{"id":36052,"date":"2009-01-01T13:42:03","date_gmt":"2009-01-01T13:42:03","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/01\/01\/dia-mundial-da-paz-bispo-do-porto-pede-que-os-pobres-sejam-incluidos-na-resolucao-da-crise\/"},"modified":"2009-01-01T13:42:03","modified_gmt":"2009-01-01T13:42:03","slug":"dia-mundial-da-paz-bispo-do-porto-pede-que-os-pobres-sejam-incluidos-na-resolucao-da-crise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/dia-mundial-da-paz-bispo-do-porto-pede-que-os-pobres-sejam-incluidos-na-resolucao-da-crise\/","title":{"rendered":"Dia Mundial da Paz: Bispo do Porto pede que os pobres sejam inclu\u00eddos na resolu\u00e7\u00e3o da crise"},"content":{"rendered":"<p>Amados irm\u00e3os e irm\u00e3s, come\u00e7ando com Cristo e sua M\u00e3e mais um ano que Deus nos concede:  1. Pensando j\u00e1 nesta celebra\u00e7\u00e3o de Santa Maria M\u00e3e de Deus e Dia Mundial da Paz, recordei-me dalguns versos cantados na minha catequese de inf\u00e2ncia. Permiti que os retome com simplicidade: \u201cAno novo, vida nova [\u2026] \/ Hora em Deus bem come\u00e7ada \/ Homens a levem bem at\u00e9 ao fim\u201d. Bem come\u00e7ada foi por Deus, no que \u00e0 sua parte respeita, a hora definitiva do mundo. Ouvimos S\u00e3o Paulo, escrevendo aos G\u00e1latas: \u201cQuando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher e sujeito \u00e0 Lei, para resgatar os que estavam sujeitos \u00e0 Lei e nos tornar seus filhos adoptivos\u201d. Completou-se o tempo, da parte de Deus. Complete-se agora da nossa tamb\u00e9m. Temos em Cristo e no seu Esp\u00edrito o que nos faltava: a filia\u00e7\u00e3o divina. Aceitemo-la e desdobremo-la em fraternidade humana, concreta e realizada. Grande tarefa \u00e9 esta, que define activamente todo o tempo que houver, para que, assim como Maria nos deu o Filho de Deus, tamb\u00e9m a Igreja alargue na humanidade a filia\u00e7\u00e3o divina e a fraternidade universal. E nisto mesmo imitaremos os pastores de que nos falava o Evangelho, esses mesmos que, tendo visto Jesus com Maria e Jos\u00e9, \u201ccome\u00e7aram a contar o que lhes tinham anunciado sobre Aquele Menino\u201d. Tempo pleno e paz instaurada, com esta verdade inauguramos o ano, retomando a vida a partir de Deus, inesgot\u00e1vel Fonte de todo o bem. Na filia\u00e7\u00e3o divina e baptismal que o Esp\u00edrito de Cristo nos oferece, experimentamos aquela paz que s\u00f3 se atinge em harmonia profunda com Deus e os outros, assim se repercutindo em cada um de n\u00f3s. Harmonia total, transcendente, que vai muito al\u00e9m do quantific\u00e1vel, mas n\u00e3o dispensa nenhum compromisso concreto e solid\u00e1rio.  Ao Menino \u201cderam o nome de Jesus, indicado pelo Anjo, antes de ter sido concebido no seio materno\u201d, significando que \u201cDeus salva\u201d precisamente quando se faz um de n\u00f3s em proximidade absoluta de vida e morte, para ser ressurrei\u00e7\u00e3o e destino realizado, tempo completo j\u00e1 oferecido ao mundo.  2. \u00c9 connosco agora, neste \u201cano da gra\u00e7a de Nosso Senhor Jesus Cristo\u201d de 2009, que por Ele o \u00e9 decerto e por n\u00f3s o tem de ser tamb\u00e9m. Assim o prop\u00f5e, com a precis\u00e3o do actual contexto, o Papa Bento XVI, na sua Mensagem para este Dia Mundial da Paz, sob o t\u00edtulo mobilizador: \u201cCombater a pobreza, construir a paz\u201d. Pela an\u00e1lise e indica\u00e7\u00f5es que traz, esta Mensagem deve ser cuidadosamente estudada e correspondida por todos os cat\u00f3licos e pessoas de boa vontade. A Santa S\u00e9 manifesta-se hoje qual observat\u00f3rio permanente do estado do mundo, juntando a informa\u00e7\u00e3o local com a internacional, o que lhe permite an\u00e1lises sobremaneira avalizadas. E, tendo o conhecimento e a experi\u00eancia do conjunto, abre-nos aquele horizonte geral que hoje tende a ser o mais determinante da vida das