{"id":360460,"date":"2025-02-12T09:21:18","date_gmt":"2025-02-12T09:21:18","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=360460"},"modified":"2025-03-07T11:34:08","modified_gmt":"2025-03-07T11:34:08","slug":"o-poder-da-eutrapelia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-poder-da-eutrapelia\/","title":{"rendered":"O Poder da Eutrapelia"},"content":{"rendered":"<p><em>Ant\u00f3nio Salvado Morgado, Diocese da Guarda<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-271042 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/>\u201cEutrapelia\u201d, eis uma palavra que raramente \u00e9 ouvida ou lida e cujo significado escapar\u00e1 a muitos leitores. Como outros termos estranhos portugueses, \u201ceutrapelia\u201d fala grego. Seja bem-vinda a eutrapelia \u00e0s nossas vidas que importar\u00e1 conjugar com a esperan\u00e7a. Eutrapelicamente alegres na esperan\u00e7a, poderia ser este uma esp\u00e9cie de lema nos tempos, que nos \u00e9 dado viver. Tempos t\u00e3o estranhos como perigosos.<\/p>\n<p>Lembremos, ent\u00e3o, desde j\u00e1: a eutrapelia \u00e9 uma virtude, uma disposi\u00e7\u00e3o de car\u00e1cter, que foi estudada por fil\u00f3sofos da antiga Gr\u00e9cia, por te\u00f3logos crist\u00e3os como S. Tomas de Aquino [1225-1274] e Santo Alberto Magno [1196? -1280], e, como nos evidenciam aspectos das suas biografias, muito querida, cultivada e vivida por muitos santos como S. Tom\u00e1s More [1478-1535], o santo da \u00abUtopia\u00bb, S. Filipe N\u00e9ri [1515-1595], S. Francisco de Sales [1567-1622], S. Vicente de Paulo [1581-1660], S. Jo\u00e3o Bosco [1815-1888] e, mais perto de n\u00f3s, S\u00e3o Jo\u00e3o XXIII [1881-1963], o papa que iniciou o Conc\u00edlio Vaticano II e cuja bonomia encantou o mundo.<\/p>\n<p>A virtude da eutrapelia foi outrora tratada com especificidade por Arist\u00f3teles, particularmente na obra \u201c\u00c9tica a Nic\u00f3maco\u201d, nos cap\u00edtulos II e IV, como uma esp\u00e9cie de meio termo no divertimento, situando-a entre a palha\u00e7ada [por excesso] e a dureza [por defeito]. Depois foi ficando esquecida, ou mesmo ostracizada, at\u00e9 ser redescoberta pelo aristotelismo de S. Tom\u00e1s de Aquino [1225-1274] na \u201cSuma Teol\u00f3gica\u201d, para logo ser ignorada pelos pensadores ocidentais. e redescoberta modernamente pelo te\u00f3logo Hugo Rahner [1900-1968], irm\u00e3o do mais conhecido Karl Rahner [1904-1984]. Hugo Rahner, em 1952, publica um livro com o t\u00edtulo \u201cDer Spielende Mench\u201d onde realiza uma interpreta\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica e religiosa das divers\u00f5es humanas apresentando-as como um meio de participa\u00e7\u00e3o na vida do pr\u00f3prio Deus, colocando assim o divertimento humano no \u00e2mbito do jogo da gra\u00e7a. Mas, pelo que consigo saber, a eutrapelia continua a rarear nos tratados de \u00e9tica e de antropologia filos\u00f3fica e teol\u00f3gica, apesar de se manter bem viva numa enorme pl\u00eaiade de santos.<\/p>\n<p>Entre n\u00f3s descobri, sobre a eutrapelia, um texto do historiador Jos\u00e9 Mattoso [1933-2023] no excelente livrinho intitulado \u201cLevantar o C\u00e9u: os labirintos da Sabedoria\u201d. Dir\u00edamos que, talvez porque a eutrapelia chegou a estar ligada a atitudes obscenas, nos encontramos perante uma palavra perdida na hist\u00f3ria da nossa l\u00edngua, mas que significa uma virtude bem necess\u00e1ria \u00e0 sabedoria da vida dos seres humanos em geral e dos fi\u00e9is crist\u00e3os, em particular, como escreve o Papa Francisco.<\/p>\n<p>O que \u00e9, ent\u00e3o, a eutrapelia? Se a palavra n\u00e3o tivesse sido esquecida no uso que fazemos da nossa l\u00edngua, ela n\u00e3o necessitaria explica\u00e7\u00f5es de maior. A palavra \u00e9 grega, j\u00e1 se disse, e ela, significando brincadeira e divertimento, refere-se ao bom sentido de humor, traduzido na alegria de viver, na amabilidade social e bonomia na conviv\u00eancia, na leveza no falar e no agir. Enfim, uma virtude moral de pessoa espirituosa que propicia gra\u00e7a no conv\u00edvio humano, tornando-o acolhedor, descontra\u00eddo, divertido e agrad\u00e1vel. Associando-a \u00e0s virtudes teologais, raz\u00e3o ter\u00e1 Hugo Rahner quando a considera um modo de participa\u00e7\u00e3o na vida divina e v\u00ea o divertimento no dinamismo pr\u00f3prio do jogo da gra\u00e7a.