{"id":361050,"date":"2025-02-15T17:39:37","date_gmt":"2025-02-15T17:39:37","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=361050"},"modified":"2025-02-16T22:23:34","modified_gmt":"2025-02-16T22:23:34","slug":"entrevista-lisboa-esta-esta-muito-mais-multicultural-afirma-novo-bispo-auxiliar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/entrevista-lisboa-esta-esta-muito-mais-multicultural-afirma-novo-bispo-auxiliar\/","title":{"rendered":"Entrevista: Lisboa est\u00e1 \u00abmuito mais multicultural\u00bb, afirma novo bispo auxiliar"},"content":{"rendered":"<div><em>D. Rui Gouveia vai ser ordenado bispo este domingo e quer exercer o minist\u00e9rio episcopal numa \u00abl\u00f3gica sinodal\u00bb \u00a0<\/em><\/div>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_360925\" aria-describedby=\"caption-attachment-360925\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/rui-gouveia2025d.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-360925 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/rui-gouveia2025d.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/rui-gouveia2025d.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/rui-gouveia2025d-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/rui-gouveia2025d-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/rui-gouveia2025d-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/rui-gouveia2025d-391x260.jpg 391w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-360925\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/MC<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Qual o seu percurso at\u00e9 chegar a Lisboa, sendo que o in\u00edcio est\u00e1 muito longe, em Joanesburgo?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 um in\u00edcio com muitos quil\u00f3metros pelo meio&#8230; Mas os caminhos de Deus s\u00e3o assim.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Nasci na \u00c1frica do Sul, numa fam\u00edlia de emigrantes madeirenses e ali vivemos at\u00e9 aos meus oito anos de idade, quando regress\u00e1mos para a ilha da Madeira, onde cresci, onde tive a minha segunda inf\u00e2ncia, o tempo da adolesc\u00eancia, parte da juventude foi ali passada e depois, quando acabei o secund\u00e1rio, vim para c\u00e1 estudar, estudei Qu\u00edmica, justamente em Lisboa, onde vivi v\u00e1rios anos e, a determinada altura do meu percurso, discerni a minha voca\u00e7\u00e3o e, esse discernimento, esteve muito ligado aqui \u00e0 Diocese de Set\u00fabal.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Como \u00e9 que aconteceu essa liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Diocese de Set\u00fabal? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">De uma forma muito simples, atrav\u00e9s de amigos, atrav\u00e9s de um grupo de ora\u00e7\u00e3o, na Costa da Caparica, onde rezava todas as semanas num pequeno grupo. Fizeram-me um convite para vir fazer um retiro vocacional aqui, justamente no Semin\u00e1rio da Almada e, nas interroga\u00e7\u00f5es que j\u00e1 colocava, foi certamente uma autoestrada para eu dizer que sim. Entrei no Semin\u00e1rio aqui de Almada, da Diocese de Set\u00fabal, fui ordenado em 2008 e, tenho estado por aqui, nesta Diocese, a servi-la da maneira que comecei.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Ainda, na Ilha da Madeira, depois dos oito anos e at\u00e9 ao fim do secund\u00e1rio, foi sobretudo no norte da Ilha da Madeira que esteve ou onde \u00e9 que fixou a resid\u00eancia? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A minha m\u00e3e \u00e9 de S\u00e3o Jorge, o meu pai \u00e9 do Porto Moniz. Eles decidiram ter casa em S\u00e3o Jorge, foi onde eu cresci, foi onde fiz a minha primeira comunh\u00e3o, onde recebi o sacramento do Crisma e onde me identifico como minha par\u00f3quia, par\u00f3quia de origem e que tenho sempre muito gosto em visitar.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Madeirense por isso, apesar de ter nascido na \u00c1frica do Sul&#8230;<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Dos \u201csete costados\u201d&#8230;.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Da Qu\u00edmica \u00e0 Teologia<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>E porqu\u00ea a Qu\u00edmica?