{"id":362689,"date":"2025-03-02T09:31:29","date_gmt":"2025-03-02T09:31:29","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=362689"},"modified":"2025-02-27T10:02:28","modified_gmt":"2025-02-27T10:02:28","slug":"migracoes-dignidade-da-pessoa-nao-se-submete-ao-papel-regular-ou-irregular-eugenia-quaresma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/migracoes-dignidade-da-pessoa-nao-se-submete-ao-papel-regular-ou-irregular-eugenia-quaresma\/","title":{"rendered":"Migra\u00e7\u00f5es: \u00abDignidade da pessoa n\u00e3o se submete ao papel regular ou irregular\u00bb &#8211; Eug\u00e9nia Quaresma"},"content":{"rendered":"<p>Desde o Hospital Gemelli, de Roma, o Papa divulgou a mensagem para a Quaresma deste ano, em que pede uma atitude acolhedora da Igreja, evocando os migrantes que procuram uma nova vida, longe da pobreza e da guerra. Para abordar este tema e os sinais de preocupa\u00e7\u00e3o que surgem em Portugal e na Europa relativamente \u00e0 quest\u00e3o das migra\u00e7\u00f5es, \u00e9 convidada da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia ECCLESIA Eug\u00e9nia Quaresma, diretora da Obra Cat\u00f3lica Portuguesa das Migra\u00e7\u00f5es<!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_358742\" aria-describedby=\"caption-attachment-358742\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/eugenia-quaresma2025.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-358742 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/eugenia-quaresma2025.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/eugenia-quaresma2025.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/eugenia-quaresma2025-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/eugenia-quaresma2025-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/eugenia-quaresma2025-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/eugenia-quaresma2025-391x260.jpg 391w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-358742\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/MC<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>O Papa mostra que continua atento a um dos temas centrais do seu pontificado e pede nesta Quaresma que se recordem os irm\u00e3os e irm\u00e3s que hoje fogem de situa\u00e7\u00f5es de mis\u00e9ria e viol\u00eancia e v\u00e3o \u00e0 procura de uma vida melhor. Esta \u00e9 uma mensagem importante, perante o contexto que se vive em Portugal e na Europa?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 sempre importante ter presentes as origens e as ra\u00edzes, as causas das migra\u00e7\u00f5es. De facto, o Papa permanece fiel e este tema est\u00e1 completamente em linha com o Jubileu que estamos a viver e com a mensagem do Dia Mundial do Migrante de 2024, \u201cDeus caminha com o seu povo\u201d. Francisco apresenta, ousa apresentar os migrantes como \u00edcone da Igreja peregrina e, portanto, n\u00e3o podemos esquecer as ra\u00edzes hist\u00f3ricas e at\u00e9 as ra\u00edzes humanas de qualquer civiliza\u00e7\u00e3o, que passam pelas migra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A mensagem \u00e9 para dentro da Igreja, mas n\u00e3o s\u00f3. Nesse sentido, h\u00e1 sinais de preocupa\u00e7\u00e3o com a ascens\u00e3o da extrema-direita na Alemanha nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es?<\/em><\/p>\n<p>Com a quest\u00e3o da pol\u00edtica e o modo como se instrumentaliza a quest\u00e3o das migra\u00e7\u00f5es, porque todos s\u00e3o un\u00e2nimes a dizer que precisamos de migrantes. Se n\u00f3s reconhecemos isto, para qu\u00ea instrumentalizar? Porqu\u00ea p\u00f4r o negativo naqueles que est\u00e3o, no fundo, a ser proactivos para sair da pobreza, para sair da mis\u00e9ria, para melhorar as sociedades de acolhimento? Porqu\u00ea ostracizar, porqu\u00ea diabolizar, mesmo?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o mais preocupante quanto percebemos que o discurso hostil aos migrantes \u00e9 transversal \u00e0s diferentes sociedades e ganha cada vez mais adeptos entre os diferentes eleitorados\u2026<\/em><\/p>\n<p>E \u00e9 n\u00e3o entender a quest\u00e3o das migra\u00e7\u00f5es como algo que \u00e9 humano e que tem de ser visto humanamente. \u00c9 ficarmos muito presos e centrados naquilo que, cientificamente, se chama avers\u00e3o ao estranho &#8211; qualquer coisa que se passa pelos oito meses, mas que pela rela\u00e7\u00e3o que vamos aprendendo a alargar o nosso leque familiar. Come\u00e7a com a fam\u00edlia e depois alarga para a escola e temos de aprender a lidar com aquilo que \u00e9 diverso e com aquilo que \u00e9 diferente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E em Portugal ainda n\u00e3o aprendemos, ou n\u00e3o estamos a aprender a viver com esta realidade?