{"id":36003,"date":"2008-12-26T23:27:20","date_gmt":"2008-12-26T23:27:20","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/12\/26\/jesus-tambem-nasceu-em-terra-pokot-quenia\/"},"modified":"2008-12-26T23:27:20","modified_gmt":"2008-12-26T23:27:20","slug":"jesus-tambem-nasceu-em-terra-pokot-quenia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/jesus-tambem-nasceu-em-terra-pokot-quenia\/","title":{"rendered":"Jesus tamb\u00e9m nasceu em terra P\u00f6kot (Qu\u00e9nia)"},"content":{"rendered":"<p>Chamou-me a aten\u00e7\u00e3o que as crian\u00e7as hoje vestiam diferente. Roupas novas, cheios de cor, limpinhas. Dirigia-me da nossa casa da comunidade para a capela. O dia era importante para mim. Verdadeiramente havia algo distinto no ar. Era dia de Natal. Pela primeira vez iria presidir \u00e0 Eucaristia na capela central da nossa miss\u00e3o de Kacheliba\u2026 confesso estar um pouco nervoso. N\u00e3o domino ainda a l\u00edngua local, o swahili. E devia presidir \u00e0 Eucaristia. E logo no dia de Natal com a capela a abarrotar de gente\u2026   No dia anterior, noite de Natal, tinha ido com o meu colega, P. Hubert, celebrar a vig\u00edlia na comunidade de Kodich, uma das capelas mais antigas da miss\u00e3o. N\u00e3o fica muito longe. Cerca de 25km do centro de Kacheliba. Por\u00e9m, a noite j\u00e1 ca\u00edda na estrada de terra batida, exigia maior cuidado na condu\u00e7\u00e3o. A sombra da luz do carro ocultava por vezes aut\u00eanticas crateras na picada. Mas nada do outro mundo. T\u00ednhamos sim de ter cuidado com o casal que lev\u00e1vamos connosco. \u00c9 da praxe. Todas as vezes que sa\u00edmos a algum lugar h\u00e1 sempre gente a pedir uma boleia. Desta vez lev\u00e1vamos connosco um casal que regressava \u00e0 sua aldeia, depois de ter estado todo o dia no centro de sa\u00fade de Kacheliba. O costume &#8211; a doen\u00e7a mais comum nestas terras: mal\u00e1ria com gastroenterites. A primeira devido ao calor que \u00e9 uma aut\u00eantica incubadora para a prolifera\u00e7\u00e3o dos mosquitos. A segunda devido \u00e0 falta de \u00e1gua pot\u00e1vel. E estamos s\u00f3 no in\u00edcio da \u00e9poca seca. A \u00e1gua que muitas vezes conseguem arranjar \u00e9 retirada de buracos feitos nos leitos dos rios ou nos charcos que armazenam a \u00e1gua das \u00faltimas chuvas ca\u00eddas j\u00e1 h\u00e1 mais de m\u00eas e meio. Na bagagem lev\u00e1vamos tamb\u00e9m um elemento indispens\u00e1vel para a noite: um bid\u00e3o com algum gas\u00f3leo para o gerador de energia da capela. Na verdade, n\u00e3o h\u00e1 luz el\u00e9ctrica por estas bandas. Esta capela, instalada no per\u00edmetro da escola prim\u00e1ria constru\u00edda pelos mission\u00e1rios h\u00e1 uns anos, tem um sistema el\u00e9ctrico instalado que funciona a partir de um pequeno gerador. A noite ia ser longa. \u00c9 que \u00e9 da praxe, depois da vig\u00edlia, todos se reunirem \u00e0 volta da televis\u00e3o da escola para ver um filme sobre a vida de Jesus. \u00c9 a melhor prenda de Natal que todos podem ter, crist\u00e3os e n\u00e3o crist\u00e3os. Cheg\u00e1mos \u00e0 capela e j\u00e1 esperavam por n\u00f3s. Obviamente, tudo \u00e0s escuras. Uma pilha el\u00e9ctrica aqui e ali. \u00c0 meia-luz pareciam j\u00e1 estar na capela um bom n\u00famero de pessoas \u00e0 nossa espera. O que verific\u00e1mos ser verdade, depois de alguns trabalhos para p\u00f4r o gerador a funcionar. Mas l\u00e1 conseguimos com a ajuda do catequista. A celebra\u00e7\u00e3o estava marcada para as 8 da noite. Havia baptismos de 9 crian\u00e7as, filhos de crist\u00e3os baptizados. Pelo menos um dos pais deve ser j\u00e1 baptizado. Por\u00e9m, eram 8 e meia da noite e apenas uma m\u00e3e com o seu filhote