real\u00e7ar o poder criador da palavra de Deus. Foi quando se falou da omnipot\u00eancia e omnisci\u00eancia divinas. Timidamente, levantei o bra\u00e7o e lancei a pergunta:<\/p>\n<p>&#8211; Se Deus \u00e9 omnisciente, como se explica que Ele ande pelo jardim \u00e0 procura de Ad\u00e3o?<\/p>\n<p>A turma riu e eu creio que corei de vergonha com tal sonora risada dos colegas, logo matizada com o elogio do sacerdote \u00e0 minha sagacidade. A resposta do professor pareceu-me um tanto atabalhoada. Ou n\u00e3o a terei entendido. E as considera\u00e7\u00f5es do sacerdote foram ficando esquecidas.<\/p>\n<p>Mais tarde fui tomando consci\u00eancia de que a B\u00edblia se encontra cheia de perguntas de Deus dirigidas aos homens. A que foi dirigida a Ad\u00e3o foi a primeira, mas um pouco adiante \u00e9 a pergunta de Deus dirigida a Caim sobre o paradeiro do seu irm\u00e3o Abel. E nem Abra\u00e3o escapou \u00e0 pergunta de Deus: \u00ab<em>Onde est\u00e1 Sara, tua mulher?<\/em>\u00bb E tamb\u00e9m o Novo Testamento est\u00e1 cheio de perguntas de Jesus. \u00ab<em>Quem dizem os homens o que eu sou?<\/em>\u00bb, pergunta Jesus um dia aos disc\u00edpulos. Seja tamb\u00e9m aquela dirigida a Madalena junto ao t\u00famulo de Jesus: \u00ab<em>Mulher, porque choras<\/em>?\u00bb Seja ainda a pergunta derradeira dirigida pelo Ressuscitado a Pedro: \u00ab<em>Tu amas-me mais do que estes?<\/em>\u00bb<\/p>\n<p>O que Deus se prop\u00f5e com estas e outras perguntas variar\u00e1 consoante as circunst\u00e2ncias e os contextos humanos em que s\u00e3o enunciadas. Ter\u00e3o a palavra exegetas e hermeneutas \u2013 que eu n\u00e3o sou -, mas n\u00e3o ser\u00e1 dif\u00edcil ver nelas uma inten\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica, como um mestre que, para despertar a aten\u00e7\u00e3o e desafiar o pensamento dos disc\u00edpulos, vai lan\u00e7ando perguntas \u00e0 classe. E a classe, aqui, tratando-se de perguntas de Deus, s\u00e3o os seres humanos de todos os tempos e todos os lugares.<\/p>\n<p>Recentemente revivi aquele quadro b\u00edblico passado com Ad\u00e3o e Eva na leitura de um muito pequeno livro de Martin Buber [1878-1965], um fil\u00f3sofo e te\u00f3logo judeu, nascido em Viena de \u00c1ustria e falecido em Jerusal\u00e9m. \u00c9 considerado um dos mais insignes fil\u00f3sofos judeus ao lado do cordov\u00eas Maim\u00f3nides [1135-1204] e Bento de Espinosa [1632-1677], o holand\u00eas filho de judeus portugueses de que muito se tem falado e escrito nos \u00faltimos tempos.<\/p>\n<p>Muito apreciei Martin Buber nos meus tempos de estudante em raz\u00e3o do seu \u00abpersonalismo dial\u00f3gico\u00bb, como \u00e9 geralmente chamado o seu pensamento filos\u00f3fico, ou \u00abpersonalismo teol\u00f3gico\u00bb se encarado na perspectiva da teologia, ele que advogava cria\u00e7\u00e3o de um Estado judaico \u00abbinacional israelita-palestino\u00bb.<\/p>\n<p>Idealista, Martin Buber, pese embora a sua grande repercuss\u00e3o &#8211; no dizer dos entendidos &#8211; no pensamento de figuras cimeiras da teologia cat\u00f3lica como Romano Guardini [1885-1968], Urs Von Balthasar [1905-1988] ou Joseph Ratzinger [1927-2022], foi ficando esquecido e imagino que os pol\u00edticos de hoje, mesmo olhando para a situa\u00e7\u00e3o de guerra, n\u00e3o ter\u00e3o sequer ouvido falar deste pensador do di\u00e1logo e do encontro que advogava o bom entendimento \u00e1rabe-judaico.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o foi a dimens\u00e3o pol\u00edtica que me arrastou para aqui, embora o contexto hist\u00f3rico do momento me tenha dado um contributo decisivo. Aquele livrinho de quarenta p\u00e1ginas de Martin Buber a que me referi acima intitula-se \u00ab<em>O Caminho do Homem<\/em>\u00bb, baseia-se numa confer\u00eancia proferida em 1947 e compreende seis pontos: I \u2013 <em>Retorno a si mesmo<\/em>; II \u2013 <em>O Caminho particular<\/em>; III \u2013 <em>Determina\u00e7\u00e3o<\/em>; IV \u2013 <em>Come\u00e7ar por si mesmo<\/em>; V \u2013 <em>N\u00e3o se ocupar de si;<\/em> VI \u2013 <em>Onde se est\u00e1<\/em>.