pessoas. A globaliza\u00e7\u00e3o apresenta-se de facto como realidade inilud\u00edvel e \u00e9 no seu contexto que devemos analisar-nos como humanidade em devir. Mas, nesta an\u00e1lise, contando com a imprescind\u00edvel colabora\u00e7\u00e3o de economistas e soci\u00f3logos, estaremos tamb\u00e9m como os pastores evocados no Evangelho de h\u00e1 pouco, os quais, no que viram em Bel\u00e9m, reconheceram aquele significado maior que anunciaram a todos. Com eles, devemos olhar agora a globaliza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m no seu \u201csignificado espiritual e moral\u201d (Mensagem, 2): divisamos um projecto divino, que nos quer como \u00fanica fam\u00edlia humana, fraterna e correspons\u00e1vel. S\u00f3 assim a globaliza\u00e7\u00e3o interessa e corresponde \u00e0 expectativa de todos e \u00e0 vontade divina. \u00c9 \u00e0 mesma luz que encaramos a pobreza, fen\u00f3meno infelizmente bem concreto e quantitativamente mensur\u00e1vel, mas incluindo \u201cfen\u00f3menos de marginaliza\u00e7\u00e3o, pobreza relacional, moral e espiritual\u201d (Mensagem, 2)., tamb\u00e9m presentes em meios abastados. De tudo isto sabemos e devemos saber; com tudo isto sofremos e devemos sofrer, e sempre com que mais sofra. Mas juntando sentimento e conhecimento, para que o rem\u00e9dio seja adequado. Sigamos Bento XVI, ao considerar a pobreza mundial e as suas causas. Antes de mais no \u00e2mbito demogr\u00e1fico, que certos equ\u00edvocos tem trazido, alegando-se que a pobreza est\u00e1 associada ao crescimento da popula\u00e7\u00e3o e tomando este como factor negativo e at\u00e9 \u201cjustificativo\u201d de campanhas de redu\u00e7\u00e3o da natalidade, onde n\u00e3o faltam atentados \u00e0 dignidade da mulher, aos direitos dos pais e \u00e0 vida dos nascituros. Muito pelo contr\u00e1rio, verifica-se que nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas sa\u00edram da pobreza algumas popula\u00e7\u00f5es que registaram \u201cum incremento demogr\u00e1fico not\u00e1vel\u201d (Mensagem, 3), revelando-se o \u00edndice positivo da natalidade como potenciador de progresso. Outro \u00e2mbito de an\u00e1lise \u00e9 o das pandemias que atingem algumas zonas do mundo, pondo em causa os sectores produtivos e a vida em geral. O combate a tais pandemias passa certamente pela generaliza\u00e7\u00e3o de tratamentos e rem\u00e9dios; passa tamb\u00e9m pelos avan\u00e7os da medicina e dos cuidados m\u00e9dicos, requerendo a disponibilidade de cientistas e produtores de f\u00e1rmacos; e n\u00e3o dispensa, em especial nalguns casos como a SIDA, a educa\u00e7\u00e3o para uma sexualidade respeitadora da dignidade pr\u00f3pria e alheia. Terceiro \u00e2mbito de an\u00e1lise \u00e9 o da incid\u00eancia infantil da pobreza. Dos cuidados maternos \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, da vacina\u00e7\u00e3o aos recursos m\u00e9dicos e ambientais, tudo devemos \u00e0s crian\u00e7as. Sem esquecer a promo\u00e7\u00e3o e a estabilidade da fam\u00edlia, pois \u201cquando a fam\u00edlia se debilita, os danos recaem inevitavelmente sobre as crian\u00e7as\u201d (Mensagem, 5). Em quarto lugar, o Papa insiste na rela\u00e7\u00e3o existente entre desarmamento e progresso. Mas lamentamos com ele que, pelo contr\u00e1rio, se verifique o triste conluio da corrida aos armamentos com o subdesenvolvimento, desviando-se recursos que deveriam promover a vida e a economia de popula\u00e7\u00f5es inteiras. Acrescente-se a actual crise alimentar, que n\u00e3o se deve tanto \u00e0 insufici\u00eancia de alimentos como \u00e0 dificuldade em aceder-lhes, bem como a pr\u00e1ticas especulativas e \u00e0 inefic\u00e1cia das institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f3micas. Aumenta o fosso entre pa\u00edses ricos e pobres, porque a tecnologia evolui mais em quem mais tem e porque os produtos industriais vendem-se mais