{"id":358528,"date":"2025-01-28T10:43:32","date_gmt":"2025-01-28T10:43:32","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=358528"},"modified":"2025-08-28T17:01:23","modified_gmt":"2025-08-28T16:01:23","slug":"do-passado-um-presente-sao-vicente-de-paulo-e-o-pensamento-cientifico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/do-passado-um-presente-sao-vicente-de-paulo-e-o-pensamento-cientifico\/","title":{"rendered":"DO PASSADO, UM PRESENTE &#8211; S\u00e3o Vicente de Paulo e o pensamento cient\u00edfico"},"content":{"rendered":"<p><em>Padre Jos\u00e9 Alves, Congrega\u00e7\u00e3o da Miss\u00e3o<\/em><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/04-Jubileu-CM-Janeiro-2025.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-358529 \" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/04-Jubileu-CM-Janeiro-2025-720x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"402\" height=\"572\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/04-Jubileu-CM-Janeiro-2025-720x1024.jpg 720w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/04-Jubileu-CM-Janeiro-2025-183x260.jpg 183w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/04-Jubileu-CM-Janeiro-2025.jpg 759w\" sizes=\"(max-width: 402px) 100vw, 402px\" \/><\/a>Embora o tema possa n\u00e3o merecer muito interesse da parte dos leitores, julgo-o importante porque revela a clarivid\u00eancia e a abertura do Santo aos novos ventos da compreens\u00e3o do Homem e da sua forma de ver o mundo, bem como dos seus fen\u00f3menos envolventes.<\/p>\n<p>Qual o pensamento de Vicente de Paulo sobre as novas descobertas cient\u00edficas? Culturalmente, como situ\u00e1-lo? No ambiente retr\u00f3grado dos meios rurais, marcados pela ignor\u00e2ncia, ou nos ambientes reacion\u00e1rios de quem desconfia, \u00e0 partida, de tudo o que \u00e9 novo? \u00c9 preciso fazer uma leitura dos seus escritos para descobrir o seu pensamento. Neles nunca versou, \u201cex professo\u201d, um assunto cient\u00edfico, mas quando vem a prop\u00f3sito tem gosto em explan\u00e1-lo.\u00a0 Ali\u00e1s, a sua forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria inicial, o seu contacto prolongado com a Universidade da Sorbonne e o ouvir falar das tert\u00falias liter\u00e1rias e cient\u00edficas do pal\u00e1cio da rainha Margot, a quem serviu como esmoler durante alguns anos, e por onde passaram, nessa altura os mais ilustres cientistas e escritores, devem-no ter mantido em contacto com os livros e as recentes descobertas.<\/p>\n<p>Um dos aspetos mais discutidos, no seu tempo, est\u00e1 relacionado com a astronomia. Uns analisam os fen\u00f3menos astrais supersticiosamente; outros, mais afoitos, ridicularizam as novas descobertas. Em 1654, com 74 anos, recebe duas cartas de um confrade de Crac\u00f3via, confessando-lhe o seu medo pelo que, um eclipse solar havido, trar\u00e1 de malef\u00edcios no futuro. O Padre Vicente na primeira resposta diz-lhe simplesmente <em>\u00abque estes sinais extraordin\u00e1rios n\u00e3o s\u00e3o indicio certo de algum mau acontecimento\u00bb<\/em>, mas, percebendo que isso era um assunto que perturbava o confrade e a Comunidade, responde-lhe \u00e0 segunda, em que mistura a ironia, a pedagogia e a informa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica: <em>\u00abOs nossos astr\u00f3logos asseguram ao p\u00fablico de que n\u00e3o h\u00e1 nada a temer quanto ao eclipse. Encontrei-me com o senhor Cassandi (1), homem s\u00e1bio e experiente, que se ri de todos os que t\u00eam medo do que vai acontecer. Como raz\u00e3o, diz que todos os seis meses h\u00e1 eclipses, quer no nosso hemisf\u00e9rio, quer no outro, devido ao facto de o sol e a lua se encontrarem em linha ecl\u00edptica. Se o eclipse comportasse toda a malignidade de que voc\u00ea me falava, pelos maus efeitos com que nos amea\u00e7a, sentir\u00edamos muitas mais vezes a fome, a peste e os flagelos outros de Deus sobre a terra. Se a priva\u00e7\u00e3o da luz do Sol, devido \u00e0 interposi\u00e7\u00e3o entre n\u00f3s e o sol, produzisse este mau efeito, devido \u00e0 suspens\u00e3o das benignas influ\u00eancias do sol sobre a terra, seguir-se-ia que a priva\u00e7\u00e3o do mesmo sol, durante a noite, produziria efeitos ainda piores porque tal priva\u00e7\u00e3o seria muito mais longa e porque o corpo da terra \u00e9 tr\u00eas vezes mais espesso que o da lua\u2026 conclui o dito senhor, com raz\u00e3o, que n\u00e3o h\u00e1 nada a temer deste eclipse, julgo que os s\u00e1bios em astrologia n\u00e3o est\u00e3o preocupados com tal fen\u00f3meno e muito menos ainda os que forem instru\u00eddos na escola de Jesus Cristo porque\u00a0 sabem que o homem s\u00e1bio \u201cdomin\u00e1bitur astris\u201d\u00bb<\/em> (2).