para baptizar marcava presen\u00e7a. T\u00ednhamos que esperar, como sempre, \u00e0 boa maneira africana. Aqui a hora certa \u00e9 sempre muito relativa: a hora certa \u00e9 aquela em que se chega, n\u00e3o aquela que se combina! Um dos problemas com que lidamos neste povo \u00e9 o facto de os homens P\u00f6kot serem muito resistentes a aderir \u00e0 pr\u00e1tica crist\u00e3. De facto, o maior n\u00famero de baptizados em toda a miss\u00e3o P\u00f6kot s\u00e3o mulher e os adolescentes\/jovens que tenham recebido forma\u00e7\u00e3o escolar. Por outro lado, alguns homens acabam por se casar tradicionalmente com mais que uma mulher, facto que os impede de receber o baptismo. O meu colega, entretanto, aproveitou para confessar alguns crist\u00e3os j\u00e1 ali presentes. Ao mesmo tempo, na capela, j\u00e1 se iam afinando os c\u00e2nticos para a celebra\u00e7\u00e3o. A capela j\u00e1 estava com muita gente. Alguns crist\u00e3os chegados para celebrar o Natal do Deus Menino. Muitos outros chamados pela curiosidade do eco dos c\u00e2nticos que se ensaiavam. Quase \u00e0s 10 da noite estava tudo a postos. Todas as m\u00e3es ali estavam com os seus filhotes para serem baptizados. \u00c0 4\u00aa chamada, por fim, j\u00e1 ali estavam todas. Pais, nem um sequer. Finalmente pod\u00edamos iniciar. O calor da noite fazia que o odor dentro da capela a abarrotar de gente fosse intenso. Sobretudo, um odor t\u00edpico do povo P\u00f6kot, todos os dias a lidar com os animais. N\u00e3o havia d\u00favida. Aqui respirava-se P\u00f6kot! A celebra\u00e7\u00e3o foi-se desenrolando sempre, por\u00e9m, com aquilo a que costumo chamar o ambiente lit\u00fargico africano. Isto \u00e9, sem muito preciosismo e aten\u00e7\u00e3o aos rituais por parte das pessoas. Muitas delas s\u00f3 participam na Eucaristia duas ou tr\u00eas vezes por ano. N\u00e3o est\u00e3o habituados \u00e0 liturgia com os \u201cpontos nos is\u201d. \u00c9 tudo bem mais natural e espont\u00e2neo. Na verdade, creio mesmo que se alguns liturgistas europeus aqui viessem teriam um ataque do cora\u00e7\u00e3o, tal \u00e9 o ambiente de muito \u00e0 vontade com que as celebra\u00e7\u00f5es aqui se desenrolam. A maior parte dos participantes nestas celebra\u00e7\u00f5es maiores n\u00e3o s\u00e3o sequer crist\u00e3os. Por isso, entram e saem quando muito bem lhes apetece. Ou ent\u00e3o o beb\u00e9 que come\u00e7a a chorar e a m\u00e3ezinha d\u00e1-lhe de imediato a chupeta africana: o peito a mamar! Sem pejo e com toda a naturalidade. \u00c9 chegada a hora do baptismo. Explicamos os ritos, os sinais, os gestos de todo o sacramento. Lev\u00e1mos a \u00e1gua connosco num pequeno bid\u00e3o de pl\u00e1stico. A bacia \u00e9 tamb\u00e9m levada pelo mission\u00e1rio. N\u00e3o h\u00e1 pia baptismal. A concha para o baptismo, \u00e9 a melhor e mais natural, aquela que Deus criou: as m\u00e3os do sacerdote. Sente-se a alegria no ar, expressa no entusiasmo com que todos na capela cantam o hino de agradecimento ao Senhor por mais estes dons sobre os seus filhos P\u00f6kot. Entretanto a luz apaga-se. O gerador deixou de trabalhar. Tudo \u00e0s escuras. \u201cEu vou ver o que se passa, Hubert!\u201d \u2013 disse eu ao meu colega que presidia \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o. Tirei a minha estola e com a pilha que sempre trago \u201c\u00e0 m\u00e3o de semear\u201d fui com um dos catequistas presentes ver o que se passava. Algu\u00e9m, por maroteira tinha desligado o gerador. O combust\u00edvel que lhe t\u00ednhamos posto era imposs\u00edvel ter j\u00e1 terminado. Junto ao gerador, no meio da escurid\u00e3o apenas quebrada pela t\u00e9nue luz da pilha el\u00e9ctrica, deparo-me com um guarda local, de klaschenikov em punho. \u201c\u00c9 o vigilante, sr. Padre! N\u00e3o se preocupe!