caro do que os agr\u00edcolas e as mat\u00e9rias-primas dos pa\u00edses pobres. Algumas observa\u00e7\u00f5es ainda, de import\u00e2ncia definitiva para ultrapassarmos a intoler\u00e1vel pobreza sofrida por t\u00e3o grande parte da popula\u00e7\u00e3o mundial: \u00e9 necess\u00e1ria uma globaliza\u00e7\u00e3o que atenda aos interesses de todos, em verdadeira \u201csolidariedade global\u201d (Mensagem, 8); um com\u00e9rcio internacional onde \u201ctodos os pa\u00edses tenham as mesmas possibilidades de acesso ao mercado mundial\u201d (Mensagem, 9); um mercado financeiro que sustente a longo prazo os investimentos e o desenvolvimento, at\u00e9 porque \u201cuma actividade financeira confiada no breve e brev\u00edssimo prazo torna-se perigosa para todos, inclusivamente para quem consegue beneficiar dela durante as fases de euforia financeira\u201d (Mensagem, 10); uma coopera\u00e7\u00e3o internacional que invista sobretudo na forma\u00e7\u00e3o, capacitando para a cria\u00e7\u00e3o de rendimento (Mensagem, 11); a indispens\u00e1vel conjuga\u00e7\u00e3o da responsabilidade pessoal com \u201cpositivas sinergias entre mercados, sociedade civil e Estados\u201d (Mensagem, 12).   Numa homilia como esta, mesmo em dia prop\u00edcio, n\u00e3o caberia uma an\u00e1lise s\u00f3cio-econ\u00f3mica s\u00f3 por si. Mas, ainda com Bento XVI, atingimos n\u00edveis de aprecia\u00e7\u00e3o mais profundos e at\u00e9 religiosos. Assim, quando se requer um \u201cc\u00f3digo \u00e9tico comum\u201d, em que prevale\u00e7am normas \u201cradicadas na lei natural inscrita pelo Criador na consci\u00eancia de todo o ser humano\u201d, a\u00ed mesmo onde cada um de n\u00f3s sente \u201co apelo a dar a pr\u00f3pria contribui\u00e7\u00e3o para o bem comum e paz social\u201d; ou insistindo na necessidade de \u201ccada homem se sentir pessoalmente atingido pelas injusti\u00e7as existentes no mundo e pelas viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos ligadas com elas\u201d (Mensagem, 8); em suma, \u201ca luta contra a pobreza precisa de homens e mulheres que vivam profundamente a fraternidade e sejam capazes de acompanhar pessoas, fam\u00edlias e comunidades por percursos de aut\u00eantico progresso humano\u201d (Mensagem, 13).  3. O que a Mensagem papal nos diz em termos mundiais, refor\u00e7a ali\u00e1s o que a Comiss\u00e3o Nacional Justi\u00e7a e Paz \u2013 organismo da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa para esta \u00e1rea \u2013 nos indicou recentemente para o nosso pa\u00eds (Audi\u00e7\u00e3o P\u00fablica \u2013 Dar voz aos pobres para erradicar a pobreza. Conclus\u00f5es, 8 de Novembro de 2008). Indica\u00e7\u00f5es que, no presente quadro socio-econ\u00f3mico, devemos retomar com a m\u00e1xima aten\u00e7\u00e3o e consequ\u00eancia. Assim se constata que \u201ca pobreza na nossa sociedade n\u00e3o \u00e9 uma fatalidade\u201d, por j\u00e1 dispormos de recursos para a ultrapassar; mas \u00e9 uma realidade e agrava-se, por injusta reparti\u00e7\u00e3o do que se alcan\u00e7a; e porque, como sociedade, n\u00e3o conseguimos \u201cproporcionar a todos uma igualdade de oportunidades no acesso a bens essenciais e a servi\u00e7os b\u00e1sicos de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, habita\u00e7\u00e3o ou seguran\u00e7a\u201d (Conclus\u00f5es, 2). Cabendo ao Estado nos seus v\u00e1rios n\u00edveis \u201cum papel determinante [\u2026] para prevenir as causas geradoras da pobreza e para minimizar as suas consequ\u00eancias\u201d, compete-nos a todos, como \u201csociedade civil\u201d, apoi\u00e1-lo e pression\u00e1-lo nesse sentido, bem como \u201cdesenvolver aquelas ac\u00e7\u00f5es de proximidade para as quais nem o mercado nem o Estado t\u00eam respostas satisfat\u00f3rias\u201d (Conclus\u00f5es, 4-5).  