{"id":36374,"date":"2009-01-19T12:14:19","date_gmt":"2009-01-19T12:14:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/01\/19\/s-paulo-migrante-apostolo-das-gentes\/"},"modified":"2009-01-19T12:14:19","modified_gmt":"2009-01-19T12:14:19","slug":"s-paulo-migrante-apostolo-das-gentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/s-paulo-migrante-apostolo-das-gentes\/","title":{"rendered":"S. Paulo, migrante, Ap\u00f3stolo das Gentes"},"content":{"rendered":"<p>Jornadas s\u00f3cio-pastorais das migra\u00e7\u00f5es F\u00e1tima, 18.01.2009: Homilia do Dia mundial do migrante e refugiado  Leituras: 1 Sam 3, 3-19: Falai, Senhor, que o vosso servo escuta Sl responsorial 39: Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade 1 Cor 6, 13-20: Os vossos corpos s\u00e3o membros de Cristo Jo 1, 35-42: Foram ver onde morava e ficaram com Ele.  1. Foram ver onde morava e ficaram com Ele nesse dia, \u00e9 com esta frase breve e incisiva que S. Jo\u00e3o narra o come\u00e7o da constitui\u00e7\u00e3o da comunidade apost\u00f3lica \u00e0 volta de Jesus e, podemos diz\u00ea-lo, \u00e9 assim que come\u00e7a a Igreja e todas as comunidades e grupos que desde h\u00e1 dois mil anos nela se constituem. Foi assim que aconteceu com a primeira comunidade crist\u00e3 de Jerusal\u00e9m, aquelas que surgiram nas viagens apost\u00f3licas de S. Paulo, na \u00c1sia e na Europa, as comunidades \u00e0 volta de Francisco de Assis, de Santo In\u00e1cio de Loiyola e de muitos outros fundadores de movimentos religiosos na hist\u00f3ria da Igreja. Amados peregrinos, estamos aqui neste lugar sagrado da Cova da Iria, nesta igreja dedicada \u00e0 Sant\u00edssima Trindade, vindos de muitas terras, tamb\u00e9m convocados por algu\u00e9m, que pensamos morar aqui ou ter aqui uma presen\u00e7a especial, com o desejo de conhecer melhor estes locias sagrados, ouvir a sua mensagem e confiar-lhe os nossos anseios. Como sabemos, foi Maria, a Senhora deste lugar, que nos chamou, ela que h\u00e1 92 anos aqui apareceu a tr\u00eas pastorinhos, os bem-aventurados Francisco e Jacinta e a sua prima L\u00facia. Mas ela \u00e9 a mesma que h\u00e1 dois mil anos disse acerca do seu Filho Jesus, fazei tudo o que Ele vos disser. E se n\u00f3s o fizermos, tamb\u00e9m presenciaremos os sinais do seu amor. Nesta celebra\u00e7\u00e3o j\u00e1 nos falou, disse e pediu muitas coisas. Saber\u00edamos exprimir algumas das suas palavras? Algumas delas at\u00e9 as cant\u00e1mos e repetimos v\u00e1rias vezes. Por exemplo, eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade, usando as palavras de um Salmo. Estaremos mesmo dispostos a fazer a sua vontade, como Ele fez a do Pai que O enviou para estar connosco, nos mostrar o seu amor e nos arrastar consigo para a casa do Pai? Talvez alguns se perguntem, mas afinal nem ouvimos a sua voz, como \u00e9 que podemos conhecer a sua vontade, para a p\u00f4r em pr\u00e1tica?  Realmente encontramos muitas desculpas para o nosso ego\u00edsmo e pregui\u00e7a. E nem sequer nos podemos desculpar como o jovem Samuel, que ainda n\u00e3o conhecia a voz de Deus e foi preciso escutar o conselho do seu tio mais velho, o sacerdote Eli. Tamb\u00e9m n\u00f3s precisamos da ajuda de muitos intermedi\u00e1rios, para discernir e compreender a Palavra de Deus. O facto de termos vindo aqui e querer permanecer alguns momentos aos p\u00e9s de Maria demonstra a nossa vontade de abrirmos o nosso cora\u00e7\u00e3o. Por isso escutemos a voz da Senhora deste lugar e d\u2019Aquele que ela deu ao mundo, cujo natal celebr\u00e1mos h\u00e1 poucos dias e quer ficar connosco at\u00e9 ao fim dos tempos, levando-nos pela m\u00e3o, por vezes at\u00e9 ao colo, para a casa do Pai, a Jerusal\u00e9m celeste.  