{"id":357585,"date":"2025-01-26T09:31:00","date_gmt":"2025-01-26T09:31:00","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=357585"},"modified":"2025-01-21T15:05:42","modified_gmt":"2025-01-21T15:05:42","slug":"media-portugal-ainda-ha-muita-vida-nestas-aldeias-luisa-pinto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/media-portugal-ainda-ha-muita-vida-nestas-aldeias-luisa-pinto\/","title":{"rendered":"Media\/Portugal: \u00abAinda h\u00e1 muita vida nestas aldeias\u00bb &#8211; Lu\u00edsa Pinto"},"content":{"rendered":"<p><em>Num dia em que se re\u00fanem no Vaticano milhares de jornalistas, peritos e profissionais da comunica\u00e7\u00e3o social, para o primeiro grande evento do Ano Santo, o Jubileu da Comunica\u00e7\u00e3o, \u00e9 convidada da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia a jornalista Lu\u00edsa Pinto, principal dinamizadora do projeto Rostos da Aldeia<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_357569\" aria-describedby=\"caption-attachment-357569\" style=\"width: 2000px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/WhatsApp-Image-2025-01-20-at-13.36.50.jpeg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-357569 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/WhatsApp-Image-2025-01-20-at-13.36.50.jpeg\" alt=\"\" width=\"2000\" height=\"1500\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/WhatsApp-Image-2025-01-20-at-13.36.50.jpeg 2000w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/WhatsApp-Image-2025-01-20-at-13.36.50-347x260.jpeg 347w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/WhatsApp-Image-2025-01-20-at-13.36.50-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/WhatsApp-Image-2025-01-20-at-13.36.50-768x576.jpeg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/WhatsApp-Image-2025-01-20-at-13.36.50-1536x1152.jpeg 1536w\" sizes=\"(max-width: 2000px) 100vw, 2000px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-357569\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR\/Paulo Teixeira<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>A ideia \u00e9 conseguir, atrav\u00e9s de hist\u00f3rias positivas, contrariar o despovoamento. Podemos come\u00e7ar por explicar o projeto e saber que hist\u00f3rias procuram para contrariar esta tend\u00eancia que parece, vou dizer, irrevers\u00edvel no nosso pa\u00eds?<\/em><\/p>\n<p>Sim, tem essa tend\u00eancia e o projeto Rostos da Aldeia surgiu precisamente para contrariar ou para lentificar essa tend\u00eancia. Como jornalistas e profissionais da comunica\u00e7\u00e3o, sabemos o impacto que uma boa hist\u00f3ria, uma hist\u00f3ria bem contada pode ter. Neste caso, n\u00f3s gostar\u00edamos de contar as hist\u00f3rias das pessoas que vivem nestes s\u00edtios mais despovoados para, de alguma forma, incentivar as pessoas a perceberem que ainda h\u00e1 vida e ainda h\u00e1 muita vida nestas aldeias.<\/p>\n<p>O prop\u00f3sito n\u00e3o era s\u00f3 voltar a falar que as aldeias est\u00e3o abandonadas, que vive cada vez menos gente, que h\u00e1 cada vez menos crian\u00e7as, era tamb\u00e9m mostrar que h\u00e1 pessoas que est\u00e3o a regressar \u00e0s aldeias. A pandemia acabou por tamb\u00e9m dinamizar um pouco essa tend\u00eancia. H\u00e1 pessoas que est\u00e3o a regressar, est\u00e3o a surgir projetos inovadores, h\u00e1 algum empreendedorismo e o que n\u00f3s procuramos, somos um coletivo, era mostrar as