{"id":361582,"date":"2025-02-20T09:03:02","date_gmt":"2025-02-20T09:03:02","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=361582"},"modified":"2025-03-07T11:34:52","modified_gmt":"2025-03-07T11:34:52","slug":"e-se-deixassemos-o-diabo-em-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/e-se-deixassemos-o-diabo-em-paz\/","title":{"rendered":"E se deix\u00e1ssemos o diabo em paz?"},"content":{"rendered":"<p><em>Padre V\u00edtor Pereira, Diocese de Vila Real<\/em><br \/>\n<!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_268285\" aria-describedby=\"caption-attachment-268285\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-268285\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-268285\" class=\"wp-caption-text\">Padre Vitor Pereira, Diocese de Vila Real<\/figcaption><\/figure>\n<p>Ainda vejo para a\u00ed muitos discursos e homilias, com grande eco nas redes sociais, sobre o diabo ou o dem\u00f3nio, ou o que lhe quisermos chamar, e como combater as suas tenta\u00e7\u00f5es ou possess\u00f5es. H\u00e1 quem enuncie detalhamente as formas e estrat\u00e9gias de combater as ciladas dessa sub-rept\u00edcia entidade, que por a\u00ed anda a atezanar as boas almas do mundo. N\u00e3o entendo como \u00e9 que se consegue ainda alimentar este tipo de discurso e n\u00e3o consigo vislumbrar qual a utilidade e o sentido destas pr\u00e9dicas eclesi\u00e1sticas, a n\u00e3o ser fomentar a crendice e a confus\u00e3o na cabe\u00e7a de muitos crentes e n\u00e3o crentes.<\/p>\n<p>Acho que j\u00e1 \u00e9 tempo da Igreja p\u00f4r fim ao discurso sobre o diabo e suas an\u00e1rquicas e requintadas malqueren\u00e7as, acabar com as fantasias de que anda por a\u00ed um ser misterioso que se mete com as pessoas e as tenta para fazerem o mal, que entra nas pessoas e as adoece. Tudo isto cheira a parlenda bafienta, a medievalismo e a obscurantismo, que s\u00e3o perfeitamente dispens\u00e1veis na mensagem da Igreja Cat\u00f3lica do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Penso que j\u00e1 era tempo de se promover uma revis\u00e3o do Ritual do Sacramento do Batismo, onde, no momento central das promessas batismais, se pergunta se renunciam a Satan\u00e1s, \u00e0s suas obras e \u00e0s suas sedu\u00e7\u00f5es. Saberemos certamente atualizar estas palavras, mas parece-me claramente que \u00e9 uma linguagem que est\u00e1 fora do tempo, e pergunto-me sempre o que muitas pessoas entender\u00e3o sobre esta linguagem, ou se at\u00e9 n\u00e3o achar\u00e3o perturbadora, esdr\u00faxula e arcaica. Face ao conhecimento que hoje temos da sa\u00fade e da mente humana, \u00e9 imposs\u00edvel continuar a sustentar qualquer fundamenta\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia do diabo e \u00e9 um assunto indigno de uma f\u00e9 adulta e esclarecida, que n\u00e3o deve perder muito tempo com fantasias pitorescas e folcl\u00f3ricas.<\/p>\n<p>Os evangelhos contam-nos muitos epis\u00f3dios em que Jesus libertava as pessoas de dem\u00f3nios e de esp\u00edritos impuros, que infligiam a desordem e o sofrimento na vida das pessoas. \u00c0 dist\u00e2ncia de dois mil anos, percebemos essa linguagem e n\u00e3o nos \u00e9 dif\u00edcil compreender que, na sua grande maioria ou at\u00e9 totalidade, eram doen\u00e7as desconhecidas da cultura daquele tempo: dist\u00farbios de personalidade, de \u00e2mbito psicol\u00f3gico e psiqui\u00e1trico, mazelas e maleitas f\u00edsicas, convic\u00e7\u00f5es m\u00f3rbidas, cismas, epilepsias, convuls\u00f5es, histerias e por a\u00ed fora. N\u00e3o eram nenhuns dem\u00f3nios ou esp\u00edritos que se metiam nas pessoas. Mais intrigante \u00e9 o c\u00e9lebre tentador que Jesus teve no deserto e na hora da cruz: o diabo. N\u00e3o era diabo nenhum. Os textos que nos apresentam estas cenas s\u00e3o uma par\u00e1bola, e outra coisa n\u00e3o querem dizer sen\u00e3o que, no seu \u00edntimo, Jesus experimentou o mist\u00e9rio do mal e da divis\u00e3o na sua vida, como qualquer ser humano experimenta, os dois caminhos que se abrem diante do homem: ser fiel e obediente a Deus ou n\u00e3o ser fiel e obediente a Deus, centrando-se em si e nos \u00eddolos do mundo, trocando-se Deus pelos falsos absolutos do mundo. Como homem que era, n\u00e3o p\u00f4de deixar de sentir a tenta\u00e7\u00e3o e a contradi\u00e7\u00e3o, mas escolheu sempre o caminho de Deus, a sua vontade e a sua miss\u00e3o.