{"id":36010,"date":"2008-12-29T11:51:09","date_gmt":"2008-12-29T11:51:09","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/12\/29\/bento-xvi-um-ano-em-revista\/"},"modified":"2008-12-29T11:51:09","modified_gmt":"2008-12-29T11:51:09","slug":"bento-xvi-um-ano-em-revista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/bento-xvi-um-ano-em-revista\/","title":{"rendered":"Bento XVI, um ano em revista"},"content":{"rendered":"<p>Um olhar sobre a vida do Papa e da Igreja no mundo <!--more--> 2008 foi o ano da confirma\u00e7\u00e3o de Bento XVI como l\u00edder espiritual dos mais de mil milh\u00f5es de cat\u00f3licos em todo o mundo, num estilo pr\u00f3prio e bem definido que n\u00e3o agrada a todos \u2013 o \u201cestado de gra\u00e7a\u201d que se seguiu \u00e0 elei\u00e7\u00e3o de 2005 j\u00e1 se desvaneceu \u2013 mas que n\u00e3o deixa de ser fiel aos princ\u00edpios e convic\u00e7\u00f5es deste homem de f\u00e9, eminente te\u00f3logo, que assumiu como principal miss\u00e3o a tarefa \u2013 pouco medi\u00e1tica, \u00e9 certo \u2013 de devolver Jesus ao mundo, com tudo o que isso implica.  Este foi um ano cheio de pronunciamentos, gestos e significados que tiveram um vasto eco nos meios de comunica\u00e7\u00e3o social, provocando interesse, curiosidade, mas tamb\u00e9m pol\u00e9micas. Algumas destas revelaram-se fruto de leituras superficiais e inconsistentes \u2013 como bem exemplificou a c\u00e9lebre pol\u00e9mica em torno a utiliza\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o de \u00abPrada\u00bb.   Bento XVI continuou a mostrar vontade de estar aberto ao di\u00e1logo com todos, n\u00e3o s\u00f3 com aqueles que vivem na Igreja, mas tamb\u00e9m com aqueles que est\u00e3o fora. Consolidados alguns dos princ\u00edpios que ir\u00e3o sempre marcar a sua actua\u00e7\u00e3o, percebe-se que s\u00f3 na apar\u00eancia se est\u00e1 na presen\u00e7a de um pontificado invis\u00edvel ou de travagem.  Tomando em considera\u00e7\u00e3o os \u00faltimos meses, percebe-se que mesmo n\u00e3o estando permanentemente em viagem \u00e0 volta do mundo, Bento XVI tem uma longa lista de actividades. Centenas discursos e homilias, audi\u00eancias com os mais importantes l\u00edderes mundiais ou a s\u00e9rie de beatifica\u00e7\u00f5es que, em m\u00e9dia, ultrapassa j\u00e1 a de Jo\u00e3o Paulo II mostram que o actual Papa se adaptou \u00e0 sua fun\u00e7\u00e3o, com visibilidade quase di\u00e1ria nos cinco continentes. Alguns temas dominam as interven\u00e7\u00f5es de Bento XVI, da C\u00faria Romana (com destaque para o Secret\u00e1rio de Estado do Vaticano, seja em audi\u00eancias, seja em viagens ao estrangeiro) e as movimenta\u00e7\u00f5es da sua equipa diplom\u00e1tica. Para al\u00e9m das cr\u00edticas ao relativismo e ao secularismo da sociedade ocidental, que o Papa v\u00ea como uma amea\u00e7a \u00e0 pr\u00f3pria Igreja, h\u00e1 todo o leque das quest\u00f5es bio\u00e9ticas \u2013 aborto, eutan\u00e1sia, investiga\u00e7\u00e3o em embri\u00f5es \u2013 e da fam\u00edlia\/matrim\u00f3nio, nem sempre bem acolhidos por governantes e fazedores de opini\u00e3o.  A n\u00edvel teol\u00f3gico, fiel ao trabalho realizado durante mais de duas d\u00e9cadas na Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9, o Papa desafia constantemente os fi\u00e9is a darem testemunho das suas convic\u00e7\u00f5es, porque n\u00e3o concebe um catolicismo de pura intimidade, que n\u00e3o fala de si aos outros por receio de os ofender ou intimidar.  