{"id":36159,"date":"2009-01-08T13:05:12","date_gmt":"2009-01-08T13:05:12","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/01\/08\/homilia-de-d-jacinto-botelho-no-dia-mundial-da-paz\/"},"modified":"2009-01-08T13:05:12","modified_gmt":"2009-01-08T13:05:12","slug":"homilia-de-d-jacinto-botelho-no-dia-mundial-da-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-de-d-jacinto-botelho-no-dia-mundial-da-paz\/","title":{"rendered":"Homilia de D. Jacinto Botelho no Dia Mundial da Paz"},"content":{"rendered":"<p>Nesta Missa que estamos a viver, no in\u00edcio do novo ano, h\u00e1 v\u00e1rias refer\u00eancias interligadas que devem merecer a nossa reflex\u00e3o.   Celebramos a Solenidade de Santa Maria, M\u00e3e de Deus. Ela \u00e9 a mulher anunciada depois da transgress\u00e3o original dos nossos primeiros pais que maculou a obra da cria\u00e7\u00e3o, \u00e9 Aquela, a quem a serpente da tenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o conseguir\u00e1 atingir, nem sequer o calcanhar, referida por isso como aurora da salva\u00e7\u00e3o, Ela \u00e9 a M\u00e3e que nos d\u00e1 o Filho de Deus que abre a plenitude dos tempos para nos tornar filhos adoptivos, \u00e0 qual o texto da Carta de S. Paulo aos G\u00e1latas se refere, a mesma que os Pastores encontraram ao lado de Jos\u00e9, na gruta de Bel\u00e9m, e que, no alto do Calv\u00e1rio, o Filho, Jesus, nos havia de doar como M\u00e3e.   No princ\u00edpio de um novo ano civil, cada vez mais conscientes das limita\u00e7\u00f5es e car\u00eancias que envolvem a exist\u00eancia de cada um, carregados de densas preocupa\u00e7\u00f5es e problemas, \u00e9 para Ela que voltamos o nosso olhar, confiantes na Sua sol\u00edcita aten\u00e7\u00e3o materna; e para na Escola de que Ela \u00e9 Mestra, aprendermos a li\u00e7\u00e3o que podemos condensar na recomenda\u00e7\u00e3o carregada de afecto feita aos serventes das bodas de Can\u00e1: Fazei tudo quanto Ele vos disser. Oxal\u00e1 que ao longo do ano, a resson\u00e2ncia deste conselho, seja a luz iluminadora de todos os projectos e realiza\u00e7\u00f5es.  Mas desde 1968, h\u00e1 portanto 40 anos, por vontade de Paulo VI, celebramos hoje, 1 de Janeiro, o Dia Mundial da Paz. A Paz \u00e9 B\u00ean\u00e7\u00e3o de Deus, express\u00e3o do Seu olhar misericordioso e benevolente, como a apresenta o Livro dos N\u00fameros, na comunica\u00e7\u00e3o inspirada do Senhor a Mois\u00e9s que a primeira leitura nos recordou. O Santo Padre prop\u00f5e-nos o tema para este ano: Combater a pobreza, construir a paz. N\u00e3o se trata da pobreza proposta por Jesus como virtude evang\u00e9lica, e que Ele escolheu para concretizar o mist\u00e9rio da Incarna\u00e7\u00e3o e da Reden\u00e7\u00e3o. \u00c9 a pobreza miser\u00e1vel, tanto de ordem material, como de ordem espiritual. \u00c9 &#8220;a pobreza que impede as pessoas e as fam\u00edlias de viverem segundo a sua dignidade, que ofende a justi\u00e7a e a igualdade, e como tal amea\u00e7a a conviv\u00eancia pac\u00edfica&#8221;, como a identificou O santo Padre na homilia desta manh\u00e3. Todos a experimentamos. H\u00e1 um clima de s\u00e9ria apreens\u00e3o nos \u00faltimos dias, diante da viol\u00eancia das repres\u00e1lias e da morte que op\u00f5e palestinianos e israelitas; s\u00e3o preocupantes as informa\u00e7\u00f5es que nos chegam do Afeganist\u00e3o, da \u00cdndia e do Iraque; deixa-nos estarrecidos a situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria extrema  que dizima multid\u00f5es, particularmente crian\u00e7as  em tantos pa\u00edses africanos e campos que s\u00e3o mais antros de morte que de refugiados, sem se vislumbrarem respostas de esperan\u00e7a que d\u00eaem novo rumo aos acontecimentos e quase parece, diante da insensibilidade dos pa\u00edses conhecidos como civilizados.  