{"id":35999,"date":"2008-12-25T19:36:05","date_gmt":"2008-12-25T19:36:05","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/12\/25\/homilia-do-bispo-do-porto-no-dia-de-natal\/"},"modified":"2008-12-25T19:36:05","modified_gmt":"2008-12-25T19:36:05","slug":"homilia-do-bispo-do-porto-no-dia-de-natal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-do-porto-no-dia-de-natal\/","title":{"rendered":"Homilia do Bispo do Porto no Dia de Natal"},"content":{"rendered":"<p>PARA QUE O NATAL DE CRISTO ALCANCE O MUNDO INTEIRO Homilia na S\u00e9 do Porto, 25 de Dezembro de 2008  Amados irm\u00e3os e irm\u00e3s Celebramos o Natal de Jesus, celebramos a salva\u00e7\u00e3o que acontece. Disto mesmo se trata e menos n\u00e3o podia ser, tratando-se de religi\u00e3o, isto \u00e9, verdade completa entre Deus e o homem.  Ouv\u00edamos na Ep\u00edstola aos Hebreus, qual consci\u00eancia declarada das primeiras gera\u00e7\u00f5es crist\u00e3s: \u201cNestes dias, que s\u00e3o os \u00faltimos, Deus falou-nos por seu Filho, a quem fez herdeiro de todas as coisas e pelo qual tamb\u00e9m criou o universo\u201d. Dias \u00faltimos, profecias realizadas, cria\u00e7\u00e3o retomada e conclu\u00edda. Isto mesmo celebramos, nisto tamb\u00e9m nos projectamos para um futuro que n\u00e3o poder\u00e1 ser sen\u00e3o acabamento do que nos foi dado em Cristo. Em Cristo para o mundo, precisamente. Realizando a profecia tamb\u00e9m escutada: \u201cTodos os confins da terra ver\u00e3o a salva\u00e7\u00e3o do nosso Deus\u201d. \u00c9 de dia que conseguimos ver, ou ent\u00e3o nalguma luz que fa\u00e7a da noite dia. Pois bem, amados irm\u00e3os e irm\u00e3s, essa luz sabemos bem qual seja. Reconhecemo-la no Evangelho de h\u00e1 pouco: \u201cO Verbo era a luz verdadeira, que vindo ao mundo, ilumina todo o homem\u201d. Ilumina ent\u00e3o a nossa humanidade, de todos e de cada um. Verdade insofism\u00e1vel que finalmente nos esclarece. De facto, a intelig\u00eancia de tantos pensadores e fil\u00f3sofos, avan\u00e7ara j\u00e1 na sondagem dif\u00edcil do que somos e podemos. Fisicamente alguma coisa, psicologicamente tamb\u00e9m. \u2013 Que tesouros de sabedoria herd\u00e1mos n\u00f3s, de gregos e asi\u00e1ticos de ent\u00e3o! \u2013 Como s\u00e3o interessantes e importantes as achegas da antropologia antiga, como da contempor\u00e2nea, manifestando em cada cultura, mais ou menos evolu\u00edda, outras tantas aberturas e possibilidades da alma e da conviv\u00eancia humanas!  E, no entanto, quando se ultimavam os tempos, para retomar a alus\u00e3o b\u00edblica, quantas perplexidades subsistiam, quantas interroga\u00e7\u00f5es demoravam, quantas contradi\u00e7\u00f5es entre teoria e pr\u00e1tica, prop\u00f3sitos e realidades\u2026 Na pr\u00f3pria verdade essencial sobre a vida humana, quantas viola\u00e7\u00f5es da sua dignidade, nos aspectos pessoais e pol\u00edticos, da escravatura generalizada, por nascen\u00e7a ou cativeiro, aos mortic\u00ednios, por guerra ou senten\u00e7a, \u00e0s pervers\u00f5es morais de todo o tipo. Em torno do Mediterr\u00e2neo, juntavam-se h\u00e1 dois mil\u00e9nios, e dum modo est\u00e1vel como nunca acontecera, as tradi\u00e7\u00f5es culturais da \u00c1sia, da \u00c1frica e da Europa: mesa comum a que a Am\u00e9rica e a Oce\u00e2nia se juntariam muito depois. Podemos dizer que a humanidade se encontrava pela primeira vez, para que Deus se pudesse encontrar com ela, dizendo-lhe a \u00faltima palavra, esclarecendo-lhe o sentido da cria\u00e7\u00e3o. E assim aconteceu, como o celebramos hoje. Mas tudo em Deus nos surpreende, pois que n\u00e3o \u00e9 nosso sen\u00e3o por gra\u00e7a. E assim n\u00e3o foi no Capit\u00f3lio de Roma, no are\u00f3pago de Atenas, no anfiteatro de \u00c9feso ou na biblioteca de Alexandria que Deus se disse no seu Verbo incarnado. L\u00e1 chegaria depois o eco, como ainda mais longe e mais profundamente h\u00e1-de ressoar hoje em dia. Tamb\u00e9m