Ao longo deste tempo, o Papa tem tentado estabelecer uma nova estrat\u00e9gia para a Igreja, que ultrapassa, em muito, a esfera meramente administrativa. A badalada \u201creforma\u201d da C\u00faria Romana tem sido feita passo a passo, de forma discreta, este ano acelerada pelo morte do Cardeal L\u00f3pez Trujillo e pela resigna\u00e7\u00e3o dos Cardeais Jos\u00e9 Saraiva Martins e Francis Arinze.  Considerado por muitos como um Papa \u201ceurope\u00edsta\u201d, Joseph Ratzinger aprendeu a fazer do mundo a sua casa, como se viu na viagem \u00e0 Austr\u00e1lia, por exemplo, olhando para os diversos problemas que se colocam \u00e0 comunidade cat\u00f3lica em pa\u00edses onde a sua exist\u00eancia est\u00e1 amea\u00e7ada (com destaque para o M\u00e9dio Oriente) ou onde a dignidade humana n\u00e3o \u00e9 respeitada. Praticamente todas as crises internacionais j\u00e1 mereceram, por parte de Bento XVI, um apelo em favor da paz, da reconcilia\u00e7\u00e3o e do di\u00e1logo. O mesmo aconteceu em v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es de cat\u00e1strofe natural ou humana.  Tamb\u00e9m relevantes s\u00e3o as suas interven\u00e7\u00f5es, coadjuvadas pelas dos seus mais directos colaboradores e representantes em organismos internacionais, a respeito de temas particularmente em voga, como o aquecimento global ou a defesa do ambiente. As preocupa\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas chegaram em for\u00e7a ao Vaticano, seja em palavras, seja em actos \u2013 com a instala\u00e7\u00e3o de um grande complexo fotovoltaico sobre a sala Paulo VI &#8211; , dando for\u00e7a \u00e0 ideia de que estamos na presen\u00e7a de um \u201cimperativo moral\u201d para todos os que se preocupam com o futuro da humanidade.  Algumas quest\u00f5es geraram certa pol\u00e9mica, com destaque para a visita falhada \u00e0 Universidade \u201cLa Sapienza\u201d, de Roma, logo no in\u00edcio do ano, na qual o Papa manifestava a inten\u00e7\u00e3o de se apresentar como \u201cuma voz da raz\u00e3o \u00e9tica da humanidade\u201d.  \u201cN\u00e3o venho impor a f\u00e9, mas pedir a coragem para a verdade\u201d, referia o texto que Bento XVI tinha preparado para a visita de 17 de Janeiro, que acabou por ser adiada devido a protestos de membros da comunidade acad\u00e9mica desta institui\u00e7\u00e3o, que foi criada por um Papa no s\u00e9culo XIV. O facto de estarmos perante uma institui\u00e7\u00e3o independente de autoridades pol\u00edticas e eclesi\u00e1sticas n\u00e3o invalida, escreve Bento XVI que ali n\u00e3o seja escutada \u201ca sabedoria das grandes tradi\u00e7\u00f5es religiosas\u201d. Esta frase ajuda a compreender muitas das interven\u00e7\u00f5es pontif\u00edcias dos \u00faltimos anos.  Internamente, o Papa e os Cardeais da C\u00faria Romana ainda t\u00eam necessidade de explicar que a decis\u00e3o de \u201cliberalizar\u201d o Missal de 1962, anterior \u00e0 reforma conciliar, n\u00e3o representa um \u201cretrocesso\u201d nem uma tentativa de refor\u00e7ar a corrente tradicionalista no seio da Igreja. Tamb\u00e9m neste campo, a nova ora\u00e7\u00e3o de Sexta-feira Santa pelos judeus levou a algumas explica\u00e7\u00f5es do Vaticano, perante reac\u00e7\u00f5es de desagrado do mundo hebraico, que amea\u00e7ou mesmo congelar o di\u00e1logo que existe entre as duas partes \u2013 com fracos resultados no que diz respeito \u00e0 presen\u00e7a cat\u00f3lica na Terra Santa, \u00e9 justo dizer.  