comunidades que surgem nestes locais. Estes novos povoadores, vamos dizer assim, tamb\u00e9m ajudam, tamb\u00e9m amparam aos velhos que nunca quiseram sair e h\u00e1 novas comunidades que surgem, algumas multiculturais, acho que \u00e9 inspirador para toda a gente perceber que h\u00e1 coisas boas que podem acontecer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Olhando especificamente para o projeto, \u00e9 uma plataforma onde se publicam hist\u00f3rias. Como \u00e9 que \u00e9 feita a recolha dos materiais e com que meios, com que equipa \u00e9 que se faz?<\/em><\/p>\n<p>O Rostos da Aldeia \u00e9 feito com quatro pessoas: eu, que sou jornalista com carteira profissional e muitos anos num jornal nacional di\u00e1rio de experi\u00eancia; um blogger de viagens, tamb\u00e9m fot\u00f3grafo, que trouxemos para este projeto para podermos mostrar aquela parte mais tur\u00edstica das pessoas, que querem ir visitar estas aldeias, estes territ\u00f3rios do interior e perceberem que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ir visitar um passadi\u00e7o, se calhar contactar com a comunidade e perceber o que \u00e9 que existe naquelas casas tamb\u00e9m era relevante &#8211; mas quer\u00edamos tamb\u00e9m dar esta vertente tur\u00edstica ao projeto, em termos de sugest\u00f5es de roteiros; um vide\u00f3grafo que tamb\u00e9m come\u00e7ou por ser jornalista e agora \u00e9 um profissional da comunica\u00e7\u00e3o que trabalha nessas plataformas da fotografia e do v\u00eddeo; mais tarde entrou tamb\u00e9m um compositor, o Daniel Pereira Cristo, porque faz bandas sonoras originais para os nossos document\u00e1rios, minidocument\u00e1rios vamos chamar assim.<\/p>\n<p>Portanto, o Rostos da Aldeia \u00e9 uma plataforma multim\u00e9dia, tem um site onde est\u00e3o alojados textos meus, porque sou jornalista de imprensa, fa\u00e7o sobretudo reportagens e um pequeno podcast onde depois transformo as entrevistas num podcast que pertence \u00e0 rede do P\u00fablico, e fazemos um v\u00eddeo documental, que est\u00e1 no site. Tem sido amplificado nalguns festivais internacionais deste tipo de filmes e n\u00f3s ficamos muito felizes por consegui-lo.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>E t\u00eam boa rea\u00e7\u00e3o por parte dos vossos interlocutores locais?<\/em><\/p>\n<p>Temos, tem sido a melhor de todas e mesmo maravilhosa. \u00c0s vezes as pessoas n\u00e3o percebem porque \u00e9 que, de repente, tr\u00eas ou quatro \u201ccaramelos\u201d aterram ali naquela aldeia e esse \u00e9 o nosso prop\u00f3sito de fazer um jornalismo mais lento. Eu, num jornal nacional, estava habituada a fazer aquelas reportagens de estar umas horas num s\u00edtio e depois ter de vir embora; aqui tentamos contrariar isso e estamos tr\u00eas, quatro, cinco dias, uma semana dentro da aldeia, a conhecer\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Sou de uma aldeia, uma aldeia que se est\u00e1 a desertificar, n\u00e3o h\u00e1 maneira de fazer de outra forma. A primeira coisa \u00e9 vencer a desconfian\u00e7a, n\u00e3o \u00e9?