{"id":358909,"date":"2025-02-02T09:31:37","date_gmt":"2025-02-02T09:31:37","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=358909"},"modified":"2025-01-30T13:09:20","modified_gmt":"2025-01-30T13:09:20","slug":"igreja-mocambique-nao-ha-como-calar-a-boca-padre-kwiriwi-fonseca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/igreja-mocambique-nao-ha-como-calar-a-boca-padre-kwiriwi-fonseca\/","title":{"rendered":"Igreja\/Mo\u00e7ambique: \u00abN\u00e3o h\u00e1 como calar a boca\u00bb &#8211; padre Kwiriwi Fonseca"},"content":{"rendered":"<p><em>Para comentar a preocupante realidade em Mo\u00e7ambique, \u00e9 convidado esta semana, da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia ECCLESIA o mission\u00e1rio passionista e investigador sociopol\u00edtico<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_358911\" aria-describedby=\"caption-attachment-358911\" style=\"width: 1600px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/WhatsApp-Image-2025-01-29-at-15.15.18.jpeg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-358911 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/WhatsApp-Image-2025-01-29-at-15.15.18.jpeg\" alt=\"\" width=\"1600\" height=\"1200\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/WhatsApp-Image-2025-01-29-at-15.15.18.jpeg 1600w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/WhatsApp-Image-2025-01-29-at-15.15.18-347x260.jpeg 347w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/WhatsApp-Image-2025-01-29-at-15.15.18-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/WhatsApp-Image-2025-01-29-at-15.15.18-768x576.jpeg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/WhatsApp-Image-2025-01-29-at-15.15.18-1536x1152.jpeg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1600px) 100vw, 1600px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-358911\" class=\"wp-caption-text\">Foto padre Kwiriwi Fonseca<\/figcaption><\/figure>\n<p>As feridas abertas com o processo eleitoral em Mo\u00e7ambique continuam por cicatrizar e a instabilidade social e pol\u00edtica continua a ser motivo de enorme preocupa\u00e7\u00e3o. As manifesta\u00e7\u00f5es dos \u00faltimos meses em Mo\u00e7ambique, com barricadas, pilhagens e confrontos com a pol\u00edcia, j\u00e1 ter\u00e3o provocado mais de 300 mortos e 600 pessoas feridas, segundo organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil. A oposi\u00e7\u00e3o fala em mais de 4 mil detidos. Sinal da instabilidade, a recente decis\u00e3o da Procuradoria Mo\u00e7ambicana de abrir um processo contra o candidato presidencial Mondlane por subverter princ\u00edpios do Estado democr\u00e1 tico. Enquanto isso, em Cabo Delgado, alegados terroristas isl\u00e2micos continuam a criar p\u00e2nico numa regi\u00e3o que ciclicamente \u00e9 assolada por fen\u00f3menos clim\u00e1ticos extremos.<\/p>\n<p><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (ECCLESIA)<\/em><\/p>\n<p><em>Come\u00e7ava por lhe pedir um ponto de situa\u00e7\u00e3o sobre a realidade social e pol\u00edtica do pa\u00eds. A crise que permanece desde as elei\u00e7\u00f5es agudizou naturalmente a situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria e de pobreza da popula\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Eu fui a Maputo. A situa\u00e7\u00e3o em Mo\u00e7ambique pode-se dizer que \u00e9 relativamente boa, mas ainda est\u00e1 m\u00e1. Porque eu classifico a situa\u00e7\u00e3o de estranheza e uma situa\u00e7\u00e3o depressiva: estranheza, porque os manifestantes tinham uma expectativa que as coisas poderiam melhorar com as manifesta\u00e7\u00f5es e as reivindica\u00e7\u00f5es, porque ao mesmo tempo verificava-se, n\u00e3o sei se seria um teatro, porque havia um clima de di\u00e1logos, e aquilo pensava-se que poderia resultar em alguma coisa. E a\u00ed, em pouco tempo, o Conselho Constitucional declara oficiais os resultados, e \u00e9 feita a tomada de posse. N\u00f3s vimos tamb\u00e9m um outro elemento, que \u00e9 o da expectativa do povo que mesmo ao contr\u00e1rio do que eles esperavam, que era que o candidato deles, como dizem o candidato do povo (Mondlane), mesmo n\u00e3o sendo declarado como vencedor; tinham a expectativa que se poderia montar um governo da unidade nacional.