O Papa deixou claro, desde muito cedo, qual era o caminho que queria percorrer, nunca se coibindo de condenar a viol\u00eancia em nome de Deus e da Religi\u00e3o, sem deixar abrir caminho para um di\u00e1logo \u201cfranco e sincero\u201d, entre culturas e religi\u00f5es, que tem como condi\u00e7\u00e3o fundamental o debate aberto daquilo que une e, tamb\u00e9m, daquilo que distingue, para se poder reconhecer totalmente o interlocutor.    O actual Papa tem procurado, sobretudo, falar com clareza e de forma sistem\u00e1tica sobre as quest\u00f5es essenciais da f\u00e9. Bento XVI, de facto, \u00e9 menos decifr\u00e1vel para o mundo medi\u00e1tico de hoje: para al\u00e9m do carisma ligado ao lugar que ocupa, ele destaca-se por oferecer orienta\u00e7\u00e3o num mundo perdido na \u201cditadura do relativismo\u201d que tanto condena, apresentando um programa coerente e uma capacidade intelectual acima de qualquer suspeita. Estes ingredientes n\u00e3o bastam, ainda assim, para fazer dele uma figura apetec\u00edvel.  <b>Autobalan\u00e7o: Sidney e o S\u00ednodo<\/b> O pr\u00f3prio Bento XVI fez, no Vaticano, um balan\u00e7o de 2008, que considerou ter sido \u201crico de olhares retrospectivos sobre datas incisivas da hist\u00f3ria recente da Igreja\u201d, bem como de \u201cacontecimentos que trouxeram consigo sinais de orienta\u00e7\u00e3o para o nosso caminho rumo ao futuro\u201d. O Papa manifestou a sua satisfa\u00e7\u00e3o pelo decorrer dos acontecimentos do ano, dando uma import\u00e2ncia particular \u00e0s Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ) de Sidney, no m\u00eas de Julho, e ao S\u00ednodo dos Bispos que decorreu em Outubro. Sobre a grande celebra\u00e7\u00e3o juvenil que decorreu na Austr\u00e1lia, o Papa disse que \u201cv\u00e1rias an\u00e1lises em voga tendem a considerar estas jornadas como uma variante da moderna cultura juvenil, uma esp\u00e9cie de festival rock modificado em sentido eclesial, com o Papa como \u00abstar\u00bb. Com ou sem f\u00e9, estes festivais seriam sempre a mesma coisa, no fundo, e assim se pensa ser poss\u00edvel remover a quest\u00e3o sobre Deus\u201d. Bento XVI admitiu que h\u00e1 mesmo vozes cat\u00f3licas que v\u00eam nestas iniciativas um \u201cgrande espect\u00e1culo, belo, mas de pouco significado para a quest\u00e3o sobre a f\u00e9 e a presen\u00e7a do Evangelho no nosso tempo\u201d.  \u201cSeriam momentos de uma \u00eaxtase festiva, que no fim de contas, contudo, deixariam tudo como dantes, sem influ\u00eancia de forma profunda a vida\u201d, indicou. Em resposta a estas cr\u00edticas, o Papa disse que \u00e9 fundamental analisar o tipo de alegria que se respirou em Sidney \u2013 citando mesmo Nietzsche a respeito deste tema -, onde mais de 200 mil jovens se reuniram sem perturbar a vida da cidade. A festa, ali\u00e1s, surgiu ap\u00f3s um \u201clongo caminho exterior e interior\u201d, tornando-se uma festa da f\u00e9 em Cristo.  \u201cNa Austr\u00e1lia, n\u00e3o foi por acaso que a longa Via-Sacra ao longo da cidade se tornou o evento culminante das Jornadas. Ela resumia mais uma vez tudo o que aconteceu nos anos precedentes e indicou Aquele que re\u00fane todos \u00e0 sua volta, o Deus que nos ama at\u00e9 \u00e0 cruz. Aqui tamb\u00e9m o Papa n\u00e3o \u00e9 a \u00abstar\u00bb em volta da qual gira tudo\u201d, disse. A estrela destas JMJ foi, para Bento XVI, o pr\u00f3prio Cristo e o seu Esp\u00edrito, uma for\u00e7a criadora que gera comunh\u00e3o, \u201camizades que encorajam um estilo de vida diferente\u201d.  <i>S\u00ednodo<\/i> A profunda liga\u00e7\u00e3o entre a B\u00edblia e o Esp\u00edrito Santo foi, segundo o Papa, um dos grandes m\u00e9ritos do S\u00ednodo dos Bispos que, em Outubro passado, reuniu no Vaticano 253 padres sinodais dos cinco Continentes. \u201cPercebemos que os escritos b\u00edblicos foram redigidos em \u00e9pocas determinadas e, portanto, constituem neste sentido um livro proveniente do passado, antes de mais. No entanto, vimos que a sua mensagem n\u00e3o ficou no passado nem pode ser fechada nele: Deus, no fundo, fala sempre ao presente\u201d, explicou Bento XVI. Segundo o Papa, era importante \u201cexperimentar que na Igreja h\u00e1 um Pentecostes ainda hoje, isto \u00e9, que ela fala em muitas l\u00ednguas e n\u00e3o s\u00f3 no sentido exterior de estar representada em todas as grandes l\u00ednguas do mundo, mas tamb\u00e9m no sentido mais profundo\u201d. \u201cNa Igreja est\u00e3o presentes os m\u00faltiplos modos de experi\u00eancia de Deus e do mundo, a riqueza das culturas, e s\u00f3 assim surge a vastid\u00e3o da exist\u00eancia humana e, a partir dela, a vastid\u00e3o da Palavra de Deus\u201d, acrescentou. Bento XVI destacou o facto de existir \u201cuma multid\u00e3o de l\u00ednguas que ainda esperam pela Palavra de Deus contida na B\u00edblia\u201d e os testemunhos de leigos de todas as partes do mundo que \u201cn\u00e3o s\u00f3 vivem a Palavra de Deus, mas sofrem mesmo por causa dela\u201d. O Papa considerou como \u201cprecioso\u201d o discurso in\u00e9dito de um Rabino, na aula sinodal, sobre as Escrituras de Israel, bem como a presen\u00e7a do Patriarca Ecum\u00e9nico de Constantinopla (Ortodoxo), Bartolomeu I. \u201cEsperemos agora que as experi\u00eancias e as aquisi\u00e7\u00f5es do S\u00ednodo tenham uma influ\u00eancia eficaz na vida da Igreja: na rela\u00e7\u00e3o pessoal com as Sagradas Escrituras, na sua interpreta\u00e7\u00e3o na Liturgia e na catequese, bem como na pesquisa cient\u00edfica, para que a B\u00edblia n\u00e3o fique como uma Palavra do passado, mas a sua vitalidade e actualidade sejam lidas e discutidas na vastid\u00e3o das dimens\u00f5es dos seus significados\u201d, concluiu.  <b>Os momentos de 2008<\/b> <i>Viagens<\/i> Bento XVI visitou os Estados Unidos da Am\u00e9rica e Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas de 15 a 21 de abril de 2008), tendo como momentos mais marcantes as passagens pela Casa Branca, a sede da ONU, o Ground Zero e as internven\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0 crise dos abusos sexuais de menores. Em Nova Iorque, o Papa tornou-se o terceiro chefe da Igreja Cat\u00f3lica a discursar perante as Na\u00e7\u00f5es Unidas e falou da promo\u00e7\u00e3o dos direitos humanos, do papel que a ONU desempenha na promo\u00e7\u00e3o desses mesmo direitos, da bio\u00e9tica e da miss\u00e3o que a religi\u00e3o pode desempenhar na promo\u00e7\u00e3o dos valores respons\u00e1veis. Sidney, como j\u00e1 foi referido, acolheu a  XXIII Jornada Mundial da Juventude (12-21 de Julho de 2008), marcada pelo clima de festa, pelos encontros com os abor\u00edgenes, pelas mensagens em favor do ambiente e pela multid\u00e3o em festa na vig\u00edlia com o Papa. Bento XVI convidou os presentes a manterem-se unidos, na Igreja, perante um mundo cada vez mais fragmentado A viagem a Fran\u00e7a, pelo 150\u00b0 anivers\u00e1rio das Apari\u00e7\u00f5es de Lourdes (12-15 de setembro de 2008), iniciou-se sob o signo da laicidade e da seculariza\u00e7\u00e3o, com o Papa e Nicolas Sarkozy unidos em volta da \u00ablaicidade positiva\u00bb   Bento XVI passou pelo Eliseu para deixar mensagem sobre o papel da Igreja na sociedade e o futuro da humanidade. J\u00e1 nos Piren\u00e9us, insiste na voca\u00e7\u00e3o especial de Lourdes, em particular pela aten\u00e7\u00e3o aos doentes, e na necessidade de confiar em Deus. Dentro da It\u00e1lia, o Papa passou por Pompeia, Cagliari, Santa Maria di Leuca e Brindisi, Savona e G\u00e9nova.  