<\/em><\/p>\n<p>Exatamente. Mas depois tu podes ter aliados, podes ter aliados normalmente o padre, ou o presidente da junta, ou o dono da tasca local, ou do caf\u00e9: sentas-te, pedes um naco de queijo, um copo de vinho, come\u00e7as a conversar e depois as hist\u00f3rias aparecem umas atr\u00e1s das outras. Nunca vou para uma aldeia, porque normalmente sou eu que fa\u00e7o a produ\u00e7\u00e3o destes epis\u00f3dios e escolho os s\u00edtios que vamos documentar, nunca vou completamente \u00e0s escuras, h\u00e1 sempre uma hist\u00f3ria ou outra que j\u00e1 nos levou \u00e0quele local, mas temos sempre a expectativa de que vamos encontrar muitas outras hist\u00f3rias e vamos sempre com esse prop\u00f3sito de ouvir as pessoas, conhecer as suas ansiedades, as suas vit\u00f3rias e perceber as rela\u00e7\u00f5es que existem. Tem sido sempre muito enriquecedor, porque de quase todas, ou de todas elas, vimos sempre surpreendidos at\u00e9 pela din\u00e2mica que pode acontecer, mesmo quando vais a um s\u00edtio onde s\u00f3 sabes que vivem 20, 30 pessoas, que tamb\u00e9m j\u00e1 aconteceu, mesmo a\u00ed acabas por ser surpreendido pela comunidade que ali existe.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Fala-se muito de crise no jornalismo, questionando-se a falta de recursos e algumas op\u00e7\u00f5es editoriais. H\u00e1 tamb\u00e9m crise de boas not\u00edcias?<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 muito, porque as boas not\u00edcias tamb\u00e9m acontecem, mas parece que temos mais tend\u00eancia para mostrar o que est\u00e1 a acontecer de mal, que o que o mal \u00e9 que \u00e9 not\u00edcia, se as coisas est\u00e3o a correr bem, isso era suposto, logo n\u00e3o \u00e9 not\u00edcia\u2026 mas a verdade \u00e9 que se n\u00f3s n\u00e3o noticiarmos o que est\u00e1 a correr bem, e nesta cacofonia que existe, estamos a ser bombardeados por informa\u00e7\u00e3o e desinforma\u00e7\u00e3o por todo o lado, fechamos os olhos \u00e0s coisas boas que est\u00e3o a acontecer, ou que podem acontecer. Acho que \u00e9 preciso dar voz tamb\u00e9m \u00e0s coisas boas, para que cada um de n\u00f3s perceba que pode tamb\u00e9m multiplic\u00e1-las que elas est\u00e3o ao seu lado, que pode ajudar a que elas aconte\u00e7am tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E qual \u00e9 que tem sido a rea\u00e7\u00e3o dos leitores ao projeto? Existe p\u00fablico para estas propostas mais fora da caixa, vou chamar assim?<\/em><\/p>\n<p>Sim, eu acredito que sim, porque n\u00f3s recebemos feedback de v\u00e1rias geografias e latitudes. No in\u00edcio era muito, se calhar, aquelas comunidades da saudade, n\u00e3o \u00e9, porque h\u00e1 muitos imigrantes fora, que quando percebiam que est\u00e1vamos a contar algo da sua hist\u00f3ria, da sua proximidade geogr\u00e1fica&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E at\u00e9 se reviam nessas hist\u00f3rias\u2026<\/em><\/p>\n<p>Reviam-se completamente, e as primeiras rea\u00e7\u00f5es eram quase todas da\u00ed, e tem sempre muito mais impacto de publicar-se uma fotografia, uma hist\u00f3ria de um velhinho, e de uma velha tradi\u00e7\u00e3o, do que estas coisas, estes novos povoadores, gente que est\u00e1 a regressar e est\u00e1 muito ligada \u00e0 terra, mas tem outras culturas que os mais antigos t\u00eam dificuldade em acolher. T\u00eam dificuldade em perceber inicialmente, mas depois tamb\u00e9m percebem que afinal a raiz \u00e9 comum, esta vontade de regressar \u00e0 terra, de viver do que a terra d\u00e1, j\u00e1 sem aquele esp\u00edrito de sacrif\u00edcio e sobreviv\u00eancia que havia nos anos 30, 40, 50, que levaram muitos portugueses a emigrar; agora \u00e9 uma coisa completamente diferente, a agricultura n\u00e3o tem aquele peso que tinha no passado, e acaba por ser bonito ver estas hist\u00f3rias do mais velho ensinar o mais novo que quer aprender, o porqu\u00ea de a cebola aqui n\u00e3o se dar, tudo isto acaba por ser bonito de retratar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O projeto tem por objetivo valorizar os territ\u00f3rios que est\u00e3o a ficar sem pessoas. Do contacto com a realidade, h\u00e1 alguma situa\u00e7\u00e3o ou situa\u00e7\u00f5es que possas descrever como mais dif\u00edcil, mais dram\u00e1tica?