\u00a0E isso n\u00e3o se verificou.<\/p>\n<p>Por isso, eu considero aqui, talvez, duas situa\u00e7\u00f5es, estranheza e uma situa\u00e7\u00e3o depressiva. E verifica-se muitas manifesta\u00e7\u00f5es, quer de funcion\u00e1rios que n\u00e3o t\u00eam acesso ao d\u00e9cimo terceiro m\u00eas, quer das pessoas que protestam contra o custo de vida. H\u00e1 pouco tempo recebi not\u00edcia dos ataques em Palma, dos ataques em Meluco, dos ataques aqui em acol\u00e1, aqui na regi\u00e3o do Cabo Delgado.<\/p>\n<p>Temos, em geral, um problema que ainda n\u00e3o foi resolvido. Problemas antigos, problemas colocados debaixo do tapete, problemas que me levam a dizer que estamos a iniciar aqui em Mo\u00e7ambique, o ano de 2025, com problemas graves.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E aumentou a fome, aumentou a pobreza em Mo\u00e7ambique, com os incidentes desde as elei\u00e7\u00f5es? <\/em><\/p>\n<p>Eu vivi de perto muita fome nas aldeias, sinto vergonha de passar l\u00e1. Dever\u00edamos visitar, mas n\u00f3s n\u00e3o conseguimos resolver todos esses problemas. Aqui na regi\u00e3o assolada pelo ciclone n\u00e3o vimos nenhuma ajuda, em muitos lugares ainda n\u00e3o tem chegado a ajuda.<\/p>\n<p>A C\u00e1ritas, que tem feito o seu trabalho, n\u00e3o tem cobertura, talvez n\u00e3o tenha muitos fundos. Est\u00e1 fazendo um trabalho muito bonito, est\u00e1 tentando fazer o melhor, mas n\u00f3s estamos a viver uma crise humanit\u00e1ria.\u00a0\u00a0As palhotas foram destru\u00eddas pelo ciclone, muita gente ainda n\u00e3o conseguiu se erguer. Para al\u00e9m disso a chuva demorou a cair e ent\u00e3o temos isso, muita fome, quest\u00e3o da guerra, o desespero do povo, a incerteza de como vai ser o pa\u00eds&#8230; temos isso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_358910\" aria-describedby=\"caption-attachment-358910\" style=\"width: 347px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/WhatsApp-Image-2025-01-29-at-15.15.29.jpeg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-358910\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/WhatsApp-Image-2025-01-29-at-15.15.29-347x260.jpeg\" alt=\"\" width=\"347\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/WhatsApp-Image-2025-01-29-at-15.15.29-347x260.jpeg 347w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/WhatsApp-Image-2025-01-29-at-15.15.29-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/WhatsApp-Image-2025-01-29-at-15.15.29-768x576.jpeg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/WhatsApp-Image-2025-01-29-at-15.15.29-1536x1152.jpeg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/WhatsApp-Image-2025-01-29-at-15.15.29.jpeg 1600w\" sizes=\"(max-width: 347px) 100vw, 347px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-358910\" class=\"wp-caption-text\">Foto padre Kwiriwi Fonseca<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>A esse cen\u00e1rio soma-se a instabilidade pol\u00edtica. Quando grav\u00e1mos esta entrevista, o candidato presidencial, Ven\u00e2ncio Mondlane, manifestou-se aberto ao di\u00e1logo com o chefe de Estado, com Daniel Chapo, para p\u00f4r fim a crise p\u00f3s-eleitoral, mas disse que ainda n\u00e3o tinha sido contactado. Eu pergunto-lhe se falta vontade pol\u00edtica para partir para a negocia\u00e7\u00e3o. Ainda h\u00e1 pouco referia-se \u00e0 negocia\u00e7\u00e3o como uma esp\u00e9cie de teatro. Vimos assistindo a um sinal de hipocrisia, em que realmente nenhuma das partes tem inten\u00e7\u00e3o de dialogar com a outra?