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Quando cheguei \u00e0 Madeira &#8211; e isto tem tamb\u00e9m a ver com a minha voca\u00e7\u00e3o &#8211; lembro-me que \u00e9 a primeira vez que, em consci\u00eancia, me recordo de desejar ser padre, tinha eu justamente nove anos, possivelmente oito, nove anos. Nessa altura, recordo-me que, perante este desejo, surgiu a oportunidade de eu fazer parte de um pequeno grupo de discernimento vocacional dos Vicentinos, que chamavam Semin\u00e1rio em Fam\u00edlia, e eu ia todos os meses ao Funchal participar destes encontros, no ver\u00e3o t\u00ednhamos encontros mais prolongados, de v\u00e1rios dias. Mas, na adolesc\u00eancia, a ci\u00eancia come\u00e7ou-me a falar, apaixonei-me pela Ci\u00eancia, e, quando cheguei ao nono ano, tinha que optar entre as Ci\u00eancias ou as Humanidades, e a vontade humana falou mais alto: eu n\u00e3o me via a estudar letras, via-me sim a estudar as Ci\u00eancias. Nessa altura, lembro-me que a minha m\u00e3e e o meu pai disseram-me: entraste neste Semin\u00e1rio em Fam\u00edlia porque quiseste, agora tens de ir l\u00e1 e dizer ao padre que n\u00e3o queres continuar porque queres ir estudar Ci\u00eancias, e assim foi.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">No secund\u00e1rio, acabei por optar por estudar Qu\u00edmica, a determinada altura queria ser m\u00e9dico, mas n\u00e3o tinha notas para isso, e, no \u00e2mbito das Ci\u00eancias, a Qu\u00edmica era aquela com que me identificava mais, e cheguei, ent\u00e3o, \u00e0 Faculdade de Ci\u00eancias, aqui, da Universidade de Lisboa.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Depois acontece a mudan\u00e7a para Teologia. H\u00e1 a\u00ed uma dist\u00e2ncia grande nesses dois saberes ou encontra alguma liga\u00e7\u00e3o? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A Teologia, faz-se a partir da raz\u00e3o, e acho que se h\u00e1 coisa que a Qu\u00edmica me deu foi justamente estruturar o pensamento de uma forma l\u00f3gica e isso certamente me ajudou muito a mergulhar na Filosofia e na pr\u00f3pria Teologia.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>O percurso na Faculdade de Teologia aconteceu a partir da Diocese de Set\u00fabal e encontrou, desde essas alturas em que entrou no semin\u00e1rio, uma grande liga\u00e7\u00e3o entre as duas Dioceses, entre Set\u00fabal e Lisboa? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Era inevit\u00e1vel, porque os seminaristas de Lisboa e os seminaristas de Set\u00fabal, que somos poucos relativamente aos de Lisboa, acab\u00e1vamos por ter as mesmas aulas e acab\u00e1vamos por passar as manh\u00e3s juntos, e esse encontro certamente que nos fazia conhecer uns aos outros e as nossas realidades, pelo menos, tanto quanto era poss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Para al\u00e9m da ponte ou das pontes que ligam as duas margens, s\u00e3o duas comunidades que se v\u00e3o ligando dia-a-dia tamb\u00e9m, por raz\u00f5es de trabalho ou por raz\u00f5es de estudo&#8230;<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A Diocese de Set\u00fabal, este territ\u00f3rio, alberga muitas pessoas que trabalham ali na margem norte, mas que vivem deste lado, e por isso mesmo h\u00e1 aqui uns la\u00e7os humanos, laborais, que nos ligam profundamente e a pr\u00f3pria identidade da Diocese de Set\u00fabal n\u00e3o se entende sem a de Lisboa, porque \u00e9 uma filha desta Diocese, que \u00e9 Lisboa.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>La\u00e7os ainda mais pr\u00f3ximos agora pelo facto de um sacerdote de Set\u00fabal ser Bispo de Lisboa?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Imagino que sim, at\u00e9 porque, para n\u00f3s, enquanto Set\u00fabal, estamos a celebrar os 50 anos da Diocese e isso acho que constitui um sinal bonito de beleza e de caridade dentro da nossa Igreja.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Padre da Diocese de Set\u00fabal<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>E estes anos aqui em trabalho, de trabalho na Diocese de Set\u00fabal, muito ligado ao semin\u00e1rio, ligado tamb\u00e9m \u00e0 catequese e \u00e0 espiritualidade, que temas s\u00e3o estes centrais para a presen\u00e7a da Igreja na sociedade atual? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Creio que a quest\u00e3o da catequese \u00e9 sempre estruturante para a nossa Igreja. A inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3 \u00e9 fundamental para algu\u00e9m que entra e que queira viver a f\u00e9 que nos \u00e9 dada e, por isso, acho que fui um privilegiado por l\u00f3gica sinodal me terem metido, desculpem a express\u00e3o, neste caminho, que certamente por mim pr\u00f3prio n\u00e3o escolheria, mas que me deu muito e que, creio que me ensinou muito e que h\u00e1 de me ajudar, certamente, neste minist\u00e9rio que agora me \u00e9 pedido.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Sente essa necessidade de ser um setor, a inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3, que necessita de se reinventar constantemente?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Eu penso que sim, porque os interlocutores da catequese est\u00e3o em constante muta\u00e7\u00e3o, as gera\u00e7\u00f5es v\u00e3o mudando, os paradigmas sociais s\u00e3o diferentes e a catequese tem que ter uma linguagem que toque o cora\u00e7\u00e3o, a partir, certamente, da luz da f\u00e9 que se mant\u00e9m inalter\u00e1vel ao longo dos s\u00e9culos, mas que \u00e9 preciso torn\u00e1-la pr\u00f3xima daqueles que a recebem e a catequese desempenha, de facto, um papel importante nesse aspeto.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>E o semin\u00e1rio?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A nossa Igreja n\u00e3o se entende sem voca\u00e7\u00f5es e estas voca\u00e7\u00f5es ao sacerd\u00f3cio&#8230; Esse foi outro privil\u00e9gio que me foi dado de acompanhar os futuros padres desta diocese, um trabalho muito feito no escondimento, mas sempre com esperan\u00e7a e com muitos desafios.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Era tamb\u00e9m vig\u00e1rio-geral na diocese de Set\u00fabal. Que olhar abrangente sobre toda a realidade, sobre toda a diocese, sobre todos os setores da pastoral, permitiu essa miss\u00e3o? <\/em>Bem, eu fui nomeado vig\u00e1rio-geral h\u00e1 bem poucos meses, portanto, ainda estava quase em per\u00edodo de est\u00e1gio.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Tentou perceber que fun\u00e7\u00e3o era essa?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Fui percebendo alguma coisa, n\u00e3o muito, mas acho que, daquilo que me foi dado a conhecer, claro que ser vig\u00e1rio-geral implica ter um olhar muito mais vasto do que aquele que eu fui tendo nos outros servi\u00e7os, tamb\u00e9m de poder assistir o bispo diocesano no acompanhamento das par\u00f3quias e nas outras quest\u00f5es da gest\u00e3o e da administra\u00e7\u00e3o da diocese.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Bispo auxiliar na Diocese de Lisboa<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Agora, \u00e9 bispo auxiliar na diocese de Lisboa, uma sociedade multicultural marcada pelo grande fluxo de pessoas, sejam trabalhadoras, sejam turistas. O seu percurso tamb\u00e9m at\u00e9 por diferentes geografias, que abertura, que disponibilidade lhe d\u00e1 para o acolhimento t\u00e3o diversificado que \u00e9 necess\u00e1rio em Lisboa? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Eu penso que poder\u00e1 ajudar&#8230; N\u00e3o sei se o tempo dir\u00e1, mas, de facto, vivi em Lisboa h\u00e1 uns anos atr\u00e1s, j\u00e1 h\u00e1 mais de 20 anos, e passando por Lisboa percebemos que muita coisa mudou e est\u00e1 muito mais multicultural, n\u00e3o s\u00f3 pelos turistas que aqui v\u00eam, porque s\u00e3o muito mais do que aqueles que c\u00e1 vinham h\u00e1 20 anos atr\u00e1s, mas tamb\u00e9m por todo este conjunto de imigrantes que chegam aqui e \u00e0 procura de melhores situa\u00e7\u00f5es para a sua vida, na qual tamb\u00e9m eu experimentei, no seio da minha fam\u00edlia, e espero, como bispo, poder, de alguma maneira, como bom pastor tamb\u00e9m, poder ajudar estas pessoas que aqui chegam.