2. Car\u00edssimos peregrinos, hoje o Filho de Deus e de Maria fala-nos tamb\u00e9m atrav\u00e9s da Igreja e do sucessor de Pedro, o Santo Padre, convidando-nos a celebrar o dia mundial do migrante e do refugiado. Na sua mensagem para este dia o Papa Bento XVI apresenta-nos S. Paulo como migrante e ap\u00f3stolo das gentes, isto \u00e9, de toda a humanidade, sem exclus\u00e3o de nenhum povo. Ao apresentar S. Paulo como modelo para a miss\u00e3o da Igreja junto de todos os deslocados das suas terras de origem, seja por motivos econ\u00f3micos seja for\u00e7ados pelo desrespeito da sua dignidade, dos seus direitos como cidad\u00e3os, o Santo Padre desafia-nos a acompanhar estas pessoas, a defend\u00ea-las e anunciar-lhes o Evangelho da verdade, da sua dignidade de filhos de Deus e irm\u00e3os nossos, sendo solid\u00e1rios com eles e acompanhando-os no caminho para a p\u00e1tria definitiva. S. Paulo soube tornar-se pr\u00f3ximo de todos, sem acep\u00e7\u00e3o de pessoas, exortando-os a viverem a sua liberdade de filhos de Deus, de concidad\u00e3os de uma p\u00e1tria, onde n\u00e3o h\u00e1 homens livres e escravos, estrangeiros e cidad\u00e3os, mas um s\u00f3 povo de irm\u00e3os. \u00c9 este mesmo S. Paulo de quem hoje escut\u00e1mos um excerto da sua primeira carta aos Cor\u00edntios, uma comunidade formada na sua segunda viagem apost\u00f3lica e que se deixou seduzir por alguns costumes pag\u00e3os, indignos da sua perten\u00e7a a Cristo e da sua identidade de filhos de Deus. Aos Cor\u00edntios outrora, como a n\u00f3s, hoje, Paulo diz-nos que somos templos do Esp\u00edrito Santo e que fomos resgatados da escravid\u00e3o do pecado pelo dom da vida de Cristo na cruz. Por isso j\u00e1 n\u00e3o somos perten\u00e7a dos poderes deste mundo, mas de Cristo e devemos viver de acordo com essa perten\u00e7a e dignidade. Disto devemos ser tamb\u00e9m testemunhas no mundo de hoje, fazendo-nos eco das exorta\u00e7\u00f5es de S. Paulo junto dos nossos irm\u00e3os migrantes, n\u00e3o ficando calados e inertes perante a explora\u00e7\u00e3o dos estrangeiros na nossa sociedade, a quem muitas vezes \u00e9 roubada a sua dignidade, separando-os das suas fam\u00edlias, n\u00e3o retribuindo com justi\u00e7a o seu trabalho ou explorando os seus corpos como mercadoria de prazer dos nossos v\u00edcios. Afinal n\u00e3o temos consci\u00eancia de que o pobre e o estrangeiro s\u00e3o o rosto de Cristo e templos do Esp\u00edrito Santo? Como ousamos atentar contra a dignidade da pessoa humana e contra Deus, fazendo dos nossos corpos instrumentos do mal, da corrup\u00e7\u00e3o, da degrada\u00e7\u00e3o do ser humano?  3. Aqui, junto da M\u00e3e de Jesus, viemos fortalecer a nossa esperan\u00e7a, a nossa f\u00e9 e caridade, para sabermos viver em paz e hospitaleiramente com todos os nossos irm\u00e3os, sejam eles da nossa fam\u00edlia ou de outros pa\u00edses, que aqui procuram o que n\u00e3o encontraram noutra parte. Connosco eles querem contribuir para a transforma\u00e7\u00e3o das terras desertas e secas em terras povoadas e irrigadas com a linfa da vida. Apesar do desemprego e da crise financeira e econ\u00f3mica que o mundo atravessa, a Europa j\u00e1 n\u00e3o consegue subsistir sem o contributo dos imigrantes. A redu\u00e7\u00e3o da natalidade entre n\u00f3s deixou muitas aldeias desertas e muitos sectores da vida social e laboral sem as for\u00e7as activas necess\u00e1rias. H\u00e1 terras a transformar-se em matagais, com idosos amea\u00e7ados pelas chamas dos inc\u00eandios; h\u00e1 doentes \u00e0 espera de uma companhia amiga, que lhe d\u00ea consola\u00e7\u00e3o e ajuda na sua debilidade; h\u00e1 herdades por cultivar e culturas a apodrecer nos campos por falta de m\u00e3o de obra para trabalhos que os nossos jovens j\u00e1 n\u00e3o procuram. Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 por motivos de ordem econ\u00f3mica que devemos acolher ou tolerar os imigrantes, mas sim por que s\u00e3o pessoas humanas como n\u00f3s, com direitos e deveres, s\u00e3o o nosso pr\u00f3ximo, a quem os mandamentos de Deus nos mandam amar, como a Deus e a n\u00f3s mesmos.  4. Aqui em F\u00e1tima, neste dia mundial dos migrantes e refugiados, sentimo-nos e somos de verdade uma grande fam\u00edlia dos filhos de Deus. Como Jo\u00e3o junto da cruz, tamb\u00e9m n\u00f3s acolhemos Maria como nossa M\u00e3e no \u00edntimo do cora\u00e7\u00e3o. Aqui lhe prometemos fazer o que seu Filho, Jesus Cristo, nos disse ou disser, a ela recorremos em todas as nossas afli\u00e7\u00f5es. E, por certo, cada um de n\u00f3s,  sente as dificuldades de muitos companheiros de caminho pelas terras onde vivemos. H\u00e1 muita gente a morrer de fome ou a viver em condi\u00e7\u00f5es subhumanas e por isso anda pelo mundo \u00e0 procura de um trabalho justamente remunerado. Alguns ficam pelos caminhos, no deserto, no mar ou nas fronteiras e s\u00e3o tratados como criminosos, s\u00f3 porque n\u00e3o resignaram a vegetar em pa\u00edses sem condi\u00e7\u00f5es de vida humana. Outros caem nas m\u00e3os de exploradores sem escr\u00fapulos, que roubam a sua dignidade e os usam para satisfazer os seus v\u00edcios. Muitos vivem e trabalham fora dos seus pa\u00edses, s\u00e3o vistos e tratados com inveja, como se fossem ladr\u00f5es dos nossos empregos e do nosso p\u00e3o. Outros ainda s\u00e3o obrigados a fugir das suas terras, para evitar a pris\u00e3o, os maus tratos e a pr\u00f3pria morte, vivendo como refugiados noutros pa\u00edses. E em todas estas categorias de migrantes podemos encontrar casos de maior ou menor viol\u00eancia, que nos deveria envergonhar de mais parecermos lobos e inimigos do que seres humanos e filhos de Deus. Manifestando a nossa solidariedade com todos os que sofrem, n\u00e3o devemos esquecer que o maior dom que podemos confiar-lhes \u00e9 a restitui\u00e7\u00e3o da sua dignidade de seres humanos, que o an\u00fancio do Evangelho de Jesus Cristo confere. Por isso n\u00e3o lhes devemos faltar com o an\u00fancio da boa nova, como Paulo o fez outrora. Por outro lado, em face da crise econ\u00f3mica de que tanto se fala, que afecta o trabalho e as fontes de subsist\u00eancia de muitas fam\u00edlias, tamb\u00e9m de muitos imigrantes, por vezes at\u00e9 os primeiros a serem descartados, porque mais indefesos, n\u00e3o devemos fechar-nos no nosso ego\u00edsmo, mas antes fortalecer os la\u00e7os da solidariedade. \u00c9 em tempo de crise que se demonstra aquilo que somos, amigos e irm\u00e3os solid\u00e1rios nas alegrias e tristezas, na dificuldade e pen\u00faria, ou inimigos e advers\u00e1rios, pensando que o bem de todos impossibilita o nosso.  5. Amados peregrinos, a hist\u00f3ria da humanidade mostra-nos muito sofrimento causado pelo pr\u00f3prio homem, pelo pecado do homem, mas tamb\u00e9m nos aponta muitas tentativas de ajuda para mudan\u00e7a de rumo, para que n\u00e3o aceitemos o mal como uma fatalidade. Dentro da pr\u00f3pria Igreja, nas nossas comunidades crist\u00e3s, h\u00e1 desaven\u00e7as, invejas e rupturas. Ao longo dos s\u00e9culos muitas feridas foram ficando abertas e esperam pela nossa medicina para cicatrizar. Uma dessas feridas entre os crist\u00e3os s\u00e3o as rupturas em diversas igrejas e