<\/em><\/p>\n<p>Mesmo antes da sua chegada aqui a Mo\u00e7ambique, Ven\u00e2ncio mostrou-se aberto, e quando chegou no aeroporto &#8211; eu na altura estava em Maputo &#8211; ele disse: se procuravam um Ven\u00e2ncio distante, est\u00e1 aqui em Maputo, eu estou aqui. Mas n\u00e3o houve essa vontade de chamar para dialogar, porque n\u00e3o se pode recorrer somente os candidatos, os l\u00edderes dos partidos que est\u00e3o no Parlamento, eles n\u00e3o s\u00e3o reconhecidos pelo povo. O povo em todo canto, nas aldeias, fala de Ven\u00e2ncio, ent\u00e3o hoje tem de ter a coragem de chamar Ven\u00e2ncio para dialogar com ele.<\/p>\n<p>Se ele j\u00e1 se mostrou dispon\u00edvel, ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 que ter medo, nem vergonha. Eu pelo que percebi, o que ele fala \u00e9 dessa abertura, ent\u00e3o n\u00e3o se deve ter vergonha e nem se esconder. Parece-me que h\u00e1 falta de coragem, h\u00e1 falta de vontade, h\u00e1 falta de compreens\u00e3o de que o povo acreditou na for\u00e7a pol\u00edtica de Ven\u00e2ncio, ent\u00e3o tem de se chamar. Acredito ser esse o caminho, porque o que se manifesta hoje nas v\u00e1rias cidades s\u00e3o quest\u00f5es sociais. As pessoas exigem o seu d\u00e9cimo terceiro, horas extras. Ent\u00e3o, h\u00e1 problemas que acredito podem ser minimizadas conversando com Ven\u00e2ncio Mondlane. Hoje o Pa\u00eds precisa de paz.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Mas Padre Fonseca, Mondlane tamb\u00e9m n\u00e3o ter\u00e1 de reconhecer a proclama\u00e7\u00e3o dos resultados eleitorais de 9 de outubro para que se possa encetar a tal aproxima\u00e7\u00e3o de que falava? Porque enquanto esta ferida n\u00e3o sarar, provavelmente n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel avan\u00e7ar na procura de solu\u00e7\u00f5es mais duradouras\u2026<\/em><\/p>\n<p>Na linguagem pol\u00edtica ele n\u00e3o pode dizer eu aceito, porque seria recuar e dizer que o que estava a defender era tudo uma mentira e eu n\u00e3o ganhei nada. Ent\u00e3o ele em nenhum momento, na quest\u00e3o pol\u00edtica, ele como o grande l\u00edder da oposi\u00e7\u00e3o hoje, em nenhum lugar pode se pronunciar no sentido do reconhecimento dos resultados. Ele at\u00e9 terminar os 5 anos &#8211; se ele disse que n\u00e3o acreditar nos resultados &#8211; ele vai continuar a afirmar o mesmo.\u00a0\u00a0Sei que o que \u00e9 fundamental nesse momento \u00e9 que seja convidado pelo presidente da Rep\u00fablica e os dois sentarem-se, conversarem. Dizer \u201colha de facto n\u00f3s j\u00e1 estamos no poder, voc\u00ea \u00e9 da oposi\u00e7\u00e3o, seu papel \u00e9 este, este, este nesse per\u00edodo, voc\u00ea faz isto, isto, isto\u201d e tamb\u00e9m ser ouvido o que prop\u00f5e, porque desde o dia 9 que chegou e depois da tomada de posse ele n\u00e3o fala mais de golpe, pelo menos eu tenho acompanhado. Eu tenho acompanhado tamb\u00e9m um trabalho bonito de conversa com os partidos pol\u00edticos, mas n\u00e3o \u00e9 suficiente, tamb\u00e9m tem de se falar com Ven\u00e2ncio, de forma aberta e tudo que se falar comunicar-se para que o povo acompanhe, e a\u00ed esse \u00e9 o caminho para, de facto, ir aos poucos curar as feridas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00f3s que estamos a acompanhar deste lado, notamos que em Mo\u00e7ambique a Igreja Cat\u00f3lica tem manifestado um enorme empenho na procura destas solu\u00e7\u00f5es. A Confer\u00eancia Episcopal, por exemplo, tem desdobrado os apelos \u00e0 paz, sensibilizar o respeito pela toler\u00e2ncia, pela dignidade humana, pela vida. Que mais \u00e9 que se pode exigir \u00e0 Igreja em Mo\u00e7ambique?