Apesar de n\u00e3o ter estado no Canad\u00e1, Bento XVI quis estar presente, via sat\u00e9lite, na celebra\u00e7\u00e3o conclusiva do 49.\u00b0 Congresso Eucar\u00edstico Internacional, que decorreu no Quebeque.  <i>S\u00ednodo dos Bispos<\/i> Cerca de 400 pessoas participaram na XII Assembleia Geral do S\u00ednodo dos Bispos sobre \u201cA Palavra de Deus na vida e na miss\u00e3o da Igreja\u201d, em representa\u00e7\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica nos 5 continentes. A reuni\u00e3o magna, que decorreu de 5 a 26 de Outubro, congregou 253 padres sinodais \u2013 em representa\u00e7\u00e3o de 13 Igrejas orientais cat\u00f3licas sui iuris, de 113 Confer\u00eancias Episcopais, de 25 dicast\u00e9rios da C\u00faria Romana e das Uni\u00f5es dos Superiores Gerais (Institutos Religiosos masculinos e femininos). No in\u00edcio dos trabalhos, o Papa deixou convites \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o de Deus e alerta para a crescente descristianiza\u00e7\u00e3o de pa\u00edses marcados pela evangeliza\u00e7\u00e3o. Posteriormente, apresentou uma reflex\u00e3o sobre a exegese b\u00edblica que n\u00e3o se encontrava no calend\u00e1rio dos trabalhos.  O Papa pediu se supere o dualismo entre exegese e teologia que, em algumas ocasi\u00f5es, leva a uma leitura sem f\u00e9 da B\u00edblia. Falando a partir de apontamentos do seu caderno pessoal de notas e sentado no centro da sala sinodal, Bento XVI adiantou parte do trabalho que est\u00e1 a realizar para redigir o segundo volume do seu livro \u00abJesus de Nazar\u00e9\u00bb. Os trabalhos do S\u00ednodo dos Bispos chegaram ao fim com a vota\u00e7\u00e3o, aprova\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o do elenco final das propostas. O documento, dividido em 55 pontos (as propositiones), est\u00e1 estruturado em tr\u00eas cap\u00edtulos. Ap\u00f3s uma introdu\u00e7\u00e3o, que engloba duas proposi\u00e7\u00f5es, o primeiro cap\u00edtulo tem como t\u00edtulo \u201cA Palavra de Deus na f\u00e9 da Igreja\u201d (3-13). A segunda parte trata da \u201cPalavra de Deus na vida da Igreja\u201d (14-37). O \u00faltimo cap\u00edtulo refere-se \u00e0 \u201cPalavra de Deus na miss\u00e3o da Igreja\u201d (38-54). A \u00faltima proposi\u00e7\u00e3o, intitulada \u201cMaria Mater Dei et Mater fidei\u201d, \u00e9 a conclus\u00e3o do documento. Na Missa de encerramento, Bento XVI anuncia a primeira viagem do pontificado a \u00c1frica, com passagem pelos Camar\u00f5es e por Angola, em Mar\u00e7o de 2009. <i>Discursos e encontros<\/i> Os desafios lan\u00e7ados pela \u201ccrise\u201d entre o Ocidente e o Isl\u00e3o t\u00eam sido analisados desde v\u00e1rios prismas, sempre com a preocupa\u00e7\u00e3o de perceber qual ser\u00e1 o futuro do di\u00e1logo com os mu\u00e7ulmanos. Os mais recentes sinais de aproxima\u00e7\u00e3o entre o Vaticano e um grupo de representantes isl\u00e2micos levaram j\u00e1 ao primeiro encontro de um f\u00f3rum permanente para o di\u00e1logo de aprofundamento e conhecimento rec\u00edprocos entre crist\u00e3os e mu\u00e7ulmanos, de 4 a 6 de Novembro. Na ocasi\u00e3o, o