<\/em><\/p>\n<p>Ou ent\u00e3o n\u00e3o estamos a fazer eco do tanto bem que j\u00e1 fazemos e das boas pr\u00e1ticas que existem. \u00c9 verdade que existe o medo, mas \u00e9 importante vencer e enfrentar esse medo e esse medo enfrenta-se na rela\u00e7\u00e3o, enfrenta-se promovendo o encontro. \u00c9 este o grande desafio para as comunidades, para as diferentes religi\u00f5es: promover o encontro, promover o di\u00e1logo inter-religioso e intercultural.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Num dos pontos da mensagem o Papa deixa mesmo o convite a ir ao encontro da vida concreta de algum migrante, um convite muito direto. O conhecimento da realidade, cara a cara, \u00e9 a melhor maneira de ultrapassar o preconceito?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9. Quando eu conhe\u00e7o, a pessoa deixa de ser o outro e a pessoa passa a ter um nome. A experi\u00eancia da Igreja &#8211; estou aberta a ouvir das outras comunidades -, de quem trabalha no terreno, \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m que n\u00e3o trate as pessoas com que lida pelo nome e isso faz toda a diferen\u00e7a. N\u00e3o importa a nacionalidade, n\u00e3o importa a religi\u00e3o, importa a pessoa concreta. Algumas comunidades crist\u00e3s j\u00e1 abra\u00e7aram este desafio de escutar os migrantes e isto tem de ser alargado. Escutar n\u00e3o s\u00f3 os imigrantes que chegam, escutar os nossos emigrantes, as suas experi\u00eancias, as suas dificuldades, porque tamb\u00e9m alguns passaram por aquilo que n\u00f3s estamos a fazer. A estranheza que n\u00f3s sentimos com determinadas nacionalidades, tamb\u00e9m os nossos portugueses sentiram essa estranheza, quando estavam l\u00e1 fora e h\u00e1 locais neste planeta onde s\u00f3 se fala portugu\u00eas. Porqu\u00ea \u00e9 que estamos a diabolizar, a criar aquele muro, uma divis\u00e3o entre comunidades?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A verdade \u00e9 que n\u00f3s vemos um crescente discurso de criminaliza\u00e7\u00e3o dos imigrantes, particularmente os que est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o irregular no pa\u00eds. A situa\u00e7\u00e3o administrativa deve definir uma pessoa? O que \u00e9 que se pode fazer para contrariar esta tend\u00eancia?<\/em><\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o da Igreja sempre foi que a dignidade da pessoa n\u00e3o se submete ao papel regular ou irregular e o <em>advocacy<\/em> que as institui\u00e7\u00f5es da Igreja fazem recorda a dignidade da pessoa humana em qualquer circunst\u00e2ncia. Temos de fazer o esfor\u00e7o, e \u00e9 para isso que existe o trabalho associativo, de ajudar a parte administrativa a ter um discurso humanista e a n\u00e3o prejudicar. O trabalho da <em>advocacy<\/em> que fazemos quer ajudar as pol\u00edticas a tomar consci\u00eancia de que amorosidade traz menos qualidade de vida para o imigrante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00f3s j\u00e1 estamos nestes temas h\u00e1 muitos anos. Come\u00e7amos a ter uma linguagem que passou do irregular para o ilegal e agora para o criminoso. Foi crescendo, foi-se consolidando nos \u00faltimos anos e que agora parece impar\u00e1vel\u2026<\/em><\/p>\n<p>Ser imigrante n\u00e3o \u00e9 crime. Isto tem de ser repetido in\u00fameras vezes e faz parte da Doutrina Social da Igreja h\u00e1 anos, se formos a ver os documentos e ouvirmos as institui\u00e7\u00f5es que trabalham no terreno. Ser imigrante n\u00e3o \u00e9 crime.