<\/em><\/p>\n<p>Eu acho que uma das condi\u00e7\u00f5es essenciais para que as pessoas se fixem \u00e9, de facto, haver acessibilidade &#8211; n\u00e3o digo s\u00f3 rodovi\u00e1ria e geogr\u00e1fica, mas neste momento eu acho que em termos rodovi\u00e1rios e de acessibilidade j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 dist\u00e2ncias como havia antigamente, mesmo na aldeia mais remota.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O problema \u00e9 que as acessibilidades, por norma, s\u00f3 funcionam para trazer as pessoas para o litoral\u2026<\/em><\/p>\n<p>Vamos acreditar que comece a inverter-se essa tend\u00eancia: agora pensas que, afinal, h\u00e1 essa autoestrada para o litoral, mas essa autoestrada tamb\u00e9m me leva ao hospital mais pr\u00f3ximo com mais facilidade e j\u00e1 n\u00e3o demoro tr\u00eas horas a l\u00e1 chegar, s\u00f3 demoro hora e meia, vamos imaginar. Esse tipo de preocupa\u00e7\u00f5es continua a ser muito relevante, como \u00e9 \u00f3bvio, em termos de infraestruturas de sa\u00fade, de educa\u00e7\u00e3o, sobretudo, mas tamb\u00e9m a possibilidade de em termos econ\u00f3micos as pessoas terem uma forma de sobreviverem e de se sustentarem. Agora h\u00e1 outro tipo de acessibilidades que come\u00e7am a fazer toda a diferen\u00e7a, que s\u00e3o as acessibilidades ao n\u00edvel da comunica\u00e7\u00e3o, porque se eu tiver uma boa rede de infraestrutura digital e de comunica\u00e7\u00f5es, \u00e9 poss\u00edvel ter alguns neg\u00f3cios a partir do meio da Serra do Espinhal, promover o pequeno restaurante, a produ\u00e7\u00e3o de mirtilos biol\u00f3gicos ou at\u00e9 as pe\u00e7as de artesanato, a cer\u00e2mica que decides ir fazer num local destes, no limite para o mundo todo, e \u00e9 isso o que acontece.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Sem pessoas perdem-se tradi\u00e7\u00f5es, perdem-se of\u00edcios, at\u00e9 costumes gastron\u00f3micos. Esta revaloriza\u00e7\u00e3o do interior tamb\u00e9m pode passar por a\u00ed?<\/em><\/p>\n<p>Eu acho que tem passado sobretudo por a\u00ed. Primeiro, n\u00e3o sei se \u00e9 fruto da \u00e9poca e deste cansa\u00e7o que cada um de n\u00f3s individualmente vai sentido desta sobrecarga de comunica\u00e7\u00e3o, esta vida apressada que todos n\u00f3s temos cada vez mais, sobretudo quem vive no litoral, mas creio que a pandemia ajudou a evidenciar essa necessidade de darmos uma forma mais lenta. Houve pessoas que descobriram que era poss\u00edvel viver de uma forma mais lenta e sem essa press\u00e3o de hor\u00e1rios e come\u00e7a a surgir uma janela de oportunidades, vamos dizer assim. Eu n\u00e3o posso dizer, porque n\u00e3o acredito nisso, que o fen\u00f3meno vai ser invertido e que agora vai haver um \u00eaxodo urbano para o interior, mas acredito que s\u00e3o estes pequenos movimentos que come\u00e7am a pelo menos atrasar a tend\u00eancia\u2026 eu acho que Portugal nunca