Papa encorajou os presentes para se \u201cultrapassar todos os mal entendidos e disc\u00f3rdias. Vamos resolver o passado e corrigir as imagens passadas, que ainda hoje podem tornar dif\u00edceis as rela\u00e7\u00f5es. Vamos trabalhar conjuntamente para educar as pessoas, em especial os jovens, e construir um futuro comum\u201d. Do ponto de vista ecum\u00e9nico, o ano fica marcado pela aproxima\u00e7\u00e3o constante a Bartolomeu I, Patriarca Ecum\u00e9nico de Constantinopla (Ortodoxo), que falou no S\u00ednodo dos Bispos, e pelas mortes de duas figuras de proa do mesmo mundo ortodoxo: Alexis II, Patriarca da R\u00fassia, e o Arcebispo Christodoulos, Primaz da Gr\u00e9cia. A China esteve no centro de uma jornada de ora\u00e7\u00e3o, a 24 de Maio, e a realiza\u00e7\u00e3o dos Jogos Ol\u00edmpicos, em Pequim, serviu para v\u00e1rias interven\u00e7\u00f5es do Papa, manifestando respeito e estima pelo gigante asi\u00e1tico. O caminho de aproxima\u00e7\u00e3o comum, contudo, continua a esbarrar na intransig\u00eancia chinesa, que v\u00ea no Vaticano uma inger\u00eancia externa nos assuntos do pa\u00eds, mesmo que se trate da nomea\u00e7\u00e3o de Bispos. Bento XVI mostrou-se chocado com os atentados que atingiram a cidade indiana de Mumbai (antiga Bombaim), manifestando-se \u201cprofundamente preocupado pela irrup\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia em Mumbai\u201d e oferecendo as suas condol\u00eancias as fam\u00edlias enlutadas por causa destes \u201cataques brutais\u201d. A crise financeira internacional foi alvo de v\u00e1rias interven\u00e7\u00f5es da Santa S\u00e9 e do pr\u00f3prio Papa, que deixou recados \u00e0 Banca, apelando \u00e0 solidariedade em tempo de dificuldades para as fam\u00edlias e pedindo apoio \u00e0 actividade produtiva. A maior parte dos observadores esperava um documento papal de car\u00e1cter social. A mensagem para o Dia Mundial da Paz 2009, intitulada subordinada ao tema \u201cCombater a pobreza, construir a Paz\u201d, deixa adivinhar que a nova enc\u00edclica dever\u00e1 estar para breve. J\u00e1 na habitual mensagem para o Dia Mundial das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais, o Papa defendeu a necessidade de uma \u00abinfo\u00e9tica\u00bb contra o materialismo econ\u00f3mico e o relativismo \u00e9tico.  A 28 de Junho, Bento XVI recebeu, no Vaticano, o Presidente da Rep\u00fablica Portugesa, An\u00edbal Cavaco Silva. Segundo breve comunicado da Santa S\u00e9, que classificava o encontro como \u201ccordial\u201d, em cima da mesa estiveram \u201ctemas de interesse comum\u201d, relativos \u00e0 situa\u00e7\u00e3o do nosso pa\u00eds, em especial a \u201caplica\u00e7\u00e3o da Concordata de 2004\u201d. A este respeito, no final do encontro, Cavaco Silva assegurou que &#8220;Portugal ir\u00e1 respeitar totalmente a letra e o esp\u00edrito da Concordata\u201d.    <i>Vaticano<\/i> A C\u00faria Romana conheceu novas caras, com a chegada dos Cardeais Ennio Antonelli e Antonio Ca\u00f1izares, para os lugares do falecido Cardeal L\u00f3pez Trujillo, presidente do Conselho Pontif\u00edcio para a Fam\u00edlia, e do Cardeal Francis Arinze, prefeito da Congrega\u00e7\u00e3o para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos. Outra cara mais habituada aos corredores do Vaticano, o Arcebispo Angelo Amato, ocupou o lugar do Cardeal portugu\u00eas D. Jos\u00e9 Saraiva Martins na presid\u00eancia da Congrega\u00e7\u00e3o para as Causas dos Santos. Os 50 anos da morte de Pio XII foram uma