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas tem-se associado muito a inseguran\u00e7a \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o\u2026<\/em><\/p>\n<p>Infelizmente, porque precisam de um bode expiat\u00f3rio. Algumas das causas de inseguran\u00e7a prendem-se com quest\u00f5es estruturais da sociedade e temos de olhar para elas de uma forma estrutural, global. e n\u00e3o afunilar para as comunidades migrantes. Estamos a ser chamados, neste momento, a resolver as quest\u00f5es de toxicodepend\u00eancia que fazem aumentar os n\u00edveis de criminalidade; estamos a ser convidados a resolver a quest\u00e3o da habita\u00e7\u00e3o, que \u00e9 estrutural na sociedade portuguesa; somos chamados a resolver a quest\u00e3o da pobreza, n\u00e3o ficando s\u00f3 pelas estrat\u00e9gias no papel, mas resolver a quest\u00e3o da pobreza, ajudar as pessoas, ajudar as fam\u00edlias a bastarem-se a si pr\u00f3prias. \u00c9 o princ\u00edpio da subsidiariedade que a Igreja defende. Como \u00e9 que n\u00f3s caminhamos neste sentido? A Pastoral das Migra\u00e7\u00f5es tem vindo a falar que \u00e9 necess\u00e1rio interligar os setores, h\u00e1 esta express\u00e3o de trabalhar em conjunto, de colaborar, de construir pontes, porque \u00e9 isto de facto que faz a diferen\u00e7a e que pode ajudar-nos enquanto sociedade.<\/p>\n<p>Se nos mantivermos na polariza\u00e7\u00e3o, estamos a descurar aquilo que ajuda a coes\u00e3o social, precisamos todos uns dos outros\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00f3s temos, al\u00e9m desta quest\u00e3o da criminaliza\u00e7\u00e3o, imagens que talvez n\u00e3o ajudem muito\u2026<\/em><\/p>\n<p>E que \u00e9 instrumentalizada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Vemos que continuam as filas \u00e0 porta da AIMA, parece n\u00e3o haver uma resposta efetiva para o problema destas pessoas, estamos a falar de 450 mil processos pendentes, s\u00e3o muitas vidas suspensas e isto tamb\u00e9m tem consequ\u00eancias na sociedade em geral\u2026<\/em><\/p>\n<p>Claro que sim. A pessoa sente-se&#8230; traz dificuldades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O Estado n\u00e3o est\u00e1 a tratar estas pessoas com dignidade?<\/em><\/p>\n<p>Sobre a quest\u00e3o das filas, das pessoas a passar a noite em frente \u00e0 AIMA, tamb\u00e9m temos esta situa\u00e7\u00e3o, passar a noite \u00e0 frente a um Centro de Sa\u00fade &#8211; s\u00e3o estas estruturas que v\u00e3o procurando maneiras de terminar com esta realidade. No Concelho onde vivo, durante alguns anos, ainda era adolescente, o Centro de Sa\u00fade tinha o mesmo problema: as pessoas iam para l\u00e1 de madrugada para serem atendidas, mas conseguiram encontrar uma forma para terminar com as filas e a pessoa ser atendida na hora que chega\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O problema \u00e9 que n\u00e3o se acaba com as filas e temos 400 e tal mil processos pendentes?<\/em><\/p>\n<p>Ainda temos, est\u00e3o a trabalhar, est\u00e1-se a tentar investir em recursos humanos. Agora, \u00e9 preciso perceber que \u00e9 um problema de gest\u00e3o, acho que \u00e9 muito da gest\u00e3o do servi\u00e7o, adaptar-se \u00e0 procura. Foram tomadas algumas medidas para diminuir esta press\u00e3o, nomeadamente quando se terminou com as manifesta\u00e7\u00f5es de interesse, e aquilo que se vai percebendo \u00e9 que ainda n\u00e3o \u00e9 suficiente, mas est\u00e3o a tomar-se medidas, s\u00f3 que elas n\u00e3o s\u00e3o imediatas e n\u00e3o resolvem logo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Temos ainda o problema do alojamento das fam\u00edlias migrantes. Diferentes institui\u00e7\u00f5es e organismos, incluindo a Obra Cat\u00f3lica, t\u00eam alertado para a precariedade das habita\u00e7\u00f5es sobrelotadas, h\u00e1 mesmo quem fala de uma esp\u00e9cie de \u201crod\u00edzio de camas\u201d. Continua a faltar a devida fiscaliza\u00e7\u00e3o? O que foi denunciado em Odemira acontece noutras zonas do pa\u00eds?<\/em><\/p>\n<p>Na altura em que foi denunciado Odemira, fazendo assim um p\u00e9riplo por algumas dioceses disseram que n\u00e3o era s\u00f3 em Odemira, nalgumas outras zonas que vivem da agricultura tamb\u00e9m tinham situa\u00e7\u00f5es semelhantes. Aquilo que se procurou fazer, a n\u00edvel da Igreja, para al\u00e9m de estar atento e de acompanhar, respondendo, foi criar respostas interligadas com outras institui\u00e7\u00f5es do terreno, isto acontece em Beja e noutras regi\u00f5es tamb\u00e9m. Com algumas comunidades houve tamb\u00e9m este alerta e procurou-se fazer este trabalho em rede\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Tamb\u00e9m nos grandes centros se encontra esta realidade de camas sobrelotadas, ali\u00e1s, de aluguer de colch\u00f5es, n\u00e3o \u00e9?