<\/em><\/p>\n<p>Continuar, continuar a fazer manifesta\u00e7\u00f5es por meio de confer\u00eancia de imprensa, continuar a dialogar com o novo governo, continuar a dialogar com o Ven\u00e2ncio Mondlane e com os partidos pol\u00edticos, este \u00e9 o papel da Igreja, n\u00e3o deve ficar sossegada, n\u00e3o deve se calar, n\u00e3o deve pensar que j\u00e1 fez tudo, n\u00e3o. A Igreja, enquanto continuar ativa em Mo\u00e7ambique, deve continuar fazendo o apelo pela paz, pela justi\u00e7a, pelo di\u00e1logo, este \u00e9 o papel em todas as igrejas locais, em todos os lugares. N\u00e3o se deve pensar que j\u00e1 fizemos o suficiente, n\u00e3o h\u00e1, enquanto continuar n\u00e3o h\u00e1 como calar a boca, n\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O Papa Francisco tem manifestado a sua preocupa\u00e7\u00e3o com a situa\u00e7\u00e3o em Mo\u00e7ambique e a experi\u00eancia da Igreja Cat\u00f3lica e a sua capacidade de di\u00e1logo \u00e9 reconhecida em diversos quadrantes. Ali\u00e1s, numa recente desloca\u00e7\u00e3o ao Vaticano, o ministro portugu\u00eas dos neg\u00f3cios estrangeiros, Paulo Rangel, assinalou precisamente essa capacidade. Poder\u00e1 ter mais sucesso uma interven\u00e7\u00e3o externa, como aconteceu em 1992, quando em Roma foi poss\u00edvel assinar-se um acordo geral de paz em Mo\u00e7ambique?<\/em><\/p>\n<p>Eu acho que poderia ser um caminho. Somar for\u00e7as junto com a Igreja aqui em Mo\u00e7ambique, num olhar imparcial, num olhar, digamos, distante, um olhar de fora; acredito que seria um bom caminho. O Papa Francisco, que sabe da situa\u00e7\u00e3o de facto de Mo\u00e7ambique, desde o momento em que esteve aqui, que era um momento de guerra, ainda com o problema do terrorismo, ele tem recebido diariamente as not\u00edcias de Mo\u00e7ambique, e eu acredito que se se organizasse uma comiss\u00e3o que pudesse somar junto com a Confer\u00eancia Episcopal de Mo\u00e7ambique, para se dar esses passos de di\u00e1logo, de conversas com todos os envolvidos, todos os atores pol\u00edticos, sociais, eu acredito que poderia se encontrar, se encontrar esse processo de cura, porque o povo est\u00e1 muito ferido, o povo ainda n\u00e3o presenciou nada, n\u00e3o presenciou nada dos passos que gostaria de vivenciar. Ent\u00e3o, toda m\u00e3o externa que visa ajudar a resolu\u00e7\u00e3o dos problemas em Mo\u00e7ambique, eu acredito que se n\u00e3o tiver um olhar muito mais pol\u00edtico, s\u00f3 para favorecer um lado, se for um lado imparcial, melhor ainda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00e3o falamos especificamente da comunidade de Santo Eg\u00eddio, que sendo uma comunidade cat\u00f3lica n\u00e3o \u00e9 propriamente da Santa S\u00e9, \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o aut\u00f3noma, que teve um papel important\u00edssimo nos acordos de paz de 1992 e que sempre acompanhou a atualidade em Mo\u00e7ambique. O facto de poder haver interlocutores com um percurso de seriedade, de isen\u00e7\u00e3o e de acompanhamento da realidade mo\u00e7ambicana como a comunidade de Santo Eg\u00eddio pode ser um fator importante neste momento?