ocasi\u00e3o para que o actual Papa sa\u00edsse em defesa do seu predecessor, rezando mesmo para \u201cque prossiga felizmente a causa de beatifica\u00e7\u00e3o do Servo de Deus\u201d. Bento XVI considera que o Pio XII n\u00e3o poupou esfor\u00e7os para ajudar os judeus e pediu que sejam superados os \u201cpreconceitos\u201d sobre esta figura, que guiou a Igreja Cat\u00f3lica durante a II Guerra Mundial. A celebra\u00e7\u00e3o do Ano Paulino, convocado pelo Papa, tem sido marcada no Vaticano pelo ciclo de catequeses de Bento XVI sobre o Ap\u00f3stolo Paulo e a Igreja nascente. Em Junho, o Papa imp\u00f4s o p\u00e1lio ao Arcebispo de \u00c9vora, numa celebra\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo marcada por gestos ecum\u00e9nicos. Mais tarde, em Outubro, Bento XVI presidiu \u00e0 cerim\u00f3nia em que proclamou quatro novos Santos, incluindo a primeira indiana canonizada no Vaticano.  <b>A figura<\/b> Paulos Faraj Rahho, Arcebispo de Mossul (Norte do Iraque) \u00e9 o rosto mais vis\u00edvel da persegui\u00e7\u00e3o e da viol\u00eancia que atingiu v\u00e1rias comunidades cat\u00f3licas um pouco por todo o mundo, ao longo do ano que agora termina. O mundo acompanhou com emo\u00e7\u00e3o as semanas de rapto deste prelado da Igreja de rito caldeu, ligada a Roma, a maior comunidade cat\u00f3lica no Iraque. Depois de duas semanas de avan\u00e7os e recuos nas negocia\u00e7\u00f5es, com v\u00e1rios apelos em favor da sua liberta\u00e7\u00e3o vindos desde o Vaticano e mesmo de vozes mu\u00e7ulmanas, o triste epis\u00f3dio teve o desfecho que ningu\u00e9m queria narrar. A morte de D. Rahho teve contornos chocantes, por ter ficado evidente que os seus raptores o trataram como uma esp\u00e9cie de mercadoria, tendo-o abandonado numa lixeira quando, ap\u00f3s o seu falecimento, deixou de ter qualquer interesse. O Arcebispo de Mossul foi o rosto mais conhecido da persegui\u00e7\u00e3o, da opress\u00e3o e da discrimina\u00e7\u00e3o que atinge brutalmente a comunidade crist\u00e3 no Iraque, que foge em massa para o estrangeiro apesar de se encontrar neste territ\u00f3rio desde tempos anteriores ao nascimento de Maom\u00e9 e do Islamismo. Lamentavelmente, o final do ano viria a provar que o sacrif\u00edcio deste homem que dedicou a sua vida \u00e0 causa do di\u00e1logo e do entendimento entre as diversas sensibilidades no Iraque ainda n\u00e3o produziu frutos de paz e de conc\u00f3rdia: os crist\u00e3os foram escorra\u00e7adas de Mossul, duramente perseguidos e v\u00e1rios assassinatos culminaram um ano negro para quem professa a f\u00e9 em Jesus no meio da viol\u00eancia e do caos que se instalaram no pa\u00eds, ao longo dos \u00faltimos anos. \u00c0 morte de D. Paulos Faraj Rahho deve somar-se, como elemento mais marcante deste ano de mart\u00edrio para a Igreja, o massacre no Estado indiano de Orissa que, desde Agosto, se vem alargando a outras regi\u00f5es da \u00cdndia. Aparentemente esquecido pelo mundo ocidental, trata-se da maior persegui\u00e7\u00e3o contra comunidades crist\u00e3s dos \u00faltimos anos, tendo provocado centenas de mortos, dezenas de milhares de desalojados e elevados danos materiais em igrejas e nas habita\u00e7\u00f5es dos crist\u00e3os, que em muitos casos ainda permanecem em campos de refugiados sem as m\u00ednimas condi\u00e7\u00f5es e duramente vigiados pelo governo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um olhar sobre a vida do Papa e da Igreja no 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