<\/em><\/p>\n<p>Era a quest\u00e3o da fiscaliza\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E essa parece que n\u00e3o funciona.<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o funciona e que os agentes, por exemplo, da Autoridade para as Condi\u00e7\u00f5es de Trabalho falam tamb\u00e9m em falta de recursos. \u00c9 quest\u00e3o da fiscaliza\u00e7\u00e3o, por um lado, e por outro lado \u00e9 tamb\u00e9m esta consci\u00eancia que se procura trabalhar de contrariar a explora\u00e7\u00e3o, a quest\u00e3o \u00e9tica, que tamb\u00e9m est\u00e1 em cima da mesa. N\u00f3s tendemos a apontar para as quest\u00f5es pol\u00edticas, para as entidades, para as institui\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m a consci\u00eancia do cidad\u00e3o que explora. N\u00e3o devemos estar s\u00f3 \u00e0 espera da fiscaliza\u00e7\u00e3o, mas, como cidad\u00e3o, p\u00f4r-me na posi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o explorar outro cidad\u00e3o e contribuir para que estas situa\u00e7\u00f5es v\u00e3o diminuindo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>No momento em que falamos, os olhos do mundo continuam postos no hospital Gemelli, onde o Papa est\u00e1 a recuperar de problemas respirat\u00f3rios. Este pontificado tem sido marcado por muitos apelos em defesa dos migrantes e dos refugiados, ali\u00e1s, desde a hist\u00f3rica viagem de Lampedusa, logo no in\u00edcio. Francisco pode ajudar a mudar a perce\u00e7\u00e3o das comunidades cat\u00f3licas, relativamente a esta mat\u00e9ria?<\/em><\/p>\n<p><em>Muitas vezes, os sinais de rejei\u00e7\u00e3o aparecem ligados a convic\u00e7\u00f5es religiosas. Pergunto se isso se justifica e se encontra tamb\u00e9m no seu dia-a-dia esses discursos?<\/em><\/p>\n<p>Infelizmente, dentro da Igreja encontramos discursos de rejei\u00e7\u00e3o e discursos que n\u00e3o s\u00e3o apologistas do di\u00e1logo inter-religioso, mas o Papa Francisco deu um sinal que pode ser muito eficaz, n\u00e3o s\u00f3 no papel, mas com gestos concretos. Quando p\u00f4s as migra\u00e7\u00f5es no centro da agenda da Igreja, ele deixa-nos, desde 2019, uma s\u00e9rie de orienta\u00e7\u00f5es pastorais para diversos setores das migra\u00e7\u00f5es, documentos esses que est\u00e3o a ser divulgados, que est\u00e3o a ser trabalhados, e que revelam aquilo que ele vai pondo em pr\u00e1tica e que tem de se continuar a p\u00f4r em pr\u00e1tica. Portanto, n\u00e3o \u00e9 o pensamento do Papa Francisco, mas \u00e9 um pensamento milenar, e que reside, tem uma base b\u00edblica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00e3o \u00e9 um capricho\u2026<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9. H\u00e1 v\u00e1rios papas que falam sobre esta tem\u00e1tica, que n\u00e3o \u00e9 nova: a hospitalidade \u00e9 um valor para o crist\u00e3o, \u00e9 um valor partilhado com outras confiss\u00f5es religiosas, e temos de o trabalhar. Temos de o levar a s\u00e9rio. N\u00f3s vamos entrar no tempo da Quaresma, \u00e9 um tempo em que h\u00e1 um apelo muito grande \u00e0 convers\u00e3o, e a convers\u00e3o passa por esta revis\u00e3o de vida, pelo modo que eu olho para o outro, e por este desafio de o tornar meu irm\u00e3o ou minha irm\u00e3. N\u00e3o \u00e9 algo que nasce, mas eu torno-me, com convic\u00e7\u00e3o, passa pela ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A ora\u00e7\u00e3o tem esta virtude e esta exig\u00eancia: ela existe para que eu me transforme e concretize aquilo que rezo. O Evangelho fala-nos da hospitalidade, o Antigo Testamento tamb\u00e9m nos fala da hospitalidade, o que deve prevalecer \u00e9 esta capacidade de olhar o outro, escutar o outro, tocar o outro com respeito, e na rela\u00e7\u00e3o h\u00e1 reciprocidade: o outro tamb\u00e9m \u00e9 convidado a olhar-me com respeito, n\u00e3o h\u00e1 s\u00f3 uma rela\u00e7\u00e3o de direitos, como \u00e0s vezes eu ou\u00e7o, h\u00e1 direitos e deveres. N\u00e3o ficarmos presos na nossa bolha, \u00e9 este o desafio, n\u00e3o ficarmos presos na nossa bolha, seja ela nacional, seja ela religiosa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde o Hospital Gemelli, de Roma, o Papa divulgou a mensagem para a Quaresma deste ano, em que pede uma atitude acolhedora da Igreja, evocando os migrantes que procuram uma nova vida, longe da pobreza e da guerra. 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