n\u00e3o foi a senadores ou fil\u00f3sofos, nem a diletantes ou letrados, que a comunica\u00e7\u00e3o se dirigiu primeiramente; embora a todos se oferecesse, como oferece agora, qual subst\u00e2ncia \u00edmpar para a reflex\u00e3o humana. Na verdade, continuando com o trecho evang\u00e9lico, \u201co Verbo estava no mundo e o mundo que foi feito por Ele, n\u00e3o O conheceu\u201d. Nasceu onde n\u00e3o se esperava, apesar duma profecia antiga; cresceu e viveu como s\u00f3 depois se captou \u00e0 luz de outras; menino e dependente, num pres\u00e9pio hum\u00edlimo; crian\u00e7a fugitiva e salva por pouco; emigrante e retornado, ao sabor das circunst\u00e2ncias; trabalhador comum na oficina de Nazar\u00e9; sinal de contradi\u00e7\u00e3o no que disse e fez; privilegiou os \u00faltimos, de que fez primeiros; fez da morte vida, porque inteira oferta; e da caridade lei, pois s\u00f3 ela salva\u2026 Dram\u00e1tico e tr\u00e1gico foi o n\u00e3o reconhecimento da parte de quem O esperava: \u201co mundo que foi feito por Ele n\u00e3o O conheceu\u201d. E n\u00e3o falamos do passado, porque a humanidade \u00e9 hoje id\u00eantica, t\u00e3o expectante como desatenta. Basta contar algumas d\u00e9cadas de vida, para j\u00e1 se ter ganho e perdido sucessivas ilus\u00f5es de mudan\u00e7a social: ainda se cantavam amanh\u00e3s nos anos sessenta, que n\u00e3o despontaram assim vinte anos depois; euforias houve de sucesso f\u00e1cil nos anos que se seguiram, que deixam agora dif\u00edceis sequelas de economia e subsist\u00eancia; a n\u00edvel mundial, desigualdades que pareciam ultrapass\u00e1veis pela solidariedade internacional, agravaram-se ainda para popula\u00e7\u00f5es inteiras\u2026  &#8211; E n\u00e3o h\u00e1 em tudo isto e fundamentalmente a mesma desaten\u00e7\u00e3o de h\u00e1 dois mil anos, quando \u201co mundo que foi feito por Ele n\u00e3o O conheceu\u201d? &#8211; Quando nos recusamos a partir da\u00ed mesmo onde Ele nos retomou, ou seja da humanidade indesment\u00edvel de cada crian\u00e7a ou adulto, em todo o arco da exist\u00eancia humana, que em Cristo nasce, cresce, morre e ressuscita, como destino eterno e dignidade absoluta?! Onde Cristo nasceu, preenchendo a humanidade de filia\u00e7\u00e3o divina, respondia Deus \u00e0 mais profunda e essencial das nossas expectativas. Mas onde Cristo nasceu, amados irm\u00e3os e irm\u00e3s, pouqu\u00edssimos deram por Ele, como nas tr\u00eas d\u00e9cadas seguintes. Onde Deus se fez homem &#8211; o Filho de Deus \u00e9 o Filho de Maria \u2013 n\u00e3o era preciso mais do que essa mesma verdade, por si s\u00f3 manifestada e garantida. Conheceram-na apenas os cora\u00e7\u00f5es coincidentes, resumidos em expectativa e entrega: Maria que O incarnou, Jos\u00e9 que O guardou, os pastores que n\u00e3o cabiam em si de espanto, os magos que n\u00e3o pararam at\u00e9 O encontrar. E no c\u00e9u cantavam anjos, aqueles que continuam a cantar a gl\u00f3ria de Deus e a paz na terra. Anjos s\u00f3 escutados por quem \u201ctem ouvidos para ouvir\u201d e nesse mesmo canto encontra \u00e2nimo, para anunciar tamb\u00e9m. Sim, amados irm\u00e3os e irm\u00e3s, porque tudo continua como foi dito na \u00faltima palavra divina. Aos poucos que se juntaram no Pres\u00e9pio, reconhecendo e anunciando toda a li\u00e7\u00e3o dele, juntam-se, apesar de tudo, as gera\u00e7\u00f5es seguidas dos que perceberam e percebem o Natal de Cristo, como j\u00e1 o certificava o evangelista: \u201c\u00c0queles que O receberam e acreditaram no seu nome deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus\u201d. Not\u00e1vel coisa \u00e9 esta, e o melhor que temos hoje para celebrar e oferecer. Com a incarna\u00e7\u00e3o do Verbo, a nossa humanidade culmina na possibilidade oferecida da filia\u00e7\u00e3o divina! Era ent\u00e3o isto que esper\u00e1vamos, desde que nos torn\u00e1mos cria\u00e7\u00e3o consciente. \u00c9 isto mesmo que espera a cria\u00e7\u00e3o