<\/p>\n<p>Recordo uma afirma\u00e7\u00e3o do Papa Bento XVI, no livro Di\u00e1logos sobre a F\u00e9, ainda como Prefeito da Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9: \u00abO dem\u00f3nio \u00e9, para a f\u00e9 crist\u00e3, uma presen\u00e7a misteriosa, mas real, pessoal, n\u00e3o-simb\u00f3lica. \u00c9 uma realidade poderosa, o Pr\u00edncipe deste mundo, \u00e9 uma liberdade mal\u00e9fica e sobre humana, oposta \u00e0 de Deus, mas n\u00e3o \u00e9 um outro deus. Unidos a Jesus, temos a certeza de venc\u00ea-lo\u00bb. Rebatendo a tese de que o diabo \u00e9 uma imagem e um s\u00edmbolo, uma personifica\u00e7\u00e3o do pecado e do mal, reafirmou: \u00abO diabo \u00e9 mesmo uma pot\u00eancia concreta, n\u00e3o \u00e9 uma abstra\u00e7\u00e3o. O homem \u00e9 por ela amea\u00e7ado e \u00e9 dela libertado por obra de Cristo\u00bb. \u00c0 luz da exegese b\u00edblica e dos avan\u00e7os cient\u00edficos que hoje temos ao dispor nas diversas \u00e1reas das ci\u00eancias, n\u00e3o vejo onde se pode alicer\u00e7ar esta argumenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O diabo e tudo o que lhe \u00e9 atribu\u00eddo \u00e9 uma forma de n\u00f3s tentarmos explicar, muitas vezes, a exist\u00eancia de muito mal que vemos acontecer e nos \u00e9 incompreens\u00edvel, \u00e9 uma tentativa, que \u00e9, isso sim, uma verdadeira tenta\u00e7\u00e3o, de compreendermos, de forma f\u00e1cil, o que \u00e9 inexplic\u00e1vel. Muitas \u00abpossess\u00f5es\u00bb que por a\u00ed andam s\u00e3o fruto de imagina\u00e7\u00e3o f\u00e9rtil e de graves dist\u00farbios psicol\u00f3gicos e psiqui\u00e1tricos ou da necessidade de ter uma justifica\u00e7\u00e3o para o que \u00e9 esquisito. N\u00e3o t\u00eam nada de diabo. E quanto \u00e0 convic\u00e7\u00e3o de que ele tenta as pessoas, centremo-nos \u00e9 na nossa liberdade, no seu exerc\u00edcio e na sua adequada forma\u00e7\u00e3o: O mal n\u00e3o est\u00e1 no diabo, mas no abuso e m\u00e1 forma\u00e7\u00e3o da nossa liberdade, que nem sempre escolhe o que \u00e9 bom, correto, certo e justo, est\u00e1 nas a\u00e7\u00f5es e desejos desordenados das pessoas. Se tirarmos do cora\u00e7\u00e3o muitos sentimentos ruins que l\u00e1 aninhamos (orgulho, soberba, \u00f3dio, gan\u00e2ncia, vaidade, racismo, xenofobia, entre outros) e educarmos a nossa liberdade no caminho da liberdade respons\u00e1vel, tamb\u00e9m tiramos o \u00abdiabo\u00bb da nossa vida. Uma vida humana saud\u00e1vel, sem v\u00edcios, com amizade, uma afetividade saud\u00e1vel, trabalho, solidariedade, partilha, conv\u00edvio, comunh\u00e3o com os outros, amor, ora\u00e7\u00e3o e viv\u00eancia ativa da f\u00e9, desporto e cultura \u00e9 o melhor exorcismo contra o diabo.<\/p>\n<p><em>Pe. V\u00edtor Pereira<\/em><br \/>\n<em>Diocese de Vila Real<\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: 10pt;\">(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre V\u00edtor Pereira, Diocese de Vila Real<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":268285,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-361582","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/361582","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=361582"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/361582\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/268285"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=361582"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=361582"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=361582"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}