<\/p>\n<p>Por outro lado, diante da conce\u00e7\u00e3o m\u00e1gica do mundo, ent\u00e3o dominante, diante da cren\u00e7a da possess\u00e3o demon\u00edaca, como tentativa de explicar o que n\u00e3o se entendia, o Padre Vicente de Paulo toma uma atitude contrastante com o seu tempo. Com efeito, perante uma jovem que todos diziam possessa, o Padre Vicente v\u00ea apenas uma quest\u00e3o de temperamento melanc\u00f3lico. Na carta que escreve aos pais da jovem n\u00e3o se sabe o que mais admirar, se a sua fina perspic\u00e1cia que o leva a ver mais fundo do que as outras pessoas, se o seu grande respeito pela opini\u00e3o das mesmas: <em>\u00abH\u00e1 tr\u00eas ou quatro meses recebi ordens do senhor oficial de Paris para visitar a vossa filha, j\u00e1 que o senhor conde Maure lhe tinha pedido permiss\u00e3o para a mandar exorcizar, segundo o conselho que v\u00e1rias pessoas de grande piedade lhe tinham dado, pois receavam que essa jovem estivesse a ser trabalhada por alguma possess\u00e3o ou obsess\u00e3o maligna. O motivo que apresentavam era a avers\u00e3o que ela tinha pelas coisas de Deus\u2026 Chegando a ponto de n\u00e3o rezar h\u00e1 mais de tr\u00eas anos e de se conservar fechada num quarto em Port-Royal, sem ouvir missa, h\u00e1 dois. Este foi o motivo que levou as pessoas a formular tal opini\u00e3o, e a raz\u00e3o pela qual julguei conveniente ir visit\u00e1-la. Falou-me da sua situa\u00e7\u00e3o com acerto e candura; embora um pouco melanc\u00f3lica, tem um esp\u00edrito incomparavelmente mais s\u00e3o e mais s\u00f3lido do que o comum das raparigas. A minha primeira opini\u00e3o foi de que ela apenas se encontrava dominada por este humor de melancolia (3). No entanto, o respeito que devo \u00e0queles que pensam que se trata de uma possess\u00e3o faz com que submeta o meu parecer ao deles; ao fazer o relat\u00f3rio para o senhor oficial, disse-lhe que pensava n\u00e3o haver inconveniente que o padre Carpentier lhe fizesse alguns exorcismos\u00bb<\/em> (4).<\/p>\n<p>O referido padre exorcista adoeceu e n\u00e3o p\u00f4de executar o trabalho. Adoeceu igualmente a jovem tida por \u201cpossessa\u201d. A sua vida estava em perigo. \u00c9 chamado o Padre Vicente. Tem uma conversa com ela. A doente confessa-se e pede para receber a Eucaristia por iniciativa pr\u00f3pria, sem qualquer press\u00e3o exterior. E na mesma carta, o Padre Vicente de Paulo continua: <em>\u00abdepois de curada, ela sentia-se totalmente livre, de modo que pediu para continuar a confessar-se e a comungar comigo, como tinha feito durante a doen\u00e7a; fez isto com toda a liberdade de esp\u00edrito como o faria outra pessoa qualquer\u00bb.<\/em><\/p>\n<p>O resto da carta ao duque D\u2019Atri, pai da referida jovem, destina-se a dizer-lhe como tentou dissuadi-la de entrar na vida religiosa, devido ao seu estado de sa\u00fade ps\u00edquica. N\u00e3o o conseguiu; houve press\u00f5es da fam\u00edlia e o Padre Vicente fala <em>\u00abdo perigo em que se coloca essa boa rapariga\u00bb.<\/em> Ao longo de toda a carta o Padre Vicente n\u00e3o esconde a sua descren\u00e7a quanto \u00e0 aludida possess\u00e3o: <em>\u00abpor isto me convenci mais da minha opini\u00e3o\u00bb.<\/em><\/p>\n<p>V\u00ea-se que Vicente de Paulo \u00e9 bem perme\u00e1vel \u00e0 mudan\u00e7a gradual de um universo cultural marcado pelo maravilhoso, por um outro universo marcado pela procura racional dos fen\u00f3menos, com base na experi\u00eancia. Palavra que muitas vezes repetia: <em>\u00abEsta \u00e9 a minha experi\u00eancia\u00bb.<\/em><\/p>\n<p><em>Pe. Jos\u00e9 Alves, CM<\/em><\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<\/p>\n<p>(1) Trata-se do c\u00f3nego Pierre Cassendi, fil\u00f3sofo e astr\u00f3nomo.<br \/>\n(2) Pierre Coste, <em>S. Vincent de Paul &#8211; Correspondance, Entretiens, Documents, V<\/em>, 180-181. Cfr. <em>Ibidem<\/em>, 166.<br \/>\n(3) A palavra \u201chumor\u201d tinha, no s\u00e9culo XVII, um sentido que hoje n\u00e3o tem: <em>\u00abem medicina, chama-se humores \u00e0s quatro subst\u00e2ncias l\u00edquidas que embebem todos os corpos animais e que se cr\u00ea serem as causas dos diversos temperamentos. S\u00e3o eles: a fleuma, o sangue, a b\u00edlis, a melancolia\u2026\u00bb<\/em> (Fureti\u00e8re, <em>Dictionaire<\/em>, 1690).<br \/>\n(4) Pierre Coste, <em>op. cit.<\/em>, 470-471.<\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: 10pt;\">(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Jos\u00e9 Alves, Congrega\u00e7\u00e3o da Miss\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":345947,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[984],"class_list":["post-358528","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao","tag-400-anos-vicentinos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/358528","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=358528"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/358528\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/345947"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=358528"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=358528"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=358528"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}