Assim deve ser e para isso contamos com a colabora\u00e7\u00e3o do Estado, reconhecendo e apoiando devidamente as iniciativas que manifestam tal aten\u00e7\u00e3o e entrega, protagonizadas por tantas Institui\u00e7\u00f5es Particulares de Solidariedade Social. Encontramos nelas o rosto mais expressivo da sensibilidade portuguesa \u00e0 quest\u00e3o social: s\u00e3o 4 896 e apoiam directamente cerca de 600 000 utentes e suas fam\u00edlias; cerca de 41 % s\u00e3o de iniciativa directa da Igreja Cat\u00f3lica, muitas outras de inspira\u00e7\u00e3o crist\u00e3, algumas de outras Igrejas e outras promovidas por cidad\u00e3os e organiza\u00e7\u00f5es civis. E o Padre Lino Maia, presidente da CNIS, que nos presta estes e outros dados em texto recente, comenta: \u201cMuitas s\u00e3o genu\u00ednas manifesta\u00e7\u00f5es do exerc\u00edcio de cidadania e muitas delas s\u00e3o fruto da caridade. Todas s\u00e3o um indubit\u00e1vel contributo para a inclus\u00e3o social e para a minora\u00e7\u00e3o da pobreza e para a instaura\u00e7\u00e3o de uma verdadeira fraternidade\u201d (Ag\u00eancia Ecclesia, 23 de Dezembro de 2008, p. 8). Retomando o documento da Comiss\u00e3o Nacional Justi\u00e7a e Paz, constataremos certamente que a erradica\u00e7\u00e3o da pobreza, respondendo imediatamente \u00e0s necessidades concretas de tantos concidad\u00e3os nossos, \u00e9 um ganho geral da sociedade no seu todo, como aproveitamento de recursos humanos, coes\u00e3o social, seguran\u00e7a e qualidade de vida. Na verdade, \u201ca luta pela erradica\u00e7\u00e3o da pobreza releva de uma op\u00e7\u00e3o colectiva acerca da sociedade em que desejamos viver\u201d (Conclus\u00f5es, 10). Uma sociedade de todos para todos, assim nos reencontraremos. Sabendo que, para a resolu\u00e7\u00e3o dos problemas sociais, contam em primeira linha aqueles que mais directamente os sofrem: \u201cs\u00f3 atrav\u00e9s de uma maior participa\u00e7\u00e3o dos pobres na concretiza\u00e7\u00e3o das medidas e projectos que lhes s\u00e3o dirigidos se podem encontrar as respostas mais eficientes\u201d (Conclus\u00f5es, 12). E n\u00e3o ser\u00e1 for\u00e7ada a alus\u00e3o \u00e0 verdade que hoje celebramos: para realizar a paz, Deus toma de Maria a nossa humanidade concreta e humilde, construindo na pobreza e com quem se faz \u201cpobre\u201d o Reino que finalmente nos inclui e compromete.                  4. Como Igreja do Porto, devemos acolher profunda e consequentemente a exorta\u00e7\u00e3o papal, neste Dia Mundial da Paz, que queremos primeiro dum ano inteiramente conforme: \u201ca cada disc\u00edpulo de Cristo bem como a toda a pessoa de boa vontade, dirijo, no in\u00edcio de um novo ano, um caloroso convite a alargar o cora\u00e7\u00e3o \u00e0s necessidades dos pobres e a fazer tudo o que lhe for concretamente poss\u00edvel para ir em seu socorro\u201d (Mensagem, 15). Preparamos na Diocese, durante este ano que come\u00e7a, a \u201cMiss\u00e3o 2010\u201d, para concluirmos a primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo com o refor\u00e7o da ac\u00e7\u00e3o evangelizadora de todas e cada uma das nossas comunidades, que n\u00e3o existem para si mesmas, mas para Deus e para os outros, na caridade de Cristo. Evangeliza\u00e7\u00e3o que se define precisamente, segundo a profecia que Jesus aplicou a si mesmo, como \u201can\u00fancio da Boa Nova aos pobres\u201d (Lc 4, 18).    Santa Maria, Senhora nossa, nos far\u00e1 participar do mesmo amor que a fez M\u00e3e de Cristo e, n\u2019Ele, da humanidade inteira!           S\u00e9 do Porto, 1 de Janeiro de 2009  <i>+ Manuel Clemente<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amados irm\u00e3os e irm\u00e3s, come\u00e7ando com Cristo e sua M\u00e3e mais um ano que Deus nos concede: 1. Pensando j\u00e1 nesta celebra\u00e7\u00e3o de Santa Maria M\u00e3e de Deus e Dia Mundial da Paz, recordei-me dalguns versos cantados na minha catequese de inf\u00e2ncia. 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