\u201d \u2013 tranquilizava-me o catequista. Ele que, logo que se apercebeu que algu\u00e9m tinha desligado o gerador por maldade, come\u00e7ou a gritar com o vigilante armado pela sua incompet\u00eancia em n\u00e3o guardar bem o gerador e n\u00e3o deixar ningu\u00e9m aproximar-se. Volt\u00e1mos \u00e0 capela com o problema resolvido e com a eucaristia a prosseguir. N\u00e3o houve mais incidentes at\u00e9 ao final da eucaristia. Apenas e s\u00f3 o ambiente do costume\u2026 sempre um burburinho aqui e ali, descontrac\u00e7\u00e3o, muito \u00e0 vontade e tamb\u00e9m muita alegria. No momento de ac\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as foram 3 os c\u00e2nticos que se cantaram\u2026 acompanhados pela t\u00edpica dan\u00e7a P\u00f6kot, Adongo. Uma esp\u00e9cie de saltos na vertical ao ritmo do canto. \u00c9 tal a energia contagiante desta alegria que nem mesmo o padre pode deixar de bater as palmas e saltar com alegria. A seguir \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o seguia-se a sess\u00e3o da meia noite, com o filme sobre o nascimento de Jesus recentemente sa\u00eddo aos ecr\u00e3s. Claro, em ingl\u00eas. \u00c9 mais uma vez o trabalho do catequista fazer a tradu\u00e7\u00e3o para as pessoas ali sentadas, agora j\u00e1 no recreio da escola. Num \u00e1pice, os bancos da escola que antes tinham sido levados para a capela, aparecem agora no recreio da escola. Dezenas de pessoas ali ficam at\u00e9 bem de madrugada. Afinal, \u00e9 noite de Natal, noite de alegria, noite diferente. Fic\u00e1mos com as pessoas por um tempo, mas era necess\u00e1rio regressar \u00e0 miss\u00e3o. Aguardava-nos ainda cerca de 45 minutos de viagem pelas picadas P\u00f6kot sempre cheias de surpresas ao mais pequeno descuido. Eram j\u00e1 uma e meia da madrugada quando cheg\u00e1mos a Kacheliba. No dia seguinte de manh\u00e3 era o tempo de outras emo\u00e7\u00f5es. A primeira celebra\u00e7\u00e3o em terra P\u00f6kot em l\u00edngua swahili presidida por mim. O sonho de muitos anos de forma\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria. O sonho de qualquer mission\u00e1rio: trazer Jesus Eucaristia ao meio deste povo que caminha e \u00e9 tamb\u00e9m amado pelo Deus Menino. Festa que se preze em \u00c1frica n\u00e3o deve nunca come\u00e7ar \u00e0 hora marcada! Com meia hora de atraso, \u00e0s 10.30 da manh\u00e3, na capela principal da miss\u00e3o, iniciava-se a Eucaristia do dia de Natal. Sentia um nervoso miudinho. Mas tinha-me entregado nas m\u00e3os de Deus Pai, T\u00f6ror\u00f6t Papo, como assim lhe chamamos em l\u00edngua P\u00f6kot. E como por milagre, apenas iniciei a Eucaristia com o sinal da cruz, senti que j\u00e1 nada me fazia temer. Era o Deus Menino aquele que agora tomava a dianteira. Era Ele o festejado e o Senhor da Festa. Por isso deixei-me apenas ser instrumento do Seu Amor tamb\u00e9m por este povo P\u00f6kot na miss\u00e3o de Kacheliba. Estava seguro que assim, tudo iria correr bem. E assim foi! Deus Menino Jesus tamb\u00e9m nasceu no cora\u00e7\u00e3o do povo P\u00f6kot da miss\u00e3o de Kacheliba, Qu\u00e9nia.  P. Filipe Resende, mccj Relatos da Miss\u00e3o em Kacheliba North P\u00f6kot \u2013 Qu\u00e9nia  Foto: Momento da homilia na capela de Kacheliba \u2013 Natal 2008 <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chamou-me a aten\u00e7\u00e3o que as crian\u00e7as hoje vestiam diferente. Roupas novas, cheios de cor, limpinhas. Dirigia-me da nossa casa da comunidade para a capela. O dia era importante para mim. Verdadeiramente havia algo distinto no ar. Era dia de Natal. 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