Entre n\u00f3s, os casos de viol\u00eancia e consequente inseguran\u00e7a multiplicam-se, o descontentamento e o desencanto \u00e9 cada vez mais generalizado, o espectro do desemprego, provocado pela t\u00e3o falada crise, aparece por toda a parte, prevendo-se o cortejo da fome, da instabilidade, do desespero, do crime, que o acompanham, enquanto crescem desigualdades econ\u00f3micas escandalosas a instigar a vontade da revolta e da insurrei\u00e7\u00e3o. D\u00e1-nos a sensa\u00e7\u00e3o de que nos rodeia uma atmosfera de p\u00f3lvora na imin\u00eancia de explodir. O Santo Padre, atento \u00e0 situa\u00e7\u00e3o que o mundo atravessa, convida-nos, como j\u00e1 referi, a que reflictamos sobre o tema: combater a pobreza, construir a paz. Bento XVI denuncia com veem\u00eancia, e exemplifica n\u00facleos dram\u00e1ticos da pobreza actual. Come\u00e7a por corrigir o pensamento de que o desenvolvimento demogr\u00e1fico \u00e9 factor de pobreza, e desmascara as campanhas de redu\u00e7\u00e3o da natalidade que &#8220;n\u00e3o respeitam, nem a dignidade da mulher, nem o direito dos esposos a decidirem responsavelmente o n\u00famero de filhos, nem sequer o direito inalien\u00e1vel \u00e0 vida, com o exterm\u00ednio de milh\u00f5es de nascituros, em nome da luta contra a pobreza, o que constitui a elimina\u00e7\u00e3o dos mais pobres, dentro os seres humanos&#8221;; e demonstra com a experi\u00eancia como o aumento dos \u00edndices de natalidade t\u00eam sido determinantes na riqueza de tantas na\u00e7\u00f5es. Outro \u00e2mbito que preocupa o Santo Padre Bento XVI, \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre as pandemias (mal\u00e1ria, tuberculose, SIDA) e a pobreza, a reclamar urgentes &#8220;campanhas que eduquem, especialmente os jovens, para uma sexualidade plenamente respeitadora da dignidade da pessoa. A pobreza das crian\u00e7as, sempre &#8220;as v\u00edtimas mais vulner\u00e1veis&#8221;, merece ao Santo Padre uma especial aten\u00e7\u00e3o e uma palavra de advert\u00eancia: &#8220;Quando a fam\u00edlia se debilita, os danos recaem inevitavelmente sobre as crian\u00e7as. Onde n\u00e3o \u00e9 tutelada a dignidade da mulher e da m\u00e3e, a ressentir-se do facto s\u00e3o principalmente os filhos.&#8221; Em quarto lugar faz refer\u00eancia Bento XVI \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre desarmamento e progresso, verberando, como voltou a faz\u00ea-lo na homilia desta manh\u00e3, que &#8220;os ingentes recursos materiais e humanos empregados nas despesas militares e no armamento, s\u00e3o desviados dos projectos de desenvolvimento dos povos, especialmente dos mais pobres e necessitados de ajuda.&#8221; [&#8230;] Al\u00e9m disso, um excessivo aumento da despesa militar corre o risco de acelerar uma corrida aos armamentos que provoca faixas de subdesenvolvimento e desespero, transformando-se assim, paradoxalmente, em actor de instabilidade, tens\u00e3o e conflito.&#8221; Por \u00faltimo assinala o Santo Padre &#8220;a crise alimentar, n\u00e3o tanto por insufici\u00eancia de alimento, mas pela dificuldade de acesso a ele, pela falta de um reajustamento de institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f3micas que seja capaz de fazer frente \u00e0s necessidades e emerg\u00eancias&#8221;.  \u00c0 globaliza\u00e7\u00e3o dos factores geradores de pobreza, tem de responder-se com uma globaliza\u00e7\u00e3o de solidariedade. Entretanto adverte Sua Santidade: &#8220;A marginaliza\u00e7\u00e3o dos pobres da terra s\u00f3 pode encontrar v\u00e1lidos instrumentos de recupera\u00e7\u00e3o na globaliza\u00e7\u00e3o, se cada homem se sentir pessoalmente atingido pelas injusti\u00e7as existentes no mundo e pelas viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos ligados a elas&#8221;. Temos de empenhar-nos, como crist\u00e3os conscientes, membros duma Igreja, que &#8220;\u00e9 sinal e instrumento da \u00edntima uni\u00e3o com Deus e da unidade de todo o g\u00e9nero humano&#8221;, em descobrir cada vez com mais consci\u00eancia e sentido de responsabilidade que &#8220;todos os homens somos filhos do mesmo Pai, e estamos intimamente ligados a Cristo que na Cruz a todos amou, e todos somos destinados \u00e0 mesma felicidade eterna&#8221;. Aconselhava-nos Sua Santidade na homilia da manh\u00e3 a que estabele\u00e7amos um c\u00edrculo \u00abvirtuoso\u00bb entre a pobreza que deve ser escolhida como conselho evang\u00e9lico e a que tem de ser combatida como desgra\u00e7a. S\u00e3o particularmente incisivas as duas interroga\u00e7\u00f5es que o Santo Padre se dirige a si pr\u00f3prio e nos faz a todos, a prop\u00f3sito da actual crise econ\u00f3mica global que deveremos considerar como uma prova de exame que temos de prestar. Pergunta Bento XVI: &#8220;Estamos preparados para l\u00ea-la (a crise econ\u00f3mica) na sua complexidade, como um desafio para o futuro, e n\u00e3o apenas como uma emerg\u00eancia \u00e0 qual se d\u00e1 uma resposta imediata, sem grande alcance? Estamos dispostos a fazer em conjunto uma revis\u00e3o profunda do modelo de desenvolvimento dominante para corrigi-lo de modo concertado e com larga vis\u00e3o?&#8221; Momentos depois, nas palavras da recita\u00e7\u00e3o do Angelus e a prop\u00f3sito do mesmo assunto, seria mais concreto ainda: &#8220;N\u00e3o basta, como diria Jesus, colocar um remendo novo num vestido velho&#8221;. A promo\u00e7\u00e3o efectiva da paz \u00e9 um caminho de convers\u00e3o pessoal no que de mais espec\u00edfico deve caracterizar o testemunho crist\u00e3o: a caridade fraterna. Est\u00e1 nesta linha o apelo com que Bento XVI conclui a sua mensagem: &#8220;A Comunidade Crist\u00e3 n\u00e3o deixar\u00e1 de assegurar o seu apoio \u00e0 fam\u00edlia humana inteira nos seus impulsos de solidariedade criativa, tendentes n\u00e3o s\u00f3 a partilhar o sup\u00e9rfluo, mas sobretudo a alterar \u00abos estilos de vida, os modelos de produ\u00e7\u00e3o e de consumo, as estruturas consolidadas de poder que hoje regem as sociedades&#8221;. E de modo mais personalizado e directo oi Santo lan\u00e7a o repto: &#8220;A cada disc\u00edpulo de Cristo bem como a toda a pessoa de boa vontade, dirijo, no in\u00edcio de um novo ano, um caloroso convite a alargar o cora\u00e7\u00e3o \u00e0s necessidades dos pobres e a fazer tudo o que lhe for concretamente poss\u00edvel para ir em seu socorro.&#8221;  O ano de 2009, que hoje come\u00e7a, est\u00e1 inserido naquela plenitude dos tempos referida por S, Paulo na Carta aos G\u00e1latas, e quantos vamos viv\u00ea-lo estamos redimidos pelo Menino do pres\u00e9pio de Bel\u00e9m. Com a certeza desta esperan\u00e7a e com muita f\u00e9, rezemos, neste dia da Solenidade de Santa Maria, M\u00e3e de Deus: &#8220;Vela por n\u00f3s, filhos teus, M\u00e3e de Jesus, nossa M\u00e3e. Tu podes: \u00e9s M\u00e3e de Deus; Tu deves: \u00e9s nossa M\u00e3e.  Que prop\u00f3sito \u00e9 que estas palavras exigem de mim e de ti? Desejo a todos um 2009 muito solid\u00e1rio. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta Missa que estamos a viver, no in\u00edcio do novo ano, h\u00e1 v\u00e1rias refer\u00eancias interligadas que devem merecer a nossa reflex\u00e3o. Celebramos a Solenidade de Santa Maria, M\u00e3e de Deus. 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