<\/p>\n<p>J\u00e1 se estar\u00e1 a imaginar que aquele livrinho nada tem a ver directamente com a pol\u00edtica. \u00c9 antes um not\u00e1vel texto de filosofia espiritual ou de espiritualidade, cujo t\u00edtulo bem o deixa antever. O t\u00edtulo do livro e os t\u00edtulos dos seis cap\u00edtulos.<\/p>\n<p>Se Deus \u00e9 omnisciente, como se explica que Ele ande pelo jardim \u00e0 procura de Ad\u00e3o? \u2013 Perguntava eu, na minha adolesc\u00eancia, ao professor. Embora apare\u00e7a integrada numa narrativa de esp\u00edrito judaico, o livrinho de Martin Buber abre com aquela pergunta que, na sua simplicidade, esconde a vida humana e a responsabilidade de Ad\u00e3o e de todo o Ad\u00e3o.<\/p>\n<p>Ad\u00e3o escondeu-se para n\u00e3o encarar o rosto de Deus e esquivar-se \u00e0 responsabilidade. \u00abOnde est\u00e1s?\u00bb \u00e9 a pergunta feita por Deus, n\u00e3o para descobrir Ad\u00e3o no seu esconderijo, n\u00e3o para ficar a saber atrav\u00e9s de Ad\u00e3o o que Ele n\u00e3o soubesse, mas para suscitar nele o regresso ao estado em que se encontra e cham\u00e1-lo \u00e0 descoberta do caminho da vida.<\/p>\n<p>\u00c9 a situa\u00e7\u00e3o de cada um de n\u00f3s. Cada um se encontra na situa\u00e7\u00e3o de Ad\u00e3o. Cada um \u00e9 Ad\u00e3o e em todo o tempo Deus interpela o Homem, \u00abonde est\u00e1s? O \u201conde\u201d n\u00e3o \u00e9 um lugar geogr\u00e1fico. Esse poder\u00e1 ser qualquer ponto de um qualquer jardim do espa\u00e7o planet\u00e1rio. Sendo que o ser humano nunca poder\u00e1 esconder-se do olhar de Deus, esconder-se de Deus \u00e9 esconder-se de si mesmo e da sua condi\u00e7\u00e3o. O \u201conde\u201d \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o espiritual do cora\u00e7\u00e3o humano. A pergunta de Deus a Ad\u00e3o ser\u00e1 uma esp\u00e9cie de repreens\u00e3o pedag\u00f3gica e um chamamento \u00e0 convers\u00e3o de cada um na unidade e ineditismo do seu ser existencial.<\/p>\n<p>Ad\u00e3o, onde est\u00e1s? Aquela primeira pergunta b\u00edblica \u00e9 a mais universal de todas as perguntas. Universal por parte de Quem pergunta, Deus, e universal da parte do receptor, o ser humano. \u00c9 uma pergunta que expressa o universal humano; de todos os homens e de todos os tempos e lugares e \u00e9 a pergunta que expressa a universalidade de Deus que, nas palavras de Martin Buber, se situa \u00ab<em>na multiplicidade ilimitada dos caminhos que levam a Ele, e cada um dos quais est\u00e1 aberto apenas a um homem<\/em>.\u00bb Caminho \u00fanico no ineditismo de cada um, mas n\u00e3o a caminhar solit\u00e1rio, porque a dimens\u00e3o constitutiva do ser humano \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o com o outro. O Outro, Deus, e os outros, os seres humanos.<\/p>\n<p>Sempre, em todo o tempo e lugar, a pergunta de Deus: Ad\u00e3o, onde est\u00e1s? Boa pergunta para o tempo quaresmal, porque a pergunta \u00e9 um chamamento \u00e0 vida. Uma pergunta que bem pode trazer alguma luz ao convite que o Papa Francisco dirige a todos na sua mensagem para a Quaresma deste ano: \u00ab<em>caminhar juntos na esperan\u00e7a<\/em>\u00bb enquanto indiv\u00edduos e comunidades.<\/p>\n<p>Guarda, 6 de Mar\u00e7o de 2025<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Salvado Morgado<\/p>\n<p>morgado.salvado@gmail.com<\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: 10pt;\">(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f3nio Salvado Morgado, Diocese da 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