vai, n\u00e3o ir\u00e1 sofrer os problemas que j\u00e1 sofre a Espanha e a It\u00e1lia, em termos de despovoamento, o nosso territ\u00f3rio \u00e9 muito mais pequeno, afinal da fronteira at\u00e9 ao litoral s\u00e3o 200 quil\u00f3metros, n\u00e3o \u00e9 assim tanto, para alguns pa\u00edses \u00e9 at\u00e9 rid\u00edculo falarmos nisso\u2026 mas come\u00e7a a perceber-se cada vez mais que ali tamb\u00e9m pode ser poss\u00edvel e ali tamb\u00e9m h\u00e1 uma oportunidade, h\u00e1 mais qualidade de vida, certamente. Por exemplo, o acesso a atividades culturais: havia tamb\u00e9m aquela ideia de que \u00e9 s\u00f3 no litoral que existem essas possibilidades, isso est\u00e1 a ser muito e ativamente contrariado por uma rede de institui\u00e7\u00f5es culturais que s\u00e3o muito ativas no interior, portanto eu acho que v\u00e3o sendo dados os passos seguros e \u00e9 por a\u00ed que as coisas come\u00e7am a ser travadas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>At\u00e9 porque os diferentes governos prometem planos e programas para a fixa\u00e7\u00e3o de pessoas no interior do pa\u00eds, mas a realidade continua a demonstrar o contr\u00e1rio. N\u00e3o estamos a saber encontrar as melhores solu\u00e7\u00f5es?<\/em><\/p>\n<p>Acho que andamos \u00e0 procura, mas isto acaba&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 demasiado tempo?<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 demasiado tempo, mas n\u00e3o vamos desistir, acho eu, n\u00e3o vamos desistir, porque eu acho que algumas coisas t\u00eam funcionado. Normalmente n\u00e3o \u00e9 no timing pol\u00edtico e da campanha pol\u00edtica e do an\u00fancio de mais um programa que depois acaba por ser um tiro nos p\u00e9s, eu acho que \u00e9 mesmo a pr\u00f3pria humanidade &#8211; que vai dando sinais t\u00e3o terr\u00edveis num sentido, mas h\u00e1 focos que se v\u00e3o iluminando no outro sentido. Eu acho que a nossa fun\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m como jornalistas, \u00e9 ajudar a iluminar essas hist\u00f3rias positivas para que outros acreditem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A componente pol\u00edtica ser\u00e1 apenas um acrescento \u00e0quilo que se pode obter por parte das pessoas, que essas sim podem deslocar-se\u2026<\/em><\/p>\n<p>Sim, porque na verdade as pessoas n\u00e3o v\u00e3o mudar porque recebem do governo um incentivo de 2500 euros se mudarem para l\u00e1, n\u00e3o \u00e9 por a\u00ed, \u00e9 mesmo criar outro tipo de condi\u00e7\u00f5es. Sobretudo, tenho reparado, o que ajuda as pessoas a fixarem-se nestes locais \u00e9 mesmo haver um sentido de comunidade, que \u00e9 exatamente o que as pessoas n\u00e3o t\u00eam ou t\u00eam cada vez menos nas cidades, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A chegada de pessoas de outros pa\u00edses tem ajudado a atenuar estes efeitos de despovoamento? Do que conseguiram ver tamb\u00e9m nos vossos projetos, como \u00e9 que as popula\u00e7\u00f5es locais acolhem quem chega de fora?<\/em><\/p>\n<p>Olha, n\u00f3s fomos a uma aldeia at\u00e9 especificamente para ver como \u00e9 que isso estava a acontecer porque havia esse prop\u00f3sito, \u00e9 um projeto, o <a href=\"https:\/\/www.rostosdaaldeia.pt\/guarda\/jarmelo\/\">projeto LAR<\/a>, em que estavam a tentar resolver dois problemas: por um lado, os migrantes que precisam de um teto e de um peda\u00e7o de terra para trabalhar e para sobreviver; do outro lado, estas aldeias que est\u00e3o a ficar despovoadas. Foi muito interessante. Esse foi dos primeiros projetos que n\u00f3s fizemos, foi na aldeia de Ima do Jarmelo, em que foram recuperadas casas que estavam abandonadas para receber fam\u00edlias de migrantes e vinham do Uganda, eram quase todos africanos.