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Ainda h\u00e1 bem pouco tempo convers\u00e1vamos na reda\u00e7\u00e3o da Ag\u00eancia Ecclesia, onde tamb\u00e9m h\u00e1 emigrantes, que talvez aquilo que n\u00f3s hoje ouvimos dizer dos imigrantes que est\u00e3o entre n\u00f3s, foi o que quem foi emigrante em outras paragens ouviu dizer de si. Isso aconteceu consigo quando estava na \u00c1frica do Sul, ou tem alguma mem\u00f3ria, at\u00e9 de alguma rejei\u00e7\u00e3o, dos emigrantes que l\u00e1 estavam? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Bem, eu nasci num pa\u00eds com apartheid e, portanto, a segrega\u00e7\u00e3o social era muito forte, era tudo compartimentado pelas ra\u00e7as e mesmo entre os brancos n\u00f3s perceb\u00edamos que, \u00e0s vezes, nem sempre, mas \u00e0s vezes havia racismo e, de alguma maneira, tamb\u00e9m experimentei-o na pele, ainda que tivesse vindo com oito anos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Tive a gra\u00e7a de, na altura, os meus pais me colocarem num col\u00e9gio cat\u00f3lico, onde aceitavam todas as ra\u00e7as e, na verdade, quando me recordo das turmas por onde passei, encontrava colegas de muitas latitudes no mundo e isso acho que, para quem est\u00e1 a crescer, ajuda a olhar para o outro e a respeitar a sua diferen\u00e7a e a dignidade que lhe assiste.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>E teme por algum desse discurso xen\u00f3fobo, de discrimina\u00e7\u00e3o negativa para com os imigrantes, que possa acontecer na Diocese de Lisboa? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Eu espero que n\u00e3o, se h\u00e1 esperan\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Mas vemo-lo a acontecer, infelizmente&#8230;<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Acontecendo, h\u00e1 um caminho a fazer de respeito m\u00fatuo que, sem isso, n\u00e3o conseguimos viver na paz. E creio que todo o mundo quer viver na paz. Sem este respeito nas diferen\u00e7as que nos assistem, certamente que a paz torna-se completamente imposs\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>E essa \u00e9 a proposta a fazer, \u00e9 a mensagem a passar para toda a sociedade?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Com certeza&#8230;.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Teme pela inseguran\u00e7a? Ou acha que \u00e9 um problema que n\u00e3o depende diretamente da comunidade imigrante?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">S\u00e3o problemas que v\u00e3o aparecendo, n\u00e3o percebo o alcance se \u00e9 assim t\u00e3o abrangente como \u00e0s vezes querem parecer&#8230; Creio que a Igreja, enquanto mensagem que tem para dar, \u00e9 esta mensagem de respeito m\u00fatuo, de procura da dignidade do outro, mesmo que o outro seja diferente de mim, mesmo que o outro viva situa\u00e7\u00f5es e culturas distintas da minha.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Na mensagem que o Patriarca de Lisboa, D. Rui Val\u00e9rio, escreveu, na altura da sua nomea\u00e7\u00e3o, 10 de dezembro, dizia que \u201co novo bispo de Lisboa vem conduzir a Igreja de Lisboa a patamares e horizontes de vida, de santidade, de esperan\u00e7a e de amor\u201d. Que fasquia \u00e9 esta que \u00e9 tra\u00e7ada por D. Rui Val\u00e9rio?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Eu acho que essa fasquia \u00e9 a miss\u00e3o de um bispo, que \u00e9 chamado a estar \u00e0 frente de uma Igreja local. Eu, aqui, hei de estar como bispo auxiliar, para auxiliar o D. Rui Val\u00e9rio, e como miss\u00e3o de bispo a que sou chamado, espero fazer isso de alguma maneira.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Pe\u00e7o a ora\u00e7\u00e3o ao povo de Deus, que Nosso Senhor me inspire e me d\u00ea um cora\u00e7\u00e3o para aprender a morrer. Na bula em que o Papa elege como bispo auxiliar, fala justamente sobre esta quest\u00e3o de morrer, e, portanto, sou chamado a morrer para mim pr\u00f3prio, para dar a minha vida, como Jesus, a esta Diocese de Lisboa.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Bispo em sinodalidade<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>\u00c9 nomeado Bispo num contexto muito particular da Igreja Cat\u00f3lica, nomeadamente pelo processo sinodal que est\u00e1 em curso. Que desafios coloca este processo ao ser Bispo hoje?