<\/em><\/p>\n<p>Eu, nos \u00faltimos tr\u00eas anos, n\u00e3o sei como \u00e9 que tem sido a rela\u00e7\u00e3o entre a Confer\u00eancia Episcopal e a comunidade de Santo Eg\u00eddio. Ent\u00e3o, a primeira coisa \u00e9 compreendermos se ao retomar um di\u00e1logo, uma miss\u00e3o como essa, como \u00e9 que seria a aceita\u00e7\u00e3o da Confer\u00eancia Episcopal, tendo em vista que acredito que no contexto que a comunidade de Santo Eg\u00eddio trabalhou, tinha essa legitimidade, tinha essa tarefa. N\u00e3o tenho exatamente hoje a no\u00e7\u00e3o qual \u00e9 a compreens\u00e3o da igreja cat\u00f3lica em Mo\u00e7ambique em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 comunidade de Santo Eg\u00eddio.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei exatamente. Porque aqui o problema hoje em Mo\u00e7ambique \u00e9 s\u00e9rio e precisa de uma estrat\u00e9gia muito boa para n\u00e3o se tocar a ferida e deixar-se assim, digamos, ainda sangrar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O padre Fonseca encontra-se em Ocua, em Cabo Delgado, na regi\u00e3o fortemente marcada pela inseguran\u00e7a resultante das mil\u00edcias terroristas e que recentemente voltou a ser fustigada no dia 15 de dezembro por mais um ciclone. Como \u00e9 que classifica o atual momento a\u00ed na regi\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>A regi\u00e3o \u00e9 bastante pobre porque o ciclone veio, digamos assim, a aumentar um problema antigo. Essa regi\u00e3o, aqui na miss\u00e3o teve uma breve passagem dos terroristas e a\u00ed o povo fugiu da regi\u00e3o e n\u00e3o conseguiu, porque depende da agricultura, n\u00e3o conseguiu cultivar nada. E a\u00ed com o ciclone, o pouco que havia foi tudo destru\u00eddo, ent\u00e3o h\u00e1 um problema forte da crise mesmo humanit\u00e1ria, como eu dizia antes, falta de tudo, falta de tudo.<\/p>\n<p>O povo hoje n\u00e3o tem o que comer e as palhotas, muitas delas ainda est\u00e3o destru\u00eddas, muitos ainda n\u00e3o conseguiram erguer com as poucas condi\u00e7\u00f5es que t\u00eam, ent\u00e3o aqui a situa\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o \u00e9 boa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Para n\u00f3s essa \u00e9 uma par\u00f3quia especial, porque a par\u00f3quia de Santa Cec\u00edlia de Ocua \u00e9 a par\u00f3quia 552 da arquidiocese de Braga, em resultado de um projeto de coopera\u00e7\u00e3o entre a arquidiocese portuguesa e a diocese de Pemba. A sociedade portuguesa, tamb\u00e9m atrav\u00e9s deste sinal, pode estar mais sensibilizada para as dificuldades na regi\u00e3o de Cabo Delgado, sente-se por a\u00ed a solidariedade dos portugueses?<\/em><\/p>\n<p>Aqui sentimos bastante, porque a equipe mission\u00e1ria tem feito trabalhos como, n\u00e3o s\u00f3 da evangeliza\u00e7\u00e3o, mas atua\u00e7\u00e3o na \u00e1rea social. A equipe tem ajudado bastante na forma\u00e7\u00e3o de meninas, e j\u00e1 est\u00e3o a sensibilizar a\u00ed os crist\u00e3os da arquidiocese de Braga para ajudarem com alguma coisa, ent\u00e3o \u00e9 vis\u00edvel a presen\u00e7a da equipe mission\u00e1ria aqui de Braga, isso tem sido muito bom.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Quer a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no pa\u00eds, quer a instabilidade em Cabo Delgado, t\u00eam por detr\u00e1s tamb\u00e9m a componente religiosa. O conflito em Mo\u00e7ambique corre o risco de se transformar tamb\u00e9m numa guerra religiosa com projetos de poder justificados em nome da f\u00e9, como acontece noutros pa\u00edses? <\/em><\/p>\n<p>Em alguns momentos n\u00f3s avali\u00e1vamos que poderia chegar a esse n\u00edvel, mas quando houve, digamos, h\u00e1 alguns meses que parecia que as coisas estavam para melhorar, n\u00f3s n\u00e3o verific\u00e1mos isso. O que eu digo como os pesquisadores? Usa-se, digamos, a religi\u00e3o para se esconder aquilo que os terroristas querem.