confiss\u00f5es, reclamando-se do nome de Cristo, mas n\u00e3o cumprindo a sua vontade, como Ele a expressou na \u00faltima ceia, na ora\u00e7\u00e3o sacerdotal. Que todos sejam unidos como n\u00f3s, Eu e Tu, \u00f3 Pai, o somos. Para que estas feridas se curem temos a medicina da ora\u00e7\u00e3o. Por isso, com toda a Igreja e com as Igrejas ecum\u00e9nicas come\u00e7amos hoje o Oitav\u00e1rio de ora\u00e7\u00e3o pela unidade dos crist\u00e3os. Que nenhuma comunidade e nenhum crist\u00e3o deixe de elevar ao c\u00e9u esta prece pela unidade. Ningu\u00e9m est\u00e1 dispensado, se quer cumprir o pedido solene de Cristo no discurso da despedida.  Olhando para Jesus Cristo e Maria, vemos neles a aurora da vit\u00f3ria do bem. Aqui em F\u00e1tima estamos mais sens\u00edveis a estas mensagens, que Nossa Senhora repetiu de novo neste lugar h\u00e1 92 anos e nos transmitiu atrav\u00e9s da linguagem simples dos tr\u00eas pastorinhos: convertei-vos, fazei penit\u00eancia, rezai pela convers\u00e3o dos pecadores, deixem de ofender a Nosso Senhor, rezai o ros\u00e1rio\u2026 ent\u00e3o haver\u00e1 paz, acabar\u00e1 a guerra, a R\u00fassia converter-se-\u00e1\u2026Continua a ser urgente a escuta deste apelo. Muitos continuam a chafurdar no pecado e at\u00e9 exigem a protec\u00e7\u00e3o da lei para as suas atitudes criminosas, ego\u00edstas, para a sua cultura do pecado e da morte. As guerras e as amea\u00e7as de novas guerras n\u00e3o s\u00e3o apenas do passado e do presente, mas ser\u00e3o uma realidade no futuro, se n\u00e3o nos convencermos todos que o testemunho da vida de Jesus \u00e9 o \u00fanico que pode salvar a humanidade e o mundo. Ele proferiu e viveu as bem-aventuran\u00e7as, que nos desafiam a pautar por elas a nossa vida. Felizes os mansos, porque possuir\u00e3o a terra. Felizes os que t\u00eam fome e sede de justi\u00e7a, porque ser\u00e3o saciados. Felizes os misericordiosos, porque alcan\u00e7ar\u00e3o miseric\u00f3rdia. Felizes os puros de cora\u00e7\u00e3o, porque ver\u00e3o a Deus. Felizes os pacificadores, porque ser\u00e3o chamados filhos de Deus. Felizes os que sofrem persegui\u00e7\u00e3o por causa da justi\u00e7a, porque deles \u00e9 o Reino do C\u00e9u (Mt 5, 5-10).  6. Irm\u00e3os peregrinos, Jesus Cristo chama-nos, interpela-nos, mas tamb\u00e9m nos acompanha e est\u00e1 connosco aqui, agora e sempre. Nesta celebra\u00e7\u00e3o pe\u00e7amos-Lhe que fortale\u00e7a a nossa esperan\u00e7a e o nosso empenho por um mundo melhor. Com Cristo, radicados n\u2019Ele e em uni\u00e3o uns com os outros, bispos, padres, consagrados, pais, filhos, jovens e adultos, seremos uma for\u00e7a, que nenhuma dificuldade far\u00e1 recuar no compromisso de seguir Jesus.  Aqui estamos, Senhor. Fazei de n\u00f3s vossos mensageiros. Com Maria, que escolheu este lugar e os tr\u00eas pastorinhos para relembrar ao mundo o Evangelho, boa nova de salva\u00e7\u00e3o para todos, queremos tamb\u00e9m n\u00f3s comprometer-nos a tomar como lema da nossa vida a resposta de Maria \u00e0 vontade de Deus: fa\u00e7a-se em mim segundo a vossa vontade e como Jesus estar sempre prontos a repetir: eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade.  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jornadas s\u00f3cio-pastorais das migra\u00e7\u00f5es F\u00e1tima, 18.01.2009: Homilia do Dia mundial do migrante e refugiado Leituras: 1 Sam 3, 3-19: Falai, Senhor, que o vosso servo escuta Sl responsorial 39: Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade 1 Cor 6, 13-20: Os vossos corpos s\u00e3o membros de Cristo Jo 1, 35-42: Foram ver onde morava 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