inteira, como o soube S\u00e3o Paulo num rasgo admir\u00e1vel da sua escrita: \u201cPois at\u00e9 a cria\u00e7\u00e3o se encontra em expectativa ansiosa, aguardando a revela\u00e7\u00e3o dos filhos de Deus\u201d (Rm 8, 19). Isto recebemos do Verbo incarnado, isto oferecemos ao mundo que espera, ou quase desespera. Neste final de ano n\u00e3o s\u00e3o muito optimistas as an\u00e1lises do que foi e os progn\u00f3sticos do que venha a ser. Da fam\u00edlia \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, da economia \u00e0 pol\u00edtica, do nacional ao internacional, aparecem mais as sombras do que as luzes. N\u00e3o \u00e9 preciso for\u00e7ar a compara\u00e7\u00e3o nem arriscar o anacronismo, para dizer que h\u00e1 dois mil anos, naquela prov\u00edncia remota do grande Imp\u00e9rio em que Cristo nasceu, as expectativas tamb\u00e9m n\u00e3o eram grandes para a maioria da popula\u00e7\u00e3o. O Menino cresceu e compartilhou dificuldades comuns a todos os habitantes dum territ\u00f3rio ocupado por uma grande pot\u00eancia que o n\u00e3o entendia. Pessoalmente, afirmou-se a si mesmo e \u00e0s suas ideias, entre alguns apoios e muitas oposi\u00e7\u00f5es: queria todo o c\u00e9u para a terra e toda a terra para o c\u00e9u, num mundo de irm\u00e3os e de filhos de Deus, a que chamava \u201cReino\u201d. Em tudo foi consequente, sem excluir ningu\u00e9m, mesmo os opositores, pelos quais tamb\u00e9m morreria. Venceu o mal com o bem e a morte com a vida: a vida desde o princ\u00edpio, pois as t\u00e1buas do Pres\u00e9pio foram as da Cruz, como j\u00e1 o disse a piedade crist\u00e3.  E, mais ainda, a sua vit\u00f3ria sobre a morte torna-O presente na humanidade de cada um, universalmente reconhec\u00edvel no Natal que a P\u00e1scoa garante em cada dia. Em cada acto de proximidade, a nossa vida torna-se tempo completo, luz intensa, religi\u00e3o cumprida. E aqui nos fixamos, para n\u00e3o adiarmos, em \u201ctempo de crise\u201d a salva\u00e7\u00e3o e o sentido. N\u00e3o desistamos nem nos iludamos mais: temos Pres\u00e9pio que chegue, em cada casa onde se nas\u00e7a ou pere\u00e7a; temos C\u00e9u bastante em cada terra onde estejamos; temos Cristo inteiro em cada irm\u00e3o abeirado.  Far\u00e3o os pol\u00edticos e os economistas, como \u00e9 seu dever, o melhor que puderem para garantir o bem comum num tempo melindroso e dif\u00edcil. Pe\u00e7amos por eles, para que a Luz do Natal tamb\u00e9m os inspire. Pe\u00e7amos por todos os que sofrem mais directamente as dificuldades actuais, nos v\u00e1rios aspectos da sociedade e da economia. Pe\u00e7amos por n\u00f3s, para que o an\u00fancio ang\u00e9lico que levou os pastores a Bel\u00e9m nos leve agora com a mesma urg\u00eancia ao encontro de quem precisa, a\u00ed mesmo, onde o Pres\u00e9pio continua.  Estava fria a noite na Bel\u00e9m da altura\u2026 Mas j\u00e1 Deus se dizia no Menino, j\u00e1 a Luz brilhava nos olhos, j\u00e1 os anjos anunciavam a Paz. Irm\u00e3os e irm\u00e3s: por esta celebra\u00e7\u00e3o l\u00e1 estamos tamb\u00e9m, para que os nossos cora\u00e7\u00f5es se preencham com o mesmo Verbo, a mesma Luz e a mesma Paz, para que o Natal de Cristo alcance o mundo inteiro. Como diremos de seguida, comprometidos no seu pr\u00f3prio sentimento, \u201cpor n\u00f3s homens, e para nossa salva\u00e7\u00e3o [\u00e9 que Ele] desceu dos C\u00e9us. E encarnou pelo Esp\u00edrito Santo, no seio da Virgem Maria, e Se fez homem\u201d.             + Manuel Clemente, Bispo do Porto <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PARA QUE O NATAL DE CRISTO ALCANCE O MUNDO INTEIRO Homilia na S\u00e9 do Porto, 25 de Dezembro de 2008 Amados irm\u00e3os e irm\u00e3s Celebramos o Natal de Jesus, celebramos a salva\u00e7\u00e3o que acontece. Disto mesmo se trata e menos n\u00e3o podia ser, tratando-se de religi\u00e3o, isto \u00e9, verdade completa entre Deus e o homem. 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