<\/p>\n<p>Eles, nos lugares onde atacam, falam bastante de Ala, falam bastante de estender a religi\u00e3o, mas no fundo eles n\u00e3o vivem nem a religi\u00e3o: Ent\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que haja esse \u00f3dio, mas eles n\u00e3o declaram exatamente o que se pretende com essa guerra. Eu percebo que esta \u00e9 mesmo uma situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-militar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A religi\u00e3o \u00e9 um instrumento? <\/em><\/p>\n<p>A religi\u00e3o \u00e9\u00a0um instrumento, ou disfarce para que as pessoas pensem que se trata de uma guerra religiosa. Ent\u00e3o n\u00f3s, e muitos outros pesquisadores, acabamos tamb\u00e9m um pouco perdidos, porque h\u00e1 sinais contradit\u00f3rios. H\u00e1 sinais de que de facto s\u00e3o da religi\u00e3o isl\u00e2mica, mas \u00e9 um pequeno grupo, radicais, bastante fan\u00e1tico, que v\u00e3o l\u00e1, fazem o trabalho de doutrina\u00e7\u00e3o, e tamb\u00e9m apostam no treinamento militar, e v\u00e3o atacando. Houve um momento que parecia que estavam enfraquecidos, mas agora j\u00e1 retomaram, ent\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil hoje definir-se que de fato esses t\u00eam um aspeto religioso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A nossa pergunta vai tamb\u00e9m no sentido de perceber se a utiliza\u00e7\u00e3o de s\u00edmbolos religiosos, tamb\u00e9m crist\u00e3os, no discurso pol\u00edtico, n\u00e3o pode criar um fator de tens\u00e3o suplementar na sociedade mo\u00e7ambicana?<\/em><\/p>\n<p>Eu acho que pode sim, por isso \u00e9 necess\u00e1rio em cada \u00e1rea, em cada par\u00f3quia, em cada encontro, falar-se muito desse di\u00e1logo inter-religioso. \u00c9 um elemento que tem se falado, tem de se intensificar, e em nenhuma ocasi\u00e3o deve-se subestimar uma, e elevar-se a outra religi\u00e3o. E ningu\u00e9m deve levantar a voz tentando criticar uma religi\u00e3o, porque o que se vive nesse per\u00edodo de mais de sete anos \u00e9 exatamente isso. \u00c9 poss\u00edvel que tenha havido um pouco de descuido ali, que as pessoas n\u00e3o entenderam que n\u00e3o era importante a religi\u00e3o, mas \u00e9 a quest\u00e3o da vida humana que est\u00e1 no centro, \u00e9 a pessoa que professa alguma religi\u00e3o, ent\u00e3o talvez n\u00e3o nos lembramos desse aspeto.<\/p>\n<p>Tem de se intensificar o di\u00e1logo inter-religioso, a aproxima\u00e7\u00e3o das pessoas, porque n\u00f3s vimos nessa mesma regi\u00e3o de Ocua, fam\u00edlias divididas, umas pessoas s\u00e3o mu\u00e7ulmanas, as outras s\u00e3o cristais, outras professam religi\u00f5es tradicionais africanas, e as pessoas conviviam tranquilamente. Mas de um dia para outro, as coisas mudam, e parece que ningu\u00e9m quer saber do outro, \u00e9 um fen\u00f3meno a ser ainda estudado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para comentar a preocupante realidade em Mo\u00e7ambique, \u00e9 convidado esta semana, da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia ECCLESIA o mission\u00e1rio passionista e investigador sociopol\u00edtico<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":358911,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[262],"class_list":["post-358909","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-mocambique"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/358909","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=358909"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/358909\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/358911"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=358909"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=358909"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=358909"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}