<\/p>\n<p>Foi muito engra\u00e7ado falar com as pessoas locais, que explicaram que no in\u00edcio podiam n\u00e3o perceber muito \u201co que \u00e9 que eles vinham para c\u00e1 fazer?\u201d. Eles que achavam que viver da terra era t\u00e3o dif\u00edcil e ningu\u00e9m queria vir para ali, porque \u00e9 que estavam a chegar aquelas pessoas? N\u00f3s fomos fazer esse trabalho tr\u00eas anos depois de o projeto ter arrancado e estava a correr muito bem, havia tr\u00eas fam\u00edlias que estavam j\u00e1 inclu\u00eddas na aldeia, que tinham l\u00e1 as suas casas, os meninos estavam a ir para a escola, j\u00e1 aprendiam, j\u00e1 sabiam falar portugu\u00eas e, portanto, esse pode ser um caminho. Obviamente que h\u00e1 sempre uma desconfian\u00e7a inicial, mas quando se d\u00e1 a oportunidade&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O Papa Francisco, ao manifestar a sua preocupa\u00e7\u00e3o com o agravamento da crise demogr\u00e1fica, alerta tamb\u00e9m para a necessidade de pr\u00e1ticas sociais inovadoras. Temos laborat\u00f3rios de comunidade nas aldeias que podem inspirar estas solu\u00e7\u00f5es?<\/em><\/p>\n<p>Temos, temos muito bons exemplos, at\u00e9 em Portugal. a \u00faltima aldeia que n\u00f3s retratamos no projeto, e que vos convido a visitar, \u00e9 a aldeia de Cabreira do C\u00f4a, curiosamente tamb\u00e9m na Guarda. Haver\u00e1 alguma raz\u00e3o, at\u00e9 por serem estes territ\u00f3rios mais pr\u00f3ximos da fronteira e mais despovoados, que servem de melhor laborat\u00f3rio para estas experi\u00eancias, mas j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 uma experi\u00eancia porque j\u00e1 tem 25 anos, j\u00e1 \u00e9 um projeto solidificado: \u00e9 uma associa\u00e7\u00e3o socioterap\u00eautica que est\u00e1 a acolher pessoas com multidefici\u00eancia, cognitiva, f\u00edsica, intelectual e tem essas pessoas a viver em unidades familiares dentro da <a href=\"https:\/\/www.rostosdaaldeia.pt\/guarda\/cabreira\/\">aldeia<\/a>. Hoje \u00e9 muito bonito ver os moradores de quase 90 anos a dizer que s\u00e3o eles que lhes fazem companhia, eles passaram a ser habitantes daquela aldeia e t\u00eam o seu trabalho, fazem o seu mester, vamos dizer assim, e isto tamb\u00e9m permite reabilitar of\u00edcios tradicionais na \u00e1rea da carpintaria, da tecelagem, da olharia. Estes cidad\u00e3os aprendem estes of\u00edcios e vendem o produto do seu trabalho, porque o trabalho dignifica e como diz a mentora do projeto, toda a gente tem capacidade de fazer alguma coisa: pode demorar uma semana, um m\u00eas, um ano, mas toda a gente tem essa capacidade, desde que lhe seja dada oportunidade. Foi uma das melhores experi\u00eancias que eu vivi numa aldeia, portanto as coisas funcionam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Na sociedade digitalizada em que vivemos, de hipervelocidade, de excesso de informa\u00e7\u00e3o e desinforma\u00e7\u00e3o, estes ritmos de uma aldeia s\u00e3o uma alternativa para uma vida mais lenta e, no caso dos jornalistas, para uma comunica\u00e7\u00e3o mais atenta a cada pessoa?