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Penso que \u00e9 fazer a comunh\u00e3o. A Igreja \u00e9 como um corpo &#8211; j\u00e1 diz S\u00e3o Paulo &#8211; com muitas partes, e, fazer a comunh\u00e3o entre todas as partes, \u00e9 sempre um bom indicador de vida boa, desculpe dizer assim, de \u00a0vida de sa\u00fade. Um corpo integrado e saud\u00e1vel faz-se pela comunh\u00e3o das suas diversas partes. E creio que esse ser\u00e1 sempre um grande desafio, a unidade, a comunh\u00e3o, neste caminho conjunto.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>H\u00e1 indica\u00e7\u00f5es muito precisas sobre a lideran\u00e7a, sobre a responsabilidade, sobre a participa\u00e7\u00e3o de todos&#8230; Nomeadamente no que diz respeito ao ser Bispo, sente que h\u00e1 um paradigma de alguma forma diferente em rela\u00e7\u00e3o a anos passados, nomeadamente sobre esse exerc\u00edcio da lideran\u00e7a? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Creio que h\u00e1 uma continuidade&#8230; Como falamos, da minha vida, eu n\u00e3o me entendo sem me lembrar que vivi e nasci na \u00c1frica do Sul&#8230; Creio que a vida em Igreja faz-se por uma l\u00f3gica de continuidade e n\u00e3o propriamente de patamar de degraus.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Creio que h\u00e1 um fio condutor e que na hist\u00f3ria da nossa Igreja fomos caminhando at\u00e9 chegar a este momento e temos que dar gra\u00e7as a Deus por isso.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>E que experi\u00eancia leva de Set\u00fabal, no caso? Que experi\u00eancia leva desta partilha de responsabilidades, desta participa\u00e7\u00e3o de todos?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Bem, falamos muito desta dimens\u00e3o sinodal, de facto, com o Papa Francisco, mas aqui, a Diocese de Set\u00fabal sempre me ensinou isso. Nos servi\u00e7os por onde fui passando, como somos poucos, somos uma Igreja minorit\u00e1ria, e isso empurra-nos necessariamente para aprender a viver uns com os outros. N\u00e3o meramente a tolerar, mas a aprender a tirar o melhor de cada um para caminharmos no mesmo sentido. Creio que isso \u00e9 o que assiste \u00e0 l\u00f3gica sinodal e espero que me assista tamb\u00e9m no meu minist\u00e9rio episcopal.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Programa para Lisboa<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Acredito que j\u00e1 tenha folheado o programa pastoral da Diocese de Lisboa&#8230; Reparei que tem algumas linhas orientadoras, uma delas aponta para concretizar os desafios da Jornada Mundial da Juventude, do s\u00ednodo, valorizando a presen\u00e7a, a participa\u00e7\u00e3o e o acompanhamento junto de jovens na vida da Igreja. <\/em><em>Que trabalho \u00e9 este e, sobretudo, que desafio \u00e9 este que interessa cumprir ap\u00f3s a experi\u00eancia da Jornada Mundial da Juventude?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Eu penso que a Diocese de Lisboa, tendo sido anfitri\u00e3 deste grande acontecimento mundial que envolveu n\u00e3o s\u00f3 a sua pr\u00f3pria diocese, como as outras, inclusivamente a de Set\u00fabal, percebe-se que os jovens que a\u00ed foram integrados, envolvidos, fizeram uma experi\u00eancia muito bela de Igreja e de encontro com o Nosso Senhor. E creio que \u00e9 necess\u00e1rio dar continuidade a isto. Claro que se colocam sempre estas quest\u00f5es do compromisso, que \u00e9 uma quest\u00e3o de dif\u00edcil trato hoje em dia, mas certamente temos que encontrar caminhos para chegar a estes jovens e fazer caminho com eles, dando continuidade \u00e0quilo que \u00e9 passado.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Daquilo tamb\u00e9m que eu vou conhecendo &#8211; at\u00e9 porque Lisboa tem diversas universidades \u2013 A Miss\u00e3o Pa\u00eds tem tido um papel bastante importante e continuar\u00e1 certamente a ter para chegarmos at\u00e9 aos jovens. E n\u00e3o s\u00f3 chegar, como faz\u00ea-los encontrar a Igreja, encontrar Jesus e caminharem, descobrindo o que \u00e9 isto.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>A jornada aconteceu h\u00e1 um ano e meio. Sente altera\u00e7\u00f5es no envolvimento e no compromisso dos jovens? A partir de Set\u00fabal e daquilo que vai observando? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Sim, de forma mais imediata, a experi\u00eancia que eu tenho com os jovens \u00e9 a que tive ultimamente na par\u00f3quia. Eu n\u00e3o estava na par\u00f3quia quando aconteceu a Jornada Mundial, mas do grupo que l\u00e1 est\u00e1 percebo que h\u00e1 um desejo de continuidade, h\u00e1 um desejo de alguma seriedade no caminho de f\u00e9 que fazem e enquanto l\u00e1 estive tentei ir assistindo e caminhando com eles e imagino que o que ali se passa tamb\u00e9m de alguma maneira se reproduza em muitas outras par\u00f3quias e por isso creio que s\u00e3o sinais de esperan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Vou ainda retomar o Programa Pastoral, onde se prop\u00f5e uma convers\u00e3o mission\u00e1ria da Pastoral, precisamente, e a partir de cinco gestos, acolher, escutar, sair, propor e comunicar.<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Eu ia lhe pedir s\u00f3 um coment\u00e1rio a este \u00faltimo, o comunicar: que desafio \u00e9 este para a Igreja nos tempos de hoje?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A quest\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre dif\u00edcil&#8230; E conto uma hist\u00f3ria muito caricata que aconteceu estes dias. Fui dar outra entrevista e quando l\u00e1 cheguei estava a senhora da rece\u00e7\u00e3o a rir-se um bocadinho, acanhada, a rir-se e disse: \u2018desculpe, \u00e9 o senhor bispo que vem agora aqui&#8230; Olhe que h\u00e1 pouco confundi-o com um rapper, dizia ela. J\u00e1 ouviu falar de um rapper que se chama Bispo?\u2019 Eu j\u00e1 ouvi na r\u00e1dio qualquer coisa. Para dizer o qu\u00ea? De facto, disseram-lhe que vinha ali um bispo e a primeira imagem que lhe veio \u00e0 cabe\u00e7a n\u00e3o era propriamente a minha figura, ou uma figura parecida, era um rapper. E, portanto, acho que isto \u00e9 elucidativo daquilo que pode acontecer numa cultura que tem um sustento crist\u00e3o, mas que est\u00e1 em muta\u00e7\u00e3o e, por isso, a linguagem na comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre importante e fundamental e creio que este aqui \u00e9 o nosso grande desafio: perceber quem temos e perceber a linguagem que eles t\u00eam para podermos anunciar aquilo que somos chamados a anunciar.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>H\u00e1, de facto, uma dist\u00e2ncia de palavras, de conceitos, de mundos at\u00e9 diferentes, o religioso, nomeadamente cat\u00f3lico, e os destinat\u00e1rios da sua mensagem&#8230; Esse \u00e9 um \u00f3timo exemplo desse distanciamento&#8230;<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Estas dist\u00e2ncias s\u00e3o o desafio, para encurtarmos. O Papa Francisco fala muito da quest\u00e3o do querigma. O querigma \u00e9 esta ideia de que Jesus ama-nos e deu a vida por n\u00f3s, deu a vida por mim e pelo Paulo&#8230; E traduzir isto no quotidiano das pessoas ser\u00e1 um grande desafio, n\u00e3o s\u00f3 para quem \u00e9 bispo, n\u00e3o s\u00f3 para quem \u00e9 padre, mas para todos os leigos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Seja ele rapper ou seja bispo auxiliar de Lisboa&#8230;<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Isso mesmo!<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Que trabalhos vai ter \u00e0 sua responsabilidade no Patriarcado de Lisboa? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Eu ainda estou a assimil\u00e1-los. Tenho uma lista&#8230;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>J\u00e1 lhe entregaram a lista, ent\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">J\u00e1 me entregaram, \u00e9 verdade. Mas, com a az\u00e1fama dos preparativos, n\u00e3o me pude sentar com olhos de ver, mas sei que ficarei ligado \u00e0s par\u00f3quias que se denominam o termo, ocidental e oriental. A zona de Cascais, Estoril, Sintra, Amadora, e depois, do outro lado, Alverca, Vila Franca&#8230; S\u00e3o o espa\u00e7o onde terei que circular. E depois j\u00e1 h\u00e1 outras quest\u00f5es ligadas \u00e0 C\u00faria, que tamb\u00e9m ser\u00e3o confiadas. No fundo, venho suceder ao D. Joaquim Mendes e ser\u00e1 basicamente isso que farei.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Nessa sucess\u00e3o, h\u00e1 um setor que era a \u201cmenina dos olhos\u201d do D. Joaquim Mendes, que era o setor das pris\u00f5es. Ter\u00e1 tamb\u00e9m a seu cargo esse trabalho? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Sim, recordo-me de ter lido isso e acredito que h\u00e1 de ser tamb\u00e9m um espa\u00e7o para apostar a minha vida.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Quando fui vig\u00e1rio paroquial na par\u00f3quia do Montijo, no primeiro ano de padre, visitava a pris\u00e3o do Montijo. Ia l\u00e1 todos os meses e era um trabalho belo e sempre que l\u00e1 ia sa\u00eda realizado porque estava no s\u00edtio em que deveria estar, porque aqueles presos tinham desejo de Deus. Isso era sempre uma experi\u00eancia muito bela, ainda mais para quem estava a come\u00e7ar o minist\u00e9rio. Guardo belas mem\u00f3rias da pris\u00e3o do Montijo neste sentido da abertura de cora\u00e7\u00e3o de quem l\u00e1 estava.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Neste jubileu e tamb\u00e9m nesse ambiente de esperan\u00e7a, tema do jubileu, do ano em que \u00e9 ordenado bispo, o setor da pastoral prisional pode ser aquele setor onde se devolve essa esperan\u00e7a de vida? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Eu penso que sim. O Cora\u00e7\u00e3o de Jesus &#8211; estamos aqui no Santu\u00e1rio do Cora\u00e7\u00e3o de Jesus &#8211; espera da nossa parte, de todos, o arrependimento, a mudan\u00e7a de vida. E isso \u00e9 para todos, n\u00e3o s\u00f3 para os que est\u00e3o presos, mas para todos n\u00f3s, que somos pecadores. Ali, com certeza, com maior for\u00e7a, porque h\u00e1 um delito e, se ali est\u00e3o, por alguma coisa foi, e o perd\u00e3o de Jesus pode-lhes chegar e, na verdade, o ano jubilar n\u00e3o \u00e9 mais nem menos do que viver esse perd\u00e3o. Com certeza que a pris\u00e3o \u00e9 um espa\u00e7o extraordin\u00e1rio para que isso aconte\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>O D. Rui Gouveia tem 49 anos, o D. Alexandre de Palma tamb\u00e9m andar\u00e1 por a\u00ed, os dois outros bispos de Lisboa t\u00eam um pouco mais, pelos 60. \u00c9 uma equipa de episcopal jovem. Que sinal \u00e9 esse que \u00e9 dado pelo Papa Francisco ao escolher e ao nomear uma equipa jovem para o patriarcado de Lisboa? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Eu estou a chegar a Lisboa&#8230; N\u00e3o sei dar uma resposta com subst\u00e2ncia. Mas creio que \u00e9 um sinal de esperan\u00e7a! Estamos a viver o Jubileu da Esperan\u00e7a, n\u00e3o posso deixar de olhar para este facto que acabou de dizer como um sinal de esperan\u00e7a para justamente evangelizarmos esta diocese que \u00e9 confiada ao D. Rui Val\u00e9rio e que tem tr\u00eas bispos auxiliares para o assistirem.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Podem n\u00e3o ter um peso muito grande da tradi\u00e7\u00e3o, de uma experi\u00eancia de vida e de pastoral muito prolongada, mas t\u00eam a proximidade \u00e0s pessoas com quem s\u00e3o chamados a dialogar e a estar. Acredita que esses s\u00e3o fatores decisivos para a presen\u00e7a da Igreja nos dias de hoje?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Eu penso que sim. A proximidade ser\u00e1 sempre estruturante da vida crist\u00e3. N\u00e3o h\u00e1 vida crist\u00e3 sem proximidade, Jesus encarnou&#8230;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Agora, no novo paradigma, que \u00e9 preciso ir ao encontro&#8230;<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Certo! Creio que ainda h\u00e1 gente que nos procura, pelos batismos, pelos funerais, acho que s\u00e3o sempre campos excelentes para chegar at\u00e9 \u00e0s pessoas, at\u00e9 porque s\u00e3o as pessoas que nos procuram, e depois entender que espa\u00e7os \u00e9 que temos e que poderemos ter para chegar \u00e0queles que n\u00e3o v\u00eam ter connosco. Que n\u00f3s consigamos ir ter com eles! Ser\u00e3o dois vetores importantes ou dois movimentos importantes para a pastoral.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Que mensagem dirige aos diocesanos de Lisboa?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Mais do que tudo, o desejo de os servir de todo o cora\u00e7\u00e3o, dando a minha vida pelo Evangelho que sou agora chamado a anunciar-lhes. E rezem por mim!<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. 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