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 tamb\u00e9m por isso que o Papa Francisco intitula um dos cap\u00edtulos finais da monografia \u201cEsperan\u00e7a: a Autobiografia\u201d com esta sugestiva express\u00e3o: \u00abA imagem de um Deus que sorri\u00bb, o que n\u00e3o deixar\u00e1 de se encontrar na sequ\u00eancia de outros documentos, a come\u00e7ar com a Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica \u201cEvangelii Gaudium\u201d que inicia com a seguinte frase: \u00abA Alegria do Evangelho enche o cora\u00e7\u00e3o e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus.\u00bb<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que n\u00e3o encontramos a palavra \u201ceutrapelia\u201d em \u201cEsperan\u00e7a: a Autobiografia\u201d onde, curiosamente, Francisco chama \u00e0 Esperan\u00e7a \u00abmenina espirituosa\u00bb, mas ela encontra-se l\u00e1, num amplo campo sem\u00e2ntico que facilmente nos desperta a aten\u00e7\u00e3o: humor, sorriso, ironia e autoironia, gracejo e gracejar, brincar e car\u00e1cter brincalh\u00e3o, rir, riso e risada, alegria e alegrar, jogo, piadas, historietas e anedotas, \u00e0 mistura, claro, com notas biogr\u00e1ficas e algumas anedotas.<\/p>\n<p>Importar\u00e1 n\u00e3o esquecer que Francisco, em conformidade com o t\u00edtulo daquele texto, pretende fazer salientar \u00abA imagem de um Deus que sorri\u00bb, chegando a imaginar que Deus criara o mundo com o poder do seu riso. \u00abDeus riu e o mundo existiu\u00bb, assim escreve. O poder criador de Deus \u2013 se assim nos podemos atrevidamente exprimir \u2013 \u00e9 o poder da eutrapelia divina que vai vendo que tudo \u00e9 bom e belo \u00e0 medida que, rindo, vai criando. No in\u00edcio, como em todos os tempos. E agora tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Que me lembre, nunca havia encontrado este modo de pensar a cria\u00e7\u00e3o, embora me tenha habituado a ler os primeiros textos b\u00edblicos vendo a\u00ed algum humor na narrativa. A situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixa de ser divertida. Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 que Deus anda pelo jardim a perguntar por Ad\u00e3o e n\u00e3o \u00e9 que Ad\u00e3o e Eva se escondem de Deus? Ent\u00e3o o omnisciente Deus n\u00e3o sabia onde eles se encontravam e Ad\u00e3o e Eva n\u00e3o sabiam que haviam de ser encontrados por mais que se escondessem? Jogar \u00e0s escondidas \u00e9 o que todas as crian\u00e7as \u2013 e os adultos com elas &#8211; sabem fazer e Deus, sorrindo, a entrar no jogo. Situa\u00e7\u00e3o bem divertida potenciadora de uma teologia espirituosa e espiritual da gra\u00e7a. E n\u00e3o \u00e9 que Francisco exorta os leitores a \u00abtentar fazer rir Deus\u00bb e a descobri-Lo como um \u00abDeus que sorri\u00bb e por isso convidou aquelas dezenas de humoristas para um encontro no Vaticano?<\/p>\n<p>Creio que nos habitu\u00e1mos a ler a B\u00edblia com seriedade a mais e n\u00e3o nos damos conta da dimens\u00e3o humor\u00edstica de muitas situa\u00e7\u00f5es. Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 que aqueles disc\u00edpulos de Jesus, depois de tr\u00eas anos de evangeliza\u00e7\u00e3o, j\u00e1 no monte da Ascens\u00e3o, ainda perguntam se chegara a hora de restaurar o reino de Israel e depois ainda ficaram de olhos cravados na nuvem que escondeu o Mestre at\u00e9 aparecerem dois Anjos a cham\u00e1-los \u00e0 realidade com uma esp\u00e9cie de ralhete pedag\u00f3gico? \u00abHomens da Galileia, que fazeis a\u00ed a olhar para o c\u00e9u?\u00bb<\/p>\n<p>Papalvos, estes \u00abHomens da Galileia\u00bb! Papalvos, e todos n\u00f3s com eles!<br \/>\nN\u00e3o sei se aqueles \u00abHomens da Galileia\u00bb desceram o monte a rir ou a chorar a sua orfandade. Mas sei que aquela situa\u00e7\u00e3o me faz sorrir a mim, a dois mil anos de dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Deus estar\u00e1 a rir-se de mim. Talvez eu esteja a esconder-me Dele quando julgo escrever sobre Ele, Ele que est\u00e1 acima de todos os dizeres humanos. Absolutamente indiz\u00edvel, vamo-nos escondendo Dele no jardim das palavras humanas, quando pensamos encontra-Lo a\u00ed. E Deus sorri.<\/p>\n<p>Haja flexibilidade de alma para levar uma vida com gra\u00e7a e jovialidade.<br \/>\nCom eutrapelia, diremos, apesar da nossa papalvice e dos dramas humanos que engendramos.<\/p>\n<p>Com eutrapelia e esperan\u00e7a, essa \u00abmenina espirituosa\u00bb que, com a excel\u00eancia que afasta os extremos, fortalece o sentido de comunidade, quebra barreiras, cria conex\u00f5es entre realidades diferentes e difunde o esp\u00edrito de paz.<\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: 10pt;\">(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f3nio Salvado Morgado, Diocese da 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