<\/em><\/p>\n<p>Eu acredito, mesmo que sim, e tenho tido muitos desafios, nestas aldeias por onde temos andado. Se calhar posso levantar o v\u00e9u para a pr\u00f3xima\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00f3s gostamos disso&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Estamos neste momento em produ\u00e7\u00e3o e \u00e9 a aldeia de Soajo, muito conhecida, a aldeia dos espigueiros, vamos dizer assim. Mas n\u00f3s estamos a procurar fazer um epis\u00f3dio em que quase n\u00e3o falamos dos espigueiros e n\u00e3o vamos falar de uma aldeia comunit\u00e1ria porque ela j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 uma aldeia comunit\u00e1ria como era antigamente &#8211; em que toda a aldeia usava aqueles espigueiros para guardar o milho e at\u00e9 j\u00e1 n\u00e3o se faz p\u00e3o em fornos comunit\u00e1rios e todas essas coisas.<\/p>\n<p>Ainda h\u00e1 quem fa\u00e7a p\u00e3o, quem plante o milho, h\u00e1 quem tenha chegado e queira aprender como \u00e9 que se fazem todas essas culturas na terra de uma nova forma, mas h\u00e1 tamb\u00e9m &#8211; e \u00e9 isso que me agrada nesta comunidade -, gente da cidade que quis ir viver para l\u00e1 e trabalha para grandes multinacionais, norte-americanas, a partir de uma casinha que recuperou no Soajo porque j\u00e1 tem condi\u00e7\u00f5es de fibra \u00f3tica para fazer os downloads que \u00e9 preciso e essas coisas que a modernidade exige. Ao mesmo tempo toda a Serra de Soajo para fazer as coisas outdoor que gosta de fazer, faz o seu hor\u00e1rio de trabalho, tem a mercearia,\u00a0 tem o pequeno restaurante, o caf\u00e9, j\u00e1 se conhecem todos e toda a gente, n\u00e3o \u00e9? E dizem que vivem ali muito mais felizes com essa comunidade que tem holandeses, portugueses, imigrantes que regressaram, pessoas que v\u00eam de outras zonas do pa\u00eds e que querem ali testar uma nova forma de vida. \u00c9 ali um laborat\u00f3rio tamb\u00e9m, se quisermos, de tantas val\u00eancias da sociedade atual e da futura e que convivem harmoniosamente, parece-me que \u00e9 um bom exemplo a dar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Olhando para a constru\u00e7\u00e3o de novos espa\u00e7os medi\u00e1ticos, achas que projetos como este podem ajudar o jornalismo a recuperar o seu papel de media\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m em defesa da mem\u00f3ria comum e do valor de cada pessoa?<\/em><\/p>\n<p>Eu s\u00f3 te posso responder por mim e digo-te seguramente que sim, acho que fazem falta mais projetos como este. Era dif\u00edcil manter um projeto, se calhar, com este tempo, com este espa\u00e7o para existir dentro da reda\u00e7\u00e3o de um jornal nacional, por isso sim, mas autonomamente, n\u00e3o sem algumas dificuldades, mas vamos conseguindo ter apoios para manter um projeto como este, que permite que continue a haver este jornalismo lento, este jornalismo que dignifica, este jornalismo que ilumina, se quiseres.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Num dia em que se re\u00fanem no Vaticano milhares de jornalistas, peritos e profissionais da comunica\u00e7\u00e3o social, para o primeiro grande evento do Ano Santo, o Jubileu da Comunica\u00e7\u00e3o, \u00e9 convidada da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia a jornalista Lu\u00edsa Pinto, principal dinamizadora do projeto Rostos da 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